terça-feira, agosto 11, 2026

ABANDONEM TODA A ESPERANÇA: UMA ODE AO REALISMO

"Abandonem toda a esperança, aqueles que aqui entrarem." Creio que esta frase é conhecida por alguns dos meus leitores; trata-se da inscrição feita no portal de entrada do reino dos condenados — sim, refiro-me à obra "A Divina Comédia", de Dante Alighieri (séc. XIV).

Se há um lugar onde se pode deixar para trás qualquer esperança, este lugar é o inferno. Fora este caso, que tipo de existência pode haver sem a esperança? Imagino que até aqueles que nada necessitam, cujos proventos lhes são mais que suficientes — incluindo as próximas gerações —, não podem abdicar da esperança. Como diz o ditado popular, "a esperança é a última que morre". Essa frase, por sinal, tem relação com o mito grego da "Caixa de Pandora" (que nunca foi uma caixa, na verdade, e sim um jarro).

Pandora, a primeira mulher — criada por Hefesto a mando de Zeus —, é enviada à Terra para se tornar companheira de Epimeteu, irmão de Prometeu, castigado por Zeus por ter entregado o fogo aos humanos. Pandora era uma continuação do castigo, agora estendido a toda a humanidade, pois o jarro que ela carregava continha todos os males do mundo. Ela, porém, não sabia disso; só se deu conta ao abri-lo. Quando percebeu seu erro, tentou repará-lo tampando o jarro, e foi então que se deu conta de que a única coisa que restou no seu fundo não era outra maldição, praga ou doença: era a esperança.

O mito grego, atribuído a Hesíodo, traduz a moral da resiliência humana calcada na esperança. Auxilia na conformação social diante das injustiças e de tantas outras maneiras pelas quais sofremos. A esperança é aquela que persiste quando nada mais há para nos sustentar; é a única que não se vai quando tudo desaparece.

Mas a esperança não seria, também, geradora de ilusão? Não teria ela a mesma origem psicossocial da religião? Freud, em "O futuro de uma ilusão" (1927), diferenciou a ilusão da mentira: enquanto a mentira é a distorção deliberada da verdade, a ilusão seria produto do desejo, motivada pelo desamparo e pela impotência diante de um futuro incerto.

Anos antes de Freud, o filósofo Baruch Spinoza, em seu "Tratado Teológico-Político" (1670), defendeu que tanto a esperança quanto o medo (temor) são afetos inseparáveis; ambos nascem da nossa ignorância sobre o futuro e da nossa impotência perante os acontecimentos. Para Spinoza, tanto as religiões quanto os regimes políticos autoritários fazem o uso flutuante dos dois afetos — entre o temor e a esperança — para obter a submissão supersticiosa. Como escapar a esta condição? Tanto em Spinoza quanto em Freud, a saída é uma só: a razão. Freud sugeria substituir a fé pela razão e a ciência (o Deus Logos); assim, poder-se-ia chegar à maturidade psicológica diante da cultura. Spinoza, por sua vez, via a combinação temor/esperança como afetos de tristeza (passivos); apenas o conhecimento sobre as leis da natureza poderia produzir a alegria pura.

Mas como existir sem esperança? Como lidar com as causas (im)prováveis sem a paixão que tanto pode gerar em nós ânimo ou desânimo? O que seria de nós se simplesmente desistíssemos de esperar por um mundo melhor? Talvez pudéssemos inverter a questão, porque parece que o mundo não melhorou apesar de tantas pessoas desejarem ou esperarem que ele ficasse melhor. É aqui que entra minha ode ao realismo.

Não vou me ocupar em destrinchar o pensamento realista político e seus desdobramentos teóricos (realismo estrutural ou neoclássico, entre outros). Meu objetivo é refletir com base na história, portanto, com fundamentação nos dados do passado. E o que estes dados indicam? Que a humanidade nunca viveu em paz. Tivemos períodos mais pacificados, com redução de conflitos, sejam estes intranacionais ou internacionais. Se nos detivermos nos dois últimos séculos, o XIX e o XX, uma quantidade enorme de conflitos pode ser listada: as revoluções liberais e as contrarrevoluções, as guerras imperialistas, os massacres e genocídios neocolonialistas, as duas grandes guerras, as guerras anticoloniais e anti-imperialistas na Ásia, na América e na África.

Enquanto bilhões de pessoas se uniam no final do último milênio — vestidas de branco — na esperança de que o novo século que se aproximava fosse um século de paz e prosperidade... O que vimos até aqui? Mais guerras e mais conflitos. Tivemos os EUA invadindo o Afeganistão e o Iraque, atacando o Iêmen e o Irã, impondo um bloqueio criminoso a Cuba e promovendo o sequestro — igualmente criminoso — de Maduro. Além disso, provocaram, juntamente com Israel, uma guerra civil na Síria, invadiram o Líbano e produziram a maior tragédia de todas: a limpeza étnica em Gaza. Temos também o maior conflito em solo europeu desde a Segunda Guerra, com a Ucrânia sendo usada como bucha de canhão pela OTAN/EUA contra a Rússia. Tivemos conflitos violentos entre Azerbaijão e Armênia, Índia e Paquistão, Camboja e Tailândia.

No continente africano, a vida segue sendo permeada por conflitos e guerras: no Congo, no Sudão, na Somália. A região do Sahel (Mali, Burkina Faso e Níger), que, apesar das particularidades, tem em comum as intervenções de agentes ocidentais com o objetivo de desestabilizar as nações para manter o controle sobre seus recursos naturais. Casos mais recentes, como os movimentos civis anti-imigração de forte teor xenofóbico na África do Sul, guardam, por sinal, alguma semelhança com o que vem ocorrendo na Irlanda do Norte. O resultado tem sido a violenta expulsão de milhares de famílias. Apesar das singularidades, há em comum a equivocada culpabilização dos imigrantes pela desgraça econômica: desemprego, inflação dos alimentos, alta dos aluguéis, entre outros.

A realidade nua e crua — geradora de temor — é amplificada por grupos sociais (neoconservadores/reacionários e neoliberais) que alteram o sentido da crise econômica, produzida por uma política de formação de oligopólios e concentração de renda e riqueza, transformando-a em uma crise moral, resultante da "invasão" de valores estrangeiros, corruptos, inferiores, demoníacos. O africano, o chinês, o russo, o latino-americano... representam a destruição de um tempo em que a vida era realmente boa e segura — tempo este que nunca existiu. Assim, o temor e a esperança se entrelaçam, uma vez que, segundo estes grupos, a única forma de restaurar (esperança) o "tempo da segurança" ou dos "valores superiores" é eliminando as ameaças (temor) do presente.

Assim, se tivermos que produzir alguma violência para chegar a tal objetivo, que seja. Trata-se de fazer tudo o que pudermos para atingir um "bem maior". Se precisarmos eliminar certos direitos e liberdades, tudo bem — o "inimigo" só pode ser derrotado desta forma. É assim que os fascismos emergem.

O que pode ocorrer quando não somos conduzidos por projetos esperançosos de futuros idílicos? Como lidar com a realidade carregada de toda forma de insegurança e violência, quando não se pode recorrer à esperança? Alguns pensadores se debruçaram sobre essas questões. Escolhi alguns, não porque eu creia que eles tivessem a resposta, mas porque apresentaram possibilidades que escapavam da fórmula dominante da esperança.

Por exemplo, Albert Camus, em "O Mito de Sísifo" (1942) e, mais adiante, em "A Peste" (1947), apresenta a noção de "absurdo"; esta nasce justamente do confronto entre o desejo humano de sentido e um mundo que não oferece esse sentido. No lugar do binômio esperança/temor, o filósofo "absurdista" propõe a "revolta", isto é, viver plena e lucidamente apesar da ausência de garantias, sem recorrer a consolos metafísicos. Em "Sísifo", a revolta — a atitude individual diante do absurdo (empurrar uma rocha redonda morro acima pela eternidade) — converte o empurrar em um ato digno em si, uma vez que não há sentido em esperar que a rocha pare de rolar morro abaixo um dia. Já em "A Peste", a discussão é sobre a coletividade que, diante de um mundo indiferente (o absurdo) — que mata indiscriminadamente culpados e inocentes —, vê confrontada a demanda humana por sentido com a crueldade silenciosa da morte. O jeito para isso não é procurar explicações metafísicas, mas, como sugere a personagem da obra de Camus, o Dr. Rieux, a decência comum: trabalhar com honestidade sem esperar por uma vitória final, ou seja, não ficar passivo diante do absurdo (a peste).

Poderíamos recorrer ainda a Emil Cioran, autor, dentre outras obras, de "No Cume do Desespero" (1934), para quem a esperança é um tipo de patologia que nos mantém presos ao sofrimento da expectativa. Sua saída é a lucidez desencantada: encarar o vazio que se apresenta diante de nós sem tentar preenchê-lo com sonhos ou promessas. Uma proposição semelhante há em Zygmunt Bauman: em suas obras "Modernidade Líquida" e "Medo Líquido", vemos um tipo de diagnóstico (ocidental) da dissolução das estruturas que davam segurança (emprego estável, comunidade, projetos coletivos de longo prazo), produzindo insegurança crônica e desamparo. No lugar da esperança, Bauman insiste que reconhecer tal condição com clareza é o passo fundamental para não sermos paralisados pela realidade.

Mas, se eu tivesse que optar por uma proposição, ficaria com a de Graciliano Ramos. Tanto em "Angústia" (1936) quanto em "Vidas Secas" (1938) e em "Memórias do Cárcere" (1953), encontramos em Graciliano um olhar direcionado ao presente, com honestidade e sem disfarces, sem busca por consolo ou reparação: há apenas a dignidade em existir. Em "Vidas Secas", não há um discurso de resistência ou redenção, porque os personagens não têm acesso sequer à retórica da esperança, tampouco há a revolta consciente diante do absurdo — apenas fuga, trabalho, fome, fuga de novo... uma persistência existencial anterior a qualquer elaboração filosófica. Já em "Angústia", Luís da Silva não tem projeto de futuro nenhum: trata-se de um homem medíocre, fracassado, humilhado por Julião Tavares (seu rival de classe e de amor). A narrativa documenta o apodrecimento interno: a violência, nesse caso, não vem da seca, mas é psíquica, fruto da humilhação social e afetiva — e desemboca, ao final, em um assassinato quase sonâmbulo, cometido em estado de dissociação. Não há redenção, justiça poética ou qualquer tipo de alívio moral, apenas o colapso. Algo semelhante é encontrado em "Memórias do Cárcere": Graciliano, preso arbitrariamente em 1936, explora o cotidiano brutal do sistema prisional da Era Vargas. A mistura de presos comuns e políticos no mesmo espaço, transferidos em navios-prisão; as engrenagens perversas do poder institucional — tudo isso e muito mais é relatado com absoluta objetividade, nada de autocomi
seração,  de romantização das condições prisionais, trata-se de um texto sem excessos  retóricos, linguagem enxuta e direta, espelhando a realidade nua e crua. 

Talvez seja este o convite que a inscrição do inferno de Dante nos faz: não uma sentença de desespero, mas um convite a despir-nos das ilusões que a esperança, tantas vezes, nos impõe. Abandonar toda a esperança não significa render-se à passividade ou ao cinismo, mas recusar o conforto fácil das narrativas de salvação — sejam elas religiosas, políticas ou ideológicas — que insistem em prometer um mundo melhor sempre adiante, nunca aqui. Se Pandora nos legou a esperança como consolo diante dos males do mundo, talvez o gesto mais honesto, hoje, seja fechar novamente o jarro e olhar de frente para o que resta: a guerra, a fome, a violência, sem disfarces metafísicos. É isso que Camus, Cioran, Bauman e, sobretudo, Graciliano Ramos nos ensinam, cada um a seu modo: que existe dignidade — e não derrota — em enxergar o real sem os véus da esperança ou os fantasmas do medo. Esta é, portanto, minha ode ao realismo: não uma celebração da resignação, mas da lucidez; não uma negação da luta, mas sua depuração das promessas vãs. Resta-nos, como a Sísifo, empurrar a pedra — sabendo que ela sempre voltará a rolar — e, ainda assim, seguir empurrando, não porque essa é a única forma verdadeiramente digna de habitar o mundo tal como ele é, mas pelo menos é honesta. 

quinta-feira, julho 16, 2026

A INFÂNCIA ESFACELADA: A PERVERSIDADE OCIDENTAL CONTRA AS CRIANÇAS DO MUNDO.


A alegria sempre vem depois da tristeza,
o sol brilha depois da noite escura,
Gaza será feliz, Gaza será brilhante,
Gaza será livre, Gaza viverá em paz.
(Ziad Medoukh - trecho do poema "Esperanças de Gaza", página 108).
Extraído de: Poèmes d’espoir dans la douleur  de Ziad Medoukh (2016).

Quando Ziad Medoukh — pedagogo e poeta — escreveu seus Poèmes d’espoir dans la douleur (Poemas de esperança em meio à dor), não podia ter imaginado que a dor aumentaria em níveis inimagináveis para as famílias de Gaza; a esperança teria que esperar. Ziad não abandonou seu povo. Mesmo podendo partir por ter relações no mundo francófono, o professor resolveu ficar por sua família, mas, acima de tudo, pelas crianças. 

Hoje, com 85% da infraestrutura de Gaza destruída, quase 90% da população, aglomerada na metade sul da faixa, vive em barracas. A "ajuda humanitária" controlada por Israel é pura necropolítica. Segundo Ziad — em entrevista recente a Felix Marquardt (no Neutrality Studies) — "não há vida em Gaza, só uma sobrevivência diária", e o amanhã é incerto. Mas, apesar da incerteza e da fome administrada como tática para matar qualquer esperança, Ziad diz que as crianças seguem sendo a principal inspiração para os adultos. Elas sorriem e brincam entre os escombros, estudam em meio às ruínas, sem material escolar, sem lousa na parede; a esperança pura.

Segundo a UNICEF e a OMS, cerca de 20 mil crianças foram assassinadas pelo regime israelense; contando os feridos, o número ultrapassa os 50 mil. As crianças que sobreviveram — até agora —, além dos ferimentos físicos, sofrem de desnutrição severa, orfandade, deslocamentos constantes, medo e o horror de novos ataques, uma situação que traz consequências psicológicas irreparáveis. 

As elites políticas e econômicas ocidentais são as grandes responsáveis por esta tragédia humana. Uma tragédia que não reside apenas nos perpetradores diretos da limpeza étnica e do genocídio — de um total superior a cem mil palestinos —, mas no apoio direto do Ocidente, seja fornecendo os suprimentos bélicos para a destruição, seja silenciando as vozes que denunciam o genocídio, seja ocultando as imagens ou distorcendo a "narrativa".

As crianças de Gaza são o exemplo extremo de como o discurso ocidental se manifesta de forma nefasta, uma vez que a infância é defendida prioritariamente nos países ocidentais. Existe toda uma rede de proteção à criança alemã, inglesa, belga... uma bronca mal dada por uma professora na escola pode se tornar um processo por danos emocionais. Mas as crianças palestinas sobreviventes não demovem o Ocidente. As quase 40 mil crianças congolesas trabalhando em condições desumanas em minas de cobalto — para que a Apple, Google, Tesla e outras possam seguir com seus projetos trilionários — não geram qualquer reação; a comunidade ocidental não irá propor um boicote global contra essas empresas. Ao contrário, cria-se um quadro mórbido de que tal miséria é fruto das "guerras tribais" em um "país atrasado". 

A perversidade ocidental é antiga. Desde que se converteram em impérios coloniais, os ocidentais realizaram barbaridades contra crianças e mulheres não ocidentais. No início do século XX, os alemães produziram seu primeiro grande genocídio contra os Herero e os Namaqua — no que hoje chamamos de Namíbia. Milhares de crianças morreram de desidratação e fome no deserto. As sobreviventes foram levadas para campos de concentração (como o de Shark Island), onde sofreram abusos, trabalhos forçados e foram alvo de experimentos médicos racistas brutais.

Os EUA, ao longo da Guerra no Vietnã, invadiram a vila de Sơn Mỹ em 1968. Soldados estadunidenses estupraram, torturaram e assassinaram sistematicamente centenas de mulheres; dezenas de crianças foram encurraladas em valas comuns e fuziladas à queima-roupa. Há muitos outros exemplos, mas são os casos mais recentes que nos interessam aqui.

Além das crianças palestinas, podemos olhar para o ataque aéreo dos EUA e Israel a uma escola de meninas em Minab, no sul do Irã, que matou 168 crianças e 14 professores. A insensibilidade demonstrada pelo Ocidente se converteu em críticas das elites europeias à retaliação do Irã aos aliados dos EUA no Golfo, mas não se ouviu nem uma palavra sobre as meninas de Minab.

Essa moral ocidental — que decide quais são as crianças "matáveis" e quais são as que devem ter a infância protegida — foi fundamentada no racismo. Só existe a "infância branca ocidental". As crianças negras, indígenas, eslavas, asiáticas... ou seja, a maioria das crianças do mundo, são vistas como um fruto indesejado. Elas crescerão e se tornarão uma ameaça: poderão imigrar para os países ocidentais ou, caso consigam estudar e se politizar, poderão ser responsáveis por desenvolver seus próprios países, tornando-os autônomos. Em ambos os casos, essas crianças representam um perigo para o status quo.

Por isso mesmo, desde cedo, elas devem ter apenas o mínimo para sobreviver e o mínimo de educação, de modo que se tornem mão de obra barata no futuro. Assim, quando as crianças ocidentais crescerem — devidamente educadas nesta lógica perversa —, ao se tornarem adultas, terão à sua disposição um exército de mão de obra barata para reproduzir o ciclo.
















sábado, junho 20, 2026

A GRANDE ÁSIAEURO E O DECLÍNIO DO OCIDENTE POLÍTICO-ECONÔMICO.

Em 1904, o geógrafo inglês Halford John Mackinder escreveu um artigo para a Real Sociedade Geográfica (Reino Unido), intitulado The Geographical Pivot of History (O ponto de virada geográfica da história). No artigo, Mackinder popularizou o conceito de Heartland (Teoria do Heartland), uma região vasta, com abundância em toda espécie de riquezas localizada no centro da Eurásia, cuja extensão se dava do Volga ao Yangtzé e do Himalaia ao Ártico — região esta controlada principalmente pelo Império Russo na ocasião.

Mackinder procurava resolver uma questão fundamental para a Grã-Bretanha, senhora das rotas marítimas. Para o geógrafo, o controle das águas seria insuficiente para garantir a hegemonia comercial do mundo; era necessário dominar o coração da Europa Oriental. Só assim se poderia controlar a Ilha-Mundo, um conceito para definir um supercontinente (Euro-Afro-Asiático). O geógrafo sintetizou sua estratégia ao afirmar que "Quem governa a Europa Oriental controla o Heartland. Quem controla o Heartland controla a Ilha-Mundo. Quem controla a Ilha-Mundo controla o Mundo." (MACKINDER, 1996, p.106).

Cabe ressaltar que esse supercontinente já havia experimentado uma rede de conexões comerciais anteriormente. Refiro-me à antiga Rota da Seda, que por mar partia de Cantão na China, pelo Oceano Índico, passando por Cochim (Índia), Mascate e Adém (Arábia). De lá, podia-se ir para Mogadício (Somália) e Mombaça (Quênia), ou, entrando pelo Mar Vermelho, adentrava-se o Mediterrâneo em direção a Roma. Por terra, a Rota da Seda percorria uma longa distância que ligava a China à Índia, em direção à Pérsia, passando por Damasco e Tiro até Antioquia (Síria), onde se ligava ao Mediterrâneo.
Sabemos que quando se fala em Rota da Seda, é comum associá-la aos chineses. Sim, os chineses tinham um papel fundamental nessa enorme rede de comércio, mas nunca tiveram monopólio. A Rota da Seda era, na verdade, uma rede comercial amplamente multipolarizada — para usar um termo da moda. Em 1453, o Império Otomano fechou as rotas terrestres para o Ocidente. Com a criação da Companhia Britânica das Índias Orientais em 1600, os ingleses aos poucos foram monopolizando as rotas marítimas entre a Índia e a China.

Ao longo do século XIX, a Grã-Bretanha e o Império Russo envolveram-se em uma série de conflitos indiretos pelo controle da Ásia Central e do Sul, período conhecido como o 'Grande Jogo'. Enquanto os russos buscavam expandir sua influência e acessar portos de águas quentes, os britânicos agiam estrategicamente para proteger a Índia, a 'joia da coroa'. Esse cenário moldou a visão de Mackinder. Ele percebeu que a construção da ferrovia Transiberiana (1891-1916) permitiria à Rússia conectar a Europa à Ásia, criando uma rota terrestre imune ao controle marítimo e às tarifas portuárias britânicas. O perigo para a Grã-Bretanha seria ainda maior caso se concretizasse uma aliança entre a Rússia e a Alemanha. Embora a complexidade total desse período vá além do escopo deste texto, tal panorama evidencia a centralidade da infraestrutura de transportes na geopolítica da época. Além do mais, há autores — como Timofei Bordachev — que minimizam a existência do "Grande Jogo"

Saltando para a segunda metade do século XX, mais precisamente após a derrubada da União Soviética e o fim da Guerra Fria, o que veremos? Os EUA incorporando as ideias de Mackinder em sua política externa de hegemonia global. Uma releitura do geógrafo inglês foi produzida por Zbigniew Brzezinski na obra O Grande Tabuleiro de Xadrez (1997). Brzezinski — ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA — atualizou Mackinder para o mundo pós-Guerra Fria. Ele afirmou categoricamente que a Eurásia era o "tabuleiro de xadrez" onde se daria a disputa da primazia global e que o principal objetivo geopolítico dos EUA era impedir o surgimento de uma potência (ou aliança) eurasiana capaz de desafiar a América. Claro, as alianças no continente europeu já faziam parte das preocupações hegemônicas dos EUA desde o início da Guerra Fria. Tal preocupação foi resumida na frase do primeiro Secretário-Geral da OTAN (Lord Ismay) em 1949, ao afirmar que o objetivo da OTAN era: "Manter os soviéticos [Rússia] do lado de fora, os americanos do lado de dentro e os alemães do lado de baixo".

Mas a teoria de Mackinder (e por extensão a de Brzezinski) tinha um adversário teórico: Nicholas Spykman, outro geógrafo que em 1942 publicou America's Strategy in World Politics. Spykman concordava com Mackinder sobre a importância fundamental da Eurásia para os interesses estadunidenses — afinal, tratava-se da maior massa de terra no Hemisfério Norte. Contudo, discordava quanto à estratégia de dominação da região. Spykman propôs a Rimland no lugar de Heartland. A Rimland é uma vasta faixa costeira e marítima que circula pela Rússia e pela China (Europa Ocidental, Oriente Médio, Sul e Leste da Ásia). Em outras palavras, ao invés da intervenção ser feita diretamente no "coração da terra" — o que poderia resultar em guerras de altos custos materiais e humanos —, a dominação se daria pelo controle total das terras costeiras que circundam a massa continental. Seria o controle marítimo dos mares marginais que impediria qualquer tentativa de expansão para os oceanos. Spykman parafraseou Mackinder ao afirmar que "Quem controla o Rimland domina a Eurásia; quem domina a Eurásia controla os destinos do mundo".

O sonho de um mundo unipolar, incorporado à estratégia de supremacia global dos EUA, manifestou-se por meio de intervenções na Eurásia fundamentado nas teorias de Brzezinski e Spykman. Um exemplo claro foi a chamada "Política de Contenção", após a Segunda Guerra, formulada por George F. Kennan, com o objetivo de deter o "comunismo soviético" a partir de um conjunto de ações como a Doutrina Truman, o Plano Marshall e a criação da OTAN. Não foi por outra razão que os EUA investiram na recuperação do Japão, lideraram uma coalizão na Guerra da Coreia e invadiram o Vietnã.

Por volta de 1968, o Reino Unido em crise retirou-se formalmente do oeste da Ásia, removendo suas tropas da região do Suez em 1971. Do receio em criar um vácuo de poder na região mais rica em petróleo do mundo — e com os EUA enfiados no Vietnã —, nasceu o projeto "Dois Pilares". A administração Nixon, preocupada em conter o nacionalismo árabe laico e o socialismo na região, terceirizou o poder, dividindo-o entre a Arábia Saudita e o Irã, que estava sob o controle de Xá Pahlevi. Além disso, ao lado dos britânicos, costuraram a criação das chamadas petromonarquias — Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos.

De volta ao "Tabuleiro de Xadrez" de Brzezinski, é importante notar que ele já sinalizava que ao controlar o "Oriente Médio" — ou seja, o sudoeste da Ásia —, o que o geógrafo chamava de Pivôs Geopolíticos do Sul, os EUA impediriam o acesso da Rússia em direção aos mares quentes (Índico e Mediterrâneo). Por outro lado, a fragmentação do Leste Asiático, tornando-o dependente da “guarda-chuva de segurança” dos EUA, manteria o isolamento da China. Agora pense na grande política da era Obama: o que ele chamou de Pivô para a Ásia (2011). O que fez a administração Obama diante do crescimento da China? Fortaleceu as alianças na região da Ásia-Pacífico, com presença militar reforçada e a criação de blocos e alianças de segurança, como o Quad (EUA, Japão, Austrália e Índia) e o AUKUS (Austrália, Reino Unido e EUA). Tudo isso para garantir a hegemonia americana no Mar do Sul da China. Uma última observação sobre o tabuleiro de Brzezinski refere-se ao papel da Ucrânia — o Pivô Ucraniano. O geógrafo afirmou categoricamente que sem a Ucrânia a Rússia deixaria de ser um império euroasiático. Afastar a Ucrânia da órbita da Rússia é um objetivo central no tabuleiro geopolítico da hegemonia estadunidense.

Se olharmos os eventos conforme se apresentam hoje, isto é, a partir de uma orientação estratégica que combina Brzezinski e Spykman, podemos imaginar um esquema como o abaixo:

Região do Rimland Mecanismo de Contenção Pós-Guerra FriaAlvo Principal
Europa Oriental    Expansão da OTAN e apoio militar à Ucrânia.Rússia
Sudeste da Ásia    Alianças com as monarquias do Golfo e cerco ao Irã.Irã / Influência Russa
Indo-Pacífico          Alianças militares como AUKUS (Austrália, Reino Unido, EUA) e o Quad  (EUA, Japão, Austrália, Índia).China

É evidente que há múltiplas táticas para a concretização de uma estratégia deste tamanho. Assim como muitas questões a serem respondidas. Qual o papel de Israel no tabuleiro? Como joga a Turquia? Teremos uma nova configuração na Ásia Ocidental, envolvendo Turquia, Paquistão e Arábia Saudita? O Irã irá integrar o grupo diretamente ou formará outro grupo ao lado do Iraque, Omã e Iêmen, com apoio da Rússia e da China? Neste caso, o que será da “Grande Israel”? Qual a importância do Continente Africano, seguirão como fornecedores de material bruto para as potencias industriais? Ou se tornarão cada vez mais autossuficientes ao ponto de poder desequilibrar o tabuleiro? Independentemente do que aconteça, sabemos agora que os EUA não dominam mais a cena. Supomos que o atual memorando de entendimento se torne um acordo de verdade e que este acordo seja rompido pelos EUA — o que é altamente provável. O que os EUA conseguirão realmente alterar no cenário? Na minha opinião, quase nada. Ao contrário, poderia afundar ainda mais o império.

A oposição Heartland e Rimland. Fonte: http://www.oldenburger.us
No caso da Rússia e da China, não vejo como a Rimland (muito menos a Heartland) poderia impedir uma aliança entre as duas potências. É certo que a guerra contra a Ucrânia (OTAN) vem impactando a Rússia, mas sua economia está longe de ter virado uma "economia de guerra". A China, por sua vez, sequer se abalou com os ataques tarifários dos EUA. Um dos argumentos que Spykman usou na década de 1940 para abandonar o Heartland foi o fato da Ásia Central não não ter se se transformado em uma rota de comércio terrestre conforme previra Mackinder — a massa era só massa. Tirando a Transiberiana, não havia nada com o que se preocupar. Mas nem Spykman nem Brzezinski conseguiram prever o que a China se tornaria, muito menos que à medida que ela crescia, a Ásia Central — e, claro, o Sudeste Asiático — se tornariam territórios multimodais incorporados à Nova Rota da Seda (BRI), com ferrovias e rodovias que cruzam a região, escoando a produção chinesa através do Cazaquistão e Uzbequistão até os portos do Mar Cáspio, chegando à Europa via Turquia. Some-se a isso o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), rota que liga a Rússia (Moscou) ao Golfo Pérsico e ao Oceano Índico (Mumbai), cruzando o Mar Cáspio e passando pelo Irã (ou passando pelo Azerbaijão), além dos gasodutos transnacionais por onde fluem o gás natural do Turcomenistão e Cazaquistão para a China.

A substituição de Eurásia por "Ásia-Euro" no título deste ensaio é uma provocação, claro. Não se trata de negar a Europa enquanto parte importante do continente, mas de mostrar que o poder econômico se desloca cada vez mais para a banda oriental. Evidentemente, também não significa o fim do Ocidente político-econômico, mas seu declínio é óbvio. As guerras promovidas pelo Ocidente neste momento são sintomas do quão desesperadas as elites ocidentais estão. O pior é que até aqui os movimentos beligerantes do lado ocidental, vem revelando sua incapacidade em reverter o fluxo econômico em direção ao Oriente. Ao contrário: a cada movimento que o Ocidente realiza, mais expõe sua fragilidade. Os EUA (conjuntamente com Israel), ao atacar o Irã, conseguiram fazer ruir de vez o mito da força militar inatingível tão propagandeada por Hollywood. Independentemente do que acontecerá com o acordo entre ambos, eles sabem que, a menos que consigam renovar amplamente seus equipamentos militares, nem tão cedo serão capazes de atacar o país persa no terreno — se é que isso seria possível um dia.

A China, por sua vez, mais focada em criar redes comerciais e rotas alternativas ao domínio marítimo do Ocidente, não deixou de fortalecer sua marinha. Atualmente, tornou-se a maior força marítima do mundo em número de cascos, operando mais de 370 navios e submarinos. Impulsionada por uma capacidade de construção naval massiva — cerca de 200 vezes maior que a dos Estados Unidos —, fará com que a China enfrente as alianças ocidentais, seja a Quad ou a AUKUS. Mas essa é outra história. O fato é o que Ocidente Político-Econômco não aceitará seu declínio sem lutar. Uma Terceira-Guerra já se encontra em curso, em moldes radicalmente distintos das anteriores, ela se ampliará fragmentada, com várias frentes, terceirizada por meio de proxys regionais, envolvendo rotas de comércio, controle energético e tecnológico. 







sábado, maio 23, 2026

PARECER VENCER:O MAQUIAVELISMO TRUMPISTA NA GUERRA CONTRA O IRÃ

"Não é necessário que um príncipe possua todas as qualidades mencionadas, mas é muito necessário que pareça possuí-las." (O Príncipe. Nicolau Maquiavel). 

Os EUA, já faz muito tempo, entenderam o papel de "parecer ser". Ao longo de boa parte do século XX, suas agências de propaganda, ao lado de Hollywood, construíram uma imagem de si mesmos que deveria ser exportada. O "modo de vida americano" no pós-Primeira Guerra, ou o "Líder do mundo livre", criado no início da Guerra Fria, são alguns exemplos. Eles são a "Cidade sobre a Colina" (City upon a Hill).

Em suas "campanhas para levar a democracia" ao mundo, os EUA impetraram guerras e "intervenções" em todos os continentes. Por sinal, os títulos destas guerras são escolhidos para manter a aparência; só para citar alguns, os títulos mundialmente conhecidos, presentes nos livros didáticos de todas as escolas de educação ocidental: Guerra do Vietnã (1955-1975), Guerra do Golfo (1990-1991), Guerra do Afeganistão (2001-2021), Guerra do Iraque (2003-2011). Vejam que tais títulos, por si só, ocultam o agressor, ou pior, "Guerra do Vietnã" pode sugerir que a guerra foi causada pelo país do sudeste asiático; o mesmo se aplica aos outros conflitos. Neste sentido, os títulos destas guerras não são casuais, muito menos neutros.

A preocupação com a imagem é parte fundamental de qualquer Estado-Nação. A velha orientação de Maquiavel tornou-se um dogma na política, seja ela interna ou externa. Em O Príncipe (Cap. XVIII), Maquiavel trata "De que modo os príncipes devem cumprir a sua palavra". Eis o locus clássico da teoria maquiaveliana da aparência. Ali, Maquiavel escreve que um príncipe prudente não pode — e muitas vezes não deve — cumprir sua palavra quando as circunstâncias se alteraram e quando fazê-lo seria prejudicial ao Estado. Mas o que lhe importa sublinhar vai além da questão da promessa: é a relação entre ser e parecer.

Ao sugerir que "Não é necessário que um príncipe possua todas as qualidades mencionadas, mas é muito necessário que pareça possuí-las", Maquiavel não está pregando o cinismo puro. Está descrevendo uma realidade política que julgava incontornável: os homens julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, mais pela aparência do que pela experiência direta. O príncipe que governa sabe disso e age de acordo. Neste sentido, aparentar ser, ter ou saber é mais que pura vaidade: trata-se de um instrumento, uma virtù, isto é, uma habilidade fundamental que serve tanto para consolidar poder como para dissuadir possíveis inimigos.

O que quero sustentar aqui, que o título deste ensaio já sugere, é que a administração Trump elevou a noção de aparência ao último nível, o que implica se aventurar no perigoso território da fortuna

Em Maquiavel, a estrutura da aparência é sempre bipolar: há o plano do parecer e o plano do ser, e o príncipe habilidoso navega entre os dois, usando o primeiro para fortalecer o segundo. Há uma tensão produtiva entre a imagem projetada e a realidade que ela visa consolidar. O príncipe que parece misericordioso o faz porque essa imagem lhe é útil — mas ele também sabe quando a misericórdia real é necessária e quando a crueldade eficaz deve ser exercida, mesmo que silenciosamente.

A radicalização que proponho identificar na administração Trump consiste em uma transformação dessa estrutura bipolar em uma estrutura unipolar: a aparência não mais se refere a uma realidade que se pretende construir ou preservar. Ela se torna autorreferente. A declaração de vitória não visa consolidar uma vitória incompleta — ela é a vitória, no único plano que, para essa administração, parece importar: o da percepção doméstica imediata.

Isso tem consequências práticas profundas. Em Maquiavel, uma aparência bem construída pode resistir ao tempo porque está ancorada em alguma realidade que a sustenta. Uma aparência autorreferente é estruturalmente frágil: ela precisa ser continuamente reafirmada, ampliada, e eventualmente contradiz a si mesma — como veremos nos três casos iranianos.

Sarei três exemplos que podem ilustrar minha observação:

"Obliteramos o Programa Nuclear"

Em 22 de junho de 2025, durante a chamada Guerra dos Doze Dias, forças aéreas e navais americanas atacaram as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan no âmbito da Operação Midnight Hammer. Segundo informações do Pentágono, os ataques utilizaram quatorze bombas penetrantes GBU-57A/B transportadas por bombardeiros B-2 Spirit e mísseis Tomahawk lançados de submarinos. Foi a ação ofensiva americana mais significativa contra o Irã em décadas.

A reação de Trump foi imediata: o programa nuclear iraniano havia sido "obliterado". A palavra escolhida era forte, definitiva, totalizante. Ela projetava a imagem de uma vitória completa e irreversível — o tipo de imagem que Maquiavel reconheceria como politicamente útil, desde que correspondesse, ao menos parcialmente, à realidade.

O problema é que a correspondência era muito mais tênue do que a retórica sugeria. Um documento da própria Casa Branca, de novembro de 2025, caracterizava os ataques de forma muito mais cautelosa, afirmando que eles haviam "degradado significativamente" — não obliterado — o programa nuclear iraniano. Um relatório preliminar da Agência de Inteligência de Defesa avaliou que o Irã havia movido grande parte de seu estoque de urânio enriquecido antes dos ataques americanos, e que estes haviam atrasado a capacidade iraniana de produção de armas nucleares por apenas alguns meses.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), por sua vez, viu-se impedida de acessar os sítios bombardeados — o que tornava qualquer avaliação definitiva impossível. O urânio altamente enriquecido estocado pelo Irã — estimado em 440 quilogramas a 60% de pureza U-235, quantidade suficiente para múltiplas armas nucleares se enriquecido ao nível de armamento — permanecia sem localização confirmada.

A estrutura maquiaveliana da aparência já estava, portanto, sob pressão. Alguns meses depois, ela ruiria.

Em fevereiro de 2026, ao justificar uma nova ofensiva militar contra o Irã, Trump repetiu a afirmação de que o programa nuclear havia sido "obliterado" — mas acrescentou que o Irã havia "reconstruído seu programa nuclear" e desenvolvia mísseis capazes de atingir os Estados Unidos. A contradição interna era perfeita: o que havia sido destruído de forma total e definitiva em junho de 2025 havia, de alguma forma, ressurgido em menos de um ano a ponto de justificar outra guerra.

Analistas de política nuclear expressaram ceticismo explícito quanto à avaliação de ameaça. A Agência de Inteligência de Defesa havia publicado, em maio de 2025, uma avaliação de que o Irã poderia desenvolver um míssil de longo alcance até 2035 caso decidisse fazê-lo — uma perspectiva de uma década, não uma ameaça iminente. A distância entre Teerã e Washington é de aproximadamente 10.000 quilômetros; os mísseis iranianos conhecidos atingiam no máximo 2.000 quilômetros. Três funcionários americanos com acesso a inteligência sobre programas de mísseis afirmaram ao New York Times que Trump havia exagerado a imediatidade da ameaça. A Diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, havia alertado contra a guerra — e, após ser chamada de "errada" por Trump, mudou sua posição publicamente.

Esse último detalhe é particularmente iluminador. Em Maquiavel, o príncipe precisa de conselheiros que lhe digam a verdade — e deve criar as condições para que o façam sem medo. A administração Trump demonstrou, ao contrário, que a aparência de consenso interno era mais valorizada do que a virtù do conselho sincero.

"Temos controle total sobre o Estreito de Ormuz"

O Estreito de Ormuz, pelo qual passa normalmente cerca de 20% do petróleo mundial, tornou-se o segundo grande palco da teatralidade discursiva da administração Trump no contexto iraniano.

Quando o Irã fechou (parcialmente) o estreito como resposta às ações militares americanas e israelenses em março de 2026, a interrupção representou uma crise geopolítica e econômica de primeira magnitude. A retórica da administração respondeu à altura da gravidade: Pete Hegseth, Marco Rubio e o próprio Trump afirmaram, em diferentes momentos, ter "controlado" o estreito — mesmo enquanto o tráfego permanecia amplamente paralisado.

A formulação mais reveladora veio do próprio Trump. Em entrevista à CNN, ainda durante o conflito, o presidente declarou que o estreito seria "controlado conjuntamente" por ele e pelo Aiatolá — "quem quer que seja o Aiatolá, quem quer que seja o próximo Aiatolá". A frase condensa várias camadas de aparência: a de um acordo já concluído (que não existia), a de uma posição de força negociadora (enquanto as negociações estavam em impasse), e a de indiferença despreocupada em relação à identidade do interlocutor (que sinalizava domínio, mas revelava imprecisão estratégica).

O cessar-fogo provisório, quando finalmente anunciado, trouxe uma confirmação parcial e temporária da reabertura do estreito — por duas semanas. Analistas alertaram que havia incerteza considerável sobre a real extensão da reabertura, e líderes democratas classificaram o acordo como "insuficiente", exigindo um fim permanente do conflito.

Com a imagem negativa, devido à incapacidade dos EUA em controlar de fato o Estreito de Ormuz, Trump anunciou a chamada Operação Liberdade (Project Freedom). A propaganda desta vez dizia que os EUA garantiriam o tráfego de petroleiros pelo Estreito por meio de escolta da sua marinha. Além disso, o projeto também foi desenhado para ser "humanitário", pois prometia "resgatar" 23 mil marinheiros de 87 países "abandonados" pelo regime iraniano. A operação mobilizou contratorpedeiros, mais de 100 aeronaves e 15.000 militares, mas, na prática, a circulação total no estreito caiu 11% na semana da operação, uma vez que a maioria das seguradoras e empresas de navegação permaneceram céticas e não autorizaram a travessia.

Do ponto de vista maquiaveliano, o caso do Estreito de Ormuz ilustra com precisão o mecanismo que poderíamos chamar de antecipação retórica da vitória: a declaração de controle precede — e substitui — o controle efetivo. O efeito de dissuasão que Maquiavel atribuía à aparência de força depende, contudo, de que os adversários e aliados acreditem na aparência. Quando a realidade a contradiz de forma pública e mensurável — o estreito estava fechado, o petróleo não circulava, os preços do ouro subiam com as notícias de guerra —, a aparência perde sua função estratégica e se converte em vulnerabilidade retórica.

"Vamos deixar o Irã Quebrado!"  

O terceiro registro discursivo que nos interessa é o econômico, protagonizado especialmente pelo Secretário do Tesouro Scott Bessent. Quando a moeda iraniana entrou em colapso em dezembro de 2025, acelerada pela imposição de novas sanções internacionais via mecanismo de snapback da ONU em setembro daquele ano, Bessent descreveu o evento como o "grande desfecho" da estratégia de pressão máxima americana.

A formulação era, novamente, mais categórica do que os fatos autorizavam. O colapso econômico iraniano era real: a moeda havia se desvalorizado drasticamente, os preços de alimentos básicos como arroz e carne haviam subido de forma expressiva, ativos iranianos no exterior estavam congelados. A pressão sobre a população era severa e inegável.

Mas "deixar o Irã quebrado" — na formulação que circulou nos discursos da administração — pressupõe que o colapso econômico se traduziria em capitulação política. Essa equação, central à estratégia de pressão máxima, não se confirmou. O colapso da moeda precipitou protestos populares que explodiram em dezembro de 2025 e se espalharam em janeiro de 2026, por meio de uma guerra de operação psicológica associada à infiltração de grupos armados (por Israel e os EUA) para desestabilizar o governo. O resultado foi a repressão brutal, que resultou em milhares de mortos, segundo autoridades sanitárias iranianas. A estrutura de poder não cedeu; ao contrário, demonstrou disposição para exercer violência em escala que surpreendeu até analistas pessimistas.

A narrativa de Bessent sobre o "grande desfecho" é um exemplo quase didático do que poderíamos chamar, no vocabulário maquiaveliano, de confusão entre condição necessária e condição suficiente. O colapso econômico era, talvez, uma condição necessária para enfraquecer o Irã — mas estava longe de ser suficiente para produzir o resultado desejado. Anunciar o "desfecho" antes que o desfecho ocorresse não era apenas prematuro; era uma inversão da lógica da aparência. Em Maquiavel, anuncia-se a vitória para consolidá-la. Aqui, anuncia-se o desfecho de um processo que ainda estava em aberto — e cujo desdobramento (a escalada militar de fevereiro de 2026) contradiz a narrativa de sucesso.

Os três casos examinados revelam um padrão estrutural que vai além de meros exageros retóricos ou da conhecida tendência de Trump à hipérbole. O que está em jogo é uma transformação qualitativa na relação entre discurso e realidade política.

Em Maquiavel, a aparência é sempre referida a algo externo a ela: a uma realidade de poder que se quer construir, preservar ou ampliar. Há uma lógica de ancoragem, mesmo que tênue. O príncipe que parece vitorioso o faz para tornar sua posição mais sólida — e essa solidez tem, eventualmente, de se manifestar em resultados reais.

Na administração Trump sobre a política iraniana, o circuito se fecha sobre si mesmo: a aparência de vitória justifica novas ações, que produzem novos momentos de declaração de vitória, que por sua vez devem ser sustentadas por novas ações — mesmo quando essas ações contradizem as declarações anteriores. O programa nuclear "obliterado" que "ressurgiu" para justificar uma segunda guerra não é apenas uma inconsistência factual: é a marca de um sistema discursivo que perdeu o referente externo.

O paradoxo terminal dessa radicalização é que ela acaba por corroer a própria aparência que pretende construir. Um príncipe maquiaveliano bem-sucedido cria uma imagem de força que dura — porque é suficientemente ancorada para resistir ao escrutínio. A acumulação de declarações contraditórias — o programa obliterado que ressurgiu, o estreito controlado que permanecia fechado, o colapso econômico como desfecho de um processo que continuou — produz não uma imagem de força, mas um inventário de inconsistências que mina a credibilidade da próxima declaração.

Maquiavel nos ensinou, há cinco séculos, que a aparência é parte constitutiva do poder — e que pretender governar sem ela é ingenuidade perigosa. O que está em questão é algo diferente: a proporção e a ancoragem da aparência. A leitura maquiaveliana da política iraniana de Trump sugere que há um limiar além do qual a aparência deixa de ser um instrumento de poder e se converte em seu oposto: uma vulnerabilidade. Quando as declarações de vitória se acumulam de forma contraditória, quando a realidade geopolítica desmente publicamente a retórica presidencial, quando os próprios aliados e membros da comunidade de inteligência expressam ceticismo público — a aparência não mais consolida o poder, mas evidencia sua fragilidade.



sábado, abril 11, 2026

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E ESTADO COLONIAL DE ISRAEL NA PALESTINA. (PARTE 3)

Nesta última parte da discussão sobre as falsas equivalências entre antissionismo e antissemitismo, tratarei sobre como o lobby sionista funciona. Não há qualquer preocupação sincera por parte dos sionistas para com os judeus espalhados pelo mundo; como vimos — nas partes 1 e 2 —, há uma instrumentalização deliberada do sofrimento judaico como meio de garantir o projeto colonial dos sionistas a partir da máquina de guerra do Estado de Israel. Vamos ao texto.

sexta-feira, abril 10, 2026

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E ESTADO COLONIAL DE ISRAEL NA PALESTINA. (PARTE 2)

Dando sequência ao texto que escrevi ontem, nesta segunda parte resgato uma série de autores judeus, estudiosos do holocausto e genocídios, historiadores, cientistas políticos, dentre outras especialidades, que contribuem com a perspectiva de Gabor Maté. Há muitos outros e outras, de outras nacionalidades e etnias, como estudiosos Árabes e Palestinos. Mas escolhi os autores judeus, porque entendo ser importante demonstrar que a suposta equivalência entre antissemitismo e antissionismo é, na prática uma falsa equivalência. Neste texto, especificamente, o sionismo é o foco. 
 

quinta-feira, abril 09, 2026

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E ESTADO COLONIAL DE ISRAEL NA PALESTINA. (PARTE 1)

INTRODUÇÃO.

O projeto de lei sobre o antissemitismo no Brasil provocou fortes manifestações contrárias (e algumas favor), ao ponto que alguns deputados que assinaram o mesmo, ao lado de Tabata Amaral, solicitaram a retirada da assinatura. Longe de ser um caso isolado, o projeto é orientado. A Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), uma organização não governamental, juntamente com o ministério das relações exteriores de Israel, estão articulando uma campanha global para que projetos com o proposto pela Tabata sejam aprovados em diversos cantos do mundo. Por sinal, muitos países já o fizeram, portanto, olhar o projeto da deputada apenas do ponto de vista nacional seria reduzir o debate.

Ontem, assistir a entrevista que o médico Gabor Maté concedeu ao canal NeutralityStudies, trata -se de uma entrevista absolutamente forte e emocionante. Maté é judeu, com nacionalidade húngaro-canadense, em 1944, quando era apenas um bebê de colo, conseguiu escapar de Auschwitz com sua mãe, os outros membros de sua família não tiveram a mesma sorte.  

Meu objetivo aqui é escrever um texto, que será dividido em três partes, em que tomarei a entrevista de Gabor Maté, como base para tratar do sionismo e da instrumentalização do sofrimento dos judeus para legitimar um estado colonial e de apartheid, como é o caso de Israel. Na primeira parte, abordarei mais a entrevista em si, na segunda trarei outras vozes judaicas que se unem a Maté (e influenciaram Maté) sobre o sionismo e seu projeto de Estado supremacismo étnico, na terceira parte, me deterei mais sobre o lobby que busca a equivalência entre o antisionismo e o antissemitismo. 


Gabor Maté: quando "nunca mais" se torna um slogan para justificar genocídio.

O médico e sobrevivente do Holocausto critica o uso instrumentalizado do sofrimento judeu para legitimar o colonialismo israelense — e alerta para o perigo das leis que criminalizam o antissionismo.

Baseado na entrevista conduzida por Felix Marquardt para o canal Neutrality Studies (YouTube)


Em uma entrevista ao canal Neutrality Studies (Canal do professor de Relações Internacionais, associado a Universidade de Kyoto, Pascal Lottaz), o médico húngaro-canadense Gabor Maté — especialista em trauma, dependência e autor de diversos livros sobre saúde mental — fez declarações contundentes sobre o conflito em Gaza, o sionismo e o que chama de instrumentalização do sofrimento judeu. A conversa, conduzida pelo jornalista Felix Marquardt, é densa, incômoda e difícil de ignorar — especialmente porque vem de alguém que sobreviveu ao Holocausto ainda bebê e que, por décadas, se identificou como sionista.

A trajetória de Maté é, em si, o argumento central de sua fala. Nascido em Budapeste em 1944, ele quase morreu nas mãos dos nazistas e perdeu avós em Auschwitz. Durante anos, o sionismo fez sentido para ele: precisavam de um país próprio, um exército próprio, uma pátria onde não fossem minoria desprezada. A virada veio quando ele descobriu o que foi feito aos palestinos para que esse sonho se tornasse realidade. "Foi um pesadelo que impusemos aos palestinos para alcançar nosso sonho", afirma. "Uma vez que você abre essa janela e olha para o que realmente aconteceu, não dá mais para sustentar isso."

Para Maté, o sionismo nasceu como resposta legítima ao antissemitismo europeu — real e brutal, muito antes dos campos de extermínio nazistas. O problema, segundo ele, é que o projeto se estruturou sobre um slogan totalmente desonesto: "uma terra sem povo para um povo sem terra". Os próprios líderes sionistas sabiam que a Palestina era habitada, e alguns deles disseram abertamente que seria necessário expulsar ou destruir essa população. Moshe Dayan, general israelense e ícone do movimento, disse em 1956: os palestinos nos odeiam porque olham pela cerca e nos veem cultivando suas terras e vivendo nas aldeias que antes eram deles.

"Para ser sionista, é preciso ter o coração fechado ou a mente fechada — pelo menos uma das duas coisas. Porque, quando você descobre o que foi feito ao longo das décadas e o que está sendo feito agora aos palestinos, não dá para ser sionista." — Gabor Maté

Um dos pontos mais provocadores da entrevista diz respeito ao uso político da acusação de antissemitismo. Maté não nega a existência do fenômeno — ele mesmo o viveu na infância na Hungria. Mas argumenta que, quando a acusação é usada para silenciar críticas ao Estado de Israel, ela se torna uma arma de proteção ao poder, não ao povo judeu. Ele cita pelo menos oito estudiosos israelenses judeus especialistas em genocídio que classificam o que ocorre em Gaza exatamente com essa palavra — e convida seus interlocutores a debaterem com eles, não com ele.

O médico também analisa o alinhamento europeu com Israel como uma forma de identificação colonial: países como França, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos têm histórias profundas de colonialismo que nunca foram verdadeiramente enfrentadas — os mesmos que se negaram a reconhecer uma recente Resolução na ONU que afirmava que o tráfico transatlântico de escravizados foi o maior crime contra a humanidade. Neste sentido, apoiar o projeto sionista seria uma extensão natural de suas próprias lógicas imperiais — e uma maneira conveniente de aliviar a culpa histórica pela perseguição aos judeus. "Quando a Europa se alinha com o projeto sionista, ela está realmente se alinhando consigo mesma."

Sobre a proposta francesa de criminalizar o antissionismo por meio da chamada Lei Yadon — que adotaria a definição da IHRA de antissemitismo, equiparando-o ao antissionismo —, Maté foi direto: "Nojo." Para ele, a lei não tem qualquer relação com a proteção de judeus contra o ódio racial. Trata-se, segundo o médico, de proteger o Estado de Israel de quem denuncia sua natureza. E, em um paradoxo que ele faz questão de sublinhar, leis como essa tendem a aumentar o antissemitismo real — porque associam toda a comunidade judaica às ações de um governo que boa parte do mundo condena.

Por fim, Maté encerra com um alerta dirigido aos judeus que apoiam incondicionalmente o projeto sionista: ao fazê-lo, acreditam estar garantindo o futuro de seu povo, mas, na sua visão, estão acelerando sua destruição. Um projeto colonial que depende do apoio imperial de potências em declínio — como os Estados Unidos — é, para ele, estruturalmente frágil. "O sionismo é um projeto autodestrutivo, e a cada dia eles cavam sua própria cova um pouco mais fundo."

A entrevista não oferece respostas fáceis nem conforto a nenhum dos lados. O que ela oferece é algo mais raro: a voz de alguém que carrega o peso da história na própria biografia e ainda assim escolheu rever suas convicções mais profundas.

Fonte: Entrevista de Felix Marquardt com Gabor Maté, publicada no canal Neutrality Studies (YouTube). Título original: Holocaust Survivor Exposes Genocide Denial | Felix Marquardt & Gabor Maté. Os pontos de vista expressos são do entrevistado e não representam necessariamente a opinião deste blog.