sábado, junho 20, 2026

A GRANDE ÁSIAEURO E O DECLÍNIO DO OCIDENTE POLÍTICO-ECONÔMICO.

Em 1904, o geógrafo inglês Halford John Mackinder escreveu um artigo para a Real Sociedade Geográfica (Reino Unido), intitulado The Geographical Pivot of History (O ponto de virada geográfica da história). No artigo, Mackinder popularizou o conceito de Heartland (Teoria do Heartland), uma região vasta, com abundância em toda espécie de riquezas localizada no centro da Eurásia, cuja extensão se dava do Volga ao Yangtzé e do Himalaia ao Ártico — região esta controlada principalmente pelo Império Russo na ocasião.

Mackinder procurava resolver uma questão fundamental para a Grã-Bretanha, senhora das rotas marítimas. Para o geógrafo, o controle das águas seria insuficiente para garantir a hegemonia comercial do mundo; era necessário dominar o coração da Europa Oriental. Só assim se poderia controlar a Ilha-Mundo, um conceito para definir um supercontinente (Euro-Afro-Asiático). O geógrafo sintetizou sua estratégia ao afirmar que "Quem governa a Europa Oriental controla o Heartland. Quem controla o Heartland controla a Ilha-Mundo. Quem controla a Ilha-Mundo controla o Mundo." (MACKINDER, 1996, p.106).

Cabe ressaltar que esse supercontinente já havia experimentado uma rede de conexões comerciais anteriormente. Refiro-me à antiga Rota da Seda, que por mar partia de Cantão na China, pelo Oceano Índico, passando por Cochim (Índia), Mascate e Adém (Arábia). De lá, podia-se ir para Mogadício (Somália) e Mombaça (Quênia), ou, entrando pelo Mar Vermelho, adentrava-se o Mediterrâneo em direção a Roma. Por terra, a Rota da Seda percorria uma longa distância que ligava a China à Índia, em direção à Pérsia, passando por Damasco e Tiro até Antioquia (Síria), onde se ligava ao Mediterrâneo.
Sabemos que quando se fala em Rota da Seda, é comum associá-la aos chineses. Sim, os chineses tinham um papel fundamental nessa enorme rede de comércio, mas nunca tiveram monopólio. A Rota da Seda era, na verdade, uma rede comercial amplamente multipolarizada — para usar um termo da moda. Em 1453, o Império Otomano fechou as rotas terrestres para o Ocidente. Com a criação da Companhia Britânica das Índias Orientais em 1600, os ingleses aos poucos foram monopolizando as rotas marítimas entre a Índia e a China.

Ao longo do século XIX, a Grã-Bretanha e o Império Russo envolveram-se em uma série de conflitos indiretos pelo controle da Ásia Central e do Sul, período conhecido como o 'Grande Jogo'. Enquanto os russos buscavam expandir sua influência e acessar portos de águas quentes, os britânicos agiam estrategicamente para proteger a Índia, a 'joia da coroa'. Esse cenário moldou a visão de Mackinder. Ele percebeu que a construção da ferrovia Transiberiana (1891-1916) permitiria à Rússia conectar a Europa à Ásia, criando uma rota terrestre imune ao controle marítimo e às tarifas portuárias britânicas. O perigo para a Grã-Bretanha seria ainda maior caso se concretizasse uma aliança entre a Rússia e a Alemanha. Embora a complexidade total desse período vá além do escopo deste texto, tal panorama evidencia a centralidade da infraestrutura de transportes na geopolítica da época. Além do mais, há autores — como Timofei Bordachev — que minimizam a existência do "Grande Jogo"

Saltando para a segunda metade do século XX, mais precisamente após a derrubada da União Soviética e o fim da Guerra Fria, o que veremos? Os EUA incorporando as ideias de Mackinder em sua política externa de hegemonia global. Uma releitura do geógrafo inglês foi produzida por Zbigniew Brzezinski na obra O Grande Tabuleiro de Xadrez (1997). Brzezinski — ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA — atualizou Mackinder para o mundo pós-Guerra Fria. Ele afirmou categoricamente que a Eurásia era o "tabuleiro de xadrez" onde se daria a disputa da primazia global e que o principal objetivo geopolítico dos EUA era impedir o surgimento de uma potência (ou aliança) eurasiana capaz de desafiar a América. Claro, as alianças no continente europeu já faziam parte das preocupações hegemônicas dos EUA desde o início da Guerra Fria. Tal preocupação foi resumida na frase do primeiro Secretário-Geral da OTAN (Lord Ismay) em 1949, ao afirmar que o objetivo da OTAN era: "Manter os soviéticos [Rússia] do lado de fora, os americanos do lado de dentro e os alemães do lado de baixo".

Mas a teoria de Mackinder (e por extensão a de Brzezinski) tinha um adversário teórico: Nicholas Spykman, outro geógrafo que em 1942 publicou America's Strategy in World Politics. Spykman concordava com Mackinder sobre a importância fundamental da Eurásia para os interesses estadunidenses — afinal, tratava-se da maior massa de terra no Hemisfério Norte. Contudo, discordava quanto à estratégia de dominação da região. Spykman propôs a Rimland no lugar de Heartland. A Rimland é uma vasta faixa costeira e marítima que circula pela Rússia e pela China (Europa Ocidental, Oriente Médio, Sul e Leste da Ásia). Em outras palavras, ao invés da intervenção ser feita diretamente no "coração da terra" — o que poderia resultar em guerras de altos custos materiais e humanos —, a dominação se daria pelo controle total das terras costeiras que circundam a massa continental. Seria o controle marítimo dos mares marginais que impediria qualquer tentativa de expansão para os oceanos. Spykman parafraseou Mackinder ao afirmar que "Quem controla o Rimland domina a Eurásia; quem domina a Eurásia controla os destinos do mundo".

O sonho de um mundo unipolar, incorporado à estratégia de supremacia global dos EUA, manifestou-se por meio de intervenções na Eurásia fundamentado nas teorias de Brzezinski e Spykman. Um exemplo claro foi a chamada "Política de Contenção", após a Segunda Guerra, formulada por George F. Kennan, com o objetivo de deter o "comunismo soviético" a partir de um conjunto de ações como a Doutrina Truman, o Plano Marshall e a criação da OTAN. Não foi por outra razão que os EUA investiram na recuperação do Japão, lideraram uma coalizão na Guerra da Coreia e invadiram o Vietnã.

Por volta de 1968, o Reino Unido em crise retirou-se formalmente do oeste da Ásia, removendo suas tropas da região do Suez em 1971. Do receio em criar um vácuo de poder na região mais rica em petróleo do mundo — e com os EUA enfiados no Vietnã —, nasceu o projeto "Dois Pilares". A administração Nixon, preocupada em conter o nacionalismo árabe laico e o socialismo na região, terceirizou o poder, dividindo-o entre a Arábia Saudita e o Irã, que estava sob o controle de Xá Pahlevi. Além disso, ao lado dos britânicos, costuraram a criação das chamadas petromonarquias — Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos.

De volta ao "Tabuleiro de Xadrez" de Brzezinski, é importante notar que ele já sinalizava que ao controlar o "Oriente Médio" — ou seja, o sudoeste da Ásia —, o que o geógrafo chamava de Pivôs Geopolíticos do Sul, os EUA impediriam o acesso da Rússia em direção aos mares quentes (Índico e Mediterrâneo). Por outro lado, a fragmentação do Leste Asiático, tornando-o dependente da “guarda-chuva de segurança” dos EUA, manteria o isolamento da China. Agora pense na grande política da era Obama: o que ele chamou de Pivô para a Ásia (2011). O que fez a administração Obama diante do crescimento da China? Fortaleceu as alianças na região da Ásia-Pacífico, com presença militar reforçada e a criação de blocos e alianças de segurança, como o Quad (EUA, Japão, Austrália e Índia) e o AUKUS (Austrália, Reino Unido e EUA). Tudo isso para garantir a hegemonia americana no Mar do Sul da China. Uma última observação sobre o tabuleiro de Brzezinski refere-se ao papel da Ucrânia — o Pivô Ucraniano. O geógrafo afirmou categoricamente que sem a Ucrânia a Rússia deixaria de ser um império euroasiático. Afastar a Ucrânia da órbita da Rússia é um objetivo central no tabuleiro geopolítico da hegemonia estadunidense.

Se olharmos os eventos conforme se apresentam hoje, isto é, a partir de uma orientação estratégica que combina Brzezinski e Spykman, podemos imaginar um esquema como o abaixo:

Região do Rimland Mecanismo de Contenção Pós-Guerra FriaAlvo Principal
Europa Oriental    Expansão da OTAN e apoio militar à Ucrânia.Rússia
Sudeste da Ásia    Alianças com as monarquias do Golfo e cerco ao Irã.Irã / Influência Russa
Indo-Pacífico          Alianças militares como AUKUS (Austrália, Reino Unido, EUA) e o Quad  (EUA, Japão, Austrália, Índia).China

É evidente que há múltiplas táticas para a concretização de uma estratégia deste tamanho. Assim como muitas questões a serem respondidas. Qual o papel de Israel no tabuleiro? Como joga a Turquia? Teremos uma nova configuração na Ásia Ocidental, envolvendo Turquia, Paquistão e Arábia Saudita? O Irã irá integrar o grupo diretamente ou formará outro grupo ao lado do Iraque, Omã e Iêmen, com apoio da Rússia e da China? Neste caso, o que será da “Grande Israel”? Qual a importância do Continente Africano, seguirão como fornecedores de material bruto para as potencias industriais? Ou se tornarão cada vez mais autossuficientes ao ponto de poder desequilibrar o tabuleiro? Independentemente do que aconteça, sabemos agora que os EUA não dominam mais a cena. Supomos que o atual memorando de entendimento se torne um acordo de verdade e que este acordo seja rompido pelos EUA — o que é altamente provável. O que os EUA conseguirão realmente alterar no cenário? Na minha opinião, quase nada. Ao contrário, poderia afundar ainda mais o império.

A oposição Heartland e Rimland. Fonte: http://www.oldenburger.us
No caso da Rússia e da China, não vejo como a Rimland (muito menos a Heartland) poderia impedir uma aliança entre as duas potências. É certo que a guerra contra a Ucrânia (OTAN) vem impactando a Rússia, mas sua economia está longe de ter virado uma "economia de guerra". A China, por sua vez, sequer se abalou com os ataques tarifários dos EUA. Um dos argumentos que Spykman usou na década de 1940 para abandonar o Heartland foi o fato da Ásia Central não não ter se se transformado em uma rota de comércio terrestre conforme previra Mackinder — a massa era só massa. Tirando a Transiberiana, não havia nada com o que se preocupar. Mas nem Spykman nem Brzezinski conseguiram prever o que a China se tornaria, muito menos que à medida que ela crescia, a Ásia Central — e, claro, o Sudeste Asiático — se tornariam territórios multimodais incorporados à Nova Rota da Seda (BRI), com ferrovias e rodovias que cruzam a região, escoando a produção chinesa através do Cazaquistão e Uzbequistão até os portos do Mar Cáspio, chegando à Europa via Turquia. Some-se a isso o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), rota que liga a Rússia (Moscou) ao Golfo Pérsico e ao Oceano Índico (Mumbai), cruzando o Mar Cáspio e passando pelo Irã (ou passando pelo Azerbaijão), além dos gasodutos transnacionais por onde fluem o gás natural do Turcomenistão e Cazaquistão para a China.

A substituição de Eurásia por "Ásia-Euro" no título deste ensaio é uma provocação, claro. Não se trata de negar a Europa enquanto parte importante do continente, mas de mostrar que o poder econômico se desloca cada vez mais para a banda oriental. Evidentemente, também não significa o fim do Ocidente político-econômico, mas seu declínio é óbvio. As guerras promovidas pelo Ocidente neste momento são sintomas do quão desesperadas as elites ocidentais estão. O pior é que até aqui os movimentos beligerantes do lado ocidental, vem revelando sua incapacidade em reverter o fluxo econômico em direção ao Oriente. Ao contrário: a cada movimento que o Ocidente realiza, mais expõe sua fragilidade. Os EUA (conjuntamente com Israel), ao atacar o Irã, conseguiram fazer ruir de vez o mito da força militar inatingível tão propagandeada por Hollywood. Independentemente do que acontecerá com o acordo entre ambos, eles sabem que, a menos que consigam renovar amplamente seus equipamentos militares, nem tão cedo serão capazes de atacar o país persa no terreno — se é que isso seria possível um dia.

A China, por sua vez, mais focada em criar redes comerciais e rotas alternativas ao domínio marítimo do Ocidente, não deixou de fortalecer sua marinha. Atualmente, tornou-se a maior força marítima do mundo em número de cascos, operando mais de 370 navios e submarinos. Impulsionada por uma capacidade de construção naval massiva — cerca de 200 vezes maior que a dos Estados Unidos —, fará com que a China enfrente as alianças ocidentais, seja a Quad ou a AUKUS. Mas essa é outra história. O fato é o que Ocidente Político-Econômco não aceitará seu declínio sem lutar. Uma Terceira-Guerra já se encontra em curso, em moldes radicalmente distintos das anteriores, ela se ampliará fragmentada, com várias frentes, terceirizada por meio de proxys regionais, envolvendo rotas de comércio, controle energético e tecnológico.