A operação "Fúria Épica", uma ação conjunta dos EUA e Israel contra o Irã, ocorreu no dia 28 de fevereiro de 2026. O ataque de "decapitação", ao estilo israelense, visava eliminar as principais lideranças militares e da Guarda Revolucionária, além do Aiatolá Ali Khamenei. Há, no entanto, muito mais do que a intenção anunciada. Não se trata só de "decapitar" — embora o termo por si só já nos remeta a quem são os verdadeiros "bárbaros" nesta história — mas de desumanizar o outro. Uma prática militar em que o inimigo não é respeitado como tal, mas é menosprezado em todos os sentidos.
O primeiro elemento que me chama atenção é que o ataque ocorreu no período do Ramadã (que em 2026 ocorreu entre 17 de fevereiro e 19 de março), o mês mais sagrado da religião islâmica, quando os fiéis realizam práticas de purificação com jejum, orações e leituras do Corão. Portanto, ao atacar o Irã em 28 de fevereiro, a aliança EUA/Israel demonstra o desprezo pela religião de um povo inteiro. Poderiam ter atacado antes ou depois, mas escolheram atacar no Ramadã. O objetivo é insultar, ferir além do físico. Tratou-se de um ataque simbólico.
Outros elementos devem ser incluídos que demonstram o quão cruéis foram os bombardeios. Ali Khamenei não estava sozinho em sua residência quando mísseis antibunker atingiram o local; sua esposa, a filha (Boshra Khamenei), o genro e a neta (Zahra Mohammadi), de apenas 14 meses, também morreram. Mojtaba Khamenei, o filho, sobreviveu ao ataque e foi eleito o novo Aiatolá. A "decapitação" não se importa com os "efeitos colaterais": o bebê de 14 meses não foi sequer mencionado pelas lideranças ocidentais, que só se manifestaram para repudiar a retaliação iraniana às bases dos vizinhos emiradenses e catarianos utilizadas para o ataque ao seu país.
![]() |
| Parte da tela "A Guerra" da minha Marida. |
Os ataques de des-humanização são uma prática comum do Ocidente; mais recentemente, Israel se tornou o maior exemplo desta "tática". Não basta atacar, é preciso infligir uma dor descomunal ao inimigo, é necessário demonstrar que seu povo, suas tradições, não significam nada. Tem sido assim na Palestina ocupada, mais drasticamente na "Faixa de Gaza", onde o genocídio ocorre a céu aberto e, apesar de a ONU e o Tribunal Penal Internacional (TPI) — com pilhas de provas, testemunhas, imagens... — terem condenado (a Comissão de Inquérito da ONU, como genocídio, e o TPI, como crimes de guerra e contra a humanidade), o Ocidente segue ignorando: nenhuma ação concreta contra Netanyahu ou Yoav Gallant.
Mas para quem acredita que Israel inventou tais atrocidades, não devemos esquecer que os EUA (com suas corporações) estão profundamente envolvidos neste genocídio. Além do mais, a longa história de crimes bárbaros por parte do Ocidente não se reduz ao exemplo nazista. Os EUA se tornaram um império que se sustenta em ataques de des-humanização. Em 1968, em plena Guerra do Vietnã, soldados estadunidenses massacraram quase 500 civis desarmados na vila de My Lai, a maioria mulheres e crianças. Em 1972, os bombardeiros B-52 alvejaram por doze dias as cidades de Hanói e Haiphong; mais de 1.600 civis morreram. Não esqueçamos os milhões de litros de agente laranja sobre as florestas e plantações que afetaram gerações inteiras com câncer e malformações congênitas. Duas décadas antes, na Coreia do Norte, cerca de 20% da população foi dizimada com toneladas de napalm — estimativa citada por historiadores como Bruce Cumings —, e mais de 80% das cidades foram destruídas.
Em 1991, centenas de mulheres e crianças que buscavam proteção em um abrigo antiaéreo morreram carbonizadas em Amiriyah, um bairro de Bagdá, devido a um ataque com uma bomba "destruidora de bunkers". Os iraquianos também sofreram com o uso de fósforo branco — em Faluja (2004) — além das crueldades institucionalizadas — abusos físicos, psicológicos e sexuais sistematizados — no histórico caso das "Torturas de Abu Ghraib" (2003-2004).
Quanto à OTAN, não podemos nos esquecer da destruição da Iugoslávia. Em 1999, a emissora estatal RTS, em Belgrado, foi destruída por uma bomba sob a justificativa de "interromper a propaganda de guerra"; 16 profissionais (jornalistas, técnicos, maquiadores) foram assassinados. No mesmo ano, um trem de passageiros em Grdelica foi alvo de mísseis guiados, quando passava por uma ponte. A OTAN usou munições de urânio empobrecido e bombas de fragmentação em áreas urbanas, como em Niš, atingindo um mercado público e um hospital. Por 78 dias, a Iugoslávia foi alvo de 10 mil "missões de bombardeio", entre 20 e 30 mil bombas e mísseis jorrando toneladas e toneladas de explosivos; 80% do país ficou sem energia elétrica e sem água potável, milhares de civis mortos, milhões desabrigados.
As guerras de des-humanização são mais que guerras convencionais: o objetivo vai além de derrotar o inimigo, quer-se humilhá-lo, coisificá-lo. São guerras que não se restringem a soldados contra soldados; trata-se de eliminar parte significativa da população apenas para demonstrar que se pode destruir a todos. A intenção de tamanha violência e crueldade não é apenas conseguir uma rendição, mas incutir no inimigo um trauma geracional que, acredita-se, o fará nunca mais desafiar o agressor. Por fim, serve como exemplo a todo e qualquer outro povo ou nação que pense em o confrontar.
Mas, um dia — e imagino que estamos próximos dele —, os povos não agredidos diretamente, mesmo velhos aliados, perceberão que aquela brutalidade poderá se voltar contra eles. O número de países agredidos será tão significativo que se unirão numa resistência silenciosa: aos poucos reduzirão a dependência e, com o tempo, passarão ao confronto. Novas alianças políticas, econômicas e militares emergirão, novas instituições darão lugar às velhas, e as relações entre os povos não se darão mais por ameaças e intimidações, mas por respeito e cooperação. A autodeterminação dos povos será o grande lema mundial e o império se renderá ao mundo multinodal.
