domingo, outubro 14, 2018

EM ALGUMA ESCOLA DO BRASIL EM 2020

– Bom dia! Sejam bem-vindas!! Está a procura de uma vaga para essa mocinha?
– Bom dia. Sim.
– Ahh que ótimo! Tenho certeza que ela gostará muito do nosso colégio!
– Bem, para ser sincera, eu me mudei aqui para perto a pouco tempo e…
– Ahh, mas veio ao lugar certo! Eu sempre digo que este é o lugar! Aqui as crianças são preparadas desde de cedo para a vida e o mercado.
– Mas minha filha só tem 12 anos. Eu pensei que ela deveria apenas aprender as matérias e se socializar, não é muito cedo para pensar essa questão do mercado?
– Absolutamente! Mãe, vou lhe dizer uma coisa, quanto mais cedo melhor minha querida! Mérito é algo que prezamos demais!
– Mérito?

– Isso mesmo. A capacidade que alguém desenvolve para chegar na frente! É preciso mostrar isso desde cedo, sempre há alguém querendo o seu lugar não é?
– Eu, eu, honestamente vejo o mérito de modo diferente….
– Vamos dar uma olhada no espaço?? Ali a sua frente é o espaço preferido deles durantes os intervalos! Veja como são comportados, disciplina para nós é algo absolutamente irrevogável, somos praticamente uma escola militar. Inclusive temos preparatório viu?
– Obrigada, mas falta muito ainda para ela pensar isso.
– Bobagem querida! Aqui temos um fundamental inteiro militar. Mérito se começa de cedo. E outra coisa, meninas são tratadas como meninas e meninos como meninos!
– Mas você não tem jovens aqui com outras opções sexuais?
– Para ser sincero até temos! Mas duvido que você notaria! Se quiser fazer gaysisse faça lá fora, aqui não! Nada contra entendeu? Mas gente, pera lá né?
– Então sexualidade não é trabalhada nas aulas de ciências? Biologia?
– Apenas o conteúdo técnico, ideologia de gênero aqui não! Sua filha estará segura de ser influenciada.
– Desculpe, mas não creio que sexualidade seja algo que se influencia como, por exemplo, gosto musical. Além do mais, minha filha é criada com amigas e amigos, familiares que....
– Ahhh me deixe eu lhes mostrar nossa biblioteca, não é linda?
– É. Desculpe, mas eu não vi nenhum negro ou negra aqui, com exceção da menina da faxina que passou por nós no corredor.
– Ahhh, sim. Bem eles preferem a escola pública que tem a duas quadras daqui....Voltando a biblioteca, estamos fazendo uma grande modificação, na verdade uma reestruturação da nossa coletânea, retiramos toda literatura considerada de esquerda, aliás, por sinal, esse é outro problema que sua filha não terá aqui. Nossos professores são orientados para não praticarem qualquer tipo de doutrinação. Já temos até o cartaz de orientação do Escola Sem Partido colado na sala dos professores.
– Doutrinação?
– Isso mesmo!
– O Sr. está me dizendo que minha filha não aprenderá Marx, Rousseau, Sartrer?
– Imagina! Pode ficar tranquila, jamais!
– E também não terá conhecimento da literatura de Pablo Neruda, Jorge Amado, Gabriel Garcia, Graciliano Ramos?
– Garantido que não! Mas temos uma coleção fantástica de Nelson Rodrigues! Podemos voltar a secretaria para acertar a matrícula?
– Absolutamente não!
– Mas, mas não entendo….eu achei…
– Achou que eu deixaria minha filha frequentar esse campo de concentração conservador que o Sr. tem a coragem de chamar de escola? Achou errado! Passar Bem!

quarta-feira, setembro 26, 2018

O "BRISADEIRO" E O BOLSONÁTICO

Essa história é uma peça de ficção, quaisquer semelhanças com as vidas de membros de alguma  família brasileira é mera coincidência.

- Não sei se o café está forte, acho que hoje errei a mão.
- Hoje? Minha mãe sempre erra a mão tio.
- Não há problema algum meninas, o importante é tomar um cafezinho.
- Ah é tão bom quando seu tio vem pra cá né filha? Assim ele divide um pouco a carga com a gente.
- Com você né, que dá bola pra ele, eu subo pro meu quarto e me tranco lá.
- Isso é sacanagem de vocês, o cara é meu irmão e isso a gente não escolhe.
- Ué eu sou filha e também não escolhi!
- E eu sou uma idiota por me casei com o embuste.
- Hahaha...fica assim não cunhada, o cara tem qualidades.
- Ele só fala em Bolsonaro, eu não aguento mais!
- Imagino.
- Sabia que teve uma carreata do coiso aqui na cidade?
- Que dia?
- Domingo agora. Ele queria que queria que eu fosse. Colocou até bandeira no carro. Mas aqui que eu ia perder o churrasco na casa da Margot!
- E você mocinha não foi com o seu pai?
- Tá maluco! Disse pra ele não me encher o saco e fui pro quarto.
- O pior é que ele só posta isso nas redes sociais. Se vocês duas soubessem o quanto de fake news ele reproduz por dia, já falei tanto com ele, mas parece que ele realmente acredita que aquelas coisas são verdade.
- A noite ele chega atacado, senta no sofá, pega o celular ai começa, olha esse vídeo aqui, olha isso, olha aquilo! Puta que pariu eu não consigo ver mais nada na TV que ele não deixa e se reclamo ele ainda briga, diz que não estou interessada no meu país.
- Sabe o que eu queria fazer com ele tio?
- O que?
- Dar um brisadeiro de cannabis e ficar esperando a reação.
- Kkkkkkkkkkkkk
- Um brigadeiro de quê?
- Brisadeiro de maconha mãe!
-Hahhahaahaha. Eu apoio.
- Eu também.
- Vamos dá? Imagina ele nem beber bebe....vai ser demais!
- Mas onde vamos arrumar?
- Ihh mãe lá na escola eu arrumo fácil.
- Essa eu ia querer ver. Já pensou ele chapado? Cantando Olê, olê, olê, olá...Lulaaaaa?
-Kkkkkkkkkk
- O tio como será que ele reagiria?
- Não dá pra prever. Talvez vocês fiquem desapontadas, pois ele pode simplesmente dormir....profundamente!
- Glória....a ....Deus!
- Hahahaha.
- Eu já ficaria feliz, assim poderia ver o master chef em paz.
- Ahhh, mas ai é sem graça mãe.
- É não minha filha, pra quando você consegue o brigadeiro? 
- Bri-sa-dei-ro mãe!

sábado, setembro 22, 2018

ESQUERDAS E DIREITAS E SUAS MÚLTIPLAS FACETAS

-Professor! Como o sr. se define? Direita, esquerda ou Centro?
- Não gosto muito de me definir nesses termos; diria que antes de qualquer coisa sou um humanista.
- Mas...o sr. se vê pendendo mais pra que lado?
- O que tentei dizer na aula de hoje foi que qualquer tentativa de definição desses conceitos com base no que você lê nas mídias sociais ou nos jornais é de um reducionismo brutal. Esquerda e direita possuem muitas facetas (assim como o centro), foi isso que tentei mostrar a vocês, desde a Revolução Francesa à consolidação dos dois grandes partidos (Republicanos e Democratas) nos EUA.
- Então para o Sr. a Esquerda e Direita que está por ai hoje não são reais?
- São versões, muitas versões...em alguns casos distorções, cuja complexidade remete a um conjunto de elementos e fatos históricos que ganharam interpretações variadas.
- Então não existe uma esquerda e uma direita legítima?
- Não. Imagine, a esquerda da Convocação dos Estados Gerais na França não era um conjunto uníssono, tão pouco a direita, entre os jacobinos por exemplo, havia diversos subgrupos. O historiador Jules Michelet (1952),  escreveu que havia o jacobinismo  primitivo, parlamentar e nobiliário,  havia ainda, um jacobinismo misto, dos jornalistas republicanos, as diferenças sobre que tipo de Estado a França deveria ser era enorme.
- Professor! O que é mobiliário?
- É nobiliário, relativo a nobreza, isto é, quem possui título de nobre.
- Então havia nobres entre os jacobinos?
- Havia sim.
- Professor! Mas isso não é como ser banqueiro e votar no Lula?
- Bem, não creio. Mas veja, os bancos nas últimas eleições (2014 - Dilma e Aécio), fizeram doações muito semelhantes em termos de montantes aos dois presidenciáveis que foram para o segundo turno.
- Isso quer dizer que banqueiro só tem uma ideologia né professor?
- É?
- Sim, chama-se ideologia frankliana.
- Que isso?
- Ué, é de Benjamin Franklin...a figura na nota de 100 dólares...hahaha! Né não prof?
- Sim. Por falar em Frankin, deixe-me chamar atenção para uma coisa, pois os EUA tem uma característica muito particular nessa ideia de direita e esquerda.
- Eu sei que o Trump é de direita...e tem um tupeti que parece um pica-pau.
- Galerinha, veja bem, alguém sabe o que defende o partido democrata e o que defende o republicano?
- Professor o Obama era Democrata ou Republicano?
- Democrata.
-Então o republicano é racista? 
- O partido republicano foi o grande responsável pelo fim da escravidão nos EUA, sobretudo, após Abraham Lincoln tornar-se presidente por este partido.
- E ele também caçava vampiros! Né prof?
- Isso eu não sei, mas sei dizer que o partido republicano surgiu após alguns membros dos democratas, sobretudo, aqueles antiescravistas ficarem insatisfeitos com os rumos do país. Os republicanos governaram com certa tranquilidade até a crise de 1929, foi a partir dai, que os liberais democratas, elegeram Franklin D. Roosevelt.
- Mas professor...e o Hitler?
- O que tem?
- Era de direita ou esquerda?
- Extrema direita meu querido!
- Mas e essa história de que era de esquerda?
- Veja, a Revolução Francesa não gerou apenas o chamado centro, ocorreu que também surgiram dos debates que se alastraram ao longo do XIX e adentraram ao XX os extremos, isto é, a esquerda extrema e a direita extrema. O liberalismo apresentou uma séria de anomalias, uma delas foi o neocolonialismo na África e Ásia, alternativas surgiram então.
- Mas os governos de Hitler e Stalin não foram semelhantes?
- No que tange a centralização de poder sim, mas fora isso, há muitas diferenças. A Revolução Russa liderada por Lenin, tomou medidas que Hitler nunca utilizou, como estatização, nacionalização (muito embora Lenin mantivesse uma certa abertura para o capital estrangeiro), e reforma agrária. Hitler nunca fez nada parecido com isso. Há uma enorme quantidades de variantes que devem ser consideradas, Hitler chega a fazer um acordo com Stalin, mas também tinha acordos com a Inglaterra e a França, o que isso faz dele?
- Prof....e a esquerda e direita no Brasil? Como se deu essa bagaça?
- Acho que isso ficará para próxima aula...ou próximas, pois aqui, a complexidade é tão grande que talvez nem os historiadores sejam capazes de explicar. O que posso lhes afirmar é: As rotulações são reducionistas, preconceituosas, pobres...

Até a próxima aula.









domingo, setembro 09, 2018

VERDADES INVENTADAS E ELEIÇÕES 2018


A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. 
(Michel Foucault, Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. p.12-13)

Me lembro como se fosse hoje, mas era o domingo de 26 de outubro, dia de votação no segundo turno das eleições de 2014, Dilma X Aécio. Eu estava saindo de casa para votar e me deparei com meu falecido pai já retornando da urna, era cedo ainda, ele parecia revoltado, peguntei o que havia acontecido e ele esbravejou: Mataram o doleiro está nos jornais! Referindo-se a Alberto Youssef, estopim da Operação Lava Jato. Eu respondi que infelizmente o fato de estar nos jornais não torna algo em fato.... é, foi mais uma verdade inventada pela grande imprensa. A população brasileira acordou com essa notícia que fez com que muitos mudassem seus votos naquele dia, como meu pai mudou, somente no final da tarde desmentiram. 

O fake news não nasceu na época da internet, ele tem a idade do homem. A história da domesticação do homem, da submissão dos povos a governos, do estabelecimento dos impérios é permeada por uma incontável produção de verdades inventadas. Desde a carta de Constantino, documento falso que a igreja utilizou para se dizer proprietária do Império Romano Ocidental, ao discurso do papa Urbano II em 1095 sobre a "ameaça" dos infiéis muçulmano a terra santa, que resultou nas cruzadas. Ao longo dos séculos, das grandes navegações ao neocolonialismo, para invadir um território habitado ou mesmo ocupar um continente inteiro (como a África), a produção de verdades inventadas foi o elemento fundamental, aquilo que permitia, autorizava, justificava. As verdades inventadas produzia os inimigos, caracterizava sua condição de selvageria, crueldade. Muitas verdades foram inventadas para se estabelecer os controle populacional, para manter as força de trabalho produzindo, para justificar a escravidão. 

A história das guerras é também uma história de fake news. os Estados Nacionais contaram com o apoio jornalístico e publicitário para produzir verdades inventadas, cito aqui apenas a foto de Joseph Rosenthal, ganhadora do Pulitzer, reproduzida por todo o Ocidente, Rosenthal registrou a vitória dos soldados estadunidenses na ilha japonesa de Iwo Jima em 1945. A foto de soldados hasteando a bandeira dos EUA no topo da ilha tornou-se um dos maiores fakes da história, os soldados que percorreram  o país, identificados como os heróis que hastearam a bandeira em Iwo Jima e ajudaram na propaganda para arrecadar fundos para a guerra, não eram os mesmos da foto, um dos verdadeiros hasteadores morreu sem reivindicar sua condição de hasteador. 



No Brasil, o fake news chegou junto com a colonização, do império a constituição da república toda sorte de verdades foram inventadas visando a garantia do poder pelas oligarquias locais. Nos primeiros anos de república as disputas pelo poder entre grupos políticos que levaram a uma sucessão de golpes que só foram possíveis graças as verdades inventadas. Getúlio que usou o assassinato de João Pessoa tomar o poder (após perder as eleições) em 1930, anos depois foi vítima de uma enorme quantidade de acusações, dentre elas a do atentado contra a vida de Lacerda em 1954. A imprensa nacional durante décadas foi a grande produtora de verdades inventadas, prestando um enorme serviço aos militares nos anos de chumbo, contribuindo para a invenção da categoria criminosa do "sujeito subversivo". 

Se as redes sociais não inventaram o fake news, contribuíram significativamente para sua popularização em tempo real. Talvez o dado novo que aqui se percebe, é que até então se pensava que a produção de verdades inventadas era resultado da ganância dos poderosos, hoje descobrimos que um indivíduo qualquer em um lugar qualquer é capaz de usar seu celular como arma de propaganda enganosa e encontrará eco nas redes sociais de milhares de outros indivíduos que replicarão tal informação. O direito a opinião, outrora reservada apenas aos "ilustrados", tornou-se práticas dos "comuns". muito embora não anula o que Pierre Bourdieu disse em "Tempos Modernos" publicado em 1973: "A opinião pública não existe". (Link no final da página) 

A rede social possibilitou-nos a sensação estarmos integrados ao mundo, isto pode ser notado de várias formas, quando uma doméstica, moradora da Rocinha, vê que sua patroa do Leblon compartilhou sua publicação sobre culinária ou o motorista de caminhão que recebe mensagens do patrão via aplicativo, enobrecendo o trabalho e o mérito no grupo  da empresa. Por outro lado, o ambiente virtual revelou-nos também uma série manifestações que ultrapassam o limite da opinião, subvertendo preconceitos de toda ordem como forma de opinião, como é ocorre nos discursos de ódio. O ódio, ou o discurso de ódio, também não é uma invenção das redes sociais. Nossa espécie, por sinal, é a única capaz de cultivar ódio. Nossa história com o ódio e a violência é de longa data, temos o 4º trânsito mais violento do mundo, somos líder mundial em violência rural, nossa violência urbana possui taxas de violência acima de países em guerra e recentemente alcançamos o status da 3º maior população carcerária do mundo. Para piorar, matamos mais gays e policiais que qualquer outro pais. Toda essa violência reflete nas opiniões na rede social, é possível que em breve estejamos também liderando mundialmente nesse quesito.

O ódio disseminado tal como está, revela uma sociedade esquizofrênica, um prato cheio para os eruditos da psicologia social, milhões de perfis reais (e falsos) fomentando diariamente "opiniões" odiosas sobre tudo. Mas não apenas isso, o ódio é fabricado, plantado por meio da produção das verdades inventadas, isso também não é novo, mas ganha dimensão desmedida pela velocidade que tais verdades se proliferam. Se de fato existe opinião pública (algo que Churchill discordava, para ele o que havia é opinião publicada), esta encontra-se hoje esfacelada pela pós verdade, onde o "fato" é menos relevante, influencia menos que as crenças individuais. 

Tomando como exemplo a situação brasileira recente, a rede social, utilizada cada vez mais como um espaço de disputa para a produção de verdades inventadas cujo discurso de ódio é destilado no âmbito extremo da direita e da esquerda na desqualificação do outro pela simples diferença de ideias e, por conseguinte, na construção de um inimigo que deve ser compelido, quem sabe, até  extirpado da sociedade. Isso pode ser percebido em eventos drásticos recentes, na execução de Marielle Franco, poucas horas depois de tomar os noticiários, já havia publicações na rede ligando a vereadora a Marcinho VP, condenado a 36 anos por tráfico de drogas. atacaram sua sexualidade, atacaram sua cor de pele. Outro caso recente, foi o incêndio no museu nacional, algumas horas depois acusações surgiram na rede social acusando a UFRJ de ter recebido 21 milhões do BNDES para reformas e que tal dinheiro desapareceu, outro dizia que o governo gastara 60 milhões com a Lei Rouanet, ambas inventadas. No outro lado da polarização, dezenas de montagens circularam na internet mostrando a facada a Jair Bolsonaro como fraude, claro, ocorreram também montagens associando o atentado ao PT. O que é surpreendente nisso tudo é que a polícia sequer havia tido tempo de interrogar o suposto agressor, diversas versões já circulavam pela rede. 

A possibilidade de criar um "fato" novo (breaking news), tendo as mãos um smartphone que permite editar imagens, propicia a um indivíduo que sequer tenha qualquer ideologia política ocupar-se de produzir verdades inventadas de todas as formas apenas por diversão. Os partidos perderam o controle sobre a manipulação das informações, o que não quer dizer que pararam de manipulá-las, a grande imprensa idem, a justiça, sobretudo a eleitoral está perdida sobre como punir os produtores de verdades inventadas. Nessas eleições poderemos bater todos os recordes de fake news e você que compartilha sem medo as informações que lhe chegam, é mais uma peça manipulável nesse jogo de verdades inventadas. 

Jonatas Carvalho.   

   






sábado, agosto 04, 2018

JUVENTUDE TRANSVIADA SIM, MAS CONSCIENTIZADA.

“Os velhos desconfiam da juventude porque foram jovens.” (William Shakespeare)

"Nossa juventude adora o luxo, é mal educada, caçoa da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem a seus pais e são simplesmente maus." (......?)

Neste último sábado (04/08/18), tive a enorme satisfação de participar de um evento no Pensi Teresópolis. Uma espécie de mostra temática desenvolvida a partir de uma disciplina que permeia todas as séries cujo nome é muito interessante: Laboratório de Inteligência de Vida (LIV). A mostra ficou por conta do ensino médio que partiu do conceito de família para abordar questões que ainda são incômodas, quando não silenciadas na vida social. 

Foi em 1955 que Nicholas Ray produziu para o cinema o filme “Rebel Without a Cause”, aqui no Brasil traduzido por “Juventude Transviada”, uma história que mostra os conflitos da geração da Primeira Guerra e da Crise de 1929 com aquela do pós Segunda Guerra, a geração do ator James Dean (protagonista do filme que morreu neste mesmo ano ainda muito jovem). Em 1975, Luis Melodia, compôs para uma novela (Pecado Capital) uma canção com o mesmo título do filme que acabei de citar... “eu entendo a juventude transviada e o auxílio luxuoso de um pandeiro” 

Há anos que escuto comentários sobre o quanto a juventude de hoje está perdida, não têm conteúdo, são irresponsáveis e frequentemente suscetíveis às más influências. Sempre que ouço isso (em algumas ocasiões em sala de professores), me pergunto se haveria momento mais propício na vida para se experimentar as mais variadas vivências e sensações do que a juventude.

O chamado conflito de gerações é uma constante nas sociedades desde Sócrates (470/399 a.C.)... sim, Sócrates é o autor do segundo texto acima entre aspas! Desde então filósofos, pedagogos e outros pensadores destilaram suas críticas sobre esses “seres incompreendidos”. Talvez Shakespeare estivesse certo, toda essa desconfiança reside no fato de que já fomos jovens, já fomos inconsequentes suficientemente para não querer que nossos filhos corram os mesmos riscos que estivemos sujeitos um dia. Queremos protegê-los das frustrações, decepções, das experiências impróprias e de tantas outras “ameaças”. Por isso, sempre os julgamos despreparados para serem autônomos.

Mas o que vimos hoje na mostra desconstrói esse tipo de ideia que nós pais temos da geração y (ou yy - yz). Na mostra de hoje o que vimos foi um espetáculo de autonomia, informação com base em conhecimentos sólidos, habilidades de trabalho em equipe, consciência social e muita disposição. O resultado? Pais, professores e equipe pedagógica impactados, emocionados, deslumbrados. 

Sim eles transviaram, romperam com décadas de hipocrisia e preconceitos, demonstraram que não se iludem mais com mitos como o da “família de comercial de margarina”, sabem que laços de afeto são tão fundamentais (em muitos casos mais) que o chamado laços de sangue, ampliaram o conceito de família ao ilimitado. Eles transviaram com a intolerância sexista em detrimento do ser humano, nos mostraram que não se pode medir caráter a partir da sexualidade de quem quer que seja. Eles transviaram o determinismo familiar da escolha sobre o que serão no futuro, são senhores do seu amanhã. Transviaram não da moral, mas de um tipo de moral; a patriarcalista. Eles não são suscetíveis, só estão mais abertos às mudanças sociais, praticando o desapego a todo tipo de tradição que nega a pluralidade e tolerância. Transviar não é afastar-se do bom caminho é construir outros caminhos quando o que existe já não nos atende como sujeitos do conhecimento. 

O nosso papel, como geração anterior não é o de guiá-los, pois eles já sabem onde querem ir, acima de tudo o que querem e o que não querem ser, cabe-nos apenas a orientação sábia, serena, amiga, cabe-nos acima de tudo, o apoio, a confiança e a parceria. Foi isso também que vi nessa bela e jovem equipe pedagógica. Termino minha homenagem a estes jovens com um trecho da canção de Flávio Venturini….”nossa linda juventude, página de um livro bom, canta que te quero cais e calor, claro como o sol raiou”. 

Jonatas Carvalho é professor de história da arte no Pensi.

terça-feira, junho 26, 2018

LIBERALISMO DESEMBESTADO À BRASILEIRA


Passei alguns dias lendo alguns autores liberais, alguns clássicos (como John Stuart Mill), alguns intelectuais (como Mario Vargas Llosa), na busca pelo pensamento liberal no Brasil me deparei com um site chamado Academia do Liberalismo Econômico (Link-https://aleconomico.org.br/quem-somos/). O site, ao que parece, recebe colaboração de voluntários, que traduzem textos de liberais nos EUA, Inglaterra dentre outros, sobretudo, trata-se de um site que reproduz o pensamento econômico da escola austríaca, como é o caso de Ludwig Heinrich Edler von Mises. A Academia do Liberalismo Econômico tem um objetivo óbvio, lutar contra a “escolarização de esquerda”, alimentando assim a ideia de que o pensamento de esquerda é predominante no ambiente escolar. (tese esta nunca comprovada, mas persistente no Escola sem Partido).
O projeto da Academia do Liberalismo não é um caso isolado, há outros, como, por exemplo, Mises Brasil (Veja aqui: https://www.mises.org.br/Default.aspx), trata-se de deliberadamente preparar a juventude brasileira na defesa do liberalismo. Não que nossos jovens não devam ter contato com o pensamento liberal, pelo contrário, creio que seja essencial, mas os sites que citei acima, defendem um liberalismo ortodoxo, a escola austríaca e, sobretudo, Mises, são exemplos de uma certa radicalidade.
As publicações do Academia do Liberalismo Econômico são voltadas para criticar políticas de caráter intervencionista, defensores vorazes do Livre Mercado, os autores apresentam trabalhos com pouco teor teórico, salvo algumas exceções. Entre os “artigos” é possível verificar todo tipo de incongruência como é o caso de “O capitalismo é bom para os pobres”, de Steven Horwitz, liberal da escola austríaca. Neste “artigo”, podemos encontrar proposições que fariam Adan Smith revirar no túmulo:

“Hoje, os pobres em países capitalistas vivem como reis, graças em maior parte à liberdade de trabalhar e à habilidade em acumular capital que torna o trabalho mais produtivo e enriquece até os mais pobres de todos.”

Outro “artigo”, que traz como título “Como o livre mercado atua sobre a pobreza”, escrito por Thiago Serpa Alves, vemos a seguinte proposição:

"Ao longo dos últimos 200 anos houve diminuição gradativa da situação de pobreza extrema presente no mundo. De 1820 a 2015 a população mundial passou de cerca de 1,1 para 7 bilhões de habitantes, porém a quantidade de pessoas em situação de pobreza extrema caiu de cerca de 1 bilhão em 1820, para aproximadamente 700 milhões em 2015."

O jovem liberal utiliza o índice GINI para produzir gráficos demonstrativos dessa afirmação.
Lendo um pouco mais, encontrei o “artigo” de Felipe Lungov, presidente da Academia do Liberalismo Econômico, cujo título é “O lucro faz mal para a sociedade?” Para o economista com formação na USP, o lucro é um fenômeno natural, benéfico a sociedade como um todo. Quanto mais lucrar uma empresa, mais justiça social haverá, recorto aqui uma proposição:

"O lucro é o atestado inviolável de que seu portador conseguiu encontrar pessoas que estavam pagando demais em produtos cujos produtores estavam ganhando de menos. E tem mais: quanto maior for o lucro obtido, (a) mais defasada estava a renda do trabalhador em relação ao preço pago pelo consumidor, e/ou (b) maior foi o número de trocas realizadas que beneficiaram essas pessoas todas. Ou, nas palavras de Robert Murphy, “lamentar que um capitalista esteja tendo lucro muito alto é como reclamar de um cirurgião por salvar muitas vidas”.

A produção desses argumentos de caráter pouco crítico, que naturaliza o capitalismo e o livre mercado, estão se disseminando nas redes sociais e encontrando reverberação na juventude brasileira, sobretudo, nos filhos da classe média. O sintoma mais agudo desse tipo de liberalismo é a organização de grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), grupos esses de olho em investidores estrangeiros dispostos a propagar o liberalismo (como a Open Society Fundations de George Soros). Outro sintoma é a criação de partidos liberais como o Partido Novo, que terá como candidato as eleições de 2018 um de seus fundadores, João Amoedo. Defensor ferrenho de um Estado Mínimo, Amoedo prega uma privatização geral no país como solução de reduzir o tamanho do Estado.

As diferenças ideológicas entre os liberais são enormes, seria um erro grave colocá-los todos no mesmo saco, há liberais cujas pautas políticas estão conectadas com parte da esquerda no que tange as liberdades civis, como legalização do aborto, descriminalização das drogas, casamento homoafetivo e adoção de crianças por esses casais. Mas o tipo de liberalismo que está de disseminando entre nossos jovens é conservador no que diz respeito as liberdades individuais, idolatram o livre mercado, mas são patrulheiros morais. Para esses novos liberais, demanda e oferta são deuses do olimpo, não devem ser questionados, se o mercado quiser nossos recursos naturais (nossas águas, petróleo….) que seja, ainda que para isso use de estratégias que coloque o país em crise financeira para depois comprar nossas riquezas a preço de banana. Esses jovens liberais, não viram qualquer problema em romper com o sistema democrático em 2016 ao apoiar figuras como Eduardo Cunha e Michel Temer, mas acham um absurdo, uma degradação a arte contemporânea brasileira. Agora disseminam ideias como a de que o salário-mínimo é gerador de desemprego, ou que política de igualdade salarial é um equívoco, como defende Jefferson Shupe, segundo ele:

Claramente existem mulheres que ganham menos do que um homem na mesma função, mas também existem mulheres ganhando mais do que um homem na mesma função. Se estas leis igualitárias passarem, estou certo de que muitas mulheres, além de homens, teriam seus rendimentos cortados para igualar as coisas.

Termino aqui com uma citação de Adan Smith em “A riqueza das nações”: "Onde há grande propriedade, há grande desigualdade. Para um muito rico, há no mínimo quinhentos pobres, e a riqueza de poucos presume da indigência de muitos."

Jonatas Carvalho.

domingo, maio 13, 2018

SEGUNDO DOMINGO DE MAIO DE 2018.


– Hoje é dia das mães! Disse a profetisa!
Todos acenaram positivamente.
– As redes sociais estão tomadas de mensagens, poemas....
É! Exclamavam....compartilhavam...
A profetisa fechou os olhos e continuou.
– Mas não se esqueçam da rosa, da rosa...
– Eu comprei um buquê! Bradou alguém na multidão.
– Lembrem-se das mães sírias, palestinas, curdas, congolesas....
Silêncio na multidão.
– Lembrem-se das mães negras, faveladas, periféricas.
Uma pequena dispersão na multidão.
– Lembrem-se das mães dos encarcerados, dos desaparecidos, dos injustiçados.
– Lembrem-se das mães agredidas, das que pariram na rua, nas prisões,
–  Lembrem-se das mães abortivas, desnutridas, estupradas, incestadas, humilhadas.
– Lembrem-se das mães interditadas, da bala perdida, da dispensa esvaziada.
– Lembrem-se das mães que hoje não poderão almoçar no shopping, que não porão à mesa, que não ganharão sequer uma flor.
No que abre os olhos, a profetisa só vê uma menina de pé a sua frente.
– Para onde foram todos?
– Embora. Respondeu a menina.
– Por que você também não foi?
– Porque a senhora estava falando da minha mãe. E sorriu.

Jonatas Carvalho.