"Não é necessário que um príncipe possua todas as qualidades mencionadas, mas é muito necessário que pareça possuí-las." (O Príncipe. Nicolau Maquiavel).
Os EUA, já faz muito tempo, entenderam o papel de "parecer ser". Ao longo de boa parte do século XX, suas agências de propaganda, ao lado de Hollywood, construíram uma imagem de si mesmos que deveria ser exportada. O "modo de vida americano" no pós-Primeira Guerra, ou o "Líder do mundo livre", criado no início da Guerra Fria, são alguns exemplos. Eles são a "Cidade sobre a Colina" (City upon a Hill).
Em suas "campanhas para levar a democracia" ao mundo, os EUA impetraram guerras e "intervenções" em todos os continentes. Por sinal, os títulos destas guerras são escolhidos para manter a aparência; só para citar alguns, os títulos mundialmente conhecidos, presentes nos livros didáticos de todas as escolas de educação ocidental: Guerra do Vietnã (1955-1975), Guerra do Golfo (1990-1991), Guerra do Afeganistão (2001-2021), Guerra do Iraque (2003-2011). Vejam que tais títulos, por si só, ocultam o agressor, ou pior, "Guerra do Vietnã" pode sugerir que a guerra foi causada pelo país do sudeste asiático; o mesmo se aplica aos outros conflitos. Neste sentido, os títulos destas guerras não são casuais, muito menos neutros.
A preocupação com a imagem é parte fundamental de qualquer Estado-Nação. A velha orientação de Maquiavel tornou-se um dogma na política, seja ela interna ou externa. Em O Príncipe (Cap. XVIII), Maquiavel trata "De que modo os príncipes devem cumprir a sua palavra". Eis o locus clássico da teoria maquiaveliana da aparência. Ali, Maquiavel escreve que um príncipe prudente não pode — e muitas vezes não deve — cumprir sua palavra quando as circunstâncias se alteraram e quando fazê-lo seria prejudicial ao Estado. Mas o que lhe importa sublinhar vai além da questão da promessa: é a relação entre ser e parecer.
Ao sugerir que "Não é necessário que um príncipe possua todas as qualidades mencionadas, mas é muito necessário que pareça possuí-las", Maquiavel não está pregando o cinismo puro. Está descrevendo uma realidade política que julgava incontornável: os homens julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, mais pela aparência do que pela experiência direta. O príncipe que governa sabe disso e age de acordo. Neste sentido, aparentar ser, ter ou saber é mais que pura vaidade: trata-se de um instrumento, uma virtù, isto é, uma habilidade fundamental que serve tanto para consolidar poder como para dissuadir possíveis inimigos.
O que quero sustentar aqui, que o título deste ensaio já sugere, é que a administração Trump elevou a noção de aparência ao último nível, o que implica se aventurar no perigoso território da fortuna.
Em Maquiavel, a estrutura da aparência é sempre bipolar: há o plano do parecer e o plano do ser, e o príncipe habilidoso navega entre os dois, usando o primeiro para fortalecer o segundo. Há uma tensão produtiva entre a imagem projetada e a realidade que ela visa consolidar. O príncipe que parece misericordioso o faz porque essa imagem lhe é útil — mas ele também sabe quando a misericórdia real é necessária e quando a crueldade eficaz deve ser exercida, mesmo que silenciosamente.
A radicalização que proponho identificar na administração Trump consiste em uma transformação dessa estrutura bipolar em uma estrutura unipolar: a aparência não mais se refere a uma realidade que se pretende construir ou preservar. Ela se torna autorreferente. A declaração de vitória não visa consolidar uma vitória incompleta — ela é a vitória, no único plano que, para essa administração, parece importar: o da percepção doméstica imediata.
Isso tem consequências práticas profundas. Em Maquiavel, uma aparência bem construída pode resistir ao tempo porque está ancorada em alguma realidade que a sustenta. Uma aparência autorreferente é estruturalmente frágil: ela precisa ser continuamente reafirmada, ampliada, e eventualmente contradiz a si mesma — como veremos nos três casos iranianos.
Sarei três exemplos que podem ilustrar minha observação:
"Obliteramos o Programa Nuclear"
Em 22 de junho de 2025, durante a chamada Guerra dos Doze Dias, forças aéreas e navais americanas atacaram as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan no âmbito da Operação Midnight Hammer. Segundo informações do Pentágono, os ataques utilizaram quatorze bombas penetrantes GBU-57A/B transportadas por bombardeiros B-2 Spirit e mísseis Tomahawk lançados de submarinos. Foi a ação ofensiva americana mais significativa contra o Irã em décadas.
A reação de Trump foi imediata: o programa nuclear iraniano havia sido "obliterado". A palavra escolhida era forte, definitiva, totalizante. Ela projetava a imagem de uma vitória completa e irreversível — o tipo de imagem que Maquiavel reconheceria como politicamente útil, desde que correspondesse, ao menos parcialmente, à realidade.
O problema é que a correspondência era muito mais tênue do que a retórica sugeria. Um documento da própria Casa Branca, de novembro de 2025, caracterizava os ataques de forma muito mais cautelosa, afirmando que eles haviam "degradado significativamente" — não obliterado — o programa nuclear iraniano. Um relatório preliminar da Agência de Inteligência de Defesa avaliou que o Irã havia movido grande parte de seu estoque de urânio enriquecido antes dos ataques americanos, e que estes haviam atrasado a capacidade iraniana de produção de armas nucleares por apenas alguns meses.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), por sua vez, viu-se impedida de acessar os sítios bombardeados — o que tornava qualquer avaliação definitiva impossível. O urânio altamente enriquecido estocado pelo Irã — estimado em 440 quilogramas a 60% de pureza U-235, quantidade suficiente para múltiplas armas nucleares se enriquecido ao nível de armamento — permanecia sem localização confirmada.
A estrutura maquiaveliana da aparência já estava, portanto, sob pressão. Alguns meses depois, ela ruiria.
Em fevereiro de 2026, ao justificar uma nova ofensiva militar contra o Irã, Trump repetiu a afirmação de que o programa nuclear havia sido "obliterado" — mas acrescentou que o Irã havia "reconstruído seu programa nuclear" e desenvolvia mísseis capazes de atingir os Estados Unidos. A contradição interna era perfeita: o que havia sido destruído de forma total e definitiva em junho de 2025 havia, de alguma forma, ressurgido em menos de um ano a ponto de justificar outra guerra.
Analistas de política nuclear expressaram ceticismo explícito quanto à avaliação de ameaça. A Agência de Inteligência de Defesa havia publicado, em maio de 2025, uma avaliação de que o Irã poderia desenvolver um míssil de longo alcance até 2035 caso decidisse fazê-lo — uma perspectiva de uma década, não uma ameaça iminente. A distância entre Teerã e Washington é de aproximadamente 10.000 quilômetros; os mísseis iranianos conhecidos atingiam no máximo 2.000 quilômetros. Três funcionários americanos com acesso a inteligência sobre programas de mísseis afirmaram ao New York Times que Trump havia exagerado a imediatidade da ameaça. A Diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, havia alertado contra a guerra — e, após ser chamada de "errada" por Trump, mudou sua posição publicamente.
Esse último detalhe é particularmente iluminador. Em Maquiavel, o príncipe precisa de conselheiros que lhe digam a verdade — e deve criar as condições para que o façam sem medo. A administração Trump demonstrou, ao contrário, que a aparência de consenso interno era mais valorizada do que a virtù do conselho sincero.
"Temos controle total sobre o Estreito de Ormuz"
O Estreito de Ormuz, pelo qual passa normalmente cerca de 20% do petróleo mundial, tornou-se o segundo grande palco da teatralidade discursiva da administração Trump no contexto iraniano.
Quando o Irã fechou (parcialmente) o estreito como resposta às ações militares americanas e israelenses em março de 2026, a interrupção representou uma crise geopolítica e econômica de primeira magnitude. A retórica da administração respondeu à altura da gravidade: Pete Hegseth, Marco Rubio e o próprio Trump afirmaram, em diferentes momentos, ter "controlado" o estreito — mesmo enquanto o tráfego permanecia amplamente paralisado.
A formulação mais reveladora veio do próprio Trump. Em entrevista à CNN, ainda durante o conflito, o presidente declarou que o estreito seria "controlado conjuntamente" por ele e pelo Aiatolá — "quem quer que seja o Aiatolá, quem quer que seja o próximo Aiatolá". A frase condensa várias camadas de aparência: a de um acordo já concluído (que não existia), a de uma posição de força negociadora (enquanto as negociações estavam em impasse), e a de indiferença despreocupada em relação à identidade do interlocutor (que sinalizava domínio, mas revelava imprecisão estratégica).
O cessar-fogo provisório, quando finalmente anunciado, trouxe uma confirmação parcial e temporária da reabertura do estreito — por duas semanas. Analistas alertaram que havia incerteza considerável sobre a real extensão da reabertura, e líderes democratas classificaram o acordo como "insuficiente", exigindo um fim permanente do conflito.
Com a imagem negativa, devido à incapacidade dos EUA em controlar de fato o Estreito de Ormuz, Trump anunciou a chamada Operação Liberdade (Project Freedom). A propaganda desta vez dizia que os EUA garantiriam o tráfego de petroleiros pelo Estreito por meio de escolta da sua marinha. Além disso, o projeto também foi desenhado para ser "humanitário", pois prometia "resgatar" 23 mil marinheiros de 87 países "abandonados" pelo regime iraniano. A operação mobilizou contratorpedeiros, mais de 100 aeronaves e 15.000 militares, mas, na prática, a circulação total no estreito caiu 11% na semana da operação, uma vez que a maioria das seguradoras e empresas de navegação permaneceram céticas e não autorizaram a travessia.
Do ponto de vista maquiaveliano, o caso do Estreito de Ormuz ilustra com precisão o mecanismo que poderíamos chamar de antecipação retórica da vitória: a declaração de controle precede — e substitui — o controle efetivo. O efeito de dissuasão que Maquiavel atribuía à aparência de força depende, contudo, de que os adversários e aliados acreditem na aparência. Quando a realidade a contradiz de forma pública e mensurável — o estreito estava fechado, o petróleo não circulava, os preços do ouro subiam com as notícias de guerra —, a aparência perde sua função estratégica e se converte em vulnerabilidade retórica.
"Vamos deixar o Irã Quebrado!"
O terceiro registro discursivo que nos interessa é o econômico, protagonizado especialmente pelo Secretário do Tesouro Scott Bessent. Quando a moeda iraniana entrou em colapso em dezembro de 2025, acelerada pela imposição de novas sanções internacionais via mecanismo de snapback da ONU em setembro daquele ano, Bessent descreveu o evento como o "grande desfecho" da estratégia de pressão máxima americana.
A formulação era, novamente, mais categórica do que os fatos autorizavam. O colapso econômico iraniano era real: a moeda havia se desvalorizado drasticamente, os preços de alimentos básicos como arroz e carne haviam subido de forma expressiva, ativos iranianos no exterior estavam congelados. A pressão sobre a população era severa e inegável.
Mas "deixar o Irã quebrado" — na formulação que circulou nos discursos da administração — pressupõe que o colapso econômico se traduziria em capitulação política. Essa equação, central à estratégia de pressão máxima, não se confirmou. O colapso da moeda precipitou protestos populares que explodiram em dezembro de 2025 e se espalharam em janeiro de 2026, por meio de uma guerra de operação psicológica associada à infiltração de grupos armados (por Israel e os EUA) para desestabilizar o governo. O resultado foi a repressão brutal, que resultou em milhares de mortos, segundo autoridades sanitárias iranianas. A estrutura de poder não cedeu; ao contrário, demonstrou disposição para exercer violência em escala que surpreendeu até analistas pessimistas.
A narrativa de Bessent sobre o "grande desfecho" é um exemplo quase didático do que poderíamos chamar, no vocabulário maquiaveliano, de confusão entre condição necessária e condição suficiente. O colapso econômico era, talvez, uma condição necessária para enfraquecer o Irã — mas estava longe de ser suficiente para produzir o resultado desejado. Anunciar o "desfecho" antes que o desfecho ocorresse não era apenas prematuro; era uma inversão da lógica da aparência. Em Maquiavel, anuncia-se a vitória para consolidá-la. Aqui, anuncia-se o desfecho de um processo que ainda estava em aberto — e cujo desdobramento (a escalada militar de fevereiro de 2026) contradiz a narrativa de sucesso.
Os três casos examinados revelam um padrão estrutural que vai além de meros exageros retóricos ou da conhecida tendência de Trump à hipérbole. O que está em jogo é uma transformação qualitativa na relação entre discurso e realidade política.
Em Maquiavel, a aparência é sempre referida a algo externo a ela: a uma realidade de poder que se quer construir, preservar ou ampliar. Há uma lógica de ancoragem, mesmo que tênue. O príncipe que parece vitorioso o faz para tornar sua posição mais sólida — e essa solidez tem, eventualmente, de se manifestar em resultados reais.
Na administração Trump sobre a política iraniana, o circuito se fecha sobre si mesmo: a aparência de vitória justifica novas ações, que produzem novos momentos de declaração de vitória, que por sua vez devem ser sustentadas por novas ações — mesmo quando essas ações contradizem as declarações anteriores. O programa nuclear "obliterado" que "ressurgiu" para justificar uma segunda guerra não é apenas uma inconsistência factual: é a marca de um sistema discursivo que perdeu o referente externo.
O paradoxo terminal dessa radicalização é que ela acaba por corroer a própria aparência que pretende construir. Um príncipe maquiaveliano bem-sucedido cria uma imagem de força que dura — porque é suficientemente ancorada para resistir ao escrutínio. A acumulação de declarações contraditórias — o programa obliterado que ressurgiu, o estreito controlado que permanecia fechado, o colapso econômico como desfecho de um processo que continuou — produz não uma imagem de força, mas um inventário de inconsistências que mina a credibilidade da próxima declaração.
Maquiavel nos ensinou, há cinco séculos, que a aparência é parte constitutiva do poder — e que pretender governar sem ela é ingenuidade perigosa. O que está em questão é algo diferente: a proporção e a ancoragem da aparência. A leitura maquiaveliana da política iraniana de Trump sugere que há um limiar além do qual a aparência deixa de ser um instrumento de poder e se converte em seu oposto: uma vulnerabilidade. Quando as declarações de vitória se acumulam de forma contraditória, quando a realidade geopolítica desmente publicamente a retórica presidencial, quando os próprios aliados e membros da comunidade de inteligência expressam ceticismo público — a aparência não mais consolida o poder, mas evidencia sua fragilidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário