sábado, abril 11, 2026

SIONISMO, ANTISSEMITISMO E ESTADO COLONIAL DE ISRAEL NA PALESTINA. (PARTE 3)

Nesta última parte da discussão sobre as falsas equivalências entre antissionismo e antissemitismo, tratarei sobre como o lobby sionista funciona. Não há qualquer preocupação sincera por parte dos sionistas para com os judeus espalhados pelo mundo; como vimos — nas partes 1 e 2 —, há uma instrumentalização deliberada do sofrimento judaico como meio de garantir o projeto colonial dos sionistas a partir da máquina de guerra do Estado de Israel. Vamos ao texto.

A campanha global para criminalizar o antissionismo: como a diplomacia israelense age pelo mundo

A lei francesa que Gabor Maté chama de "absurda, ditatorial e antidemocrática" não é um caso isolado. Ela faz parte de uma ofensiva diplomática coordenada — e documentada — que já alcançou dezenas de países, incluindo o Brasil.

A definição IHRA: a ferramenta central

O instrumento-chave dessa campanha é a chamada definição de antissemitismo da IHRA — a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Adotada em 2016 durante uma reunião plenária em Bucareste, a definição inclui 11 "exemplos contemporâneos de antissemitismo", dos quais 7 se referem diretamente ao Estado de Israel. Entre eles: questionar o direito de existência de Israel como Estado judeu ou compará-lo a regimes como o nazismo são, segundo essa definição, formas de antissemitismo.

O paradoxo foi apontado pelo próprio autor original do texto, Kenneth Stern, hoje diretor do Centro de Estudos do Ódio no Bard College. Stern alertou repetidamente que a definição estava sendo usada como "instrumento contundente para rotular qualquer pessoa de antissemita" — e que jamais foi concebida para servir como código legal ou para suprimir críticas políticas legítimas a Israel.

"Ao vincular a definição IHRA a decisões legais e administrativas, esse projeto de lei arrisca confundir críticas legítimas às políticas de Israel com antissemitismo." — Ann Ghazy, advogada e ativista de direitos civis.

Um movimento de alcance global

Longe de ser um fenômeno europeu, a adoção formal da definição IHRA já alcançou 47 países, incluindo 26 dos 27 membros da União Europeia, além de Argentina, Austrália, Brasil, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Filipinas, Panamá, Coreia do Sul, Reino Unido, Estados Unidos e Uruguai. No Brasil, além da adoção federal (não como decreto federal único), estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Roraima, Rondônia, Amazonas, Minas Gerais e Paraná — além da cidade de Porto Alegre — também adotaram a definição em nível subnacional.

Em julho de 2024, foram lançadas em Buenos Aires as "Diretrizes Globais para Combater o Antissemitismo", assinadas inicialmente por 30 países, pela Comissão Europeia, pelo Conselho da Europa e pela Organização dos Estados Americanos. Em 2025, o número de signatários cresceu para quase 50 países — e as diretrizes endossam explicitamente a definição IHRA.

O papel da diplomacia israelense

A expansão dessa definição pelo mundo não ocorreu espontaneamente. Há evidências documentadas de que a diplomacia israelense trabalhou ativamente para promovê-la em cada país.

Um exemplo transparente: ao defender a adoção da definição pelo governo italiano, o embaixador israelense em Roma, Dror Eydar, declarou ao Jerusalem Post que trabalhava "ativamente" para esse fim e que "Israel espera que cada país faça o mesmo". Ele foi direto sobre o objetivo político: "Um ponto central da definição é que opor-se à existência do Estado judeu é antissemitismo — o que é novo para o mundo, se eles aceitarem." Quando a Sérvia adotou a definição, a embaixada israelense em Belgrado publicou um tuíte comemorando a decisão.

Na ONU, o embaixador israelense Gilad Erdan conduziu uma campanha prolongada para pressionar a organização a adotar formalmente a definição, invocando-a sistematicamente em ataques ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, à UNRWA e aos relatores especiais sobre a Palestina — os mesmos organismos que documentam violações israelenses.

A Human Rights Watch, a ACLU e dezenas de organizações de direitos civis alertaram que, na prática, a definição IHRA tem sido usada para silenciar estudantes, professores, jornalistas e ativistas pró-palestinos — inclusive judeus. Na Alemanha, a emissora estatal Deutsche Welle demitiu sete jornalistas árabes com base na definição. Nos EUA, dezenas de estudantes foram suspensos ou expulsos de universidades sob pressão do governo federal. Um tribunal federal do Texas concluiu em 2024 que o uso da definição IHRA para criar códigos de discurso em universidades provavelmente viola a Primeira Emenda da Constituição americana.

Nos EUA: da ordem executiva à lei federal

Nos Estados Unidos, o processo avançou em duas frentes. No plano federal, a Câmara dos Representantes aprovou em maio de 2024 o "Antisemitism Awareness Act" por 320 votos a 91, tornando obrigatório o uso da definição IHRA pelo Departamento de Educação. Mais de 1.200 acadêmicos judeus — incluindo o professor de direito de Harvard Lawrence Tribe — assinaram carta pedindo ao presidente Biden que vetasse a medida, argumentando que "criticar o Estado de Israel, o governo israelense, as políticas do governo israelense ou a ideologia sionista não é, em si mesmo, antissemitismo." Em janeiro de 2025, o presidente Trump assinou uma ordem executiva ampliando as medidas anteriores. No plano estadual, 38 estados americanos aprovaram leis ou ordens executivas para restringir ou penalizar boicotes a Israel.

O que Gabor Maté disse — e o que os dados confirmam

Na entrevista que deu origem a esta série de textos, Gabor Maté descreveu a lei francesa que equipara antissionismo a antissemitismo como uma medida "concebida para manter a relação colonial da Europa com o Oriente Médio" — e não como uma proteção genuína ao povo judeu. Os dados compilados neste levantamento sugerem que ele tem razão em um sentido mais amplo: trata-se de uma estratégia global, coordenada diplomaticamente, que utiliza a memória do Holocausto como escudo jurídico para blindar um Estado de críticas internacionais.

O genocídio em Gaza, impossível de ignorar, contribuiu de forma decisiva para o aumento da rejeição mundial ao Estado de Israel e a suas lideranças sionistas, em especial Benjamin Netanyahu. A pressão das embaixadas israelenses para a implementação de leis como a proposta pela deputada Tabata Amaral (parte 1), pode ser explicada pelo reconhecimento, por parte do governo Netanyahu, do declínio da imagem de Israel no mundo. Em 7 de abril de 2026, uma pesquisa foi publicada pelo Pew Research Center — uma das organizações de pesquisa de opinião pública mais respeitadas do mundo, sem afiliação partidária. O título original é: "Negative views of Israel, Netanyahu continue to rise among Americans, especially young people" (A visão negativa de Israel e de Netanyahu continua a crescer entre os americanos, especialmente entre os jovens). Os números da pesquisa são extremamente alarmantes para os sionistas, pois se trata do país que mais financia o sionismo no mundo.

Segundo a pesquisa, 60% dos adultos americanos têm uma visão desfavorável de Israel — alta de 7 pontos percentuais desde o ano passado e quase 20 pontos desde 2022. A parcela com visão "muito desfavorável" (28%) quase triplicou em relação a 2022. Além disso, 59% têm pouca ou nenhuma confiança em Netanyahu para fazer a coisa certa em assuntos mundiais — alta de 7 pontos em relação ao ano anterior. Em ambos os partidos, maiorias de adultos com menos de 50 anos avaliam Israel e Netanyahu negativamente.

Outros dados da pesquisa que não constam no gráfico:

Entre os americanos de 18 a 49 anos, 70% têm visão desfavorável de Israel. Maiorias de jovens democratas (84%) e republicanos (57%) com menos de 50 anos compartilham essa visão. (Fonte: Common Dreams)

56% dos judeus americanos têm pouca ou nenhuma confiança em Netanyahu em assuntos mundiais. (Fonte: J. The Jewish News of Northern California)

Entre os evangélicos brancos, 52% ainda confiam em Netanyahu — sendo o único grupo religioso com maioria favorável a ele. (Fonte: Pew Research Center) — Obs.: Aqui há uma assunto fundamental para uma outra discussão; o sionismo cristão. 

Mais da metade dos americanos (55%) também não confia no presidente Trump para tomar boas decisões em relação ao relacionamento dos EUA com Israel.

Finalmente, não se trata de ser contra o Estado de Israel e seu direito de existir, mas de denunciar que tal Estado foi criado como um projeto colonial pelos sionistas que o controlam desde sua fundação e que as alas mais radicais do sionismo o converteram em um Estado de apartheid de supremacia étnica. O exemplo mais recente é a lei de pena de morte por enforcamento, exclusiva a palestinos que vivem na Cisjordânia, aprovada pelo Knesset (parlamento israelense) em 30 de março de 2026. 

As negociações de paz entre Israel e seus vizinhos — sejam eles Palestinos de Gaza ou Cisjordânia, Libaneses, Sírios ou Iranianos —  jamais atingiram uma paz duradoura, enquanto o povo israelense não assumir o controle do Estado e reescrever sua constituição eliminado suas cláusulas de supremacismo étnico.  

Jonatas Carvalho — Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (PPGSD - UFF); Pesquisador associado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) e ao Núcleo de Estudos em Psicoativos e Cultura (PsicoCult). 










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