"Abandonem toda a esperança, aqueles que aqui entrarem." Creio que esta frase é conhecida por alguns dos meus leitores; trata-se da inscrição feita no portal de entrada do reino dos condenados — sim, refiro-me à obra "A Divina Comédia", de Dante Alighieri (séc. XIV).
Se há um lugar onde se pode deixar para trás qualquer esperança, este lugar é o inferno. Fora este caso, que tipo de existência pode haver sem a esperança? Imagino que até aqueles que nada necessitam, cujos proventos lhes são mais que suficientes — incluindo as próximas gerações —, não podem abdicar da esperança. Como diz o ditado popular, "a esperança é a última que morre". Essa frase, por sinal, tem relação com o mito grego da "Caixa de Pandora" (que nunca foi uma caixa, na verdade, e sim um jarro).
Pandora, a primeira mulher — criada por Hefesto a mando de Zeus —, é enviada à Terra para se tornar companheira de Epimeteu, irmão de Prometeu, castigado por Zeus por ter entregado o fogo aos humanos. Pandora era uma continuação do castigo, agora estendido a toda a humanidade, pois o jarro que ela carregava continha todos os males do mundo. Ela, porém, não sabia disso; só se deu conta ao abri-lo. Quando percebeu seu erro, tentou repará-lo tampando o jarro, e foi então que se deu conta de que a única coisa que restou no seu fundo não era outra maldição, praga ou doença: era a esperança.
O mito grego, atribuído a Hesíodo, traduz a moral da resiliência humana calcada na esperança. Auxilia na conformação social diante das injustiças e de tantas outras maneiras pelas quais sofremos. A esperança é aquela que persiste quando nada mais há para nos sustentar; é a única que não se vai quando tudo desaparece.
Mas a esperança não seria, também, geradora de ilusão? Não teria ela a mesma origem psicossocial da religião? Freud, em "O futuro de uma ilusão" (1927), diferenciou a ilusão da mentira: enquanto a mentira é a distorção deliberada da verdade, a ilusão seria produto do desejo, motivada pelo desamparo e pela impotência diante de um futuro incerto.
Anos antes de Freud, o filósofo Baruch Spinoza, em seu "Tratado Teológico-Político" (1670), defendeu que tanto a esperança quanto o medo (temor) são afetos inseparáveis; ambos nascem da nossa ignorância sobre o futuro e da nossa impotência perante os acontecimentos. Para Spinoza, tanto as religiões quanto os regimes políticos autoritários fazem o uso flutuante dos dois afetos — entre o temor e a esperança — para obter a submissão supersticiosa. Como escapar a esta condição? Tanto em Spinoza quanto em Freud, a saída é uma só: a razão. Freud sugeria substituir a fé pela razão e a ciência (o Deus Logos); assim, poder-se-ia chegar à maturidade psicológica diante da cultura. Spinoza, por sua vez, via a combinação temor/esperança como afetos de tristeza (passivos); apenas o conhecimento sobre as leis da natureza poderia produzir a alegria pura.
Mas como existir sem esperança? Como lidar com as causas (im)prováveis sem a paixão que tanto pode gerar em nós ânimo ou desânimo? O que seria de nós se simplesmente desistíssemos de esperar por um mundo melhor? Talvez pudéssemos inverter a questão, porque parece que o mundo não melhorou apesar de tantas pessoas desejarem ou esperarem que ele ficasse melhor. É aqui que entra minha ode ao realismo.
Não vou me ocupar em destrinchar o pensamento realista político e seus desdobramentos teóricos (realismo estrutural ou neoclássico, entre outros). Meu objetivo é refletir com base na história, portanto, com fundamentação nos dados do passado. E o que estes dados indicam? Que a humanidade nunca viveu em paz. Tivemos períodos mais pacificados, com redução de conflitos, sejam estes intranacionais ou internacionais. Se nos detivermos nos dois últimos séculos, o XIX e o XX, uma quantidade enorme de conflitos pode ser listada: as revoluções liberais e as contrarrevoluções, as guerras imperialistas, os massacres e genocídios neocolonialistas, as duas grandes guerras, as guerras anticoloniais e anti-imperialistas na Ásia, na América e na África.
Enquanto bilhões de pessoas se uniam no final do último milênio — vestidas de branco — na esperança de que o novo século que se aproximava fosse um século de paz e prosperidade... O que vimos até aqui? Mais guerras e mais conflitos. Tivemos os EUA invadindo o Afeganistão e o Iraque, atacando o Iêmen e o Irã, impondo um bloqueio criminoso a Cuba e promovendo o sequestro — igualmente criminoso — de Maduro. Além disso, provocaram, juntamente com Israel, uma guerra civil na Síria, invadiram o Líbano e produziram a maior tragédia de todas: a limpeza étnica em Gaza. Temos também o maior conflito em solo europeu desde a Segunda Guerra, com a Ucrânia sendo usada como bucha de canhão pela OTAN/EUA contra a Rússia. Tivemos conflitos violentos entre Azerbaijão e Armênia, Índia e Paquistão, Camboja e Tailândia.
No continente africano, a vida segue sendo permeada por conflitos e guerras: no Congo, no Sudão, na Somália. A região do Sahel (Mali, Burkina Faso e Níger), que, apesar das particularidades, tem em comum as intervenções de agentes ocidentais com o objetivo de desestabilizar as nações para manter o controle sobre seus recursos naturais. Casos mais recentes, como os movimentos civis anti-imigração de forte teor xenofóbico na África do Sul, guardam, por sinal, alguma semelhança com o que vem ocorrendo na Irlanda do Norte. O resultado tem sido a violenta expulsão de milhares de famílias. Apesar das singularidades, há em comum a equivocada culpabilização dos imigrantes pela desgraça econômica: desemprego, inflação dos alimentos, alta dos aluguéis, entre outros.
A realidade nua e crua — geradora de temor — é amplificada por grupos sociais (neoconservadores/reacionários e neoliberais) que alteram o sentido da crise econômica, produzida por uma política de formação de oligopólios e concentração de renda e riqueza, transformando-a em uma crise moral, resultante da "invasão" de valores estrangeiros, corruptos, inferiores, demoníacos. O africano, o chinês, o russo, o latino-americano... representam a destruição de um tempo em que a vida era realmente boa e segura — tempo este que nunca existiu. Assim, o temor e a esperança se entrelaçam, uma vez que, segundo estes grupos, a única forma de restaurar (esperança) o "tempo da segurança" ou dos "valores superiores" é eliminando as ameaças (temor) do presente.
Assim, se tivermos que produzir alguma violência para chegar a tal objetivo, que seja. Trata-se de fazer tudo o que pudermos para atingir um "bem maior". Se precisarmos eliminar certos direitos e liberdades, tudo bem — o "inimigo" só pode ser derrotado desta forma. É assim que os fascismos emergem.
O que pode ocorrer quando não somos conduzidos por projetos esperançosos de futuros idílicos? Como lidar com a realidade carregada de toda forma de insegurança e violência, quando não se pode recorrer à esperança? Alguns pensadores se debruçaram sobre essas questões. Escolhi alguns, não porque eu creia que eles tivessem a resposta, mas porque apresentaram possibilidades que escapavam da fórmula dominante da esperança.
Por exemplo, Albert Camus, em "O Mito de Sísifo" (1942) e, mais adiante, em "A Peste" (1947), apresenta a noção de "absurdo"; esta nasce justamente do confronto entre o desejo humano de sentido e um mundo que não oferece esse sentido. No lugar do binômio esperança/temor, o filósofo "absurdista" propõe a "revolta", isto é, viver plena e lucidamente apesar da ausência de garantias, sem recorrer a consolos metafísicos. Em "Sísifo", a revolta — a atitude individual diante do absurdo (empurrar uma rocha redonda morro acima pela eternidade) — converte o empurrar em um ato digno em si, uma vez que não há sentido em esperar que a rocha pare de rolar morro abaixo um dia. Já em "A Peste", a discussão é sobre a coletividade que, diante de um mundo indiferente (o absurdo) — que mata indiscriminadamente culpados e inocentes —, vê confrontada a demanda humana por sentido com a crueldade silenciosa da morte. O jeito para isso não é procurar explicações metafísicas, mas, como sugere a personagem da obra de Camus, o Dr. Rieux, a decência comum: trabalhar com honestidade sem esperar por uma vitória final, ou seja, não ficar passivo diante do absurdo (a peste).
Poderíamos recorrer ainda a Emil Cioran, autor, dentre outras obras, de "No Cume do Desespero" (1934), para quem a esperança é um tipo de patologia que nos mantém presos ao sofrimento da expectativa. Sua saída é a lucidez desencantada: encarar o vazio que se apresenta diante de nós sem tentar preenchê-lo com sonhos ou promessas. Uma proposição semelhante há em Zygmunt Bauman: em suas obras "Modernidade Líquida" e "Medo Líquido", vemos um tipo de diagnóstico (ocidental) da dissolução das estruturas que davam segurança (emprego estável, comunidade, projetos coletivos de longo prazo), produzindo insegurança crônica e desamparo. No lugar da esperança, Bauman insiste que reconhecer tal condição com clareza é o passo fundamental para não sermos paralisados pela realidade.
Mas, se eu tivesse que optar por uma proposição, ficaria com a de Graciliano Ramos. Tanto em "Angústia" (1936) quanto em "Vidas Secas" (1938) e em "Memórias do Cárcere" (1953), encontramos em Graciliano um olhar direcionado ao presente, com honestidade e sem disfarces, sem busca por consolo ou reparação: há apenas a dignidade em existir. Em "Vidas Secas", não há um discurso de resistência ou redenção, porque os personagens não têm acesso sequer à retórica da esperança, tampouco há a revolta consciente diante do absurdo — apenas fuga, trabalho, fome, fuga de novo... uma persistência existencial anterior a qualquer elaboração filosófica. Já em "Angústia", Luís da Silva não tem projeto de futuro nenhum: trata-se de um homem medíocre, fracassado, humilhado por Julião Tavares (seu rival de classe e de amor). A narrativa documenta o apodrecimento interno: a violência, nesse caso, não vem da seca, mas é psíquica, fruto da humilhação social e afetiva — e desemboca, ao final, em um assassinato quase sonâmbulo, cometido em estado de dissociação. Não há redenção, justiça poética ou qualquer tipo de alívio moral, apenas o colapso. Algo semelhante é encontrado em "Memórias do Cárcere": Graciliano, preso arbitrariamente em 1936, explora o cotidiano brutal do sistema prisional da Era Vargas. A mistura de presos comuns e políticos no mesmo espaço, transferidos em navios-prisão; as engrenagens perversas do poder institucional — tudo isso e muito mais é relatado com absoluta objetividade, nada de autocomi
seração, de romantização das condições prisionais, trata-se de um texto sem excessos retóricos, linguagem enxuta e direta, espelhando a realidade nua e crua.
Talvez seja este o convite que a inscrição do inferno de Dante nos faz: não uma sentença de desespero, mas um convite a despir-nos das ilusões que a esperança, tantas vezes, nos impõe. Abandonar toda a esperança não significa render-se à passividade ou ao cinismo, mas recusar o conforto fácil das narrativas de salvação — sejam elas religiosas, políticas ou ideológicas — que insistem em prometer um mundo melhor sempre adiante, nunca aqui. Se Pandora nos legou a esperança como consolo diante dos males do mundo, talvez o gesto mais honesto, hoje, seja fechar novamente o jarro e olhar de frente para o que resta: a guerra, a fome, a violência, sem disfarces metafísicos. É isso que Camus, Cioran, Bauman e, sobretudo, Graciliano Ramos nos ensinam, cada um a seu modo: que existe dignidade — e não derrota — em enxergar o real sem os véus da esperança ou os fantasmas do medo. Esta é, portanto, minha ode ao realismo: não uma celebração da resignação, mas da lucidez; não uma negação da luta, mas sua depuração das promessas vãs. Resta-nos, como a Sísifo, empurrar a pedra — sabendo que ela sempre voltará a rolar — e, ainda assim, seguir empurrando, não porque essa é a única forma verdadeiramente digna de habitar o mundo tal como ele é, mas pelo menos é honesta.

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