sexta-feira, abril 10, 2026

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E ESTADO COLONIAL DE ISRAEL NA PALESTINA. (PARTE 2)

Dando sequência ao texto que escrevi ontem, nesta segunda parte resgato uma série de autores judeus, estudiosos do holocausto e genocídios, historiadores, cientistas políticos, dentre outras especialidades, que contribuem com a perspectiva de Gabor Maté. Há muitos outros e outras, de outras nacionalidades e etnias, como estudiosos Árabes e Palestinos. Mas escolhi os autores judeus, porque entendo ser importante demonstrar que a suposta equivalência entre antissemitismo e antissionismo é, na prática uma falsa equivalência. Neste texto, especificamente, o sionismo é o foco. 
 

quinta-feira, abril 09, 2026

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E ESTADO COLONIAL DE ISRAEL NA PALESTINA. (PARTE 1)

INTRODUÇÃO.

O projeto de lei sobre o antissemitismo no Brasil provocou fortes manifestações contrárias (e algumas favor), ao ponto que alguns deputados que assinaram o mesmo, ao lado de Tabata Amaral, solicitaram a retirada da assinatura. Longe de ser um caso isolado, o projeto é orientado. A Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), uma organização não governamental, juntamente com o ministério das relações exteriores de Israel, estão articulando uma campanha global para que projetos com o proposto pela Tabata sejam aprovados em diversos cantos do mundo. Por sinal, muitos países já o fizeram, portanto, olhar o projeto da deputada apenas do ponto de vista nacional seria reduzir o debate.

Ontem, assistir a entrevista que o médico Gabor Maté concedeu ao canal NeutralityStudies, trata -se de uma entrevista absolutamente forte e emocionante. Maté é judeu, com nacionalidade húngaro-canadense, em 1944, quando era apenas um bebê de colo, conseguiu escapar de Auschwitz com sua mãe, os outros membros de sua família não tiveram a mesma sorte.  

Meu objetivo aqui é escrever um texto, que será dividido em três partes, em que tomarei a entrevista de Gabor Maté, como base para tratar do sionismo e da instrumentalização do sofrimento dos judeus para legitimar um estado colonial e de apartheid, como é o caso de Israel. Na primeira parte, abordarei mais a entrevista em si, na segunda trarei outras vozes judaicas que se unem a Maté (e influenciaram Maté) sobre o sionismo e seu projeto de Estado supremacismo étnico, na terceira parte, me deterei mais sobre o lobby que busca a equivalência entre o antisionismo e o antissemitismo. 


Gabor Maté: quando "nunca mais" se torna um slogan para justificar genocídio.

O médico e sobrevivente do Holocausto critica o uso instrumentalizado do sofrimento judeu para legitimar o colonialismo israelense — e alerta para o perigo das leis que criminalizam o antissionismo.

Baseado na entrevista conduzida por Felix Marquardt para o canal Neutrality Studies (YouTube)


Em uma entrevista ao canal Neutrality Studies (Canal do professor de Relações Internacionais, associado a Universidade de Kyoto, Pascal Lottaz), o médico húngaro-canadense Gabor Maté — especialista em trauma, dependência e autor de diversos livros sobre saúde mental — fez declarações contundentes sobre o conflito em Gaza, o sionismo e o que chama de instrumentalização do sofrimento judeu. A conversa, conduzida pelo jornalista Felix Marquardt, é densa, incômoda e difícil de ignorar — especialmente porque vem de alguém que sobreviveu ao Holocausto ainda bebê e que, por décadas, se identificou como sionista.

A trajetória de Maté é, em si, o argumento central de sua fala. Nascido em Budapeste em 1944, ele quase morreu nas mãos dos nazistas e perdeu avós em Auschwitz. Durante anos, o sionismo fez sentido para ele: precisavam de um país próprio, um exército próprio, uma pátria onde não fossem minoria desprezada. A virada veio quando ele descobriu o que foi feito aos palestinos para que esse sonho se tornasse realidade. "Foi um pesadelo que impusemos aos palestinos para alcançar nosso sonho", afirma. "Uma vez que você abre essa janela e olha para o que realmente aconteceu, não dá mais para sustentar isso."

Para Maté, o sionismo nasceu como resposta legítima ao antissemitismo europeu — real e brutal, muito antes dos campos de extermínio nazistas. O problema, segundo ele, é que o projeto se estruturou sobre um slogan totalmente desonesto: "uma terra sem povo para um povo sem terra". Os próprios líderes sionistas sabiam que a Palestina era habitada, e alguns deles disseram abertamente que seria necessário expulsar ou destruir essa população. Moshe Dayan, general israelense e ícone do movimento, disse em 1956: os palestinos nos odeiam porque olham pela cerca e nos veem cultivando suas terras e vivendo nas aldeias que antes eram deles.

"Para ser sionista, é preciso ter o coração fechado ou a mente fechada — pelo menos uma das duas coisas. Porque, quando você descobre o que foi feito ao longo das décadas e o que está sendo feito agora aos palestinos, não dá para ser sionista." — Gabor Maté

Um dos pontos mais provocadores da entrevista diz respeito ao uso político da acusação de antissemitismo. Maté não nega a existência do fenômeno — ele mesmo o viveu na infância na Hungria. Mas argumenta que, quando a acusação é usada para silenciar críticas ao Estado de Israel, ela se torna uma arma de proteção ao poder, não ao povo judeu. Ele cita pelo menos oito estudiosos israelenses judeus especialistas em genocídio que classificam o que ocorre em Gaza exatamente com essa palavra — e convida seus interlocutores a debaterem com eles, não com ele.

O médico também analisa o alinhamento europeu com Israel como uma forma de identificação colonial: países como França, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos têm histórias profundas de colonialismo que nunca foram verdadeiramente enfrentadas — os mesmos que se negaram a reconhecer uma recente Resolução na ONU que afirmava que o tráfico transatlântico de escravizados foi o maior crime contra a humanidade. Neste sentido, apoiar o projeto sionista seria uma extensão natural de suas próprias lógicas imperiais — e uma maneira conveniente de aliviar a culpa histórica pela perseguição aos judeus. "Quando a Europa se alinha com o projeto sionista, ela está realmente se alinhando consigo mesma."

Sobre a proposta francesa de criminalizar o antissionismo por meio da chamada Lei Yadon — que adotaria a definição da IHRA de antissemitismo, equiparando-o ao antissionismo —, Maté foi direto: "Nojo." Para ele, a lei não tem qualquer relação com a proteção de judeus contra o ódio racial. Trata-se, segundo o médico, de proteger o Estado de Israel de quem denuncia sua natureza. E, em um paradoxo que ele faz questão de sublinhar, leis como essa tendem a aumentar o antissemitismo real — porque associam toda a comunidade judaica às ações de um governo que boa parte do mundo condena.

Por fim, Maté encerra com um alerta dirigido aos judeus que apoiam incondicionalmente o projeto sionista: ao fazê-lo, acreditam estar garantindo o futuro de seu povo, mas, na sua visão, estão acelerando sua destruição. Um projeto colonial que depende do apoio imperial de potências em declínio — como os Estados Unidos — é, para ele, estruturalmente frágil. "O sionismo é um projeto autodestrutivo, e a cada dia eles cavam sua própria cova um pouco mais fundo."

A entrevista não oferece respostas fáceis nem conforto a nenhum dos lados. O que ela oferece é algo mais raro: a voz de alguém que carrega o peso da história na própria biografia e ainda assim escolheu rever suas convicções mais profundas.

Fonte: Entrevista de Felix Marquardt com Gabor Maté, publicada no canal Neutrality Studies (YouTube). Título original: Holocaust Survivor Exposes Genocide Denial | Felix Marquardt & Gabor Maté. Os pontos de vista expressos são do entrevistado e não representam necessariamente a opinião deste blog.



quinta-feira, abril 02, 2026

O UNIVERSALISMO QUE NÃO CHEGAL AO SUL: HABERMAS, A ESCOLA DE FRANKFURT E O COLONIALISMO QUE O MARXISMO OCIDENTAL PREFERIU OMITIR.

 A morte de um filósofo reabre uma ferida antiga — e um acadêmico de Istambul nos lembra que ela nunca fechou de verdade.

Jürgen Habermas morreu em 14 de março de 2026, aos 96 anos. Alguns necrológios foram pródigos em elogios: "o maior filósofo vivo do Ocidente", "guardião do projeto iluminista", "defensor incansável da razão comunicativa". Outros, trataram de criticar seu pretenso universalismo, e, em especial, seu apoio incondicional a Israel, chegando a negar a limpeza étnica em Gaza. Dentre seus críticos, destaco aqui a leitura que professor Irfan Ahmad, antropólogo da Ibn Haldun University, em Istambul, realizou sobre o pensamento de Habermas, o identificando como um pensador étnico. Mas a leitura do professor Ahmad, vai além, sua crítica se estende à própria escola de Frankfurt. A morte de Habermas reacendeu um debate fundamental: o marxismo ocidental, removeu o colonialismo de suas análises centrais. 

Uma declaração, um abismo.

Em novembro de 2023, enquanto Israel destruía Gaza e forçava sua população e se aglomerar ao sul, na fronteira com o Egito, Habermas assinou uma declaração pública — intitulada "Princípios de Solidariedade" — com três coautores (Nicole Deitelhoff, Rainer Forst e Klaus Günther). O texto reconhecia que "toda a preocupação com o destino da população palestina" era legítima, mas advertia que "os padrões de julgamento escorregam completamente quando intenções genocidas são atribuídas às ações de Israel." A retaliação israelense, dizia o documento, era "justificada em princípio." 

O efeito foi imediato. Dezenas de acadêmicos sêniores — muitos formados na própria tradição habermasiana — responderam com uma carta aberta apontando que o princípio da dignidade humana que Habermas professara durante décadas simplesmente não havia sido estendido aos civis palestinos que morriam sob as bombas.

Para Irfan Ahmad, porém, a declaração não era uma surpresa. Era uma confirmação.

Em artigo publicado na revista Teaching in Higher Education em 2025 — meses antes da morte do filósofo —, Ahmad formulou uma tese que soou como provocação para os defensores da tradição frankfurtiana: Habermas não é um pensador do universalismo, mas um pensador étnico por excelência. Seu universalismo opera em uma única direção: de cima para baixo, do centro para a periferia, do Ocidente para o resto. É um universalismo "para todos", nunca "a partir de todos". O universalismo, neste caso, só seria possível, se ocorresse um diálogo com outras tradições filosóficas, árabes, indianas, chinesas, de modo que se pudesse estabelecer consensos (conceito muito usado por Habermas), mas não foi o que ocorreu, pelo contrário.

O passado que não passa: Suez, 1956.

Para entender por que Ahmad vê em Habermas uma continuidade e não uma ruptura, é preciso voltar setenta anos — a um momento em que o mundo árabe tentou, pela primeira vez na era moderna, controlar um recurso estratégico que passava pelo seu próprio território. Aliás, assemelha-se ao que ocorre hoje no caso do Irã, ao anunciar sua soberania sobre o Estreito de Ormuz. 

Em julho de 1956, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez. O gesto era tanto econômico quanto simbólico: o canal, construído com sangue egípcio no século XIX, havia enriquecido impérios europeus por décadas. A nacionalização foi aplaudida no mundo árabe, apoiada pela maioria dos países recém-independentes e condenada, de forma previsível, pelas potências coloniais. Em outubro daquele mesmo ano, Israel, França e Grã-Bretanha invadiram o Egito — numa operação condenada até pelos Estados Unidos e pela ONU.

E Theodor Adorno e Max Horkheimer, os fundadores da Teoria Crítica, os pensadores que haviam escrito a Dialética do Esclarecimento (1948) como um réquiem para a razão instrumentalizada — onde estavam eles nesse momento? Do lado dos invasores. 

Adorno e Horkheimer coassinaram um artigo defendendo a invasão imperialista. Nasser foi descrito por eles como "um chefe fascista que conspira com Moscou." Os estados árabes foram chamados de "estados salteadores" (Räuberstaaten), à espreita para "cair sobre Israel e massacrar os judeus". Em carta privada ao filósofo Gershom Scholem, Adorno foi ainda mais direto: afirmou ser "uma das pouquíssimas pessoas" que consideravam as ações de Israel, França e Inglaterra "certas e afortunadas."

Pense nisso um momento. Os autores de um dos textos mais sofisticados sobre a dominação capitalista e a barbárie moderna — homens que haviam fugido do nazismo, que haviam pensado Auschwitz como o ponto de chegada da razão ocidental — eram incapazes de ver um movimento anticolonial árabe como algo distinto de uma ameaça bárbara ao Ocidente civilizado. A ironia é quase insuportável.

O ponto cego estrutural.

Aqui é onde a contribuição de Irfan Ahmad se torna mais valiosa — e mais incômoda.

Ahmad não está fazendo uma acusação moral simples. Ele está descrevendo um problema estrutural no interior do marxismo ocidental. Não se trata de falha pessoal de Adorno ou Horkheimer ou Habermas. Trata-se de uma limitação constitutiva de uma tradição inteira.

Perry Anderson já havia apontado algo parecido em 1976, em Considerações sobre o Marxismo Ocidental: os grandes teóricos da Escola de Frankfurt se divorciaram progressivamente da prática política e da luta de classes concreta, refugiando-se na filosofia, na estética e na teoria da cultura. Ao fazer isso, deixaram de questionar aquilo que o capitalismo produzia fora do centro europeu — o imperialismo, o colonialismo, a exploração do Sul Global.

O marxismo ocidental, em suma, tornou-se um projeto do Norte sobre o Norte, pensado pelo Norte, para o Norte.

Ahmad leva esse diagnóstico um passo além. O problema não é só o que a Escola de Frankfurt ignorou, mas o que ela afirmou ao ignorar. Ao construir uma noção de universalismo que parte exclusivamente da tradição iluminista europeia — com sua razão, seu direito, sua esfera pública —, pensadores como Habermas produziram involuntariamente uma hierarquia civilizacional. Quem não cabe nessa razão europeia é, por definição, pré-moderno, tribal, potencialmente bárbaro.

Os árabes de Nasser em 1956. Os palestinos de Gaza em 2023. Os iranianos hoje. A estrutura do argumento é a mesma.

A voz que vem de outro lugar.

O que torna o trabalho de Irfan Ahmad particularmente relevante neste momento é menos a crítica em si — outros já a fizeram, de Edward Said a Frantz Fanon — do que o lugar de fala a partir do qual ela é formulada.

Ahmad é um intelectual formado entre a Índia, a Europa e o mundo muçulmano. Sua obra anterior, Religion as Critique (2017), já havia mostrado que há tradições de pensamento crítico profundamente enraizadas no Islã — anteriores à modernidade europeia e irredutíveis a ela. Ao colocar o pensador islâmico medieval Imam Mālik (711-795 EC) em diálogo (e em tensão) com Habermas, Ahmad não está fazendo exotismo intelectual. Está demonstrando que a crítica ao poder, à dominação e à injustiça não é monopólio ocidental. Esse gesto é filosófico antes de ser político. E é precisamente por isso que incomoda.

Porque se Ahmad tem razão — se o universalismo habermasiano é, na verdade, um particularismo europeu disfarçado de universal —, então parte considerável do arsenal teórico da esquerda ocidental precisa ser repensado. Não descartado, mas repensado. Descolonizado, inclusive nas suas categorias de análise.

O que fazer com essa herança?

Seria fácil — e equivocado — encerrar este artigo numa condenação sumária. Habermas foi um pensador de enorme importância. A Teoria do Agir Comunicativo, a noção de esfera pública, a defesa da democracia deliberativa — tudo isso produziu frutos reais no pensamento político progressista do século XX. Não se joga fora uma herança intelectual desse porte. Mas heranças precisam ser inventariadas, não apenas celebradas.

O que a morte de Habermas torna urgente não é um gesto fácil de cancelamento póstumo, mas uma pergunta genuinamente difícil: por que uma tradição intelectual nascida do horror nazista — comprometida visceralmente com o nunca mais — foi tão seletiva em aplicar esse compromisso? Por que Auschwitz gerou uma teoria da barbárie ocidental, mas Suez não gerou uma teoria do colonialismo? 

A resposta, talvez, esteja no que Irfan Ahmad chama de "humanismo exclusivo": a tendência histórica de grupos adotarem valores e éticas para os seus membros e abandoná-los ao lidar com quem está fora do grupo. Como é o caso do duplo-padrão aplicado pelo Ocidente quando se trata da Ucrânia e do Irã. O princípio universal existe — ele só não se aplica universalmente. Não se trata de uma distinção pequena, mas sim de um abismo político. 

Coda: quando os teóricos se calam.

Há uma passagem reveladora na correspondência entre Adorno e Scholem, publicada postumamente. Referindo-se à sua própria posição sobre Suez, Adorno admite que é "uma das pouquíssimas pessoas" a pensar como pensa. O tom é de orgulho isolado, de resistência a uma pressão imaginária.

Mas a pressão real, naquele momento histórico, vinha de outro lugar: dos movimentos anticoloniais que sacudiam o mundo, das revoluções que redesenhavam o mapa político do Sul Global, das vozes que pediam que a crítica ao capitalismo incluísse sua dimensão colonial. Adorno não as ouvia. Habermas, décadas depois, também não.

Irfan Ahmad ouve. E nos convida a ouvir junto.


Referências principais

  • Ahmad, Irfan. "Habermas as an ethnic thinker par excellence: on critique, Palestine and the role of intellectuals." Teaching in Higher Education, vol. 30, n. 6, pp. 1343–1362, 2025.
  • Ahmad, Irfan. "Examining Israel's Settler Colonialism and Habermas' Philosophy." Outlook India, 2024.
  • Ahmad, Irfan. Religion as Critique: Islamic Critical Thinking from Mecca to the Marketplace. University of North Carolina Press, 2017.
  • Anderson, Perry. Considerations on Western Marxism. New Left Books, 1976.
  • Foster, John Bellamy; Rockhill, Gabriel. "Western Marxism and Imperialism: A Dialogue." Monthly Review, vol. 76, n. 10, 2025.
  • Rockhill, Gabriel. "The CIA & the Frankfurt School's Anti-Communism." The Philosophical Salon, 2022.
  • Vários autores. "Palestine, and the Colonial Unconscious of German Critical Theory." Middle East Critique, vol. 35, n. 1, 2025.


quinta-feira, março 26, 2026

O FIM DO SYKES-PICOT, A GRANDE ISRAEL E O EIXO DA RESISTÊNCIA.

Em 2014, o ISIS, conhecido por nós como Estado Islâmico, publicou um vídeo cujo título era: “O Fim de Sykes-Picot” (em árabe: Nihāyat Sāyiks Bīkū). Tratava-se de uma declaração que anunciava um novo califado que não reconhecia as fronteiras estabelecidas na Ásia Ocidental após o acordo Sykes-Picot. O novo califado se estenderia a partir do Iraque e da Síria e incorporaria outras nações da região — fato este que não se consolidou.

Foi em 1916, enquanto a Primeira Guerra ainda estava longe de ser encerrada, que o embaixador inglês Mark Sykes e o francês François Georges-Picot fizeram um acordo secreto, que só mais tarde, no pós-guerra, seria ratificado formalmente na Conferência de San Remo (1920). O acordo Sykes-Picot, como ficou conhecido, definiu como as duas potências europeias dividiriam o Oeste da Ásia (Oriente Médio) após terem derrotado o Império Turco-Otomano. A França assumiria o controle do Líbano, da Síria e de partes do sudeste da atual Turquia, enquanto a Inglaterra passaria a controlar o Iraque, a Transjordânia (atual Jordânia) e a Palestina. Quanto à Pérsia (Irã), esta já estava sob a influência dos britânicos e russos desde 1907 (Acordo Anglo-Russo). Os britânicos dominavam o sudeste da Pérsia, controlando o petróleo por meio da Anglo-Persian Oil Company, e controlavam também o Golfo Pérsico para garantir suas possessões nas “Índias Britânicas”. Já os russos controlavam o norte por uma série de motivos: primeiro, como modo de criar uma camada de proteção, uma espécie de território tampão para resguardar as fronteiras do Cáucaso e da Ásia Central russa contra a influência britânica e possíveis incursões do Império Otomano; mas também com o objetivo de acessar as “águas quentes” do Golfo Pérsico, obtendo uma saída para o mar que não congelasse no inverno; por fim, o norte é a região mais fértil do território persa, o que permitia aos russos criar uma grande rota terrestre de comércio.

O premiado diretor de cinema David Lean (Dr. Jivago, 1965), em sua superprodução Lawrence da Arábia, demonstra como o oficial britânico T. E. Lawrence, enviado ao príncipe da família Faisal, fez promessas de independência caso o príncipe apoiasse um levante árabe contra os otomanos. Lawrence se sente traído ao descobrir que, enquanto ele fazia as promessas, o acordo entre Sykes e Picot já havia ocorrido. O que o leva a apoiar a invasão de Damasco ao lado dos árabes para impedir o controle europeu na região. Embora o filme mereça ser observado criticamente, teve o mérito de revelar o quanto o Ocidente é capaz de mentir, enganar, roubar e matar para alcançar seus objetivos. Por outro lado, revela que a administração Trump não inovou em nada ao atacar o Irã enquanto fazia negociações bilaterais com as lideranças do país persa.

O acordo Sykes-Picot produziu efeitos nefastos na região devido a uma divisão territorial que não levou em conta as diferentes sociedades que ali viviam — como, por exemplo, não considerar os curdos, espalhando-os por diversos territórios (Turquia, Síria, Iraque e Irã) —, além de promover instabilidades entre sunitas, xiitas e alauítas.

Um ano após o acordo Sykes-Picot, outro evento daria início a grandes dramas na região: refiro-me à Declaração Balfour (2/11/1917). Trata-se de uma alusão a um documento (carta) enviado pelo secretário britânico dos assuntos estrangeiros, Arthur James Balfour, ao lorde Rothschild, o líder mais poderoso da comunidade judaica no Reino Unido. O que dizia a carta? Que os britânicos viam com bons olhos o estabelecimento, na Palestina, de um “lar nacional para o povo judeu”. O problema dessa declaração era que o território “prometido” também havia sido oferecido aos árabes e aos franceses.

Após a Segunda Guerra, uma nova onda de fragmentação territorial ocorreu na Ásia Ocidental, já sob a coordenação dos EUA: o Reino da Arábia Saudita se consolidou sob a liderança da família Saud, uma monarquia absoluta, sunita, baseada na aliança entre a Casa de Saud e o wahabismo (uma interpretação conservadora do islã); a Jordânia (1946), entregue à família Hachemita, tornou-se independente do Mandato Britânico; e houve a criação do Estado de Israel (1948), após David Ben-Gurion proclamar sua existência com base em uma resolução da ONU de 1947 — o que desencadeou a Primeira Guerra Árabe-Israelense. Os países árabes alegaram que a resolução de 1947 tratava da partilha da Palestina sob a ótica de dois Estados, um árabe e outro judeu, mas o movimento sionista se negou a reconhecer o Estado palestino.

Nas décadas seguintes, já no contexto da Guerra Fria, foi a vez de as monarquias do Golfo Pérsico serem criadas; o objetivo dos EUA era impedir que a URSS tivesse influência na região. O Kuwait (1961) tornou-se uma monarquia constitucional, embora controlado com mão de ferro pela família Al-Sabah. Já o Bahrein, o Catar e os Emirados Árabes Unidos (EAU) se estruturaram como emirados em 1971. O Bahrein é governado pela Casa de Khalifa, o Catar pela Casa de Thani, a Casa de Maktoum é a família real governante de Dubai e a Casa de Nahyan é a família real de Abu Dhabi.

O caso de Omã e do Iêmen tem algumas diferenças, pois ambos foram reinos antigos desde o Império Aquemênida (séc. VI a.C.). Mas ambos foram sujeitados aos otomanos e posteriormente aos britânicos.

Se o ISIS não conseguiu desfigurar as fronteiras do Oeste da Ásia, pondo fim ao formato iniciado pelos ocidentais a partir do acordo de Sykes-Picot, é possível que estas sejam modificadas por meio de dois projetos distintos. O primeiro é a “Grande Israel”, propagada por Benjamin Netanyahu e outras lideranças sionistas, ainda distante de se realizar, embora venha ganhando contornos disfarçados sob o título de “Acordos de Abraão” — normalizando as relações diplomáticas entre Israel e quatro nações árabes (Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos). O pacto visa criar uma aliança regional contra o Irã e fomentar cooperação econômica, comercial e de segurança, até agora com poucos avanços.

A outra possibilidade — embora não me pareça um projeto elaborado previamente —, diante dos ataques de agressão impostos pelos EUA e Israel ao Irã, dando início a uma guerra que pode ser sem precedentes, é que, caso o Irã consiga manter sua condição de reação e de enfraquecimento de Israel, ele consiga reconfigurar os arranjos na região, em especial nas monarquias do Golfo. Isto é, se a guerra se estender por mais alguns meses, e o Irã mantiver seu poder de fogo por mais tempo, seu intento de obrigar as monarquias árabes a expulsar as bases militares de seus países e seu domínio sobre a circulação do comércio pelo Estreito de Ormuz poderão modificar significativamente as condições geopolíticas na região, criando uma área de influência iraniana.

O Irã é, sem sombra de dúvida, a grande resistência ao projeto sionista, tendo frustrado Israel de dominar por completo tanto a Palestina quanto o Líbano, apoiando grupos que se insurgem contra o projeto colonial sionista, como o Hamas e o Hezbollah. Além de suas alianças com a Rússia e a China, o Irã conta com a simpatia dos povos árabes (incluindo sunitas) em toda a região; em especial, conta com o apoio incondicional do Ansar Allah (conhecidos como Houthis), no Iêmen, na extremidade sudoeste da Península Arábica. O Ansar Allah já demonstrou seu potencial de controlar o estreito de Bab el-Mandeb, conhecido como “Portão das Lágrimas”, cuja passagem pelo Mar Vermelho liga o comércio ao Mar Mediterrâneo.

Longe de ser uma previsão, esta é uma possibilidade que, apesar de suas enormes nuances, não deve ser descartada. Caso se configure, seus efeitos serão catastróficos para os EUA e Israel, isto é, para o projeto imperial e sionista do Ocidente político-econômico. O pacto Sykes-Picot e todos os arranjos subsequentes impetrados pelo Ocidente no Oeste da Ásia chegariam ao fim: uma reconfiguração geopolítica em que o Ocidente perderia uma significativa zona de influência na região mais importante do mundo quando se trata de petróleo e derivados.

É certo que, caso o Irã consiga estabelecer alguma hegemonia na região do Golfo, Israel não ficará parado; terá que recuar, mas poderá ainda assim manter seu projeto colonial na Cisjordânia e em Gaza, quem sabe também na Síria e no sul do Líbano. Isto é, não sem a inextricável barreira do Eixo da Resistência, sempre disposto a desarticular os avanços sionistas.

sábado, março 07, 2026

MUITO ALÉM DE UMA GUERRA REGIONAL: É GLOBAL.

É comum, mais do que imaginamos, que os eventos de grande irrupção acabem limitando nossa atenção. Quero dizer, tendemos a focar no evento isoladamente, pois sua efervescência dificulta olhar além. É por este motivo, mas não apenas, que temos uma inundação de análises e debates sobre a invasão dos EUA/Israel ao Irã, evidenciando o elemento regional. Alguns analistas afirmam que o "conflito escalou" devido aos ataques iranianos às instalações estadunidenses nas monarquias árabes do Golfo Pérsico. Só após o fechamento do Estreito de Ormuz é que as contribuições de caráter mais global cresceram, mas estas se concentraram nos impactos catastróficos econômicos e, em alguns casos, em como estes podem contribuir para um desfecho da guerra.

Não é tarefa fácil conectar eventos, até porque, na ausência de documentação ou outros tipos de provas ou evidências, resta-nos sempre a especulação. Alguns dizem que tudo gira em torno da China; neste sentido, toda a movimentação agressiva de Trump, desde suas ondas de tarifas até o ataque ao Irã, teria relação com o gigante industrial-tecnológico asiático. Mas e a Rússia? A guerra entre a Rússia e a Ucrânia também teria relação com a China? E a OTAN? A Organização do Atlântico Norte também busca combater a China? Bem, mas o sequestro de Maduro e o controle da Venezuela é evidente que têm relação com a China, dirão alguns. E Israel? Seu projeto escatológico (Eretz Yisrael Hashlemah — A Grande Israel) está relacionado com a contenção da China?

Ontem eu vi alguns comentários sobre a destruição que o Irã causou nos países governados pelas monarquias árabes no Golfo. Aliás, li em algum lugar um comentário irônico interessante, em que se comentou que o Irã havia infligido uma enorme derrota aos "Emirados dos Estados Unidos". Pode até ser perspicaz, mas será que compreende a realidade? É claro que se tratam de países — alguns artificiais — ocupados pelos EUA por meio de suas bases militares, mas ao atacar tais bases militares, centros de comando/inteligência e refinarias de petróleo, o Irã não teria desferido um golpe também na China, uma vez que ela é o maior parceiro comercial do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) desde 2024? A China não importa petróleo apenas do Irã, mas também da Arábia Saudita e de outros países da região do Golfo.

É claro que a China é um "jogador" a ser contido no tabuleiro geopolítico dos EUA; eles deixaram isso claro em sua nova Doutrina de Segurança. O projeto é "deter Pequim por meio de força militar no Pacífico e restringir sua influência na América Latina". A questão é: como? É aqui que o jogo se torna extremamente complexo, uma vez que não é possível desbancar o Dragão economicamente, isto é, no campo da competitividade por mercados. A promessa de Trump da "reindustrialização da América" não passa de um sonho distante (ou uma mentira de campanha para adquirir votos). A dívida pública dos EUA (US$ 36 trilhões) ultrapassou, em 2025, os 120% do seu PIB, podendo chegar a 143% até 2030. O que vem levando à diminuição da aquisição dos Títulos do Tesouro do Tio Sam e à busca por maior diversificação das reservas monetárias por parte dos países, em especial do chamado Sul Global. Além disso, claro, há ainda um movimento de diversificação nas transações comerciais, fomentado sobretudo entre os países do BRICS+ e a OCX (Organização de Cooperação de Xangai), fortalecendo as transações comerciais em moedas locais, criando um processo de desdolarização.

O que os EUA podem fazer então? O que eles sabem fazer como poucos: promover golpes de Estado e guerras eternas. Mas guerra não custa dinheiro? Sim, custa e muito. O que se confunde neste ponto são os interesses dos EUA como Estado-Nação e os interesses do denominado Deep State, ou, se quiserem, o complexo industrial-militar-financeiro-midiático. Estes agentes sociais do Estado Profundo estadunidense, os mesmos que vêm levando o país a uma dívida impagável, estão vendo escorrer por entre os dedos das suas mãos sujas de sangue o capital que outrora estava integralmente sobre seu controle. Não é por outro motivo que as grandes gestoras de fundos de investimentos, como a BlackRock e a Blue Owl, entre outras, limitaram os resgates no seu fundo de crédito privado, após um recorde de pedidos de saída.

Não se trata de Trump e Netanyahu; ambos são peças importantes no tabuleiro, mas trabalham para garantir que os verdadeiros donos do tabuleiro permaneçam com seus trilhões bem investidos. É claro que Trump e Bibi se beneficiam triplicando suas fortunas pessoais através das relações entre os órgãos do Estado — Departamento de Defesa, Tecnologia e outros — e corporações ligadas às suas famílias. Mas as famílias que realmente mandam, as dinastias do Old Money da Costa Leste (os Rockefeller, os Mellon, os Du Pont, os Morgan, entre outros), que vêm elegendo os presidentes dos EUA, são elas quem definem a agenda do Deep State. Sim, novas relações de força emergiram no cenário, os jovens-senhores das Big Techs, os neocons que têm produzido figuras públicas como JD Vance, Marco Rubio e Pete Hegseth.

Digo isto porque é mais que comum atribuírem a Trump toda forma de imbecilidade. Dizem que ele não consegue se deter por mais de um minuto em um assunto; os memes circulam na internet mostrando um Trump senil. No entanto, suas ações demonstram o contrário. A ideia de que os neocons são um bando de idiotas atirando para todo lado é ridícula — o Deep State coordena as ações. Por exemplo, quem pode dizer que o sequestro de Maduro na Venezuela já não era um movimento preparatório para o ataque ao Irã? Vejam o que aconteceu com o preço do petróleo e me digam quem está sentado na maior reserva do mundo. A estatal venezuelana (PDVSA) assinou novos contratos de exportação de petróleo e gás envolvendo as empresas Chevron, BP, Eni, Repsol e Shell, mais que isso, afastando o ouro negro da China, Rússia, Irã, Coreia do Norte e Cuba.

Onde estão os outros grandes exportadores de petróleo? No Golfo Pérsico. As monarquias árabes já anunciaram a suspensão da produção de petróleo, e com as restrições de passagens de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, o preço do barril de petróleo poderá chegar a US$ 100 na semana que vem. Isso explica por que os EUA pouco fizeram para defender os países do Golfo. Quem ganha com isso? Os EUA? Não, o grande capital privado ocidental. Enquanto os grandes acionistas lucram trilhões, os americanos médios verão os preços da gasolina subir exponencialmente, elevando ainda mais o custo de vida por lá. Por outro lado, importantes aliados dos EUA na Ásia também se encontram em uma situação delicada, refiro-me especialmente a Japão e Coreia do Sul (quem sabe a própria Índia).
O petróleo em si não é o motivo da invasão do Irã, muito menos a alegada "mudança de regime"; trata-se de um ato pragmático — com um certo nível de desespero — para garantir a hegemonia do dólar e deter os intercâmbios multimodais, que evidentemente beneficiam a China por um lado, mas por outro vêm reduzindo a dependência dos países em relação ao sistema dólar. Se a China lidera a produção de energias renováveis, com 80% do mercado global, e é a maior geradora de eletricidade do mundo (10.086 terawatts-hora), 40% mais eletricidade que os EUA são capazes de produzir, garantir o monopólio do petróleo é a única alternativa para sustentar sua hegemonia global, baseada no petrodólar. Aqui está também uma explicação plausível para compreender o jogo que os EUA realizam na Europa com a OTAN e a Rússia. A UE foi obrigada a assinar um acordo bilionário com os EUA para comprar energia (especialmente gás) dos EUA, graças à guerra Rússia-Ucrânia; por isso, manter o conflito é importante para manter a UE dependente da energia estadunidense. Além disso, em breve, Japão e Coreia do Sul precisarão ampliar as importações de petróleo dos EUA, tudo em dólar.

Finalmente, sei que me estendi, mas falta um ator fundamental. Não, não falarei do Brasil agora; me refiro à Rússia, a terceira maior produtora de petróleo do mundo e a segunda em gás natural. Como a Rússia não se beneficiaria desta situação? É claro que as oligarquias russas devem estar alvoroçadas com o aumento do barril de brent. A China e a Índia ampliarão suas importações do petróleo russo, apesar das sanções? Tudo indica que sim. A questão é que o impacto do aumento do petróleo nos mais diversos setores irá disparar a inflação no mundo todo, o que certamente, pelo menos no curto e médio prazo, causará a valorização do dólar, podendo prejudicar o rublo russo.

Evidente que nada disso, isto é, as táticas do Deep State, impedirá o declínio da hegemonia global estadunidense; podem até retardá-lo. Sua política de "choque e pavor" levará, mais cedo do que se imagina, ao abandono total das relações de confiança bilaterais entre a maioria global e os EUA. Enquanto a China, que se comporta como o "adulto na sala", seguirá ampliando sua carteira de negócios no modelo "ganha-ganha", até que não restará outra opção aos abutres yankees senão uma guerra direta com o dragão.



  

















segunda-feira, outubro 27, 2025

O BIG STICK ALOPRADO E A DIPLOMACIA DAS CANHONEIRAS: TRUMP E A TENTATIVA DE REFAZER DA AMÉRICA LATINA A ZONA DE INFLUÊNCIA DOS EUA.

A Doutrina Monroe (1823): "A América para os Americanos", uma frase que carrega um duplo sentido, afastar definitivamente os impérios europeus do continente americano e garantir a hegemonia estadunidense na região. Foi por meio desta justificativa que os EUA apoiaram os cubanos em 1898 a expulsarem os espanhóis da ilha. O preço da "independência" dos cubanos foi alto, tiveram que incorporar a Emenda Platt (1901) à sua constituição, cedendo ao seu novo "protetor" a Baía de Guantánamo (1903), onde os EUA construíram uma base militar.  A Emenda Platt, permitiria que o governo estadunidense interferisse militarmente sempre que achasse necessário na ilha, além disso, passaram a controlar a política externa dos cubanos, todos os tratados deveriam passar pelo senado em Washington, por fim, dava aos interventores o direito de arrendar terras. A Emenda Platt teve validade até 1934, quando Fulgêncio Batista assumiu o poder da ilha com apoio dos EUA, mas Guantánamo continua servindo aos governos estadunidenses ainda hoje.

Theodore Roosevelt (1904), adicionou à Doutrina Monroe, um novo elemento intervencionista: a possibilidade de intervir preventivamente diante de uma ameaça europeia na América. Denominado de o "Corolário Roosevelt" tal política externa ficou popularmente conhecida como sua política de "Big Stick", isto porque o próprio Roosevelt gostava de repetir um velho provérbio africano que dizia: "Fale baixo e carregue um grande porrete; você irá longe". Roosevelt expandiu as forças navais e afugentou as embarcações europeias do lado de cá do Atlântico, o que lhe permitiu assumir o projeto do Canal do Panamá, mas como o congresso da Colômbia se recusou a ratificar o tratado Hay-Herran (1903), o presidente estadunidense incentivou um movimento de independência no país, colocando o canhoneiro U.S.S. Nashville em águas panamenhas como forma de dissuadir uma reação do governo colombiano. 

Com base no "Corolário Roosevelt", os EUA realizaram diversas intervenções diretas em seus vizinhos mais próximos na primeira metade do século XX, além de Cuba e Panamá, o Big Stick foi utilizado para intervir na Nicarágua (1912-1926), Haiti (1915-1934) e República Dominicana (1916-1924). Mas coube a Honduras carregar o estereótipo clássico de "República das Bananas", o país sofreu intervenção direta dos EUA em 1903, 1907, 1911, 1919, 1924 e 1925. Todas essas intervenções foram realizadas para atender os interesses da United Fruit. Em 1954, a mesma empresa, contou com a CIA para depor o presidente guatemalteco, Jacobo Arbenz, devido sua proposta de reforma agrária.

Em tese, a política do falar baixo carregando um grande porrete foi substituída pela "Política da Boa Vizinhança", instaurada por Franklin D. Roosevelt em 1934. O jeito democrata de ser, trocou a diplomacia canhoneira por Hollywood, no Brasil o intercâmbio cultural via o Office of Inter-American Affairs (OCIAA), permitiu que artistas como Carmen Miranda e produções como o desenho de Walt Disney, Alô, Amigos (1942), fossem usados para criar uma imagem positiva dos EUA e difundir a cultura americana. No campo econômico, Getúlio Vargas conseguiu empréstimos para criar a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). 

O Escritório de Assuntos Americanos, uma espécie de USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), da época, foi responsável pela dominação cultural dos EUA nas Américas, inicialmente, dedicou-se a promover uma enorme propaganda antinazista em parceria com Reuters e a Associated Press. Com o fim da II Guerra Mundial, a OCIAA, comandada por Nelson Rockefeller, foi descontinuada, com início da Guerra Fria a política externa estadunidense foi efetivada pelo Departamento de Estado, que por sua vez, passou a utilizar a OEA (Organização dos Estados Americanos), criada em 1948 para manter o continente americano sob a influência dos EUA. 

Só na década de 1960, com os acirramentos entre os EUA e a URSS que outras duas estruturas fundamentais foram criadas: a USAID (1961), originalmente um braço de desenvolvimento econômico e o Comando SUL (1963), um braço militar, responsável pelas operações militares e de segurança na América Central e do Sul. 

Ao final da Guerra Fria, o combate ao Comunismo foi dando lugar ao combate ao tráfico internacional de drogas ilícitas. A difusão do conceito "Narcoterrorismo", criado pelo então presidente do Peru, Fernando Belaúnde Terry, foi utilizado sem qualquer pudor pela administração Reagan (1981-1989). A primeira grande operação na América Latina por parte dos EUA foi a Blast Furnace (Forno de Fusão), em 1986, na Bolívia. A partir daí novas intervenções na América Latina sob o pretexto do combate ao narcoterrorismo foram comandadas pelo DEA e o Comando Sul. A Operação Just Cause (1989), que culminou com a invasão do Panamá para prender o então presidente Manuel Noriega, sob acusação de chefiar o narcotráfico no país, pode ser considerada um marco da militarização do combate às drogas. A partir daí novas interferências foram instauradas, a chamada “Iniciativa Andina”, iniciada em 1990, no governo de H.W. Bush, um programa focado na Colômbia, Bolívia e Peru, tinha por objetivo erradicar as plantações de coca nestes países. Enquanto o Comando Sul, liderava as operações e treinava as forças de segurança nacionais dos referidos países, a USAID entrava com o projeto de desenvolvimento econômico visando a substituição da cultura da coca por outras. O projeto fracassou terrivelmente, na Colômbia (Plano Colômbia - 1999), por exemplo, foi intensificado a prática da fumigação de glifosato (herbicida), com o objetivo de destruir as plantações de coca. A iniciativa foi desastrosa, comprometeu o solo, a água, impedindo o plantio de novas culturas e gerou enormes consequências de saúde pública para os agricultores locais, além disso, os cultivos de coca foram deslocados para áreas mais remotas. 

Peço desculpas pela longa introdução, nós historiadores somos forjados para contextualizar ao máximo as ações do presente. Entendemos que a história não se repete, claro, mas o passado pode elucidar certas práticas no presente e nos ajudar compreender que tais práticas podem ser "atualizações" ou "reformulações" combinado com "continuações" de práticas passadas. Vejamos o caso mais recente, a saber: as ameaças de interferência direta por parte do presidente dos EUA, Donald Trump, a diversos países da América Latina (Panamá, México, Venezuela e agora a Colômbia). O que há nesse caso que se encaixaria em continuidades, reformulações ou atualizações? 

Se lembrarmos bem, o próprio Trump recorreu a certas práticas do passado, em março de 2025 ele mencionou a chamada Lei dos Inimigos Estrangeiros de 1798, para justificar a intensificação de sua política anti-imigração. Eu não negaria, portanto, que ao mover o grupo de ataque (naval e aéreo) USS Gerald Ford para o mar do Caribe, que ele esteja reeditando a "diplomacia canhoneira" ou o "Corolário Roosevelt". Por outro lado, devemos reconhecer que o lema "Fale baixo e carregue um grande porrete", não combina com Trump; ele grita e exige. Talvez, seja esta a razão pela qual sua administração tenha cortado os investimentos para a USAID, revoluções coloridas não são seu estilo. Seu egocentrismo megalomaníaco é incompatível com a lógica dos democratas, ele assassina e diz que está assassinando, abro aspas: "Acho que vamos apenas matar as pessoas que estão trazendo drogas para o nosso país. Certo? Vamos matá-las."  Quer dizer, ele não se importa de cometer crime internacional à luz do dia. 

O que há de diferença categórica entre o Big Stick de Roosevelt e o de Trump é o contexto histórico, enquanto Roosevelt procurava com seu porrete garantir uma hegemonia política e econômica na América, afastando as potências imperialistas europeias. Trump busca retomar uma suposta hegemonia que teria sido perdida para a China. E é aí que tudo muda, pois a China não é nem de longe uma potência imperialista ocidental. Os impérios ocidentais da primeira metade do século XX eram colonizadores neoclássicos, ocuparam os povos não ocidentais sob a justificativa pseudocientífica da obrigação moral de levar a civilização, era o "fardo do homem branco", como escreveu Rudyard Kipling em 1898. A China por sua vez, chega com oportunidades de ganhos, de incremento tecnológico e desenvolvimento. É claro que ela se beneficia grandemente com isto, seu projeto é criar um grande corredor de negócios por todo o mundo absolutamente independente do chamado ocidente coletivo, o que não impede de ligar o ocidente as suas rotas. É bom lembrar que o gigante asiático hoje é o maior parceiro (ou um dos maiores) comercial de boa parte dos países da América do Sul. 

Essa condição única, isto é, a capacidade competitiva da China, que vem resultando em uma certa interdependência do chamado Sul Global em relação ao sistema monetário ocidental, requer uma estratégia de longo prazo por parte dos EUA e seus aliados da UE e OTAN. Se o jogo tarifário de Trump, ou seja, se suas imposições por tarifas estiverem associadas a um protecionismo que visa a longo prazo a reindustrialização dos EUA — parece que ninguém tem certeza se está ou não — isto poderia, em um futuro distante, reintroduzir o país no jogo das grandes competições (embora não há garantias claras que isso possa acontecer). O que percebemos, entretanto, é que o planejamento a longo prazo não é uma característica dos ocidentais, suas oligarquias preferem, mediante as crises cíclicas de seu sistema econômico, realizar golpes e sabotagens, promover guerras e sacrificar ainda mais suas próprias populações. 

O que Trump quer então com a Venezuela e Colômbia? Todos sabem que o argumento de combate ao narcotráfico é uma desculpa velha. Sabemos que os verdadeiros narcotraficantes não residem na América Latina, eles possuem mansões em Miami, no Havaí, ou em alguma outra ilha atlântica. Eu diria então, que a questão tem relação com a dominação energética. Lembremos que a operação que os EUA vêm produzindo na Europa, via OTAN, com a guerra por procuração da Ucrânia, tem sido até aqui, substituir o fornecimento energético europeu que até então era provido pela Rússia. O caso da sabotagem que resultou na explosão do gasoduto que transportava gás natural da Rússia para a Alemanha pelo Mar Báltico (Nord Stream 1 - em 2022), é um exemplo, há muitos outros. Não digo com isso que todo interesse dos EUA com a guerra da Ucrânia e Rússia se resuma a isto (Já escrevi aqui a esse respeito).

Há muitas análises que discutem as dificuldades e desafios da produção de petróleo dos EUA — Veja as de Stanislav Krapivnik —, apesar de ser o maior produtor do mundo (Texas, Costa do Golfo, Alaska), trata-se de um petróleo com baixo teor de enxofre (light sweet), só que suas refinarias são projetadas para processar petróleo pesado e com alto teor de enxofre (heavy sour), além disso, a infraestrutura de oleodutos para distribuir internamente o petróleo doméstico é deficiente, o que faz da importação um negócio mais rentável. Por outro lado, o BRICS atualmente, concentra em torno de 44% do petróleo mundial. Vejamos, a Rússia é segundo maior produtor do planeta, o Irã (quarto maior produtor) acabou de encontrar uma nova e abundante reserva em Pazan, já o Brasil está prestes a potencializar sua produção no Amazonas e a Venezuela segue possuindo as maiores reservas do mundo. A China, por sua vez, vem comprando todo esse petróleo, ao mesmo tempo em que desenvolve o maior projeto mundial de energias alternativas. Portanto, não se enganem, mais que os petrodólares venezuelanos, o que os EUA estão fazendo é desafiando a China e a Rússia, grandes parceiros do chavismo. Não esqueçamos da fala de Pete Hegseth, Secretário de Defesa (agora de Guerra) em abril deste ano, ao dizer que os Estados Unidos irá "recuperar o nosso quintal".

Trump irá invadir a Venezuela ou vai manter uma reedição da "diplomacia canhoneira" visando trocar o regime Maduro? Sigo acreditando na segunda hipótese. Os custos operacionais, sociais e políticos de uma invasão serão enormes para os EUA. Se Trump tiver sucesso na troca de regime, se a nova prêmio Nobel da paz, Maria Corina Machado assumisse o governo venezuelano, o grande capital estadunidense teria acesso a outras riquezas no país, como as minas de ouro, diamante e outros minerais como lítio e coltan. O problema é que o chavismo aprendeu a lição com os sucessivos golpes liderados pelos EUA nas Américas — como foi o caso do Chile sob o governo de Salvador Allende, derrubado pelos próprios generais comandados por Augusto Pinochet — na Venezuela, o exército é chavista/bolivariano, mas não só, a sociedade venezuelana, em sua maioria, também é. Assim, uma invasão por terra na Venezuela, pode representar um Vietnã na América do Sul para os EUA. 

Há ainda, o risco de arrastar a Colômbia para o conflito, caso ocorra, não temos como saber se as organizações paramilitares como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e grupos dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) seriam arrastados para as fronteiras com a Venezuela e de que lado lutariam, isto porque, tais grupos não são monolíticos, há grupos dissidentes com interesses diversos. Mas é bom lembrar que Gustavo Petro e Nicolás Maduro estão em consonância. 

Aguardemos. 



domingo, outubro 12, 2025

A SOCIEDADE ENVENENADA: PARA ALÉM DO METANOL.

 A escolha deste título tem relação com uma série de autores que procuram fazer um diagnóstico do seu tempo, desde a obra do francês Guy Debord "A sociedade do Espetáculo" (1967), quando este percebeu que o advento da televisão e da propaganda alterou as formas de relações sociais, que as experiências da vida haviam sido substituídas por uma profusão de imagens e representações, o "parecer ser" se tornara mais importante do que ser. 

Alguns anos depois foi a vez do sociólogo alemão, Ulrich Beck, que escrever sua "Sociedade de Risco: rumos futuros de nossa modernidade"(1986), logo após o chamado acidente nuclear de Chernobyl. Beck constatou que os perigos aos quais a sociedade estava sujeita não eram mais os das catástrofes naturais, mas sim fabricados de forma industrial, exteriorizados economicamente, individualizados no plano jurídico, legitimados no plano das ciências exatas e minimizados no plano político. 

Desde então uma série de autores recorreram ao título "Sociedade do (a)" para tecer seus diagnósticos, a ideia é que se trata de um problema que abrange todo o tecido social, uma questão que foi inserida de alguma maneira no cerne de nossa forma de existencial, mas é claro que tais análises correm o risco de um tipo de universalismo perigoso. No entanto, tratam-se de grande contribuições. Refiro-me por exemplo, a obras como a de Gilles Deleuze, "A sociedade de Controle" (1992), em que o filósofo francês se dá conta de que a "sociedade disciplinar" (de Foucault), estava sucumbindo, de modo que o poder não operava mais pela vigilância via instituições (escola, prisões), mas sim pela trilhas deixadas pelos indivíduos no mundo digital: algoritmos, máquinas computacionais e redes se tonam os principais meios de controle, os dados são utilizados para influenciar comportamentos e decisões. Por outra ótica, Manuel Castells, "A sociedade em Rede" (1996), trata do advento da internet propiciou a descentralização da comunicação. 

Mas foi o filósofo coreano, Byung-Chul Han, que mais abusou desse formato de análise, em sua "Sociedade da Transparência" (2012), o autor utilizou diversas outras categorias para expressar a sociedade contemporânea, a cada capítulo encontra-se uma, por exemplo, no capítulo 1º trata da "sociedade positiva", seguido de sociedade da exposição, sociedade da evidência, sociedade pornográfica, sociedade da aceleração, sociedade da intimidade, sociedade da informação, sociedade do desencobrimento, até culminar no capítulo final, sociedade do controle. Porém, foi com sua "Sociedade do Cansaço" (2014), que Byung-Chul Han tornou-se mais conhecido no Brasil. Uma análise em que o autor observa a passagem do sujeito da obediência (Foucault), para o sujeito do desempenho, enquanto no primeiro caso nossa subjetividade era forjada por uma autoridade externa, no segundo caso, nos forjamos de dentro para fora, via um mecanismo de autopunição ou autocobrança, pior: autoexploração.

Sem me alongar mais sobre estas referências, penso que nos falta um “diagnóstikós” (em grego: capaz de distinguir, de discernir) sobre as sequelas que vão além da subjetividade neoliberal, embora não sejam desconectadas delas, mas que se manifestam no corpo. Esse corpo neoliberal, é um corpo envenenado por diversas formas. Os grandes oligopólios possuem licença para nos envenenar. Envenenam nosso ar, nossa água e nossa alimentação. 

O recém caso do metanol nas bebidas alcóolicas e a frase do governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas — "No dia que começarem a falsificar Coca-Cola, eu vou me preocupar"— me incentivou a escrever esse "diagnóstico". Não necessariamente pela incessibilidade do político (que almeja ser presidente), ou pelo caso bizarro de falsificações generalizado de bebidas alcóolicas, mas pela naturalização da Coca-Cola como uma bebida que precisaria ser alterada de alguma forma para fazer mal ao corpo humano. A bebida "refrigerante", é em si mesma um veneno que há décadas contribui para um dos maiores desastres de saúde mundial que é a diabetes (tipo 2). 

Nossos corpos são invadidos por toda sorte de venenos diariamente, muito além do ar que respiramos (IQAR - Dióxido de Enxofre, Dióxido de Nitrogênio, Ozônio e Monóxido de Carbono), nós ingerimos alimentos legalmente envenenados. Nossa vasta agricultura, regada a pesticidas — que a bancada rural decidiu chamar de "defensivos" — também conhecidos como agrotóxicos, chegam a quase 3 mil tipos no Brasil. A indústria de ultraprocessados — dentre as quais encontram-se as gigantes Nestlé, PepsiCo, Coca-Cola e JBS — é outro exemplo de como somos envenenados em grande escala diariamente. A alimentação de ultraprocessados está associada a doenças metabólicas, cardiovasculares, certos tipos de câncer e até doenças mentais. 

Não comemos alimentos ou bebemos líquidos que não estejam contaminados por conservantes como ácido benzoico e seus sais, ácido sórbico e seus sais, nitratos e nitritos, dióxido de enxofre, ácido propiônico e seus sais, parabenos, dentre outros. Pior, algumas empresas, como na crise econômica durante a pandemia, aproveitaram para vender alguns alimentos "similares" aos originais, como a bebida láctea (a base de soro de leite - para substituir o creme de leite), o composto lácteo (para substituir o leite em pó - com menos gordura e proteínas), o óleo composto (uma mistura de óleos vegetais - vendida no lugar do azeite) e o chamado café fake (à base de café, mas que pode conter cascas e impurezas do grão).

Mas a tendência a enganar o consumidor não se restringe aos tempos pandêmicos, somos induzidos a comprar linguiça calabresa, mas acabamos levando linguiça "tipo calabresa" — uma linguiça que contém misturas de outras carnes e até proteína de soja — os presuntos, queijos que compramos de empresas como Sadia, Perdigão e Seara, estão muito longe de serem o que dizem ser. Assim como a calabresa, nossa mussarela também é "tipo mussarela", o que significa que é cheia de corantes, aromatizantes, estabilizantes e aditivos. Não se trata de fraude, é prática com aval das agências reguladoras. 

Outra grande envenenadora do mundo é a indústria farmacêutica, sim, a indústria que deveria nos curar, nos envenena. Não se trata de retomar o paradigma de Paracelso (o médico suíço-alemão do séc. XVI) de que "Todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio." É claro que o sol é fonte de saúde, mas em excesso pode nos matar. Não se trata disso, mas sim que a indústria farmacêutica nos envenena deliberadamente inventando uma gama de "doenças" e "transtornos" sobre os quais ela detém o monopólio da cura. 

A produção do adoecimento é um fenômeno inerente ao capitalismo, ao invés de se alterar o modo de produzir, o modelo desenvolve formas de mantê-lo a todo vapor, somos a sociedade do fast-food que não cessa de trabalhar para que os 1% mais ricos possam maximizar seus lucros. Enquanto brincam em seus bancos de investimentos, eles nos envenenam e quando adoecemos, nos medicam. Um ciclo de exploração, adoecimento e morte. 

Tal ciclo vem atingindo as faixas etárias mais baixas — poupadas há pelo menos umas duas décadas atrás — nossas crianças e adolescentes entraram na esteira da linha de produção de modo acelerado. Qualquer professor do ensino básico consegue observar a multiplicação do adoecimento — TEA, TOD, TDAH, TAG — a medicalização da infância e adolescência é a solução proposta para apaziguar o modo como estamos transferindo aos nossos filhos e netos a nossa própria doença: performar incessantemente. Da mesma forma, qualquer profissional da saúde atento percebeu o aumento de transtornos no DMS-5 em relação ao DSM-4 (como o transtorno de acumulação compulsiva, o transtorno de escoriação e o transtorno disfórico pré-menstrual), além destes, há ainda outra novidade, que alguns críticos chamaram de medicalização do luto — uma orientação que permite diagnosticar indivíduos com depressão estando estes de luto a menos de dois meses.

Por último, não menos perigoso, devemos considerar o papel da indústria de cosméticos, usamos cremes que fazem mal a pele, shampoo que fazem mal ao cabelo, creme dental que prejudicam os dentes, isso parece loucura? E é loucura, mas é assim que funciona o mundo do lucro acima de todos e tudo. Portanto, não se trata de adulterações que ocorrem a revelia das regulações — embora estas também existam — se trata de uma prática imposta à sociedade pelos oligopólios e conglomerados dos mais diversificados ramos, que é regulada por organismo reguladores que foram criados e estão a serviço destas mesmas empresas.