É comum, mais do que imaginamos, que os eventos de grande irrupção acabem limitando nossa atenção. Quero dizer, tendemos a focar no evento isoladamente, pois sua efervescência dificulta olhar além. É por este motivo, mas não apenas, que temos uma inundação de análises e debates sobre a invasão dos EUA/Israel ao Irã, evidenciando o elemento regional. Alguns analistas afirmam que o "conflito escalou" devido aos ataques iranianos às instalações estadunidenses nas monarquias árabes do Golfo Pérsico. Só após o fechamento do Estreito de Ormuz é que as contribuições de caráter mais global cresceram, mas estas se concentraram nos impactos catastróficos econômicos e, em alguns casos, em como estes podem contribuir para um desfecho da guerra.
Não é tarefa fácil conectar eventos, até porque, na ausência de documentação ou outros tipos de provas ou evidências, resta-nos sempre a especulação. Alguns dizem que tudo gira em torno da China; neste sentido, toda a movimentação agressiva de Trump, desde suas ondas de tarifas até o ataque ao Irã, teria relação com o gigante industrial-tecnológico asiático. Mas e a Rússia? A guerra entre a Rússia e a Ucrânia também teria relação com a China? E a OTAN? A Organização do Atlântico Norte também busca combater a China? Bem, mas o sequestro de Maduro e o controle da Venezuela é evidente que têm relação com a China, dirão alguns. E Israel? Seu projeto escatológico (Eretz Yisrael Hashlemah — A Grande Israel) está relacionado com a contenção da China?
Ontem eu vi alguns comentários sobre a destruição que o Irã causou nos países governados pelas monarquias árabes no Golfo. Aliás, li em algum lugar um comentário irônico interessante, em que se comentou que o Irã havia infligido uma enorme derrota aos "Emirados dos Estados Unidos". Pode até ser perspicaz, mas será que compreende a realidade? É claro que se tratam de países — alguns artificiais — ocupados pelos EUA por meio de suas bases militares, mas ao atacar tais bases militares, centros de comando/inteligência e refinarias de petróleo, o Irã não teria desferido um golpe também na China, uma vez que ela é o maior parceiro comercial do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) desde 2024? A China não importa petróleo apenas do Irã, mas também da Arábia Saudita e de outros países da região do Golfo.
É claro que a China é um "jogador" a ser contido no tabuleiro geopolítico dos EUA; eles deixaram isso claro em sua nova Doutrina de Segurança. O projeto é "deter Pequim por meio de força militar no Pacífico e restringir sua influência na América Latina". A questão é: como? É aqui que o jogo se torna extremamente complexo, uma vez que não é possível desbancar o Dragão economicamente, isto é, no campo da competitividade por mercados. A promessa de Trump da "reindustrialização da América" não passa de um sonho distante (ou uma mentira de campanha para adquirir votos). A dívida pública dos EUA (US$ 36 trilhões) ultrapassou, em 2025, os 120% do seu PIB, podendo chegar a 143% até 2030. O que vem levando à diminuição da aquisição dos Títulos do Tesouro do Tio Sam e à busca por maior diversificação das reservas monetárias por parte dos países, em especial do chamado Sul Global. Além disso, claro, há ainda um movimento de diversificação nas transações comerciais, fomentado sobretudo entre os países do BRICS+ e a OCX (Organização de Cooperação de Xangai), fortalecendo as transações comerciais em moedas locais, criando um processo de desdolarização.
O que os EUA podem fazer então? O que eles sabem fazer como poucos: promover golpes de Estado e guerras eternas. Mas guerra não custa dinheiro? Sim, custa e muito. O que se confunde neste ponto são os interesses dos EUA como Estado-Nação e os interesses do denominado Deep State, ou, se quiserem, o complexo industrial-militar-financeiro-midiático. Estes agentes sociais do Estado Profundo estadunidense, os mesmos que vêm levando o país a uma dívida impagável, estão vendo escorrer por entre os dedos das suas mãos sujas de sangue o capital que outrora estava integralmente sobre seu controle. Não é por outro motivo que as grandes gestoras de fundos de investimentos, como a BlackRock e a Blue Owl, entre outras, limitaram os resgates no seu fundo de crédito privado, após um recorde de pedidos de saída.
Não se trata de Trump e Netanyahu; ambos são peças importantes no tabuleiro, mas trabalham para garantir que os verdadeiros donos do tabuleiro permaneçam com seus trilhões bem investidos. É claro que Trump e Bibi se beneficiam triplicando suas fortunas pessoais através das relações entre os órgãos do Estado — Departamento de Defesa, Tecnologia e outros — e corporações ligadas às suas famílias. Mas as famílias que realmente mandam, as dinastias do Old Money da Costa Leste (os Rockefeller, os Mellon, os Du Pont, os Morgan, entre outros), que vêm elegendo os presidentes dos EUA, são elas quem definem a agenda do Deep State. Sim, novas relações de força emergiram no cenário, os jovens-senhores das Big Techs, os neocons que têm produzido figuras públicas como JD Vance, Marco Rubio e Pete Hegseth.
Digo isto porque é mais que comum atribuírem a Trump toda forma de imbecilidade. Dizem que ele não consegue se deter por mais de um minuto em um assunto; os memes circulam na internet mostrando um Trump senil. No entanto, suas ações demonstram o contrário. A ideia de que os neocons são um bando de idiotas atirando para todo lado é ridícula — o Deep State coordena as ações. Por exemplo, quem pode dizer que o sequestro de Maduro na Venezuela já não era um movimento preparatório para o ataque ao Irã? Vejam o que aconteceu com o preço do petróleo e me digam quem está sentado na maior reserva do mundo. A estatal venezuelana (PDVSA) assinou novos contratos de exportação de petróleo e gás envolvendo as empresas Chevron, BP, Eni, Repsol e Shell, mais que isso, afastando o ouro negro da China, Rússia, Irã, Coreia do Norte e Cuba.
Onde estão os outros grandes exportadores de petróleo? No Golfo Pérsico. As monarquias árabes já anunciaram a suspensão da produção de petróleo, e com as restrições de passagens de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o preço do barril de petróleo poderá chegar a US$ 100 na semana que vem. Isso explica por que os EUA pouco fizeram para defender os países do Golfo. Quem ganha com isso? Os EUA? Não, o grande capital privado ocidental. Enquanto os grandes acionistas lucram trilhões, os americanos médios verão os preços da gasolina subir exponencialmente, elevando ainda mais o custo de vida por lá. Por outro lado, importantes aliados dos EUA na Ásia também se encontram em uma situação delicada, refiro-me especialmente a Japão e Coreia do Sul (quem sabe a própria Índia).
O petróleo em si não é o motivo da invasão do Irã, muito menos a alegada "mudança de regime"; trata-se de um ato pragmático — com um certo nível de desespero — para garantir a hegemonia do dólar e deter os intercâmbios multimodais, que evidentemente beneficiam a China por um lado, mas por outro vêm reduzindo a dependência dos países em relação ao sistema dólar. Se a China lidera a produção de energias renováveis, com 80% do mercado global, e é a maior geradora de eletricidade do mundo (10.086 terawatts-hora), 40% mais eletricidade que os EUA são capazes de produzir, garantir o monopólio do petróleo é a única alternativa para sustentar sua hegemonia global, baseada no petrodólar. Aqui está também uma explicação plausível para compreender o jogo que os EUA realizam na Europa com a OTAN e a Rússia. A UE foi obrigada a assinar um acordo bilionário com os EUA para comprar energia (especialmente gás) dos EUA, graças à guerra Rússia-Ucrânia; por isso, manter o conflito é importante para manter a UE dependente da energia estadunidense. Além disso, em breve, Japão e Coreia do Sul precisarão ampliar as importações de petróleo dos EUA, tudo em dólar.
Finalmente, sei que me estendi, mas falta um ator fundamental. Não, não falarei do Brasil agora; me refiro à Rússia, a terceira maior produtora de petróleo do mundo e a segunda em gás natural. Como a Rússia não se beneficiaria desta situação? É claro que as oligarquias russas devem estar alvoroçadas com o aumento do barril de brent. A China e a Índia ampliarão suas importações do petróleo russo, apesar das sanções? Tudo indica que sim. A questão é que o impacto do aumento do petróleo nos mais diversos setores irá disparar a inflação no mundo todo, o que certamente, pelo menos no curto e médio prazo, causará a valorização do dólar, podendo prejudicar o rublo russo.
Evidente que nada disso, isto é, as táticas do Deep State, impedirá o declínio da hegemonia global estadunidense; podem até retardá-lo. Sua política de "choque e pavor" levará, mais cedo do que se imagina, ao abandono total das relações de confiança bilaterais entre a maioria global e os EUA. Enquanto a China, que se comporta como o "adulto na sala", seguirá ampliando sua carteira de negócios no modelo "ganha-ganha", até que não restará outra opção aos abutres yankees senão uma guerra direta com o dragão.

3 comentários:
????? Será????
Realmente! 👏👏
Muito bom!
Postar um comentário