INTRODUÇÃO.
O projeto de lei sobre o antissemitismo no Brasil provocou fortes manifestações contrárias (e algumas favor), ao ponto que alguns deputados que assinaram o mesmo, ao lado de Tabata Amaral, solicitaram a retirada da assinatura. Longe de ser um caso isolado, o projeto é orientado. A Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), uma organização não governamental, juntamente com o ministério das relações exteriores de Israel, estão articulando uma campanha global para que projetos com o proposto pela Tabata sejam aprovados em diversos cantos do mundo. Por sinal, muitos países já o fizeram, portanto, olhar o projeto da deputada apenas do ponto de vista nacional seria reduzir o debate.
Ontem, assistir a entrevista que o médico Gabor Maté concedeu ao canal NeutralityStudies, trata -se de uma entrevista absolutamente forte e emocionante. Maté é judeu, com nacionalidade húngaro-canadense, em 1944, quando era apenas um bebê de colo, conseguiu escapar de Auschwitz com sua mãe, os outros membros de sua família não tiveram a mesma sorte.
Meu objetivo aqui é escrever um texto, que será dividido em três partes, em que tomarei a entrevista de Gabor Maté, como base para tratar do sionismo e da instrumentalização do sofrimento dos judeus para legitimar um estado colonial e de apartheid, como é o caso de Israel. Na primeira parte, abordarei mais a entrevista em si, na segunda trarei outras vozes judaicas que se unem a Maté (e influenciaram Maté) sobre o sionismo e seu projeto de Estado supremacismo étnico, na terceira parte, me deterei mais sobre o lobby que busca a equivalência entre o antisionismo e o antissemitismo.
Gabor Maté: quando "nunca mais" se torna um slogan para justificar genocídio.
O médico e sobrevivente do Holocausto critica o uso instrumentalizado do sofrimento judeu para legitimar o colonialismo israelense — e alerta para o perigo das leis que criminalizam o antissionismo.
Baseado na entrevista conduzida por Felix Marquardt para o canal Neutrality Studies (YouTube)
Em uma entrevista ao canal Neutrality Studies (Canal do professor de Relações Internacionais, associado a Universidade de Kyoto, Pascal Lottaz), o médico húngaro-canadense Gabor Maté — especialista em trauma, dependência e autor de diversos livros sobre saúde mental — fez declarações contundentes sobre o conflito em Gaza, o sionismo e o que chama de instrumentalização do sofrimento judeu. A conversa, conduzida pelo jornalista Felix Marquardt, é densa, incômoda e difícil de ignorar — especialmente porque vem de alguém que sobreviveu ao Holocausto ainda bebê e que, por décadas, se identificou como sionista.
A trajetória de Maté é, em si, o argumento central de sua fala. Nascido em Budapeste em 1944, ele quase morreu nas mãos dos nazistas e perdeu avós em Auschwitz. Durante anos, o sionismo fez sentido para ele: precisavam de um país próprio, um exército próprio, uma pátria onde não fossem minoria desprezada. A virada veio quando ele descobriu o que foi feito aos palestinos para que esse sonho se tornasse realidade. "Foi um pesadelo que impusemos aos palestinos para alcançar nosso sonho", afirma. "Uma vez que você abre essa janela e olha para o que realmente aconteceu, não dá mais para sustentar isso."
Para Maté, o sionismo nasceu como resposta legítima ao antissemitismo europeu — real e brutal, muito antes dos campos de extermínio nazistas. O problema, segundo ele, é que o projeto se estruturou sobre um slogan totalmente desonesto: "uma terra sem povo para um povo sem terra". Os próprios líderes sionistas sabiam que a Palestina era habitada, e alguns deles disseram abertamente que seria necessário expulsar ou destruir essa população. Moshe Dayan, general israelense e ícone do movimento, disse em 1956: os palestinos nos odeiam porque olham pela cerca e nos veem cultivando suas terras e vivendo nas aldeias que antes eram deles.
"Para ser sionista, é preciso ter o coração fechado ou a mente fechada — pelo menos uma das duas coisas. Porque, quando você descobre o que foi feito ao longo das décadas e o que está sendo feito agora aos palestinos, não dá para ser sionista." — Gabor Maté
Um dos pontos mais provocadores da entrevista diz respeito ao uso político da acusação de antissemitismo. Maté não nega a existência do fenômeno — ele mesmo o viveu na infância na Hungria. Mas argumenta que, quando a acusação é usada para silenciar críticas ao Estado de Israel, ela se torna uma arma de proteção ao poder, não ao povo judeu. Ele cita pelo menos oito estudiosos israelenses judeus especialistas em genocídio que classificam o que ocorre em Gaza exatamente com essa palavra — e convida seus interlocutores a debaterem com eles, não com ele.
O médico também analisa o alinhamento europeu com Israel como uma forma de identificação colonial: países como França, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos têm histórias profundas de colonialismo que nunca foram verdadeiramente enfrentadas — os mesmos que se negaram a reconhecer uma recente Resolução na ONU que afirmava que o tráfico transatlântico de escravizados foi o maior crime contra a humanidade. Neste sentido, apoiar o projeto sionista seria uma extensão natural de suas próprias lógicas imperiais — e uma maneira conveniente de aliviar a culpa histórica pela perseguição aos judeus. "Quando a Europa se alinha com o projeto sionista, ela está realmente se alinhando consigo mesma."
Sobre a proposta francesa de criminalizar o antissionismo por meio da chamada Lei Yadon — que adotaria a definição da IHRA de antissemitismo, equiparando-o ao antissionismo —, Maté foi direto: "Nojo." Para ele, a lei não tem qualquer relação com a proteção de judeus contra o ódio racial. Trata-se, segundo o médico, de proteger o Estado de Israel de quem denuncia sua natureza. E, em um paradoxo que ele faz questão de sublinhar, leis como essa tendem a aumentar o antissemitismo real — porque associam toda a comunidade judaica às ações de um governo que boa parte do mundo condena.
Por fim, Maté encerra com um alerta dirigido aos judeus que apoiam incondicionalmente o projeto sionista: ao fazê-lo, acreditam estar garantindo o futuro de seu povo, mas, na sua visão, estão acelerando sua destruição. Um projeto colonial que depende do apoio imperial de potências em declínio — como os Estados Unidos — é, para ele, estruturalmente frágil. "O sionismo é um projeto autodestrutivo, e a cada dia eles cavam sua própria cova um pouco mais fundo."
A entrevista não oferece respostas fáceis nem conforto a nenhum dos lados. O que ela oferece é algo mais raro: a voz de alguém que carrega o peso da história na própria biografia e ainda assim escolheu rever suas convicções mais profundas.
Fonte: Entrevista de Felix Marquardt com Gabor Maté, publicada no canal Neutrality Studies (YouTube). Título original: Holocaust Survivor Exposes Genocide Denial | Felix Marquardt & Gabor Maté. Os pontos de vista expressos são do entrevistado e não representam necessariamente a opinião deste blog.
Um comentário:
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