domingo, agosto 30, 2026

A (IN)SENSIBILIDADE NOSSA DE CADA DIA.

Em minha última análise, já no final da sessão, sinalizei ao meu analista que já fazia um tempinho que eu não trazia minhas inquietações com as guerras. Ele, como um bom lacaniano, achou por bem efetuar o "corte", dizendo:— Bem, talvez seja uma boa questão para refletir ao longo da semana: por que o tema da guerra lhe afeta tanto?

Refleti por um segundo e lhe devolvi o "corte":

— Sim, claro. Ou refletir por que as pessoas vivem sem se permitir serem afetadas pela guerra.

Sim, eu suspeito saber alguma coisa sobre ambas as questões. No meu caso, sou um historiador e um cientista social, sou pesquisador associado a uma instituição que se chama Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT/InEAC). Passei os últimos anos investigando os conflitos produzidos pelas políticas de drogas no Brasil e, mais recentemente, na América do Sul. Então, os conflitos me afetam, em especial os violentos. Sempre penso o quanto eles são estúpidos, desnecessários, e que um pouco de disposição ao diálogo seria suficiente para evitar um monumental volume de mortes e outras desgraças. 

Imagem gerada por IA

Não, não vejo nada mais urgente ou importante que mereça minhas preocupações. Tenho zero interesse nos dilemas cotidianos da classe média e alta (acho que isso me torna um péssimo candidato para ser um psicanalista). Quase tudo que escuto dos meus colegas (na sala de) professores soa como banalidades — não, na maioria das vezes eles não estão discutindo como sair dessa condição de precarização que vem destruindo nossa categoria.

Quanto à questão do porquê sinto que as pessoas preferem não se afetar com a guerra, creio que a complexidade é maior. Penso em fatores dinâmicos que operam concomitantemente: a vida pesada da escala 6x1 (e outras escalas ainda piores); a subjetivação capitalista/neoliberal que produz em todos nós desejos fortemente egoísticos — entretenimento raso, HIPER-narcisismo, HIPER-conectividade... Tudo isso (dentre outros fatores) nos leva a um tipo de "atitude de reserva", conceito que o sociólogo Georg Simmel chamou de blasé outlook, em sua fenomenal obra "As Grandes Cidades e a Vida Mental."

Eu posso compreender isso, mas não significa que eu tenha que aceitar como algo sobre o qual nada se possa fazer para mudar. Fico puto quando, nas minhas redes sociais, recebo centenas de likes porque postei uma "foto boba qualquer" (uma paisagem, ou ao lado da minha Marida), mas quando publico algo sério por aqui e posto nas redes, uma minúscula parcela de "seguidores" curte. Eu sei por que, claro. Ainda assim, fico puto. Sei que as pessoas preferem não ler textos "tão pesados", que quando elas estão deslizando seus dedos pela porra da tela, elas estão em busca de "distrações positivas" — uma historinha romântica, pitoresca — que lhes traga alegria, relaxamento, paz. Então, quando chegam no cara que "só fala de desgraça" (EU), elas passam direto. Mais uma vez, eu entendo. Mais uma vez, continuo puto! As duas coisas podem coexistir em mim.

Imaginem se tivéssemos que carregar a carga de todas as tragédias que nos cercam. Você acorda cedo, liga a TV em um telejornal qualquer e, antes mesmo de sair de casa, já recebe uma dose significativa de informações horrorosas — um trem descarrilhou, um avião caiu, alguém matou alguém numa briga de trânsito na noite passada a uma quadra de onde você mora, uma enxurrada destruiu uma vila inteira em algum lugar do mundo... Se não fosse a "atitude de reserva", você voltaria para a cama. Então, no caminho até o trabalho, você passa por dez, quinze pessoas (em São Paulo, dependendo de onde você mora e trabalha, é muito mais) dormindo embaixo das marquises pelas calçadas por onde você transita. No trabalho, você descobre que o parente de algum amigo está internado (ou faleceu), que sua empresa vai implementar uma "reestruturação"... Não há saúde emocional que fique de pé se não tivermos como nos defendermos de tantas tragédias. A "atitude de reserva" é um mecanismo de defesa; "selecionamos" inconscientemente o que nos afeta mais ou menos, é uma solução para sofrer menos. 

Muitos se sensibilizam com a história do(a) ator/atriz global que narrou em suas redes como perdeu um papel na novela/série/filme por alguma forma de discriminação (milhões de curtidas, centenas de mensagens de indignação); são os mesmos que seguem adiante (ou fingem não ter visto) quando alguém é discriminado bem diante deles (no vagão do trem/metrô, no ônibus, na calçada...). A violência, a fome, a doença que os choca é aquela que está mais distante, não ao seu lado, não na esquina do nosso prédio/casa. Há os que se sensibilizam com as "causas animais", votam e elegem representantes políticos com histórico na causa para que os bichinhos indefesos tenham seus direitos garantidos, alguns querem o fim dos matadouros, comem derivados de soja (o tofu, o tempeh), cogumelos ou jaca verde — uma galera cuja sensibilidade com as "causas humanas" passa longe. Há os amantes da natureza, verdadeiros guardiões dos biomas, abolidores de tudo o que é plástico, usam "ecobag" de algodão cru, participam de mutirões para limpar uma lagoa/rio/praia... Há muitos outros casos/causas, mas estes exemplos já são suficientes.

Trabalhei por mais de uma década com "viciados" em drogas e álcool (a droga legalizada). Por seis anos, eu coordenei uma ONG que tinha essa finalidade; dávamos assistência aos usuários crônicos (com internação), aos que ainda tinham uma vida funcional com grupos de autoajuda e psicólogos, e aos familiares com terapia de grupo. Ouvi ao longo dessa época, de muita gente, que não colaboraria com o projeto, não doaria para aquela causa, porque se tratava de viciados — "quem mandou se viciar, entrar em parada errada? Tem mais é que se foder!" Não se importavam que fosse um ser humano. Na verdade, os "viciados" são um tipo de humano de quem se poderia abrir mão; eles destroem todos ao seu redor, inclusive a paisagem (veja a "cracolândia"). A causa animal é mais nobre, a natureza é indefesa, o homem tem consciência do que faz — pelo menos deveria ter — é o que dizem. 

Então, aqui estou eu, nos últimos anos me ocupando da guerra. Venho escrevendo sobre uma série de conflitos, um em especial que acompanho há mais de vinte anos: a violência contra os palestinos e palestinas (acho que tenho postagens nesse blog sobre esse tema que são de 2008). Outros tão infelizes quanto: o caso Congo é estarrecedor; mais recentemente, venho também cobrindo os conflitos Ucrânia (OTAN) x Rússia, e, claro, o Irã. Me preocupa que estejamos em pleno desenvolvimento de uma "Terceira Guerra Mundial" (sob um formato absolutamente distinto das anteriores, mas não menos destruidor e catastrófico, ao contrário). Me preocupa que dezenas de pavios de pólvora estejam espalhados por todos os lados, e que a qualquer movimento em falso eles possam ser acesos. Os dois fortes candidatos a se tornarem os "Bálcãs" de hoje são, na minha opinião, a Europa Ocidental e o Pacífico, no Mar da China meridional (Filipinas, Japão, Estreito de Malaca...). Isso me afeta como historiador; estudei as grandes (médias também) guerras, tenho uma enorme preocupação com o quão desastroso isso pode ser para as vidas humanas. Mas não se enganem, a vida natural na Terra irá se modificar radicalmente, os bichinhos indefesos morrerão aos milhões. A guerra é destruição pura; o movimento futurista (fascista) italiano a chamou de "a única higiene do mundo!"

Sim, somos todos mais ou menos (in)sensíveis a respeito de um ou outro tema. Eu compreendo. Mas lutar pela paz (não entre nações, isso é uma bobagem; em outro momento explico isso) é lutar para que cada uma dessas outras causas ainda possam existir. Como Camões, eu peço (imploro): "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta". Mas, diferente dele, não se trata de substituir os heróis greco-romanos (a musa antiga) pelos novos heróis (os navegadores portugueses), mas de substituir os heróis da guerra pelos da paz. Tudo isso é sonho, eu sei, é desejo inalcançável. O orçamento mundial em "defesa" (leia-se: guerra) de 2025 foi de 2,800 TRILHÕES, enquanto o dinheiro destinado à fome global, aos campos de concentração humana (hoje chamados de refugiados), não ultrapassou a casa dos 3 bilhões — a ONU (ACNUR) fez um orçamento de 10 bilhões. Ou seja, o dinheiro para a ajuda humanitária está desaparecendo, mas o dinheiro para investimentos em armas e munições cresce exponencialmente. A GUERRA JÁ CHEGOU, só não nos (nós, brasileiros) atingiu diretamente( (belicamente falando) ainda, mas para outras áreas desse mundão ela é uma realidade destruidora. 


Jonatas Carvalho - Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (PPGSD - UFF) Pesquisador associado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) e ao Núcleo de Estudos em Psicoativos e Cultura (PsicoCult). 





terça-feira, agosto 11, 2026

ABANDONEM TODA A ESPERANÇA: UMA ODE AO REALISMO

"Abandonem toda a esperança, aqueles que aqui entrarem." Creio que esta frase é conhecida por alguns dos meus leitores; trata-se da inscrição feita no portal de entrada do reino dos condenados — sim, refiro-me à obra "A Divina Comédia", de Dante Alighieri (séc. XIV).

Se há um lugar onde se pode deixar para trás qualquer esperança, este lugar é o inferno. Fora este caso, que tipo de existência pode haver sem a esperança? Imagino que até aqueles que nada necessitam, cujos proventos lhes são mais que suficientes — incluindo as próximas gerações —, não podem abdicar da esperança. Como diz o ditado popular, "a esperança é a última que morre". Essa frase, por sinal, tem relação com o mito grego da "Caixa de Pandora" (que nunca foi uma caixa, na verdade, e sim um jarro).

Pandora, a primeira mulher — criada por Hefesto a mando de Zeus —, é enviada à Terra para se tornar companheira de Epimeteu, irmão de Prometeu, castigado por Zeus por ter entregado o fogo aos humanos. Pandora era uma continuação do castigo, agora estendido a toda a humanidade, pois o jarro que ela carregava continha todos os males do mundo. Ela, porém, não sabia disso; só se deu conta ao abri-lo. Quando percebeu seu erro, tentou repará-lo tampando o jarro, e foi então que se deu conta de que a única coisa que restou no seu fundo não era outra maldição, praga ou doença: era a esperança.

O mito grego, atribuído a Hesíodo, traduz a moral da resiliência humana calcada na esperança. Auxilia na conformação social diante das injustiças e de tantas outras maneiras pelas quais sofremos. A esperança é aquela que persiste quando nada mais há para nos sustentar; é a única que não se vai quando tudo desaparece.

Mas a esperança não seria, também, geradora de ilusão? Não teria ela a mesma origem psicossocial da religião? Freud, em "O futuro de uma ilusão" (1927), diferenciou a ilusão da mentira: enquanto a mentira é a distorção deliberada da verdade, a ilusão seria produto do desejo, motivada pelo desamparo e pela impotência diante de um futuro incerto.

Anos antes de Freud, o filósofo Baruch Spinoza, em seu "Tratado Teológico-Político" (1670), defendeu que tanto a esperança quanto o medo (temor) são afetos inseparáveis; ambos nascem da nossa ignorância sobre o futuro e da nossa impotência perante os acontecimentos. Para Spinoza, tanto as religiões quanto os regimes políticos autoritários fazem o uso flutuante dos dois afetos — entre o temor e a esperança — para obter a submissão supersticiosa. Como escapar a esta condição? Tanto em Spinoza quanto em Freud, a saída é uma só: a razão. Freud sugeria substituir a fé pela razão e a ciência (o Deus Logos); assim, poder-se-ia chegar à maturidade psicológica diante da cultura. Spinoza, por sua vez, via a combinação temor/esperança como afetos de tristeza (passivos); apenas o conhecimento sobre as leis da natureza poderia produzir a alegria pura.

Mas como existir sem esperança? Como lidar com as causas (im)prováveis sem a paixão que tanto pode gerar em nós ânimo ou desânimo? O que seria de nós se simplesmente desistíssemos de esperar por um mundo melhor? Talvez pudéssemos inverter a questão: por que parece que o mundo não melhorou apesar de tantas pessoas desejarem ou esperarem que ele ficasse melhor? É aqui que entra minha ode ao realismo.

Não vou me ocupar em destrinchar o pensamento realista político e seus desdobramentos teóricos (realismo estrutural ou neoclássico, entre outros). Meu objetivo é refletir com base na história, portanto, com fundamentação nos dados do passado. E o que estes dados indicam? Que a humanidade nunca viveu em paz. Tivemos períodos mais pacificados, com redução de conflitos, sejam estes intranacionais ou internacionais. Se nos detivermos nos dois últimos séculos, o XIX e o XX, uma quantidade enorme de conflitos pode ser listada: as revoluções liberais e as contrarrevoluções, as guerras imperialistas, os massacres e genocídios neocolonialistas, as duas grandes guerras, as guerras anticoloniais e anti-imperialistas na Ásia, na América e na África.

Enquanto bilhões de pessoas se uniam no final do último milênio — vestidas de branco — na esperança de que o novo século que se aproximava fosse um século de paz e prosperidade... O que vimos até aqui? Mais guerras e mais conflitos. Tivemos os EUA invadindo o Afeganistão e o Iraque, atacando o Iêmen e o Irã, impondo um bloqueio criminoso a Cuba e promovendo o sequestro — igualmente criminoso — de Maduro. Além disso, provocaram, juntamente com Israel, uma guerra civil na Síria, invadiram o Líbano e produziram a maior tragédia de todas: a limpeza étnica em Gaza. Temos também o maior conflito em solo europeu desde a Segunda Guerra, com a Ucrânia sendo usada como bucha de canhão pela OTAN/EUA contra a Rússia. Tivemos conflitos violentos entre Azerbaijão e Armênia, Índia e Paquistão, Camboja e Tailândia.

No continente africano, a vida segue sendo permeada por conflitos e guerras: no Congo, no Sudão, na Somália. A região do Sahel (Mali, Burkina Faso e Níger), que, apesar das particularidades, tem em comum as intervenções de agentes ocidentais com o objetivo de desestabilizar as nações para manter o controle sobre seus recursos naturais. Casos mais recentes, como os movimentos civis anti-imigração de forte teor xenofóbico na África do Sul, guardam, por sinal, alguma semelhança com o que vem ocorrendo na Irlanda do Norte. O resultado tem sido a violenta expulsão de milhares de famílias. Apesar das singularidades, há em comum a equivocada culpabilização dos imigrantes pela desgraça econômica: desemprego, inflação dos alimentos, alta dos aluguéis, entre outros.

A realidade nua e crua — geradora de temor — é amplificada por grupos sociais (neoconservadores/reacionários e neoliberais) que alteram o sentido da crise econômica, produzida por uma política de formação de oligopólios e concentração de renda e riqueza, transformando-a em uma crise moral, resultante da "invasão" de valores estrangeiros, corruptos, inferiores, demoníacos. O africano, o chinês, o russo, o latino-americano... representam a destruição de um tempo em que a vida era realmente boa e segura — tempo este que nunca existiu. Assim, o temor e a esperança se entrelaçam, uma vez que, segundo estes grupos, a única forma de restaurar (esperança) o "tempo da segurança" ou dos "valores superiores" é eliminando as ameaças (temor) do presente.

Assim, se tivermos que produzir alguma violência para chegar a tal objetivo, que seja. Trata-se de fazer tudo o que pudermos para atingir um "bem maior". Se precisarmos eliminar certos direitos e liberdades, tudo bem — o "inimigo" só pode ser derrotado desta forma. É assim que os fascismos emergem.

O que pode ocorrer quando não somos conduzidos por projetos esperançosos de futuros idílicos? Como lidar com a realidade carregada de toda forma de insegurança e violência, quando não se pode recorrer à esperança?  Escolhi alguns pensadores (autores), realistas ou mais próximos do realismo para seguir a partir daqui, não porque eu creia que eles tivessem a resposta, mas porque apresentaram possibilidades que escapam à fórmula dominante da esperança.

Por exemplo, Albert Camus, em "O Mito de Sísifo" (1942) e, mais adiante, em "A Peste" (1947), apresenta a noção de "absurdo"; esta nasce justamente do confronto entre o desejo humano de sentido e um mundo que não oferece esse sentido. No lugar do binômio esperança/temor, o filósofo "absurdista" propõe a "revolta", isto é, viver plena e lucidamente apesar da ausência de garantias, sem recorrer a consolos metafísicos. Em "Sísifo", a revolta — a atitude individual diante do absurdo (empurrar uma rocha redonda morro acima pela eternidade) — converte o empurrar em um ato digno em si, uma vez que não há sentido em esperar que a rocha pare de rolar morro abaixo um dia. Já em "A Peste", a discussão é sobre a coletividade que, diante de um mundo indiferente (o absurdo) — que mata indiscriminadamente culpados e inocentes —, vê confrontada a demanda humana por sentido com a crueldade silenciosa da morte. O jeito para isso não é procurar explicações metafísicas, mas, como sugere a personagem da obra de Camus, o Dr. Rieux, a decência comum: trabalhar com honestidade sem esperar por uma vitória final, ou seja, não ficar passivo diante do absurdo (a peste).

Poderíamos recorrer ainda a Emil Cioran, autor, dentre outras obras, de "No Cume do Desespero" (1934), para quem a esperança é um tipo de patologia que nos mantém presos ao sofrimento da expectativa. Sua saída é a lucidez desencantada: encarar o vazio que se apresenta diante de nós sem tentar preenchê-lo com sonhos ou promessas. Uma proposição semelhante há em Zygmunt Bauman: em suas obras "Modernidade Líquida" e "Medo Líquido", vemos um tipo de diagnóstico (ocidental) da dissolução das estruturas que davam segurança (emprego estável, comunidade, projetos coletivos de longo prazo), produzindo insegurança crônica e desamparo. No lugar da esperança, Bauman insiste que reconhecer tal condição com clareza é o passo fundamental para não sermos paralisados pela realidade.

Mas, se eu tivesse que optar por uma proposição, ficaria com a de Graciliano Ramos. Tanto em "Angústia" (1936) quanto em "Vidas Secas" (1938) e em "Memórias do Cárcere" (1953), encontramos em Graciliano um olhar direcionado ao presente, com honestidade e sem disfarces, sem busca por consolo ou reparação: há apenas a dignidade em existir. Em "Vidas Secas", não há um discurso de resistência ou redenção, porque os personagens não têm acesso sequer à retórica da esperança, tampouco há a revolta consciente diante do absurdo — apenas fuga, trabalho, fome, fuga de novo... uma persistência existencial anterior a qualquer elaboração filosófica. Já em "Angústia", Luís da Silva não tem projeto de futuro nenhum: trata-se de um homem medíocre, fracassado, humilhado por Julião Tavares (seu rival de classe e de amor). A narrativa documenta o apodrecimento interno: a violência, nesse caso, não vem da seca, mas é psíquica, fruto da humilhação social e afetiva — e desemboca, ao final, em um assassinato quase sonâmbulo, cometido em estado de dissociação. Não há redenção, justiça poética ou qualquer tipo de alívio moral, apenas o colapso. Algo semelhante é encontrado em "Memórias do Cárcere": Graciliano, preso arbitrariamente em 1936, explora o cotidiano brutal do sistema prisional da Era Vargas. A mistura de presos comuns e políticos no mesmo espaço, transferidos em navios-prisão; as engrenagens perversas do poder institucional — tudo isso e muito mais é relatado com absoluta objetividade, nada de autocomi
seração,  de romantização das condições prisionais, trata-se de um texto sem excessos  retóricos, linguagem enxuta e direta, espelhando a realidade nua e crua. 

Talvez seja este o convite que a inscrição do inferno de Dante nos faz: não uma sentença de desespero, mas um convite a despir-nos das ilusões que a esperança, tantas vezes, nos impõe. Abandonar toda a esperança não significa render-se à passividade ou ao cinismo, mas recusar o conforto fácil das narrativas de salvação — sejam elas religiosas, políticas ou ideológicas — que insistem em prometer um mundo melhor sempre adiante, nunca aqui. Se Pandora nos legou a esperança como consolo diante dos males do mundo, talvez o gesto mais honesto, hoje, seja fechar novamente o jarro e olhar de frente para o que resta: a guerra, a fome, a violência, sem disfarces metafísicos. É isso que Camus, Cioran, Bauman e, sobretudo, Graciliano Ramos nos ensinam, cada um a seu modo: que existe dignidade — e não derrota — em enxergar o real sem os véus da esperança ou os fantasmas do medo. Esta é, portanto, minha ode ao realismo: não uma celebração da resignação, mas da lucidez; não uma negação da luta, mas sua depuração das promessas vãs. Resta-nos, como a Sísifo, empurrar a pedra — sabendo que ela sempre voltará a rolar — e, ainda assim, seguir empurrando, não porque essa é a única forma verdadeiramente digna de habitar o mundo tal como ele é, mas pelo menos é honesta.