Em minha última análise, já no final da sessão, sinalizei ao meu analista que já fazia um tempinho que eu não trazia minhas inquietações com as guerras. Ele, como um bom lacaniano, achou por bem efetuar o "corte", dizendo:— Bem, talvez seja uma boa questão para refletir ao longo da semana: por que o tema da guerra lhe afeta tanto?
Refleti por um segundo e lhe devolvi o "corte":
— Sim, claro. Ou refletir por que as pessoas vivem sem se permitir serem afetadas pela guerra.
Sim, eu suspeito saber alguma coisa sobre ambas as questões. No meu caso, sou um historiador e um cientista social, sou pesquisador associado a uma instituição que se chama Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT/InEAC). Passei os últimos anos investigando os conflitos produzidos pelas políticas de drogas no Brasil e, mais recentemente, na América do Sul. Então, os conflitos me afetam, em especial os violentos. Sempre penso o quanto eles são estúpidos, desnecessários, e que um pouco de disposição ao diálogo seria suficiente para evitar um monumental volume de mortes e outras desgraças.
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| Imagem gerada por IA |
Quanto à questão do porquê sinto que as pessoas preferem não se afetar com a guerra, creio que a complexidade é maior. Penso em fatores dinâmicos que operam concomitantemente: a vida pesada da escala 6x1 (e outras escalas ainda piores); a subjetivação capitalista/neoliberal que produz em todos nós desejos fortemente egoísticos — entretenimento raso, HIPER-narcisismo, HIPER-conectividade... Tudo isso (dentre outros fatores) nos leva a um tipo de "atitude de reserva", conceito que o sociólogo Georg Simmel chamou de blasé outlook, em sua fenomenal obra "As Grandes Cidades e a Vida Mental."
Eu posso compreender isso, mas não significa que eu tenha que aceitar como algo sobre o qual nada se possa fazer para mudar. Fico puto quando, nas minhas redes sociais, recebo centenas de likes porque postei uma "foto boba qualquer" (uma paisagem, ou ao lado da minha Marida), mas quando publico algo sério por aqui e posto nas redes, uma minúscula parcela de "seguidores" curte. Eu sei por que, claro. Ainda assim, fico puto. Sei que as pessoas preferem não ler textos "tão pesados", que quando elas estão deslizando seus dedos pela porra da tela, elas estão em busca de "distrações positivas" — uma historinha romântica, pitoresca — que lhes traga alegria, relaxamento, paz. Então, quando chegam no cara que "só fala de desgraça" (EU), elas passam direto. Mais uma vez, eu entendo. Mais uma vez, continuo puto! As duas coisas podem coexistir em mim.
Imaginem se tivéssemos que carregar a carga de todas as tragédias que nos cercam. Você acorda cedo, liga a TV em um telejornal qualquer e, antes mesmo de sair de casa, já recebe uma dose significativa de informações horrorosas — um trem descarrilhou, um avião caiu, alguém matou alguém numa briga de trânsito na noite passada a uma quadra de onde você mora, uma enxurrada destruiu uma vila inteira em algum lugar do mundo... Se não fosse a "atitude de reserva", você voltaria para a cama. Então, no caminho até o trabalho, você passa por dez, quinze pessoas (em São Paulo, dependendo de onde você mora e trabalha, é muito mais) dormindo embaixo das marquises pelas calçadas por onde você transita. No trabalho, você descobre que o parente de algum amigo está internado (ou faleceu), que sua empresa vai implementar uma "reestruturação"... Não há saúde emocional que fique de pé se não tivermos como nos defendermos de tantas tragédias. A "atitude de reserva" é um mecanismo de defesa; "selecionamos" inconscientemente o que nos afeta mais ou menos, é uma solução para sofrer menos.
Muitos se sensibilizam com a história do(a) ator/atriz global que narrou em suas redes como perdeu um papel na novela/série/filme por alguma forma de discriminação (milhões de curtidas, centenas de mensagens de indignação); são os mesmos que seguem adiante (ou fingem não ter visto) quando alguém é discriminado bem diante deles (no vagão do trem/metrô, no ônibus, na calçada...). A violência, a fome, a doença que os choca é aquela que está mais distante, não ao seu lado, não na esquina do nosso prédio/casa. Há os que se sensibilizam com as "causas animais", votam e elegem representantes políticos com histórico na causa para que os bichinhos indefesos tenham seus direitos garantidos, alguns querem o fim dos matadouros, comem derivados de soja (o tofu, o tempeh), cogumelos ou jaca verde — uma galera cuja sensibilidade com as "causas humanas" passa longe. Há os amantes da natureza, verdadeiros guardiões dos biomas, abolidores de tudo o que é plástico, usam "ecobag" de algodão cru, participam de mutirões para limpar uma lagoa/rio/praia... Há muitos outros casos/causas, mas estes exemplos já são suficientes.
Trabalhei por mais de uma década com "viciados" em drogas e álcool (a droga legalizada). Por seis anos, eu coordenei uma ONG que tinha essa finalidade; dávamos assistência aos usuários crônicos (com internação), aos que ainda tinham uma vida funcional com grupos de autoajuda e psicólogos, e aos familiares com terapia de grupo. Ouvi ao longo dessa época, de muita gente, que não colaboraria com o projeto, não doaria para aquela causa, porque se tratava de viciados — "quem mandou se viciar, entrar em parada errada? Tem mais é que se foder!" Não se importavam que fosse um ser humano. Na verdade, os "viciados" são um tipo de humano de quem se poderia abrir mão; eles destroem todos ao seu redor, inclusive a paisagem (veja a "cracolândia"). A causa animal é mais nobre, a natureza é indefesa, o homem tem consciência do que faz — pelo menos deveria ter — é o que dizem.
Então, aqui estou eu, nos últimos anos me ocupando da guerra. Venho escrevendo sobre uma série de conflitos, um em especial que acompanho há mais de vinte anos: a violência contra os palestinos e palestinas (acho que tenho postagens nesse blog sobre esse tema que são de 2008). Outros tão infelizes quanto: o caso Congo é estarrecedor; mais recentemente, venho também cobrindo os conflitos Ucrânia (OTAN) x Rússia, e, claro, o Irã. Me preocupa que estejamos em pleno desenvolvimento de uma "Terceira Guerra Mundial" (sob um formato absolutamente distinto das anteriores, mas não menos destruidor e catastrófico, ao contrário). Me preocupa que dezenas de pavios de pólvora estejam espalhados por todos os lados, e que a qualquer movimento em falso eles possam ser acesos. Os dois fortes candidatos a se tornarem os "Bálcãs" de hoje são, na minha opinião, a Europa Ocidental e o Pacífico, no Mar da China meridional (Filipinas, Japão, Estreito de Malaca...). Isso me afeta como historiador; estudei as grandes (médias também) guerras, tenho uma enorme preocupação com o quão desastroso isso pode ser para as vidas humanas. Mas não se enganem, a vida natural na Terra irá se modificar radicalmente, os bichinhos indefesos morrerão aos milhões. A guerra é destruição pura; o movimento futurista (fascista) italiano a chamou de "a única higiene do mundo!"
Sim, somos todos mais ou menos (in)sensíveis a respeito de um ou outro tema. Eu compreendo. Mas lutar pela paz (não entre nações, isso é uma bobagem; em outro momento explico isso) é lutar para que cada uma dessas outras causas ainda possam existir. Como Camões, eu peço (imploro): "Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta". Mas, diferente dele, não se trata de substituir os heróis greco-romanos (a musa antiga) pelos novos heróis (os navegadores portugueses), mas de substituir os heróis da guerra pelos da paz. Tudo isso é sonho, eu sei, é desejo inalcançável. O orçamento mundial em "defesa" (leia-se: guerra) de 2025 foi de 2,800 TRILHÕES, enquanto o dinheiro destinado à fome global, aos campos de concentração humana (hoje chamados de refugiados), não ultrapassou a casa dos 3 bilhões — a ONU (ACNUR) fez um orçamento de 10 bilhões. Ou seja, o dinheiro para a ajuda humanitária está desaparecendo, mas o dinheiro para investimentos em armas e munições cresce exponencialmente. A GUERRA JÁ CHEGOU, só não nos (nós, brasileiros) atingiu diretamente( (belicamente falando) ainda, mas para outras áreas desse mundão ela é uma realidade destruidora.
Jonatas Carvalho - Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais (PPGSD - UFF) Pesquisador associado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) e ao Núcleo de Estudos em Psicoativos e Cultura (PsicoCult).

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