sábado, abril 09, 2022

O TEATRO DE SOMBRAS NEOLIBERAL NO PALCO BRASIL

Na segunda-feira (28/03), enquanto seguia para o trabalho, me deparei com uma enxurrada de postagens que se dividiam entre o tapa na cara em Chris Rock, o ex policial militar blogueiro, o BBB e o Putin. Não que os casos citados não mereçam alguma atenção (tirando o BBB que eu particularmente não vejo qualquer sentido), mas impressiona a dimensão que tomam nas redes, a ponto de monopolizar o debate, deixando de lado questões muito mais sérias. No domingo, o frenesi tinha sido a censura ao Lollapalloza. Na mesma segunda-feira, à tarde, duas demissões reverberaram nas redes: a do ministro da educação e do presidente (general) da Petrobrás, casos também dignos de análises. O que não vem fazendo parte das indignações, em especial dos que se dizem à esquerda, ou ligados ao campo progressista? O desmonte estrutural do Estado brasileiro. Tirando, claro, algumas análises estruturais de um ou outro, a grande maioria das manifestações são polêmicas pontuais, um prato feito para uma cortina de fumaça. 

Eu realmente acredito ser possível problematizar a sociedade por meio de recortes, casos específicos podem muito bem nos levar a análises mais amplas e complexas. Penso em exemplos como "O queijo e os vermes" de Carlo Ginzburg (1976), em que o pesquisador parte de uma história particular, um processo movido pela Inquisição contra um pobre moleiro (Menocchio), para problematizar uma prática macro: o Tribunal do Santo Ofício. Assim, se pode perfeitamente partir de um caso particular de racismo para ampliar o debate sobre racismo estrutural; do mesmo jeito, um caso de trabalho forçado pode ser usado como a ponta do iceberg para uma discussão sobre sistemas de servidão no Brasil. Mas o que se vê na massa de postagens nas redes são superficialidades. O debate sobre eleições e as articulações políticas são um ótimo exemplo. Uma olhada nas redes nos faz pensar que as instituições estão funcionando, que o jogo democrático anda a todo vapor e que a tentativa de burlar tal processo é fruto dos devaneios de um candidato que tem apreço pela ditadura.      

Falta-nos a capacidade analítica de comunicar que estamos em um Estado de golpe, que não se trata de uma democracia frágil, mas de um teatro de sombras e de horrores. A democracia brasileira sempre foi (deliberadamente) debilitada, em especial para os menos favorecidos, todavia, o que vemos desde 2016, após o impeachment (golpe), é um espetáculo macabro com atuações mórbidas. O Messias não é, nunca foi e nunca será o protagonista, mas se engana, igualmente, quem acha que ele seja apenas um bufão. Falta-nos acompanhar mais de perto o desmonte deliberado do Estado, em especial, a entrega descarada e desmedida de nossa potência mais vital: a terra. Uma terra preciosa em toda sorte de recursos, no solo, mais ainda, no subsolo.  

Nossa soberania, dependente desde sempre, agora assaltada, acha-se em ruínas. O Império (Negri & Hardt), essa força descentralizadora e desterritorializadora incorpora tudo dentro de suas fronteiras abertas. Para isso, as soberanias dos Estados-Nação são demolidas pouco a pouco, ora por golpes de estado (militar-civil), ora corroendo ou implodindo os sistemas políticos e jurídicos. É assim que perdemos nossos reservas de petróleo, cujos lucros magníficos da Petrobrás vão majoritariamente para acionistas estrangeiros, é assim que nossas reservas de minérios, monopolizadas pela Vale do Rio Doce (que vem cometendo barbaridades contra cidades inteiras nesse Brasil afora), hoje estão nas mãos de grupos como o Capital Group (EUA). Nossas reservas de água (vejam, estamos falando de um elemento natural tão essencial a vida que jamais deveria ser privatizado) estão sendo entregues a consórcios (leia-se máfias, cartéis), que têm o poder de decidir quem e quando terá sua caixa d'água abastecida.  Assim, alguns possuem cisternas e piscinas, enquanto outros uma caixinha de fibra sobre um telhado de amianto. 

Nesta mesma semana, enquanto eu passava os olhos nas histórias do tapa na cara - longas postagens sobre quem tem razão, quem não tem -, li um pesquisador que chamava atenção para a privatização acelerada do sistema de saneamento brasileiro. Esse é um tema que merece ser debatido e explorado nas redes e nas ruas, mas não foi. O novo marco regulatório sobre saneamento básico (lei 14.026/2020) colocou o Brasil na contramão do mundo, estamos fazendo aquilo que muitas cidades se arrependeram de fazer, ao todo mais de 300 cidades reestatizaram seus sistemas de saneamento, Paris é um exemplo recente.   

O investimento na valorização do capital humano, dotado do espírito empreendedor e criativo, é noticiado como soluções para a "crise do emprego", mas, na prática, produzem condições de trabalho cada vez mais precarizadas, terceirizadas e informalizadas. Toda forma de resistência a esses modelos de exploração, toda manifestação e reivindicação por direitos desses trabalhadores explorados são desarticulados com apoio de setores empresariais e da grande imprensa. Em muitos casos, os trabalhadores e trabalhadoras que lideram a resistência são criminalizados. A justiça trabalhista, que já foi algo que nos deu alguma segurança, tornou-se inacessível; muito em breve será apenas uma memória da luta trabalhista. As reformas trabalhistas que prometiam soluções, jamais, sequer, chegaram a ter qualquer êxito. Pelo contrário, nunca tivemos tanta desocupação e vulnerabilidade de emprego. O que vemos? Aumento do trabalho análogo a escravidão, tanto no campo, quanto na cidade. Vemos, ainda, a desvalorização de categorias essenciais à vida da cidade, vemos as migalhas de reajustes do piso salarial, de garis, motoristas, professores e tantos outros. 

Enquanto as estruturas do Estado brasileiro são esfaceladas, o teatro de sombras segue rolando, firmemente.  Se tomo aqui emprestado o conceito de "teatro de sombras" de José Murilo de Carvalho é por duas razões: porque ele o utilizou justamente para analisar a política no Brasil e, também, porque, embora haja diferenças significativas, uma vez que ele analisa o Brasil do Segundo Império, há certamente uma herança cultural. O historiador, cuja tese de 1980 foi uma análise da elite política imperial intitulada: “A construção da ordem", ao final da mesma década produziu a obra "Teatro de sombras", em que problematiza a política imperial. Influenciado pela antropologia simbólica, José Murilo escreve sobre a relação entre o teatro e a política: 

O ritual, o simbolismo são partes integrantes de qualquer sistema de poder, assim como o é o carisma.  Mas a política é teatro também por razões que têm a ver com os mecanismos modernos do exercício do poder. A representação política tem em si elementos que podem ser comparados a representação teatral. Ambas as representações se exercem em palcos montados, por meio de atores que têm papéis conhecidos e reconhecidos. Há regras de atuação, há enredo e, principalmente, há ficções. (p.420).

Murilo de Carvalho faz, em seguida, um alerta: a primeira grande ficção é a própria ideia de representação. O autor salienta que é necessária uma boa dose de faz-de-conta para admitir, acreditar que alguém possa falar autenticamente em nome de milhares. Talvez seja o caso de pensar aqui na última "Ordem do dia", em que representantes das forças armadas, produziram mais uma peça de ficção (falando em nome das "famílias brasileiras", das igrejas, dos empresários, da imprensa e outras instituições), em que o Brasil teria vivido, a partir de 31 de março de 1964, um "período de estabilização, segurança e amadurecimento político." É assim que o teatro de sombras do período ditatorial funcionou, e para esses representantes a democracia foi fortalecida nesse período, mas sabemos que, na prática, foi uma tragédia sanguinária.  

No contexto atual, as sombras neoliberais são ainda mais nebulosas e esparsas, uma combinação que nos impede, ou atrapalha, de entender melhor o clima político/econômico. Não obstante, num olhar mais recuado, pode-se perceber que o palco sobre o qual os atores de hoje representam vem sendo montado há anos, e que teve, como um primeiro grande ato, uma ficção chamada "jornadas de junho", em 2013. De lá pra cá, uma sucessão de novas farsas e tragédias ganham o teatro sombrio no palco Brasil: o  impeachment  em 2016 (com Supremo com tudo), o "teatro de vampiro" (Temer),  "a facada" em 2018, para ficar em alguns apenas. Fora esses grandes espetáculos, o dia-a-dia no país tem sido alimentado por pequenas cenas (sombras), atuações com scripts elaborados para tão somente movimentar (distrair) a massa crítica, enquanto os verdadeiros diretores e roteiristas seguem com o planejado. 

Jonatas Carvalho.    

     

  


      








          

sábado, dezembro 11, 2021

O BRILHO REFLETIDO EM CADA UM DE NÓS.

 "A lua, quando ela roda,

É nova,

Crescente ou meia

A lua!

É cheia!

E quando ela roda

Minguante e meia

Depois é lua novamente

Diz" (MPB-4)

 

Lua me fez questionar sobre ter ou não luz própria. Eu já havia escrito em algum momento sobre essas pessoas iluminadas, esses seres incríveis que clareiam o ambiente por onde passam. Elas me pareciam ser dotadas de luz própria.

Ainda não consegui encontrar outra explicação mais convincente. O que explicaria alguns irradiarem mais que outros? Chamemos tal irradiação de subjetividade, singularidade ou personalidade, que seja. A questão é: como? O que faz alguém carregar em si tanta positividade, tanta altivez?   

Por outro lado, há quem seja mais "apagado", é possível que isso esteja relacionado com uma baixa autoestima, o que faz ver a vida como um fardo. Estes últimos, me parece, não são piores que os primeiros, apenas enxergam a vida de modo diferente. Por razões variadas, se vêem pequenos diante dos desafios da vida, ou, não dão tanto significado a certos tipos de existência.

Ter luz própria pode contagiar, inspirar e quem sabe contribuir com mais beleza e leveza para com a existência. Mas quando eu penso na lua, quando eu imagino que aquela luz não é dela, e ainda assim, ela nos encanta e contagia, eu repenso algumas coisas.

A lua vem impactando a vida humana desde sempre, divindades de diversos povos foram associadas a ela. Na mitologia Tupi, a deusa Jaci se encarrega de manter o brilho da lua nas noites escuras, sua ação se entende nas boas colheitas e nos amores nas tribos. Dezenas de lendas envolvem a lua, as divindades e os humanos; na África, entre os Jejes, acreditava-se que os eclipses eram o momento em que a deusa Mawu (lua) e o deus Liza (sol), se encontram para fazer amor. Centenas de músicas e poemas em todo o mundo foram compostos em homenagem à lua. Adoniran Barbosa (ao lado de Hilda Hilst) cantou “Quando te achei, havia tanta coisa pra te dar... Havia lua cheia sobre o mar, havia espanto e amor no meu olhar.” Mário Quintana, para quem, o “luar é a luz do sol que está sonhando”, em “O eterno espanto”, escreveu:

 Que haverá com a lua

que sempre que a gente

a olha é com o súbito espanto

da primeira vez.

 Obras inteiras de literatura também foram produzidas e inspiradas neste nosso satélite natural particular; foi ela quem despertou nos homens o desejo de adentrar ao espaço, foi ela a primeira a receber nossa visita. Devemos à lua a primeira ficção científica espacial, como esquecer “Viagem à lua” de Georges Méliès de 1902? E porque não citar obras que a trouxeram como referencial, como foi o caso de “Fratello Sole, Sorrela Luna” (Irmão Sol e Irmã Lua), filme de 1972, dirigido por Franco Zeffirelli, que narra uma versão sobre a história e a vida de Francisco e Clara de Assis. Ambos são reverenciados como seres iluminados que habitaram entre nós.

 A alusão a seres iluminados foi muito comum na história. Indivíduos carismáticos como Gandhi, que foi chamado de Mahatma (grande alma), e Siddhartha Gautama de Buda (o iluminado), são alguns importantes exemplos. E não, isso não é coisa do Oriente, foi o Ocidente que criou o Iluminismo, o famoso Aufklärung Kantiano que também foi traduzido como esclarecimento ou ilustração. O que é um indivíduo esclarecido? Ou um cidadão ilustre? São seres iluminados, não por uma espiritualidade, mas pela razão. O "sono da razão produz monstros" escreveu Goya em uma de suas ilustrações.

O fato é que tanto a espiritualidade quanto a razão se seduziram pela luz da lua.  Perguntei a alguns de meus alunos o porquê disso, por que os homens se maravilham tanto com a lua? Ouvi respostas bem interessantes, alguns me disseram que diferente do sol, a lua não nos agride, podemos contemplá-la sem ferir nossos olhos, conseguimos vê-la, observar suas marcas. Outros me disseram que a beleza da lua está no contraste com aquele céu azul negro ao fundo, ela reina entre todos os astros da noite. Finalmente ouvi de alguns que ela altera de forma, mostrando-se ainda mais enigmática. Claro que hoje sabemos que esse alterar de forma diz respeito à sua exposição ao sol em relação a seus movimentos de rotação e translação.

 Esse fenômeno, se por um lado nos confirma que a lua não possui luz própria, por outro, não anula sua beleza, tampouco reduz seu encanto sobre nós. Se é possível se encantar com a luz de outrem, não seria o caso, este, daqueles seres iluminados a quem referi aqui no início dessa reflexão? Afinal, de onde mais viria nossa luz interior se não das nossas intersubjetividades? Foi o maestro Antônio Carlos Jobim que cantou ser “impossível ser feliz sozinho”, isto é, não há meios de se reconhecer como ser sem o outro, só podemos nos ver como sujeitos, só há subjetividade porque há interações. Desse modo, refletimos a partir dos outros, ninguém é detentor de luz própria, toda luz interior é fruto de uma longa jornada de interações.   

Lua me disse que não tem luz própria, eu muito menos tenho, ainda assim, me encanto com a sua forma, com o seu sorriso, com as suas elaborações. Sinto-me irradiado ao seu lado, consequentemente, ela me faz refletir uma luz que há muito andava em meia fase. Talvez, quem sabe, sejamos todos meia fase, até encontrarmos certos seres, com um tipo específico de iluminação, então, acendemos por inteiro.

 Jonatas Carvalho.  


domingo, agosto 15, 2021

O BRASIL IRRECUPERÁVEL, OU A ETERNA ESPERANÇA?

Eu aprendi do pior jeito que tempo perdido não se recupera. Não há nada que se possa fazer para mudar o passado, tudo o que podemos fazer é deixar de perder tempo, o quanto antes melhor. Na prática, significa não repetir os mesmos erros, de preferência sem olhar pra trás. Por outro lado, determinados erros podem implicar em consequências terríveis no futuro. A velha sabedoria campesina de que colhemos o que plantamos.  

No Brasil  pós Temer (pós golpe), em especialmente o de Bolsonaro, os erros cometidos resultarão em anos de retrocesso nos mais diversos segmentos da sociedade. Não pretendo aqui aprofundar todos esses segmentos, seria necessário ser um superespecialista, o que não existe, entretanto, é possível enumerar com alguma clareza alguns segmentos. 

Na segurança pública temos dois elementos aparentemente diversos, o chamado "punitivismo penal"  de um lado e o "armamentismo civil" do outro. No primeiro, defende-se a ampliação e o rigor das penas a criminosos e a exaltação as execuções sem o devido processo legal por meio do aclamado "bandido bom, é bandido morto". No segundo, brada-se pelo direito do "cidadão de bem" ter armas para se defender. Como escreveu a juíza Andrea Pachá, fazer postagens com fotos portando armas  virou "liberdade de expressão",  enquanto os artistas voltaram a ser a "classe perigosa". Nossa capacidade de letalidade cresceu, as policias militarizadas, autorizadas a "atirar na cabecinha" e realizar chacinas em áreas periféricas, adquiriram o direito a impor sigilo sobre as operações por anos. Nunca fomos tão violentos.

Na educação os impactos serão gigantes, caminhamos na direção de reduzir o acesso ao ensino universitário. A "universidade é para poucos", disse nosso quarto ministro da educação neste governo, o Brasil deve seguir sendo mão de obra barata para os megaconglomerados. As especializações também devem ser reduzidas, nunca se investiu tão pouco em pesquisa e tecnologia. As bolsas de mestrados, doutorados e pós-doutorados desapareceram, como resultado aumentam a chamada "fuga de cérebros" ano após ano. Na educação básica, o Ministério da Educação foi especialmente cruel,  os estudantes nesses dois anos de pandemia foram largados à própria sorte, quase como  fizeram com os negros no pós abolição da escravatura. Enquanto de um lado, o presidente da república travava uma batalha perversa contra os governadores que seguiam as recomendações sanitárias da OMS, do outro, ignorava as necessidades dos estados e municípios quanto ao que fazer para amparar milhões de jovens e crianças sem acesso aos conteúdos escolares e merenda. Entramos em um abismo educacional do qual não sairemos tão cedo.

Na  política trabalhista o retrocesso é irreparável, os impactos na vida dos trabalhadores serão incalculáveis. Ao refletir sobre, me veio a mente as contribuições de Florestan Fernandes e seu conceito de "Capitalismo Dependente". As medidas tomadas no âmbito das relações trabalhistas desde o governo Temer até a recente MP 1045 são um claro sinal de que nossa elite nunca desejou um país realmente autônomo economicamente, mais do que nunca buscam ampliar seus privilégios, cedendo as elites econômicas globais trabalhadores com direitos precários, cada vez mais impossibilitados de auto-organização e de recorrer a justiça. A aproximação de agentes do governo com "empresas" de extração ilegal de minerais, madeiras e a flexibilização fiscal promovendo a ampliação do trabalho em condições análogas a escravidão não é coincidência. Envelheceremos e morreremos trabalhando apesar de termos aumentado o tempo de contribuição previdenciária.  

Eu gostaria de enumerar algumas questões ligadas a saúde publica, mas confesso, me revira o estômago pensar nisso. Temos uma CPI revelando todos os dias capítulos de uma tragédia, que embora anunciada, não deixa de nos surpreender. Somos o segundo país do mundo em óbitos pelo vírus devido a uma política deliberada de "imunidade de rebanho", fato criminoso este, que por mais que tente, o atual governo jamais conseguirá se eximir. Dos pronunciamentos da "gripezinha" a magia do "tratamento precoce" com financiamento público, aos esquemas nefastos de recusar vacinas em detrimento de propinas, nunca se retrocedeu tanto. Envelheceremos trabalhando sem saúde. 

Por fim, alguns retornos sinistros que voltaram a nos assombrar, cujas consequências ainda não podemos dimensionar: a inflação galopante, com um acumulado em 2021 de 9% . A gasolina teve seu valor reajustado por nove vezes com aumento acumulado em 51%, a carne mais de 45%, o óleo de soja mais de 80% (no país da soja), o arroz 46%. O velho dragão acordou e já lança algumas labaredas contra os pobres. A fome e a insegurança alimentar também retornaram com força, após meses de silêncio do governo quanto a essa questão, a solução apresentada até agora é uma "pedalada estratégica" nos precatórios. Se não fosse a iniciativa de diversos setores da sociedade civil teríamos centenas de mortos de fome somados aos mortos pelo vírus. Graças as ações de algumas dezenas de "Lancellottis" (muitos dos quais sequer são religiosos), apesar das "Janaínas", cozinhas solidárias se espalharam pelo Brasil. A fome, porém, requer mais, necessita de políticas públicas de fato. Por último, não menos importante, voltamos a ser assombrados pelos coturnos pretos e uniformes verdes-olivas que infestam as estruturas governamentais aos milhares, muitos no alto escalão dos ministérios. Os atos antidemocráticos pedindo a volta do AI-5 e os tanques que desfilam na esplanada combinam com o aumento de células neonazistas e os ataques supremacistas  a negros, mulheres e homoafetivos. 

Lembrando Paulo Freire, nosso eterno patrono da educação, "num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário". 

Jonatas Carvalho

domingo, março 14, 2021

MINISTÉRIO PÚBLICO E SUAS VARIANTES.

Só ontem me dei conta da existência de um perfil no Twitter, chama-se “MP Pró-Sociedade” (@m_ppro), trata-se, segundo os próprios, da “Associação Nacional de Membros do Ministério Público Pró-Sociedade, Perfil conservador e sem vínculo partidário”. O perfil conta com 25 mil seguidores.

Eu resolvi percorrer algumas postagens do perfil, que tem como capa a figura de Edmund Burke, político, filósofo, conservador, crítico dos ideais iluministas de progresso.

O “tweet fixado” no perfil do grupo, nos dá uma noção de que tipo de sociedade esses membros do MP são “pró”. Dizem defender a “Alta Cultura”, a mesma “Alta Cultura” defendida por aquele Secretário de Cultura que fez um vídeo inspirado em Joseph Goebbels, ministro de propaganda do nazismo alemão. A ideia de uma “Alta Cultura”, origina-se em uma sociedade etnocêntrica, que observava as outras culturas como inferiores, baseada em ideais de beleza defendidas por Edmund Burke em A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful (1756).

Outros “valores” defendidos por esses honoráveis membros do MP Pró-Sociedade são: “luta pela liberdade”, “conservadorismo” e “efetivismo penal”. Aqui faço me detenho em dois minúsculos comentários. O primeiro sobre essa relação entre o liberalismo e o conservadorismo, que aqui no Brasil fez-se uma mistura de água e óleo, com a intenção de defender o chamado “liberal na economia e conservador nos costumes”, um tipo de “Frankenstein” que deixaria Mary Shelley horrorizada.

Quanto ao “efetivismo penal”, creio se tratar de outra aberração jurídica, dessas que se suprime o Estado de Direito em nome de uma moralidade como aquela presente na lei de Segurança Nacional, que alguns, em tempos atuais, pretendem resgatar. O “efetivismo penal”, por sinal, nunca deixou de existir para as camadas populares por aqui.

Por fim, ao olhar as postagens do grupo no Twitter, percebi que uma de suas principais ações em tempos de pandemia é justamente ajuizar ações civis públicas contra municípios que decretam “lockdowns”, ou planos de restrições de circulação das suas populações. Alegando que tais medidas ferem o principio da dignidade humana, chegando a “aconselhar” aos policiais militares e civis a se abster de fiscalizar o “toque de recolher” e outras medidas semelhantes, por considerá-las inconstitucionais.  Alguns promotores chegaram a defender o uso da “ivermectina”. Apesar o grupo se anunciar como apartidário, suas práticas e aspirações estão plenamente alinhadas com aquelas defendidas pelo atual presidente e seu grupo de poder.     

sábado, março 13, 2021

COVID-SE BRASIL: A ECONOMIA DA CONTAMINAÇÃO DO REBANHO.

Eu passei praticamente todo o 2020 em casa. Confinado, adotei as medidas de segurança recomendadas e passei ileso por esse ano que parece ter saído de um filme de distopia.

Sou professor, assim como algumas outras categorias, pudemos usufruir do trabalho remoto e das aulas online. Sempre tive a consciência de que isso era um privilégio, acompanhei de perto os temores e os riscos daqueles que precisavam ir às ruas porque foram considerados "essenciais". Naquele momento, quando tudo ainda era muito novo para todos nós, a população temeu o vírus. Estávamos trilhando um caminho positivo, mas o caminho começou a ser bloqueado quinze dias depois, tomamos outra direção. O bloqueio foi feito pelo líder máximo da nação, cujo protagonismo ao longo da pandemia (que ainda se alastra por aqui), certamente será incomparável na história. 

Os que conseguiram ficar em casa, sabem que também não foi tarefa fácil, ao longo do ano nos demos conta que o "home office" era mais desgastante do que imaginávamos. Claro, muitas empresas precisaram se reinventar, isso exigiu mais dos trabalhadores. No campo da educação as mudanças foram enormes, professores e alunos tentando se submeter ao universo da vida on-line. Mas para os professores foi ainda mais penoso, um arsenal de ferramentas e softwares eram disponibilizados, gravar aulas, dar aulas on-line, preparar provas em "modelo forms", "google classroom", "loom', "obs stúdio",... todas as aulas precisaram se converter em slides. Eu sentava às 7h na cadeira em frente ao computador e saía às 21h. Mas não posso reclamar, acompanhei a saga de muitos amigos e amigas de profissão, sobretudo, as professoras, essa mulheres incríveis que são mães e esposas, muitas sem um escritório em casa davam suas aulas em espaços pouco favoráveis, expondo a intimidade de sua casa aos alunos e alunas. Não posso sequer imaginar como foi para essas mulheres o ano de 2020. 

Ao final de julho havíamos "atingido o pico de mortes diárias". No dia 29 de julho foram registradas 1.554 mortes, ao todo eram 90 mil mortos. O presidente, que no dia 22 de março dissera que não passaríamos de 800 mortes, no final de julho fazia pouco caso da parceria entre o Instituto Butantan e a farmacêutica chinesa Sinovac. O fato é que começamos e ver a curva achatar, entre final de julho e início de novembro caímos bem, mas ai veio às eleições. Os políticos colocaram seus cabos eleitorais nas ruas, não sei quantas mortes foram necessárias para preencher os acentos nas câmaras legislativas municipais e as cadeiras almofadadas de prefeitos neste país. Depois vieram as festas de final de ano, no dia 30 de dezembro tivemos 1.224 mortes.  

Bom, creio que não preciso recordar a ninguém o que vem ocorrendo em 2021. A verdade é que mesmo com um quadro bem pior do que nossa pior média no ano anterior, a vida parecia ter realmente voltado ao normal, shopping centers abertos, praias lotadas, ruas tumultuadas, trens, ônibus e metrôs abarrotados, as escolas voltaram com as aulas presenciais. Eu que passei 2020 ileso, contraí o vírus no início de março, justamente quando em quase todo o país os leitos de UTIs esgotavam-se. Felizmente, não precisei recorrer a um.  

É difícil descrever o que se passa na cabeça de quem contrai o vírus em um cenário como o que temos por aqui. O economista no IPEA, Marcos Hecksher, publicou uma pesquisa dizendo que no Brasil as chances de morrer por Covid é três vezes maior que na grande maioria dos países. No dia 3 de março, quando meus primeiros sintomas surgiram, havíamos atingindo  a marca de 1.840 mortos. Você começa a pensar quais serão suas chances de sair dessa vivo. Hoje em dia todos nós conhecemos alguém que se foi pelo vírus, eu perdi parentes e amigos, vi gente muito mais nova que eu ser intubada, o que me torna diferente deles? À medida que os sintomas vão se tornando mais agudos, um turbilhão de pensamentos agonizantes paira sobre nós, é impossível não pensar. Qualquer respiração mal dada é motivo de desespero.  Mesmo que se eu tivesse grana para recorrer a um hospital como o Sírio Libanês (que no meu imaginário só atende grandes empresários e políticos), eu teria uma fila de espera. 

Os professores que até então estavam em sua grande maioria seguros, agora passam a fazer parte das estatísticas. Eu fiquei pensando, porque minha categoria deveria ser poupada enquanto tantas outras já estão no risco desde o início? E você acaba se sentindo culpado ao se permitir pensar demais. As alegações para o retorno as aulas presenciais são plausíveis até certo ponto. Sabemos que a grande maioria dos alunos e alunas desse país não teve condições de estudar, que os governos estaduais e municipais pouco fizeram por estes. Sabemos que só uma parcela menor, os da rede privada tiveram acesso ao ensino remoto de fato. Sabemos o quão caótico tem sido para os pais que precisam trabalhar e não podem deixar seus filhos em casa, muitos não sabem o que fazer. Sabemos o quanto isso afeta a vida emocional desses jovens. Mas é só isso? O retorno às aulas na rede privada tem algo a mais, tem a ver com a saúde financeira dessas escolas, o impacto na economia afetou as escolas privadas, a inadimplência escolar aumentou significativamente. As escolas empregam centenas de funcionários não apenas professores. Mas a grande questão é quantos professores (e outros funcionários) deverão morrer para que a economia escolar volte a se equilibrar? O que acontece se um aluno morrer por ter contraído o vírus no interior do espaço escolar? Efeito colateral? 

As escolas privadas têm falhado nos protocolos de segurança, salas ultrapassando os limites de acomodação, algumas escolas não oferecem salas apropriadas aos professores. Nós estamos dando aulas de máscara, tendo que forçar nossa garganta, ao final do dia estamos sem voz. Você arriscando sua vida no transporte público e o guri que foi trazido de carro pelo pai, dorme sem culpa na sua aula. Valerá o sacrifício?

Muitos alunos, porém, seguem circulando livremente por ai, aumentando as chances de se tornarem transmissores potenciais do vírus. As novas cepas (variantes) tem provocado internações de uma população mais jovem nos hospitais. Vale a pena o risco?  Estamos diante de um dilema que parecia ter sido encerrado ao final da 2ª Guerra Mundial: morrer em nome de uma causa seja ela qual for. Depois de tantas mortes, decidimos que é a vida que justifica a causa, não o contrário. Não querer dar minha vida pra salvar a economia é um direito conquistado. Claro, com isso não quero dizer: fecha tudo! Sei bem o que isso significa, mas como disse Miguel Nicolelis, ou fechamos agora, por um tempo, ou não daremos conta de enterrar nossos mortos. 

Somente uma ação coordenada nos tirará dessa situação, mas já fomos eleitos o pior país na gestão da pandemia. A compra de vacinas por parte do Ministério da Saúde é um drama a parte. Sem vacina, sem leitos de UTIs, sem isolamento social, somos um grande rebanho em pleno processo de contaminação. Mas nada disso é casual, não faltam evidências de que este sempre foi o propósito. Pesquisadores se dedicaram a analisar os decretos, projetos de lei, normativas e tudo mais que foi produzido ao longo da pandemia, são mais de três mil documentos. O resultado? O governo federal fez o que pode para impedir que tivéssemos qualquer sucesso em vencer o vírus.  

Nesse projeto de "necropolítica", a letalidade do vírus é potencialmente maior entre os mais pobres. O mito do "tratamento precoce" se alastrou junto com o vírus criando uma falsa rede de proteção. O velho "gabinete do ódio" se converteu em um escritório criminoso de propagação de desinformação. Até o final de março chegaremos a 300 mil mortes. Aqueles que contraíram o vírus como eu e sobreviverem, sabem que a máxima que diz "o que não me mata, me fortalece" é frágil, diante de tantos corpos acumulados. 

Jonatas Carlos de Carvalho 

Professor na Educação Básica e Pesquisador associado ao INCT-InEAC/UFF



domingo, dezembro 27, 2020

ENTRE A QUÍMICA E A MAGIA: OS FARMACÊUTICOS E SUAS MANIPULAÇÕES PODEROSAS

Ontem, enquanto eu lia uma crônica de Rubem Braga, "Memórias de um ajudante de farmácia", pensei em muitas coisas. A primeira é que eu também já fui um "prático de farmácia", por quase oito anos. Fiquei imaginando se Rubem Braga tivesse seguido na profissão, teríamos perdido um dos maiores escritores do Brasil. Lamentei por uns segundos a inexistência de crônicas inestimáveis, como a sobre Copacabana (1959), "Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram 'Princesinha do Mar', e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras, e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite." Escritos de pura sensibilidade como "Pintura" (1953), "é de ver pintura e desenho que tenho saudade e fome, quando o jogo da vida me cansa, é a pintura que me apazigua e me faz sonhar."

Em "Memórias de um ajudante de Farmácia", o cronista revela seus aprendizados com seu primo "Costinha", prático de farmácia a quem o ajudante demonstrava admiração pela capacidade de manipulação das químicas. A leitura desta crônica me levou a Thomas De Quincey, que em "Confissões de um comedor de ópio"(1856), relata a primeira vez que lhe "abriram o paraíso dos comedores de ópio", chegando a duvidar se o farmacêutico que lhe atendera era mesmo um homem, preferindo manter em sua mente "a visão beatífica de um farmacêutico imortal", enviado a terra para aquele encontro. 

Rubem Braga descreve as incríveis soluções e elixires mais vendidos em sua época e revela-nos a existência de um tipo de bíblia dos farmacêuticos: o Formulário Chernoviz. O jovem ajudante ficou impressionado com as mais de mil e quinhentas páginas do livro que continha os mistérios sagrados das mais variadas plantas e sais. O Formulário Chernoviz era na verdade um tipo de guia médico, mas seu autor, um polonês formado em medicina na França, Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1881), também publicou um "Dicionário de Medicina Popular" (GUIMARÃES, 2005). Na prática, ambos eram chamados de "o Chernoviz" e eram plenamente utilizados por farmacêuticos ao longo do período imperial e início da república. 

A produção de "Guias Médicos" já era uma prática presente no Brasil desde o período colonial. Me lembro de ter encontrado na documentação do inventário da Fazenda Campos Novos (1775), em Cabo Frio, uma descrição detalhada dos itens da botica dos jesuítas naquele lugar. Dentre os quais achavam-se, por exemplo:

Hum vidrinho de óleo de copaíba com pouca quantidade
Hum vidro de óleo de ouvidos
Dous ditos de óleo de amêndoas
Hum dito de óleo rozado
Hum dito de mel rozado
Hum dito de agoa para olhos
Huma lata de triaga brazileira
Huma lata de trementina
Hum dito de azeite de Nossa Senhora da Lapa
Hum bião pequeno de engoento místico
Hum dito de engoento branco
Libra e meya de salsa parrilha
Trez vidros com agoa forte

A listagem acima é apenas uma parte dos itens descritos na documentação, caso você seja desses indivíduos curiosos (o que significa que é dos meus), basta clicar no "botica dos jesuítas" acima que o hiperlink te levará para a descrição completa. Mas não foi somente a botica que a documentação nos revelou, encontramos também uma livraria na Fazenda, sobre ela, o professor Nireu Cavalcante (2009) escreveu, 

foram listados 66 títulos diferentes, entre os quais seis eram proibidos. Do total listado nove eram manuscritos versando sobre “Medicina”, “Modo para assistir aos doentes e aos agonizantes”, “Modo para aparelhar pano ou madeira para pintura”. (Grifo meu).

A médica e pesquisadora, Maria Regina Cotrim Guimarães (2005), já citada acima, revela em seu artigo que esses manuais de medicina estavam presentem por aqui desde o século XVI, o que a documentação da Fazenda Campos Novos parece confirmar. Alguns exemplos são: o "Tratado único das bexigas e sarampo", do médico Romão Mosia Reinhipo (1683) e o "Erário mineral", de Luís Gomes Ferreira (1735), um dos primeiros de grande circulação no Brasil. Um desses manuais que me chamou a atenção foi o produzido pelo doutor Jean-Baptista Alban Imbert, refiro-me ao "Manual do fazendeiro ou tratado doméstico sobre as enfermidades dos negros" (1834). Uma obra que surgira da preocupação com os "ilustríssimos fazendeiros de obterem socorros inteligentes da medicina" no cotidiano com os escravos. (RODRIGUES, 2010). Mas o Chernoviz tornou-se a grande referência das "artes médicas". Rubem Braga cita em suas memórias que o livro sagrado na farmácia que trabalhara era uma edição de 1892, tratava-se de 15ª edição na verdade. 

Um artigo publicado em 2017, escrito a quatro mãos, dois estudantes de medicina, uma médica e um estudante de farmácia, analisou as indicações terapêuticas da cocaína no Formulário Chernoviz, 17ª edição, de 1904. A obra utilizada no artigo, pertencera a uma família de mulheres que manipulavam medicamentos na farmácia "Oswaldo Cruz", na cidade do Barro, no Ceará, no início do século XX. Segundo os autores, a ausência de médicos na cidade, que fica a 524 km da Capital, incentiva a prática da manipulação dos remédios e algumas práticas cirúrgicas, como a de fimose e partos.   

Trago o exemplo da cocaína aqui, por se tratar do meu atual objeto de pesquisa, mas há uma infinidade de outras possibilidades que podem se converter em xaropes, vinhos, extratos, tinturas, conservas, emplastos, emulsões, bálsamos, unguentos e óleos. Rubem Braga, por sua vez, escrevera, que só pelo fato de ter se livrado de preparar os óleos de rícino e de fígado de bacalhau, já considerara ter tido uma infância feliz. Voltando a cocaína, o Formulário Chernoviz lista 8 aplicações terapêuticas:

Moléstias dos olhos;
Moléstias da laringe e da faringe;
Operações bucais e dentárias; 
Moléstias da vagina e dos órgãos genitais;
Vômitos da gravidez; 
Amigdalotomia; 
Queimaduras;
Rachas no seio. 

Além disso, o guia médico ensina a preparar o chamado "phenato de cocaína", uma mistura de cocaína pura, álcool e ácido fênico. O resultado era um pó, indicado entre outras coisas, para cortar os "defluxos e a surdez proveniente do catarrho da trompa d’Eustachio ou do tubo auditivo”.

A Noite - 1931
Com os processos regulatórios de substâncias como a cannabis e a cocaína, a figura do farmacêutico ganhou, pelo menos alguns, sobretudo nos grandes centros, uma identidade menos beatificada, digamos assim. Com a comercialização desses produtos restritos ao receituários médico e o surgimento de livros de controle de entrada e saída de tais substâncias, alguns práticos de farmácia, vislumbraram a possibilidade de atender uma clientela específica e lucrar mais com isso. Os jornais ao longo da década de 1930 e 1940, hora ou outra estampavam a cara da nova classe perigosa: o farmacêutico. Todavia, estes não estavam sozinhos, havia também médicos, dentistas e veterinários na lista. 

Eu trabalhei em farmácia na década de 1990, ou seja, muitas décadas depois. Mas me recordo que no interior de Teresópolis, mais precisamente em Bonsucesso, havia um farmacêutico (um prático de farmácia), dizia o povo, era mais respeitado que muito "doutô". O sujeito, atendia a população local em uma sala no interior da farmácia. Receitava remédios pra todo tipo de problemas, obviamente, todos os produtos receitados achavam-se nas prateleiras do seu negócio. Me lembro bem, que em meus primeiros meses no balcão de uma farmácia, me assustava hora ou outra com alguma procura, moças buscando "remédio pra tirá o nenê", os homens e velhos ansiando uma solução para a "paulemolência", outros queriam saber se eu aplicava "injeção pra gonorréia". Os colegas com mais tempo de casa tinham uma caixinha onde depositavam "papelzinhos" com os nomes dos remédios que o povão trazia até o balcão. Lá dento havia coisas escritas como "navagina", dorfreq", "anticepcional", "pomada pra dá o cú", "remédio pra diabetisi", "Aessi" e por ai vai. 

Alguns anos no ramo, me dei conta de que tínhamos um certo poder, as moças nos achavam inteligentes por conseguir decifrar os garranchos dos médicos, por conhecer as fórmulas para emagrecer e aumentar o tesão. A cabine de injeção virava cabine de pegação em alguns momentos. Quanto as drogas mágicas, claro, na minha época não havia mais maconha ou cocaína nas farmácias. As Gotas Nican e o Elixir Paregórico não continham mais ópio. Mas ainda havia uma galera atrás de qualquer onda que fosse, a fragilidade da fiscalização na época, permitia que vendêssemos alguns xaropes maneiros como o Codelassa e o Depakene. A droga mais pesada era, porém, o Artene, um cloridrato de triexifenidil, ou seja, um relaxante muscular que dava muita onda. 

Ao me aproximar dos trinta anos me cansei dessa vida, passei a não me sentir bem vendendo remédios pra emagrecer ou engordar, que na verdade eram pura enganação. Não sei os motivos do Rubem Braga para abandonar a farmácia, sem querer me comparar, longe disso. De minha parte, achei que poderia ir em outra direção na minha caminhada. Sempre que me deparo com uma farmácia em algum cantão deste pais, fico pensando se ainda existe essa figura beatificada no imaginário do povo local; o doutô da farmácia. 

Jonatas Carvalho. 





sábado, dezembro 12, 2020

51 ANOS EM 2020, UMA BOA IDEIA?

É meu Brasil, hoje completo 51 anos e preciso te dizer, oscilo entre a sensatez e insensatez sobre comemorar mais um ano. Porra! É sobre comemorar mais um ano em pleno 2020! Me perturba a ideia de que enquanto eu estou aqui às 7h da manhã refletindo sobre a razoabilidade disto, que milhares de pessoas já compraram a champanhe e estão nas ruas para as compras do natal. Algumas cidades, como Curitiba, que apesar da alta em contaminação e seus quase 2 mil mortos, terá sua programação de natal tradicional garantida. Em Campos do Jordão, o “Natal dos Sonhos” já começou faz tempo e em Blumenau, a “Magia do Natal” está firme e forte. Nem quero pensar no que rolará no réveillon. 

Isso me remete a “Perfeição”, do Legião Urbana, composição de 1993, um exemplo de que algumas músicas são atemporais:

(...)Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação(...)
(...)Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã(...).

Ontem a sogra do meu filho faleceu, vítima de covid-19. Semana passada foi o meu tio, minha tia segue internada em estado grave. Aqui no Rio, vários colegas professores, que como eu foram forçados a voltar às aulas nas instituições privadas, estão contaminados. Muitos sofrendo os horrores psicológicos da possibilidade de internação ou morte. A morte nos sonda de perto enquanto comemos, bebemos e aglomeramos. As elites usam seus fantoches para nos passar uma mensagem: não sejam maricas. É fácil não ser maricas quando se tem uma equipe do Albert Einstein pronta para lhe atender. Quero ver “ser macho” quando se tem quase 500 pessoas disputando um único leito, como é o caso do Rio de Janeiro. 

Sabe Brasil, vou comemorar a vida, mas de luto pelos que sofrem pela perda de seus entes queridos ou pelo desespero e insegurança, se os seus voltarão para casa, após serem intubados em uma terapia intensiva. Comemorar sim, o que não significa fazer festa, nenhuma festança se justifica em um país que está prestes a atingir 200 mil mortes na virada para 2021. Tenho muito pelo que celebrar, fui privilegiado por poder trabalhar em casa a maior parte do ano, pude produzir dois capítulos de livros que serão lançados em breve, artigos para revistas acadêmicas, amadurecer minha tese de doutoramento. Mas isso soa tão pequeno hoje diante de tantas tragédias produzidas. O (des)governo da necropolítica, dos corpos negros acumulando-se nas ruas, a violência doméstica estrondosa, das nossas faunas e floras que se desmancham em fumaça preta no ar.

Mas nada me deixa mais transtornado do que ver os bares e restaurantes lotados, seja no Leblon ou na Vila Madalena, as disputas por espaços nas areias das praias nos domingos ensolarados. “Vamos celebrar a estupidez humana”, é com essa frase que começa a música do Legião que citei acima. “Vamos celebrar nossa desunião”. Perdoai as aglomerações nossas de cada dia. 


Sei que esse texto Brasil, está meio “A palo seco”, estilo Belchior. Mas eu quero mesmo é que “esse texto torto, feito faca, corte a carne de vocês!” Claro, não todos, pois parte dos brasileiros foram incansáveis nas denúncias contra “tudo que está ai”. Enquanto nosso governante mor dizia “e daí?", uma pequena parcela, que vem crescendo, diga-se de passagem, não se acovardou, muitas foram às ações de solidariedade em prol dos desamparados. A ciência brasileira, mesmo sucateada e desprestigiada pelo planalto central, inovou e mostrou todo seu potencial. No seio da Universidade Pública, atacada de todas as formas pelos Weintraubs, emerge a esperança de dias melhores. Nossos artistas, esses que nos trouxeram tanto alento nesses tempos difíceis por meio de lives, muitas das quais inteiramente gratuitas, tiveram que travar duelos duríssimos com um secretário de cultura que copiou propaganda nazista, e outra que minimizou os anos de ditadura, né Regina? Derrubaram ambos. 

E isso Brasil, esses poucos, mas significativos episódios, merecem celebração.

Feliz aniversário! Envelheço na cidade.

12/12/2020.