segunda-feira, março 13, 2017

O SÃO FRANCISCO E O POEMA DE TEMER

" A planta assim nascida tinha nome. Paixão. Que não pôde se manter, porque o objeto desse amor não tinha a mesma sensação".  Michel Temer. 

Esse belíssimo poema apareceu no Editorial de O Globo no último sábado, o poema colocado no meio de uma imagem onde vemos o Temer contemplando e transposição do Rio São Francisco na Paraíba. Na legenda abaixo da imagem lê-se " ninguém pode assumir a paternidade dessa obra". "A paternidade", diz Temer," é do povo brasileiro". 

Temer pousa ao lado dos Marinhos. 
Sei bem que quando menciono a palavra golpe, alguns amigos ficam um tanto estupefatos, alguns podem pensar que eu sou mais um esquerdóide sem noção, que se recusa a enxergar os descalabros do PT. Eu vos pegunto de volta, onde está toda a fúria da grande imprensa? O que houve com a impiedosa atividade jornalistica contra a corrupção no governo? Então o PT saiu de cena e O Globo publica poemas do Michel, isso não é lindo? Mais lindo ainda é o Gilmar dizer que mesmo se Temer for condenado no TSE poderá ficar elegível. Toda essa suruba de caixa dois honesto do PSDB e desonesto (você sabe de quem...), a lancha alugada por 24 mil sem licitação e os pedalinhos, quanta discrepância.

Agora o Michel vem dizer que o Projeto do São Francisco não tem paternidade? O que é isso seu moço? Vosmecê sabe bem que tem! Tem pai e mãe. Vosmecê sabe bem que o povo nordestino reconhece a paternidade. O povo reconhece também o papel do Ciro nessa história. Gerações morreram esperando por essas águas, desde Pedro II que esse negócio tá no papel. O FHC preferiu fortalecer o coronelismo de cisterna. E vosmecê vem dizer que não tem pai? 

Ai os meus amigos, os mesmos citados acima, dirão, mas e a roubalheira da transposição? Eu digo, e a do Tietê? Silêncio. Com isso eu admito que tá tudo certo? Pode roubar desde de que se faça? Não Maluf, apenas digo que falta equilíbrio nas acusações, nas investigações, na cobertura midiática, na abertura de processos e inquéritos. Pergunto se o Lula estivesse por ai no comando da casa civil, se ele fosse lá inaugurar o trecho leste do São Francisco na Paraíba, será que teria poema no editorial? Um cordel? Provavelmente já teriam vazado as planilhas dos orçamentos e de todas as vezes que a obra foi recalculada e quantos aditivos ela recebeu. 

Por sinal, que porra de poeminha ruim!

Jonatas Carvalho





terça-feira, março 07, 2017

NINGUÉM NASCE MULHER! MULHERES NEGRAS; PARA ALÉM DA LUTA PELOS DIREITOS CIVIS


"Uma mulher negra feliz é um ato revolucionário"
Juliana Borges


A frase de Simone de Beauvoir "ninguém nasce mulher; torna-se mulher", foi tema de questão do ENEM em 2015,  e deixou nossos conservadores loucos. Absurdo! Bradavam os defensores da moral judaico-cristã em um surto de ignorância. A intolerância, filha da ignorância se manisfestou de todas as formas para denegrir a filósofa francesa, parceira de Jean Paul Sartre. O que essa gente não compreendeu é que Beauvoir fazia referência a construção social do papel feminino na sociedade, papel esse, diga-se de passagem, definido por uma sociedade machista, que durante boa parte da história decidiu que ser mulher significava submeter-se ao homem, qualquer mulher que recusasse tal papel era considerada como alguém que estava ferindo a moral e os bons costumes. Tonar-se mulher, implicava um processo que começa no próprio lar, a menina deveria ser "educada" para corresponder aquilo que se esperava de uma mulher. Seu papel social já estava definido, cabia-lhe apenas ser conduzida, disciplinada, preparada para exercê-lo. 

Não foram os homens que resolveram que o papel social das mulheres deveria mudar, que já estava na hora de lhes garantir mais direitos, a história dos direitos é uma história de luta, de conquista, de sangue e de dor. Ser mulher na época de Simone de Beauvoir não era fácil, imagina ser mulher negra? Seriam os desafios das mulheres brancas os mesmos das negras? Eis uma questão que é pertinente ainda nos dias atuais, basta olhar para alguns dados para percebermos isto, o Mapa da Violência de 2015 os indicativos são reveladores, enquanto o número de mulheres negras assassinadas no Brasil subiu 54% nos últimos dez anos, as mulheres brancas recuaram 9,8%. A taxa de mortalidade por HIV das mulheres negras no Brasil é o dobro das brancas. Enquanto o movimento feminista comemora suas vitórias (não sem razão afinal foram séculos de lutas), as mulheres negras ainda terão um enorme percurso para que lhes sejam garantidos seus direitos. 


Rosa Parks e Claudette Colvin 

Você provavelmente já ouviu falar de Rosa Parks a costureira negra do Alabama que em 1955 recusou-se a dar lugar a um homem branco. Parks estava infringindo a Lei Jim Crow criada em 1876 e que vigorou até 1965 (importante ressaltar que a escravidão nos EUA acabou em 1863), a lei estabelecia que o Estado deveria providenciar nos lugares públicos espaços separados para brancos e negros. No caso dos ônibus, a primeira metade dos acentos eram destinados aos brancos e a segunda metade (fundos) aos negros, caso a primeira metade estivesse cheia e alguém de cor branca entrasse no ônibus um negro deveria se levantar para dar lugar, Rosa Louise McCauley (Rosa Parks) foi presa. A prisão de Parks provocou o primeiro grande boicote ao uso dos ônibus em Montgomery, dentre os líderes do movimento estava o jovem reverendo Martin Luther King Jr. estima-se que 40 mil usuários negros do transporte coletivo deram seu jeito de ir e voltar do trabalho por 381 dias. (essa por si só é uma história a parte). 

A história de Rosa Parks é bem difundida mundo afora, a costureira acabou se tornando um dos ícones dos direitos civis. Mas se eu perguntasse a você sobre Claudette Colvin, creio que a resposta será: desconhecimento total. Colvin foi presa por se recusar a dar lugar a um branco no ônibus em Montgomery nove meses antes de Parks. Se Claudette Colvin  foi a pioneira porque Parks virou o símbolo do movimento? Porque todo esse desconhecimento sobre a Colvin? A explicação é que Parks tinha 46 anos quando foi presa, era uma mulher que se "encaixava" na lógica machista de decência, já Colvin era uma jovem adolescente, devia ter por volta de 16 anos quando foi presa. Sua atitude, pensaram os líderes do movimento, poderia ser encarada como um ato de rebeldia juvenil e não de consciência política, além do mais havia um agravante, Claudette estava grávida de um homem casado. Uma situação assim seria utilizada contra o movimento, ficou resolvido que o caso da jovem seria tratado em sigilo. Quando o caso da segregação nos ônibus em Montgomery chegou a Suprema Corte, Colvin foi a última a depor. Em 1956 a Suprema Corte emitiu uma ordem para Montgomery e o estado do Alabama para acabar com a segregação de ônibus, e o boicote de ônibus de Montgomery foi cancelado. 

A luta da mulher negra até os dias de hoje vão além da sua condição de mulher pois a questão da cor ainda não foi superada. 

Parabéns a todas as mulheres, parabéns as mulheres negras. 

Jonatas Carvalho
















domingo, março 05, 2017

OS DEFICIENTES CÍVICOS

EM 2002 O GEÓGRAFO MILTON SANTOS ESCREVEU PARA O FOLHA DE SÃO PAULO UMA REFLEXÃO SOBRE A EDUCAÇÃO NO BRASIL, O TÍTULO "OS DEFICIENTES CÍVICOS" É UMA REFERÊNCIA AO TIPO DE CIDADANIA QUE ESTAMOS CONSTRUINDO COM O NOSSO MODELO EDUCACIONAL. 

"Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade."

A REFLEXÃO QUE SANTOS FEZ EM 2002, INDICA QUE A INSTRUMENTALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NÃO COMEÇOU ONTEM, TODAVIA, A RECENTE MEDIDA PROVISÓRIA DO GOVERNO TEMER DEMONSTRA QUE TAL PROCESSO AINDA NÃO FOI RADICALIZADO NO PAÍS E A MP ESTÁ AI PARA GARANTIR QUE SEJA.



Leia abaixo na íntegra o que escreveu Milton Santos: 


Mundo do pragmatismo triunfante pode destruir o equilíbrio educacional entre a formação para uma vida plena e a formação para o trabalho - MILTON SANTOS - especial para a Folha.

Em tempos de globalização, a discussão sobre os objetivos da educação é fundamental para a definição do modelo de país em que viverão as próximas gerações. 

Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo. 

O interesse social se inspira no papel que a educação deve jogar na manutenção da identidade nacional, na idéia de sucessão das gerações e de continuidade da nação, na vontade de progresso e na preservação da cultura. O interesse individual se revela pela parte que é devida à educação na construção da pessoa, em sua inserção afetiva e intelectual, na sua promoção pelo trabalho, levando o indivíduo a uma realização plena e a um enriquecimento permanente. Juntos, o interesse social e o interesse individual da educação devem também constituir a garantia de que a dinâmica social não será excludente. 

Em todos os casos a sociedade será sempre tomada como um referente, e, como ela é sempre um processo e está sempre mudando, o contexto histórico acaba por ser determinante dos conteúdos da educação e da ênfase a atribuir aos seus diversos aspectos, mesmo se os princípios fundamentais permanecem intocados ao longo do tempo. Foi dessa forma que se deu a evolução da idéia e da prática da educação durante os últimos séculos, paralelamente à busca de formas de convivência civilizada, alicerçadas em uma solidariedade social cada vez mais sofisticada. 

As modalidades sucessivas da democracia como regime político, social e econômico levaram, no após guerra, à social-democracia. A história da civilização se confundiria com a busca, sempre renovada, e o encontro das formas práticas de atingir aqueles mencionados princípios fundamentais da educação, sempre a partir de uma visão filosófica e abrangente do mundo. 

Esse esforço, para o qual contribuíram filósofos, pedagogos e homens de Estado, acaba por erigir como pilares centrais do sistema educacional: o ensino universal (isto é, concebido para atingir a todas as pessoas), igualitário (como garantia de que a educação contribua a eliminar desigualdades), progressista (desencorajando preconceitos e assegurando uma visão de futuro). Daí, os postulados indispensáveis de um ensino público, gratuito e leigo (esta última palavra sendo usada como sinônimo de ausência de visões particularistas e segmentadas do mundo) e, dessa forma, uma escola apta a formar concomitantemente cidadãos integrais e indivíduos fortes. Aliás, foram essas as bases da educação republicana, na França e em outros países europeus, baseada na noção de solidariedade social exercida coletivamente como um anteparo, social e juridicamente estabelecido, às tentações da barbárie. 

A globalização, como agora se manifesta em todas as partes do planeta, funda-se em novos sistemas de referência, em que noções clássicas, como a democracia, a república, a cidadania, a individualidade forte, constituem matéria predileta do marketing político, mas, graças a um jogo de espelhos, apenas comparecem como retórica, enquanto são outros os valores da nova ética, fundada num discurso enganoso, mas avassalador. Em tais circunstâncias, a idéia de emulação é compulsoriamente substituída pela prática da competitividade, o individualismo como regra de ação erige o egoísmo como comportamento quase obrigatório, e a lei do interesse sem contrapartida moral supõe como corolário a fratura social e o esquecimento da solidariedade. O mundo do pragmatismo triunfante é o mesmo mundo do "salve-se quem puder", do "vale-tudo", justificados pela busca apressada de resultados cada vez mais autocentrados, por meio de caminhos sempre mais estreitos, levando ao amesquinhamento dos objetivos, por meio da pobreza das metas e da ausência de finalidades. O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso, sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada. 

É nesse campo de forças e a partir dessa caldo de cultura que se originam as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho, com a busca do saber prático. 

Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo em que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade. 

Daí, a difusão acelerada de propostas que levam a uma profissionalização precoce, à fragmentação da formação e à educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade, situação em que a privatização do processo educativo pode constituir um modelo ideal para assegurar a anulação das conquistas sociais dos últimos séculos. A escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos. 

É a própria realidade da globalização _tal como praticada atualmente_ que está no centro desse debate, porque com ela se impuseram idéias sobre o que deve ser o destino dos povos, mediante definições ideológicas sobre o crescimento da economia, como a chamada competitividade entre os países. As propostas vigentes para a educação são uma consequência, justificando a decisão de adaptá-la para que se torne ainda mais instrumental à aceleração do processo globalitário. O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos _os ideais de universalidade, igualdade e progresso_, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal como agora se verifica, comprometa o processo de formação das novas gerações.

sexta-feira, março 03, 2017

O PENSAMENTO NEGRO E OS TEÓRICOS AFRICANOS

"Há sempre um negro, um judeu, um chinês, um mongol, um ariano, no delírio" Gilles Deleuze.
    AO adentrarmos na escola, desde os primeiros anos até a conclusão do ensino médio, tudo o que aprendemos sobre a negritude está relacionado a sua condição de sujeito colonizado. A África só aparece nos livros didáticos quando se fala da expansão européia. Nos primeiros anos, quando abordamos as sociedades hidráulicas, o Egito aparece, mas ele é branco assim como nos filmes de Faraós e na minissérie José do Egito da Record. O negro é assim, ensinado nas escolas como alguém que só conheceu sua condição de escravo, sua cultura é exótica, suas crenças são primitivas, são criaturas de um mundo subdesenvolvido. Esse "conhecimento" sobre a África e seus povos seguem durante a faculdade, a menos que você tenha escolhido fazer ciências humanas, mesmo assim, é possível que você se forme sem nunca ter lido um texto de um pensador oriundo do continente Africano, vou logo avisando que Mia Couto não vale, apesar de eu ser fã de "Venenos de Deus e Remédios do Diabo".

    É possível pensar em inúmeros artistas, músicos e cantores negros, claro, esse número reduziria se a referência fosse "negro africano", de qualquer modo, não temos quaisquer dificuldades em reconhecer a contribuição negra no jazz, no blues e no samba. Quem não é fã de Morgan Freeman, Denzel Washington, Viola Davis, Jammie Foxx, Whoopi Goldberg, Grande Otelo, Pixinguinha, Milton Gonçalves, Tony Tornado, Leci Brandão, Seu Jorge....? Mas quando alguém pergunta sobre um intelectual negro, um filósofo, historiador, físico, em quem você pensaria?  A grande maioria das pessoas iriam pensar, pensar e não responder a essa pergunta. A molecada mais antenada lembraria de Neil deGrasse Tyson, astrofísico estadunidense, afinal ele é o novo Carl Sagan, só que é negro. O Neurocientista Carl Hart, destacou-se no mundo com suas pesquisas sobre drogas e é muito conhecido por seus dreads, Hart foi o primeiro professor titular de neurociências negro na Universidade de Colúmbia, no entanto, assim como Tyson, ele também é afrodescendente. Nossos alunos nunca ouviram falar de Abadias Nascimento, Clóvis Moura ou Lélia Gonzalez (talvez tenham ouvido alguma coisa sobre Milton Santos nas aulas de geografia), todos afrodescendentes brasileiros. Quando pergunto nas salas de aula sobre um exemplo de negro que tenha se destacado na história as respostas giram em torno de Pelé, Martin Luther King e Mohamad Ali. Já Zumbi, para os meninos do MBL não passava de um Hitler negro.

Acima à esquerda: Achille Mbembe e ao seu lado Cheikh Anta Diop. Abaixo à esquerda: Frantz Fanon  e ao lado Valentin Mudimbe. 

    A que se deve esse total desconhecimento sobre pensadores africanos? Passamos nossa vida escolar e acadêmica em contato com pensadores ocidentais, uma educação ainda eurocêntrica, aprendemos sobre Kant, Hegel, Nietzsche, Foucault, Sartre, intelectuais de origem russa como Bakunin, Dostoiévski, Tolstoi, italianos como Benedetto Croce, Giorgio Agambem, Antonio Gramsci. Mas por que nunca tivemos contato com o pensamento de Valentin Mudimbe, Achille Mbembe, Abel Kouvouana, Mogobe Ramose ou Cheikh Anta Diop? 

     O único modo de entender esse fenômeno, e é importante que se diga que não se trata de um fenômeno natural, ou seja, algo que ocorre pela força da natureza, mas ao contrário, trata-se de um processo construído socialmente, processo esse que procurou silenciar e ocultar o pensamento negro africano. Voltando, o único modo de entender tal questão é ler os pensadores africanos, são eles que irão nos ensinar porque nada sabemos de suas bases de pensamento, nada sabemos da África, senão sobre a África colonizada. É bem possível que você ao ler as obras de Alberto da Costa e Silva, acabará se deparando com uma África totalmente desconhecida, mas não é disso que eu estou falando, sei bem que o conhecimento sobre a África hoje já é muito mais avançado, embora essa realidade nas escolas ainda sejam pontuais, mesmo após a lei de 2003 que colocou no currículo do ensino fundamental o conhecimento sobre a história e cultura afro-brasileira e africana, ainda assim há que notar as mudanças. 

    Eu, porém, insisto que a única forma de compreendermos tamanho desconhecimento é lendo os africanos. Cito aqui, por exemplo, "A invenção da África: Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento", de Valentin Mudimbe, nascido no antigo Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Mudimbe procurou demonstrar, valendo-se da arquelogia foucaultiana e do percurso traçado por Edward Saïd em seu "Orientalismo", quais foram as condições de possibilidade para a emergência de um determinado discurso sobre a África. Na obra de Mudimbe verificamos que a construção desse tipo de discurso, sobre o sujeito africano, precisava anular sua condição de ser pensante para que se pudesse alimentar a ideia do selvagem e, portanto, sujeitado a uma espécie humana mais evoluída; o homem branco.  O discurso aqui, é um conjunto de elementos que envolve uma série de conhecimentos e técnicas que construirão um tipo de saber específico sobre um determinado sujeito/objeto. No caso do sujeito africano, Mudimbe nos mostra como que por meio das narrativas dos viajantes, das pinturas dos artistas, dos relatos dos missionários, se construiu a África exótica e selvagem, logo, desprovida de conhecimento. A África tal qual nós conhecemos é uma invenção ocidental. 

    A construção desse discurso também contou firmemente com a filosofia e as ciências da época, assim como o estatuto do direito. Na filosofia, o historiador camaronês, Achille Mbembe, autor de "Crítica da razão negra", relembra Hegel, para quem, os negros africanos eram "estátuas sem linguagem ou consciência de si". Mbembe irá se debruçar sobre o devir-negro do mundo, por meio da problematização do conceito de raça, uma construção fantasiosa que procurou distinguir tudo aquilo que não era europeu. O "hemisfério ocidental", diz Mbembe, desejou ser o bairro mais civilizado de todos, "só ele deu origem a uma ideia de ser humano com direitos civis e políticos, permitindo-lhe desenvolver os seus poderes privados e públicos como pessoa, como cidadão que pertence ao gênero humano, (...) só ele codificou um rol de costumes aceitos por diferentes povos, que abrangem os rituais diplomáticos, as leis da guerra, os direitos da conquista, a moral pública e as boas maneiras." (pp. 27-28). Nesse caso, o negro é o outro o dessemelhante, um símbolo acabado da vida vegetal e limitada. Como disse Frantz Fanon, um ícone do pensamento libertário, psiquiatra nascido na Martinica, "para o negro há somente um destino e ele é branco." 

Jonatas Carvalho. 

  








domingo, fevereiro 26, 2017

SOBRE O POLITICAMENTE CORRETO E OS MIMIMIS; AOS LEITORES DA VEJA.

A Veja dessa semana trouxe em sua capa a foto do casal Lázaro Ramos e Taís Araújo, o conteúdo da matéria procurou colocar os dois atores "Globais" como exemplos de como o talento pode superar as adversidades raciais. Em pouco tempo uma chuva de crítica de seus leitores que acusavam a revista de fazer uso de uma "agenda esquerdista", protestaram contra a "dívida histórica", "apropriação cultural", tudo não passa de mimimi, a onda do politicamente correto, longamente denunciada pelo filósofo de direita Luiz Felipe Pondé. 

O que os leitores da Veja não entenderam é que a sua última capa visava evitar outro mimimi, aquele que coloca Temer e Padilha no meio negócio da corrupção, do caixa dois do PMDB. Afinal, as inúmeras denúncias contra o presidente e seus ministros já está virando mais um mimimi, ficar protestando sobre o silêncio da grande imprensa e dos paladinos procuradores da lava jato é mais um chororô dessa esquerda descarada que não faz outra coisa nos últimos 13 anos se não aparelhar o Estado brasileiro. 

Quando vi a capa da Veja, notei uma faixa em sua parte superior onde se lê "Fui mula do Padilha", uma referência a fala de José Yunes, amigo íntimo de Temer, confirmando a delação de Melo Filho sobre o repasse de quatro milhões a Eliseu Padilha. Fiquei pensando como seria essa edição se o caso fosse referente a mais um escândalo do PT, se Dilma ainda estivesse no Alvorada, se fosse ela que tivesse pedido ao Marcelo Odebrecht dez milhões. Se fosse esse o caso, haveria uma inversão de prioridade da notícia, o Lázaro e a Taís virariam a faixa e a capa estamparia o escândalo. Assim a capa da Veja foi providencial, gerou um tititi entre os críticos do politicamente correto, temas como cotas raciais e meritocracia repercutiram nos demais órgãos midiáticos, desta forma, a Veja cumpriu seu papel; minimizar os efeitos dos escândalos contra a presidência de Temer. 


Quantos aos leitores da Veja, esses acéfalos que recusam entender os efeitos da escravidão negra, não creio que valha muito a pena comentar essa gente. Uma gente que acha que a escravidão acabou há mais de um século e seus efeitos não estão mais entre nós. Uma gente que se nega a enxergar as disparidades entre negros e brancos nos ambientes de classe média e das elites. O Joaquim Barbosa foi usado da mesma forma que o casal global por essa gente. Eu me pergunto quando haverá outro negro no supremo? Um negro no supremo resolve tudo ou acentua ainda mais nossas desigualdades? O ministério de Temer indica que não há negros qualificados para grandes cargos públicos ou que tais espaços estão sob o controle das elites políticas que são brancas? 

Enquanto escrevo essas linhas escuto Lisa Simone, cantora de voz exuberante e filha da espetacular Nina Simone. Nina compôs em 1964 a canção Mississippi Goddam (algo como puta que o pariu Mississipi), a canção foi um protesto contra o massacre de 1963, um dos mais marcantes na história da luta pelos direitos civis nos EUA, quando quatro crianças negras foram assassinadas em um atentado racista em uma igreja batista na cidade de Birmingham, no Alabama, logo após, o ativista Medgar Ever também fora assassinado. Mississippi Goddam tornou-se um hino do ativismo negro estadunidense. Nina cantou no sepultamento de Martin Luther King em 1968.  

Abaixo a letra, música e tradução de Mississippi Goddam:

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

A MORTE DE DEUS E O HOMEM PROBLEMÁTICO

"Copérnico destruíra a ilusão cósmica de que o homem estava no centro do universo. Darwin destruíra a ilusão biológica de que o homem era um ser essencialmente diferente e superior aos animais. Finalmente, a psicanálise desferiu  o golpe que é provavelmente o maior de todos, nomeadamente que o homem nem sequer era dono da sua própria casa, que o ego (razão) não dirigia a vontade e todo o trabalho do espírito, como normalmente se pensara." Franklin L. Baumer. 

Denominado pelo historiador Eric Hobsbawm de "o longo século", o século XIX foi de fato um período extremamente importante para compreendermos, parafraseando Foucault, "como nos tornamos o que somos". Trata-se de uma época cheia de dualidades, se por um lado é o período das metanarrativas, das utopias que visavam uma sociedade moral e economicamente viáveis. Por outro, é também no dezenove que se consolida as bases para a desconstrução do sujeito histórico moderno, do homem ilustrado. O fim do homem só se concretizaria no século XX, após as duas Grande Guerras, assim podemos dizer, numa expressão kuhniana, que é a partir da metade do século XIX que o paradigma moderno apresenta-se em crise. 

O sonho da razão produz monstros - Franciso Goya.  
A dissolução do homem só foi  possível após a morte de deus. Esta se deu por meio de um processo gradual, passando por Espinosa, excomungado por ateísmo em 1656, por Feuerbach autor de "A essência do cristianismo" em 1841, até a publicação de "A gaia ciência" em 1882 por Friedrich Nietzsche. A obra de Nietzsche é uma constatação de que uma forma de pensar havia sido substituída por outra, a morte de deus, é assim, o fim de uma estrutura de pensamento cujo fundamento era a teologia judaico/cristão. Freud em 1927 no seu ensaio "O futuro de uma ilusão" escreveu: " Os deuses conservaram a sua tripla tarefa, afastar os pavores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, em especial como ele se mostra na morte, e recompensá-los pelos sofrimentos e privações que a convivência da cultura lhes impõe." Ao fim, conclui: "Não há instância alguma acima da razão." A nova estrutura de pensamento, agora calcada na razão iluminista kantiana, colocara o homem no lugar de deus, e apesar de toda a euforia gerada pela superação das superstições religiosas, Nietzsche não se entusiasmou, para ele seria necessário também superar o homem.

Franklim Baumer, ao escrever " O pensamento Europeu Moderno" no início de 1970, dedica-se no volume dois de sua obra a demonstrar como o homem tornara-se problemático. Foi na literatura de Samuel Beckett, de Aldous Huxley, de Marcel Prust e de André Malraux que Baumer procurou asseverar o homem problemático, Enquanto Huxley em "Admirável Mundo Novo" (1932), colocava o homem na Incubadora Central  de Londres para se tornar robotizado, Malraux um ano mais tarde diria que "o homem tem qualidades, mas raramente são admiráveis ou heroicas". Na mesma época, Robert Musil escrevera "O homem sem qualidades". Assim como a psicanálise, outro elemento de extrema contribuição para a desconstrução do homem foi o advento da antropologia, que trazia consigo a relativização, isto é, não existe uma natureza humana que seja universal, um lugar central onde todos os homens se identificam. O etnólogo Möllberg colocou uma questão, diz Baumer: "a noção do homem significa alguma coisa?"  Após isolarmos os elementos fundamentais de suas culturas, suas crenças, estruturas mentais, seus costumes, após retirar tudo, é possível encontrar uma ideia fundamental, verdadeira para todos os homens em todos os lugares e fazendo parte da história? A reposta vem do próprio Mölberg; "o homem fundamental é um mito". 

O homem ainda não foi superado como queria Nietzsche, mas todas as suas mazelas já nos são conhecidas, a busca por sentido o levou ao "ouro de tolo" como nos ensinou Raul Seixas em 1973:

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social.


Mas o homem já não é mais o mesmo. Agora ele é incerto, relativo, plural, se sua fé na religião acabou, ele também rejeita os dogmas científicos, todavia ele continua destrutivo, se o darwinismo social colocou sobre o homem branco o "fardo" de civilizar o mundo, o relativismo pós-moderno, associado ao liberalismo econômico vem garantindo a supremacia branca sobre as demais e, por conseguinte,  a continuidade da destruição do planeta.  
  
Jonatas Carvalho.
















sexta-feira, fevereiro 17, 2017

O FIM DA HISTÓRIA: A REFORMA DO ENSINO MÉDIO

O homem não é só feito pela história, a história é feita pelo homem. (Erich Fromm)

Após Francis Fukuyama ter escrito "O fim da História e o último Homem" em 1992, uma série de ataques foram desferidos contra sua tese, mas, por outro lado, o cientista político também tornou-se livro de cabeceira de muita gente. O que Fukuyama queria dizer na verdade? Não era exatamente sobre o fim da História como disciplina que estuda a ação dos homens ao longo do tempo, mas o fim de uma história; a da busca pelo modelo perfeito de sociedade. Após todas as utopias proclamadas no século XIX, todos os "ismos", finalmente havíamos achado a fórmula certa de funcionamento das sociedades, este seria a combinação entre a democracia e a economia liberal. Fukuyama escreveu sua tese influenciado pela queda do muro de Berlim em novembro de 1989, a derrubada do muro tornou-se a representação simbólica da derrota do sistema socialista e o fim da URSS. O que Fukuyama não percebeu é que sua tese incidiu em uma série de predicados utópicos, como exportar o modo de vida americano em todo globo, mesmo reconhecendo as dificuldades desse projeto, o autor previu que ele se expandiria e alcançaria todas as nações. O que Fukuyama não entendeu é que a economia de mercado liberal não quer levar a democracia tripartite mundo afora, o liberalismo econômico não deseja um mundo igualitário, ele precisa dos ditadores, precisa alimentar as desigualdades para continuar expropriando as riquezas, para continuar parasitando como diria Baumam. O modelo defendido por Fukuyama é aquele em que as corporações impõem aos Estados a agenda e as demandas sociais, que privatiza saúde e educação tal como querem fazer o atual governo brasileiro.

A reforma do ensino médio, assim como a a previdência são exemplos dessa lógica perversa que visa desonerar o Estado ampliando os lucros das corporações. O que é mais lastimável nisso tudo são as mentiras empregadas como argumentos  de convencer as populações para a aceitação do programa de governo. A propaganda veiculada pelo Ministério da Educação em âmbito nacional divulga o "Novo Ensino Médio", afirma que o aluno agora terá mais liberdade para estudar, podendo escolher os conteúdos de acordo com sua vocação, parece um sonho que finalmente será realizado.

O que a propaganda não diz é que quando o aluno ou aluna chegar aos 14 ou 15 anos no primeiro ano do ensino médio e por acaso ele julgar que no futuro ele será um contador(a), engenheiro(a) ou economista, ele ou ela chegará a faculdade sem ter tido aulas de geografia e história, e ao longo dos três anos terão um ano de sociologia e de filosofia. O novo ensino médio, propõe que estes alunos passem três anos aprendendo português e matemática exaustivamente, para que um engenheiro ou um contador precisará de história e geografia? A nova proposta do governo deixa de lado o aspecto da educação de formação sócio-integral para uma linha de montagem de tecnocratas e os tecnocratas são programados para serem pragmáticos e produtivos, não críticos.

É evidente que o atual modelo é retrógrado, é exaustivo, incoerente. Mas seria a solução mais inteligente excluir da obrigatoriedade a História e a Geografia? Um aluno decide que fará medicina e passará todo o ensino médio estudando matemática e português (as duas únicas obrigatórias nos três anos), e uma parte desse tempo estudando ciências da natureza, sem qualquer noção da história ou da geografia. Um médico não precisa saber sobre democracia e globalização, claro que não. Não estou afirmando aqui que categoricamente um profissional de saúde será menos humanista sem o conhecimento de história e geografia, mas que o contato com tais disciplinas podem ser importantes para ampliar sua visão de mundo e decidir que tipo de médico ele quererá ser.

Por fim, cabe perguntar, por que História de Geografia deixam de ser obrigatórias? Por que Filosofia e Sociologia serão aplicadas apenas em um ano nos três? Deve-se a isso a fantasiosa noção reverberada pelo Escola Sem Partido de que os profissionais dessa área são um bando de "doutrinadores"? Nesse caso é melhor que estudantes de medicina e engenharia nunca tenham contato com os ensinamentos de Milton Santos ou Jacob Gorender, mesmo que para isso também lhes sejam tiradas as oportunidades de ter  contato com as ideias de Evaldo Cabral de Mello, Boris Fausto, Maria Yedda Linhares, Ângela Castro Gomes, Amélia Luísa Damiani Pasquale Petrone.... isso pra ficar só com os nacionais. O novo ensino médio tem um caráter de tecnologia de poder sobre o corpo, como já nos alertava Foucault (outro nome que será cada vez menos conhecido entre nossos alunos), uma educação que procurará produzir sujeitos dóceis, disciplinados para o mercado de trabalho e de pouca resistência crítica.  Talvez Fukuyama não esteja de tudo equivocado, o modelo último de sociedade que ele previu, poria um fim a história.


Jonatas Carvalho.