quinta-feira, março 26, 2026

O FIM DO SYKES-PICOT, A GRANDE ISRAEL E O EIXO DA RESISTÊNCIA.

Em 2014, o ISIS, conhecido por nós como Estado Islâmico, publicou um vídeo cujo título era: “O Fim de Sykes-Picot” (em árabe: Nihāyat Sāyiks Bīkū). Tratava-se de uma declaração que anunciava um novo califado que não reconhecia as fronteiras estabelecidas na Ásia Ocidental após o acordo Sykes-Picot. O novo califado se estenderia a partir do Iraque e da Síria e incorporaria outras nações da região — fato este que não se consolidou.

Foi em 1916, enquanto a Primeira Guerra ainda estava longe de ser encerrada, que o embaixador inglês Mark Sykes e o francês François Georges-Picot fizeram um acordo secreto, que só mais tarde, no pós-guerra, seria ratificado formalmente na Conferência de San Remo (1920). O acordo Sykes-Picot, como ficou conhecido, definiu como as duas potências europeias dividiriam o Oeste da Ásia (Oriente Médio) após terem derrotado o Império Turco-Otomano. A França assumiria o controle do Líbano, da Síria e de partes do sudeste da atual Turquia, enquanto a Inglaterra passaria a controlar o Iraque, a Transjordânia (atual Jordânia) e a Palestina. Quanto à Pérsia (Irã), esta já estava sob a influência dos britânicos e russos desde 1907 (Acordo Anglo-Russo). Os britânicos dominavam o sudeste da Pérsia, controlando o petróleo por meio da Anglo-Persian Oil Company, e controlavam também o Golfo Pérsico para garantir suas possessões nas “Índias Britânicas”. Já os russos controlavam o norte por uma série de motivos: primeiro, como modo de criar uma camada de proteção, uma espécie de território tampão para resguardar as fronteiras do Cáucaso e da Ásia Central russa contra a influência britânica e possíveis incursões do Império Otomano; mas também com o objetivo de acessar as “águas quentes” do Golfo Pérsico, obtendo uma saída para o mar que não congelasse no inverno; por fim, o norte é a região mais fértil do território persa, o que permitia aos russos criar uma grande rota terrestre de comércio.

O premiado diretor de cinema David Lean (Dr. Jivago, 1965), em sua superprodução Lawrence da Arábia, demonstra como o oficial britânico T. E. Lawrence, enviado ao príncipe da família Faisal, fez promessas de independência caso o príncipe apoiasse um levante árabe contra os otomanos. Lawrence se sente traído ao descobrir que, enquanto ele fazia as promessas, o acordo entre Sykes e Picot já havia ocorrido. O que o leva a apoiar a invasão de Damasco ao lado dos árabes para impedir o controle europeu na região. Embora o filme mereça ser observado criticamente, teve o mérito de revelar o quanto o Ocidente é capaz de mentir, enganar, roubar e matar para alcançar seus objetivos. Por outro lado, revela que a administração Trump não inovou em nada ao atacar o Irã enquanto fazia negociações bilaterais com as lideranças do país persa.

O acordo Sykes-Picot produziu efeitos nefastos na região devido a uma divisão territorial que não levou em conta as diferentes sociedades que ali viviam — como, por exemplo, não considerar os curdos, espalhando-os por diversos territórios (Turquia, Síria, Iraque e Irã) —, além de promover instabilidades entre sunitas, xiitas e alauítas.

Um ano após o acordo Sykes-Picot, outro evento daria início a grandes dramas na região: refiro-me à Declaração Balfour (2/11/1917). Trata-se de uma alusão a um documento (carta) enviado pelo secretário britânico dos assuntos estrangeiros, Arthur James Balfour, ao lorde Rothschild, o líder mais poderoso da comunidade judaica no Reino Unido. O que dizia a carta? Que os britânicos viam com bons olhos o estabelecimento, na Palestina, de um “lar nacional para o povo judeu”. O problema dessa declaração era que o território “prometido” também havia sido oferecido aos árabes e aos franceses.

Após a Segunda Guerra, uma nova onda de fragmentação territorial ocorreu na Ásia Ocidental, já sob a coordenação dos EUA: o Reino da Arábia Saudita se consolidou sob a liderança da família Saud, uma monarquia absoluta, sunita, baseada na aliança entre a Casa de Saud e o wahabismo (uma interpretação conservadora do islã); a Jordânia (1946), entregue à família Hachemita, tornou-se independente do Mandato Britânico; e houve a criação do Estado de Israel (1948), após David Ben-Gurion proclamar sua existência com base em uma resolução da ONU de 1947 — o que desencadeou a Primeira Guerra Árabe-Israelense. Os países árabes alegaram que a resolução de 1947 tratava da partilha da Palestina sob a ótica de dois Estados, um árabe e outro judeu, mas o movimento sionista se negou a reconhecer o Estado palestino.

Nas décadas seguintes, já no contexto da Guerra Fria, foi a vez de as monarquias do Golfo Pérsico serem criadas; o objetivo dos EUA era impedir que a URSS tivesse influência na região. O Kuwait (1961) tornou-se uma monarquia constitucional, embora controlado com mão de ferro pela família Al-Sabah. Já o Bahrein, o Catar e os Emirados Árabes Unidos (EAU) se estruturaram como emirados em 1971. O Bahrein é governado pela Casa de Khalifa, o Catar pela Casa de Thani, a Casa de Maktoum é a família real governante de Dubai e a Casa de Nahyan é a família real de Abu Dhabi.

O caso de Omã e do Iêmen tem algumas diferenças, pois ambos foram reinos antigos desde o Império Aquemênida (séc. VI a.C.). Mas ambos foram sujeitados aos otomanos e posteriormente aos britânicos.

Se o ISIS não conseguiu desfigurar as fronteiras do Oeste da Ásia, pondo fim ao formato iniciado pelos ocidentais a partir do acordo de Sykes-Picot, é possível que estas sejam modificadas por meio de dois projetos distintos. O primeiro é a “Grande Israel”, propagada por Benjamin Netanyahu e outras lideranças sionistas, ainda distante de se realizar, embora venha ganhando contornos disfarçados sob o título de “Acordos de Abraão” — normalizando as relações diplomáticas entre Israel e quatro nações árabes (Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos). O pacto visa criar uma aliança regional contra o Irã e fomentar cooperação econômica, comercial e de segurança, até agora com poucos avanços.

A outra possibilidade — embora não me pareça um projeto elaborado previamente —, diante dos ataques de agressão impostos pelos EUA e Israel ao Irã, dando início a uma guerra que pode ser sem precedentes, é que, caso o Irã consiga manter sua condição de reação e de enfraquecimento de Israel, ele consiga reconfigurar os arranjos na região, em especial nas monarquias do Golfo. Isto é, se a guerra se estender por mais alguns meses, e o Irã mantiver seu poder de fogo por mais tempo, seu intento de obrigar as monarquias árabes a expulsar as bases militares de seus países e seu domínio sobre a circulação do comércio pelo Estreito de Ormuz poderão modificar significativamente as condições geopolíticas na região, criando uma área de influência iraniana.

O Irã é, sem sombra de dúvida, a grande resistência ao projeto sionista, tendo frustrado Israel de dominar por completo tanto a Palestina quanto o Líbano, apoiando grupos que se insurgem contra o projeto colonial sionista, como o Hamas e o Hezbollah. Além de suas alianças com a Rússia e a China, o Irã conta com a simpatia dos povos árabes (incluindo sunitas) em toda a região; em especial, conta com o apoio incondicional do Ansar Allah (conhecidos como Houthis), no Iêmen, na extremidade sudoeste da Península Arábica. O Ansar Allah já demonstrou seu potencial de controlar o estreito de Bab el-Mandeb, conhecido como “Portão das Lágrimas”, cuja passagem pelo Mar Vermelho liga o comércio ao Mar Mediterrâneo.

Longe de ser uma previsão, esta é uma possibilidade que, apesar de suas enormes nuances, não deve ser descartada. Caso se configure, seus efeitos serão catastróficos para os EUA e Israel, isto é, para o projeto imperial e sionista do Ocidente político-econômico. O pacto Sykes-Picot e todos os arranjos subsequentes impetrados pelo Ocidente no Oeste da Ásia chegariam ao fim: uma reconfiguração geopolítica em que o Ocidente perderia uma significativa zona de influência na região mais importante do mundo quando se trata de petróleo e derivados.

É certo que, caso o Irã consiga estabelecer alguma hegemonia na região do Golfo, Israel não ficará parado; terá que recuar, mas poderá ainda assim manter seu projeto colonial na Cisjordânia e em Gaza, quem sabe também na Síria e no sul do Líbano. Isto é, não sem a inextricável barreira do Eixo da Resistência, sempre disposto a desarticular os avanços sionistas.

sábado, março 07, 2026

MUITO ALÉM DE UMA GUERRA REGIONAL: É GLOBAL.

É comum, mais do que imaginamos, que os eventos de grande irrupção acabem limitando nossa atenção. Quero dizer, tendemos a focar no evento isoladamente, pois sua efervescência dificulta olhar além. É por este motivo, mas não apenas, que temos uma inundação de análises e debates sobre a invasão dos EUA/Israel ao Irã, evidenciando o elemento regional. Alguns analistas afirmam que o "conflito escalou" devido aos ataques iranianos às instalações estadunidenses nas monarquias árabes do Golfo Pérsico. Só após o fechamento do Estreito de Ormuz é que as contribuições de caráter mais global cresceram, mas estas se concentraram nos impactos catastróficos econômicos e, em alguns casos, em como estes podem contribuir para um desfecho da guerra.

Não é tarefa fácil conectar eventos, até porque, na ausência de documentação ou outros tipos de provas ou evidências, resta-nos sempre a especulação. Alguns dizem que tudo gira em torno da China; neste sentido, toda a movimentação agressiva de Trump, desde suas ondas de tarifas até o ataque ao Irã, teria relação com o gigante industrial-tecnológico asiático. Mas e a Rússia? A guerra entre a Rússia e a Ucrânia também teria relação com a China? E a OTAN? A Organização do Atlântico Norte também busca combater a China? Bem, mas o sequestro de Maduro e o controle da Venezuela é evidente que têm relação com a China, dirão alguns. E Israel? Seu projeto escatológico (Eretz Yisrael Hashlemah — A Grande Israel) está relacionado com a contenção da China?

Ontem eu vi alguns comentários sobre a destruição que o Irã causou nos países governados pelas monarquias árabes no Golfo. Aliás, li em algum lugar um comentário irônico interessante, em que se comentou que o Irã havia infligido uma enorme derrota aos "Emirados dos Estados Unidos". Pode até ser perspicaz, mas será que compreende a realidade? É claro que se tratam de países — alguns artificiais — ocupados pelos EUA por meio de suas bases militares, mas ao atacar tais bases militares, centros de comando/inteligência e refinarias de petróleo, o Irã não teria desferido um golpe também na China, uma vez que ela é o maior parceiro comercial do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) desde 2024? A China não importa petróleo apenas do Irã, mas também da Arábia Saudita e de outros países da região do Golfo.

É claro que a China é um "jogador" a ser contido no tabuleiro geopolítico dos EUA; eles deixaram isso claro em sua nova Doutrina de Segurança. O projeto é "deter Pequim por meio de força militar no Pacífico e restringir sua influência na América Latina". A questão é: como? É aqui que o jogo se torna extremamente complexo, uma vez que não é possível desbancar o Dragão economicamente, isto é, no campo da competitividade por mercados. A promessa de Trump da "reindustrialização da América" não passa de um sonho distante (ou uma mentira de campanha para adquirir votos). A dívida pública dos EUA (US$ 36 trilhões) ultrapassou, em 2025, os 120% do seu PIB, podendo chegar a 143% até 2030. O que vem levando à diminuição da aquisição dos Títulos do Tesouro do Tio Sam e à busca por maior diversificação das reservas monetárias por parte dos países, em especial do chamado Sul Global. Além disso, claro, há ainda um movimento de diversificação nas transações comerciais, fomentado sobretudo entre os países do BRICS+ e a OCX (Organização de Cooperação de Xangai), fortalecendo as transações comerciais em moedas locais, criando um processo de desdolarização.

O que os EUA podem fazer então? O que eles sabem fazer como poucos: promover golpes de Estado e guerras eternas. Mas guerra não custa dinheiro? Sim, custa e muito. O que se confunde neste ponto são os interesses dos EUA como Estado-Nação e os interesses do denominado Deep State, ou, se quiserem, o complexo industrial-militar-financeiro-midiático. Estes agentes sociais do Estado Profundo estadunidense, os mesmos que vêm levando o país a uma dívida impagável, estão vendo escorrer por entre os dedos das suas mãos sujas de sangue o capital que outrora estava integralmente sobre seu controle. Não é por outro motivo que as grandes gestoras de fundos de investimentos, como a BlackRock e a Blue Owl, entre outras, limitaram os resgates no seu fundo de crédito privado, após um recorde de pedidos de saída.

Não se trata de Trump e Netanyahu; ambos são peças importantes no tabuleiro, mas trabalham para garantir que os verdadeiros donos do tabuleiro permaneçam com seus trilhões bem investidos. É claro que Trump e Bibi se beneficiam triplicando suas fortunas pessoais através das relações entre os órgãos do Estado — Departamento de Defesa, Tecnologia e outros — e corporações ligadas às suas famílias. Mas as famílias que realmente mandam, as dinastias do Old Money da Costa Leste (os Rockefeller, os Mellon, os Du Pont, os Morgan, entre outros), que vêm elegendo os presidentes dos EUA, são elas quem definem a agenda do Deep State. Sim, novas relações de força emergiram no cenário, os jovens-senhores das Big Techs, os neocons que têm produzido figuras públicas como JD Vance, Marco Rubio e Pete Hegseth.

Digo isto porque é mais que comum atribuírem a Trump toda forma de imbecilidade. Dizem que ele não consegue se deter por mais de um minuto em um assunto; os memes circulam na internet mostrando um Trump senil. No entanto, suas ações demonstram o contrário. A ideia de que os neocons são um bando de idiotas atirando para todo lado é ridícula — o Deep State coordena as ações. Por exemplo, quem pode dizer que o sequestro de Maduro na Venezuela já não era um movimento preparatório para o ataque ao Irã? Vejam o que aconteceu com o preço do petróleo e me digam quem está sentado na maior reserva do mundo. A estatal venezuelana (PDVSA) assinou novos contratos de exportação de petróleo e gás envolvendo as empresas Chevron, BP, Eni, Repsol e Shell, mais que isso, afastando o ouro negro da China, Rússia, Irã, Coreia do Norte e Cuba.

Onde estão os outros grandes exportadores de petróleo? No Golfo Pérsico. As monarquias árabes já anunciaram a suspensão da produção de petróleo, e com as restrições de passagens de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o preço do barril de petróleo poderá chegar a US$ 100 na semana que vem. Isso explica por que os EUA pouco fizeram para defender os países do Golfo. Quem ganha com isso? Os EUA? Não, o grande capital privado ocidental. Enquanto os grandes acionistas lucram trilhões, os americanos médios verão os preços da gasolina subir exponencialmente, elevando ainda mais o custo de vida por lá. Por outro lado, importantes aliados dos EUA na Ásia também se encontram em uma situação delicada, refiro-me especialmente a Japão e Coreia do Sul (quem sabe a própria Índia).
O petróleo em si não é o motivo da invasão do Irã, muito menos a alegada "mudança de regime"; trata-se de um ato pragmático — com um certo nível de desespero — para garantir a hegemonia do dólar e deter os intercâmbios multimodais, que evidentemente beneficiam a China por um lado, mas por outro vêm reduzindo a dependência dos países em relação ao sistema dólar. Se a China lidera a produção de energias renováveis, com 80% do mercado global, e é a maior geradora de eletricidade do mundo (10.086 terawatts-hora), 40% mais eletricidade que os EUA são capazes de produzir, garantir o monopólio do petróleo é a única alternativa para sustentar sua hegemonia global, baseada no petrodólar. Aqui está também uma explicação plausível para compreender o jogo que os EUA realizam na Europa com a OTAN e a Rússia. A UE foi obrigada a assinar um acordo bilionário com os EUA para comprar energia (especialmente gás) dos EUA, graças à guerra Rússia-Ucrânia; por isso, manter o conflito é importante para manter a UE dependente da energia estadunidense. Além disso, em breve, Japão e Coreia do Sul precisarão ampliar as importações de petróleo dos EUA, tudo em dólar.

Finalmente, sei que me estendi, mas falta um ator fundamental. Não, não falarei do Brasil agora; me refiro à Rússia, a terceira maior produtora de petróleo do mundo e a segunda em gás natural. Como a Rússia não se beneficiaria desta situação? É claro que as oligarquias russas devem estar alvoroçadas com o aumento do barril de brent. A China e a Índia ampliarão suas importações do petróleo russo, apesar das sanções? Tudo indica que sim. A questão é que o impacto do aumento do petróleo nos mais diversos setores irá disparar a inflação no mundo todo, o que certamente, pelo menos no curto e médio prazo, causará a valorização do dólar, podendo prejudicar o rublo russo.

Evidente que nada disso, isto é, as táticas do Deep State, impedirá o declínio da hegemonia global estadunidense; podem até retardá-lo. Sua política de "choque e pavor" levará, mais cedo do que se imagina, ao abandono total das relações de confiança bilaterais entre a maioria global e os EUA. Enquanto a China, que se comporta como o "adulto na sala", seguirá ampliando sua carteira de negócios no modelo "ganha-ganha", até que não restará outra opção aos abutres yankees senão uma guerra direta com o dragão.