Dando sequência ao texto que escrevi ontem, nesta segunda parte resgato uma série de autores judeus, estudiosos do holocausto e genocídios, historiadores, cientistas políticos, dentre outras especialidades, que contribuem com a perspectiva de Gabor Maté. Há muitos outros e outras, de outras nacionalidades e etnias, como estudiosos Árabes e Palestinos. Mas escolhi os autores judeus, porque entendo ser importante demonstrar que a suposta equivalência entre antissemitismo e antissionismo é, na prática uma falsa equivalência. Neste texto, especificamente, o sionismo é o foco.
Gabor Maté não está sozinho: outras vozes judaicas críticas ao sionismo e à limpeza étnica em Gaza.
As posições de Gabor Maté — sobrevivente do Holocausto que critica abertamente o sionismo e classifica as ações israelenses em Gaza como genocídio — costumam ser apresentadas como excêntricas ou marginais. A realidade acadêmica, no entanto, conta uma história diferente. Um número crescente de intelectuais judeus, muitos deles especialistas justamente em Holocausto e genocídio, compartilha análises semelhantes. Conheça alguns deles.
Cientista político, filho de sobreviventes do Holocausto — EUA
Filho de sobreviventes do Holocausto — sua mãe esteve em Auschwitz e seu pai em Majdanek —, Finkelstein é doutor em ciência política por Princeton e um dos críticos mais contundentes do que chama de instrumentalização política da memória do Holocausto. Em seu livro mais célebre, A Indústria do Holocausto (2000), argumenta que a memória do genocídio nazista foi convertida em "arma ideológica" para proteger Israel de críticas legítimas — tese que ecoa diretamente na fala de Maté. Ao longo da carreira, pagou um preço alto por suas posições: foi demitido de universidades, teve seu pedido de tenure negado — protege a liberdade acadêmica, permitindo que o professor realize pesquisas e ensine sem medo de demissão arbitrária por suas convicções — na Universidade DePaul e chegou a ser proibido de entrar em Israel por dez anos. Mesmo assim, nunca recuou. Sua análise sobre Gaza segue na mesma linha: ele classifica Israel como um Estado de apartheid e defende os direitos palestinos como uma questão de direito internacional, não de simpatia.
Ilan Pappé
Historiador, um dos fundadores dos "Novos Historiadores" israelenses — Israel/Reino Unido
Nascido em Haifa em 1954, Pappé é professor na Universidade de Exeter e figura central entre os chamados "Novos Historiadores" israelenses — um grupo que, a partir dos anos 1980, revisou a narrativa oficial sobre a fundação do Estado de Israel com base em documentos desclassificados. Seu livro mais influente, A Limpeza Étnica da Palestina (2006), documenta o que ele descreve como a expulsão sistemática e planejada dos palestinos em 1948 — o que os palestinos chamam de Nakba. Pappé foi pressionado a deixar a Universidade de Haifa e hoje trabalha no Reino Unido. Em 2023, descreveu as ações israelenses em Gaza como parte de um "genocídio incremental" do povo palestino — posição que manteve e reforçou durante a guerra.
Omer Bartov
Especialista em Holocausto e genocídio, Universidade Brown — Israel/EUA
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| © UNICEF/UNI448902/Ajjour |
"A mentalidade dos soldados das FDI em Gaza me lembrava a dos soldados da Wehrmacht na Rússia — tendo internalizado uma visão do inimigo como menos que humano."
Raz Segal
Historiador israelense, estudos do Holocausto e genocídio — Universidade Stockton, EUA
Um dos primeiros acadêmicos a usar o termo genocídio para o que ocorre em Gaza — já em outubro de 2023 —, Segal é frequentemente acusado de antissemitismo apesar de ser judeu e especialista no Holocausto. Ele próprio descreveu a situação como paradoxal: ser atacado como antissemita justamente por aplicar os critérios do direito internacional às ações de um Estado. Segal documentou o crescimento dessa posição no meio acadêmico e foi um dos articuladores de uma declaração assinada por mais de 800 especialistas em direito internacional, estudos do Holocausto e genocídio sobre a violência genocida israelense em Gaza.
Daniel Blatman
Historiador do Holocausto, Universidade Hebraica de Jerusalém — Israel
Professor na mesma universidade citada por Maté na entrevista, Blatman é um dos especialistas em Holocausto dentro de Israel que se posicionaram criticamente em relação à conduta do país em Gaza. Em outubro de 2024, publicou um artigo classificando o chamado "Plano dos Generais" israelense como um crime de guerra que vai "da limpeza étnica ao genocídio". Sua voz é particularmente relevante por vir de dentro do próprio establishment acadêmico israelense.
Um debate que se tornou consenso acadêmico
Além desses nomes individuais, o debate se institucionalizou. Em 2025, a Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio — com cerca de 500 membros, incluindo especialistas em Holocausto — aprovou uma resolução com 86% dos votos afirmando que as ações israelenses em Gaza atendem à definição legal de genocídio. Em maio do mesmo ano, o jornal holandês NRC descreveu os principais estudiosos da área como "surpreendentemente unânimes" nessa avaliação.
Gostaria de citar ainda mais dois autores, um não judeu, o cientista político estadunidense, John J. Mearsheimer, autor de diversos títulos, dentre eles, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (2007) — escrito em parceria com Stephen Walt — cuja tese central é: o lobby pró-Israel nos EUA — representado sobretudo pela AIPAC (American Israel Public Affairs Office Committee) e organizações aliadas — exerce uma influência desproporcional sobre a política externa americana, desviando-a dos interesses nacionais estadunidenses em favor dos interesses israelenses. O argumento não era moral, mas estratégico: Mearsheimer e Walt afirmavam que o apoio incondicional a Israel prejudica os EUA geopoliticamente, isolando-o no mundo árabe e envolvendo-o em conflitos que não servem aos seus objetivos. O livro gerou uma tempestade — acusações de antissemitismo, ataques de analistas pró-Israel, e também um debate amplo e duradouro sobre o que pode ou não pode ser dito em público sobre a relação EUA-Israel.
Após o 7 de outubro de 2023 e a ofensiva israelense em Gaza, Mearsheimer voltou ao centro do debate. Ele afirmou que Israel está cometendo genocídio — não por simpatia emocional com os palestinos, mas porque havia evidências, avaliadas pelos critérios do direito internacional, apontando nessa direção. Também analisou o comportamento do lobby israelense como cada vez mais agressivo e explícito, falando em "smash-mouth politics": pressão aberta e intimidatória sobre políticos, universidades e jornalistas. Para Mearsheimer, a acusação de antissemitismo tornou-se uma ferramenta para silenciar críticas legítimas — e está perdendo eficácia justamente por esse uso excessivo.
Outro estudioso, o professor em economia, Jaffrey Sachs (judeu), professor de desenvolvimento sustentável em Columbia, ex-conselheiro especial de três secretários-gerais da ONU e autor de obras influentes como The End of Poverty e The Age of Sustainable Development, Sachs construiu sua reputação como arquiteto de programas de combate à pobreza e defensor dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Não é um teórico do conflito israelense-palestino — é um economista e especialista em governança global que chegou ao tema por uma via diferente: a da ordem internacional, do direito e da responsabilidade das grandes potências.
Desde o início da ofensiva israelense em Gaza, Sachs tem sido uma das vozes mais contundentes e visíveis na mídia internacional. Judeu, faz questão de dizer: "Israel não fala por mim." Ele classifica as ações israelenses em Gaza como genocídio — não como retórica, mas como avaliação jurídica baseada na Convenção sobre Genocídio de 1948. Afirma que os EUA são cúmplices ao fornecer armamentos e bloquear resoluções no Conselho de Segurança da ONU. E critica com dureza a conflação entre antissionismo e antissemitismo, argumentando que a oposição crescente às políticas israelenses no mundo não é ódio aos judeus — é rejeição ao genocídio.
Sachs é especialmente eficaz no debate público porque combina linguagem técnica com clareza moral. Ele documentou como corporações ocidentais, bancos e a indústria de armamentos lucram com a guerra em Gaza — o que ecoa diretamente a análise de Gabor Maté sobre os interesses econômicos por trás do apoio ocidental a Israel. E vai além: propõe que a solução de dois Estados seja imposta por meio do direito internacional, independente do veto americano, como único caminho para uma paz duradoura. Para ele, apoiar essa solução é apoiar a segurança do povo judeu — não o contrário.
"A crescente oposição global às políticas de Israel não é antissemitismo. É anti-genocídio." — Jeffrey Sachs, 2024.
Por último, gostaria de estabelecer alguns paralelos entre dois dos autores acima, Ilan Pappé e John Mearsheimer, isto porque, Pappé, também escreveu uma obra sobre o lobby israelense, intitulado: Obbying for zionism on both sides of the atlantic (2024). Mas diferente de Mearsheimer, trata-se da obra de um historiador. Primeiramente, porque a pergunta de Mearsheimer e Stephen Walt era a seguinte: "O lobby israelense prejudica os EUA?" Enquanto Ilan Pappé se perguntava: "Como o sionismo se tornou hegemônico?" Apesar de enormes diferenças em ambas as obras, tanto de metodologia, quanto de estrutura, há algumas convergências relevantes ao debate que nos interessa aqui — e que pretendo estender na parte 3 — vamos a elas:
(1) o lobby israelense exerce influência desproporcional sobre as democracias ocidentais;
(2) essa influência é mantida por uma combinação de financiamento, acesso a elites e campanhas de intimidação contra dissidentes;
(3) a acusação de antissemitismo é usada instrumentalmente para silenciar críticas legítimas; (4) a mídia dominante nos EUA e no Reino Unido opera com autocensura sistemática sobre o tema.
Continua amanhã.

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