sexta-feira, julho 04, 2025
O "COMBO DA MAMATA": MUITO ALÉM DO CONGRESSO.
terça-feira, junho 17, 2025
O IRÃ DA VEZ ou A VEZ DO IRÃ.
Todo historiador que preza seu ofício sabe que qualquer elaboração sobre o conflito entre sionistas e persas, em pleno fogo cruzado, configuraria uma análise pouco precisa. Basta pensar nas avaliações dos "analistas" na ocasião da eclosão do conflito entre Rússia e Ucrânia. Quanta bobagem foi proferida.
Isso não quer dizer que seja impossível fazer uma leitura minimamente razoável da situação. Mas sempre estaremos no campo das possibilidades e projeções, em especial quando se trata de futuros desdobramentos. Mesmo aqueles que avaliam as "causas", neste momento, correm o risco de se equivocar.
Para começo de conversa, toda análise que pauta o conflito a partir do "acordo" interrompido entre Irã e EUA — isto é, que o ataque sionista tinha como único objetivo "interromper" ou "forçar" os persas a assinarem o acordo — pode estar ignorando um cenário mais amplo. A história pode ser muito mais complexa e tem rastros mais longínquos.
Se tivermos que demarcar uma temporalidade, eu diria que poderíamos iniciar com a invasão de Gaza, em 2023, onde, certamente, um dos objetivos era enfraquecer o Hamas. Mas havia outras razões, entre elas a descoberta de reservatórios de petróleo e gás na Área C da Cisjordânia e na costa mediterrânea de Gaza, com estimativas iniciais de 122 trilhões de metros cúbicos de gás e 1,7 bilhão de barris de petróleo recuperável.
Então, se olharmos esses movimentos, podemos pensá-los como uma preparação de médio prazo: primeiro, era preciso enfraquecer os grupos de apoio ao Irã para, depois, atacar o coração da resistência ao projeto sionista. Fica então a questão: qual o momento certo para atacar o Irã? Provavelmente em meio aos impasses nas negociações com os EUA de Trump. Era preciso retomar as negociações, impor um acordo inegociável, para que Israel pudesse alegar um "ataque preventivo" e cometer mais meia dúzia de crimes de guerra.
Uma possibilidade mais abrangente, que deve ser seriamente considerada para explicar o ataque, é a seguinte: o Irã tornou-se membro dos BRICS em agosto de 2023. Em maio deste ano, um trem de carga partiu da cidade chinesa de Xian e chegou ao porto seco de Aprin, perto de Teerã; a Iniciativa Cinturão e Rota reduziu de 30 para 15 dias o comércio entre Irã e China. Enfraquecer o Irã e substituir o governo dos Aiatolás pode, portanto, significar a interrupção do projeto chinês de ligar o leste da Ásia à Europa passando pelo Irã e pela Turquia. Sempre vale lembrar que o Irã possui a terceira maior produção de petróleo e gás do mundo e, em 2024, a National Iranian Oil Co. (NIOC) descobriu uma reserva de petróleo na província do Khuzestão avaliada em US$ 7,3 bilhões.
É preciso dizer que o Irã, embora seja majoritariamente persa (pouco mais da metade da população), sua composição social é multiétnica e multicultural: azeris (turcos), curdos, lurs, árabes, balúchis, armênios, assírios, georgianos e judeus. A comunidade judaica no Irã, aliás, é uma das mais antigas do mundo e uma das maiores no Oeste da Ásia, depois de Israel. Em Teerã, há pelo menos 12 sinagogas em atividade, e um pouco mais de 50 em todo o país.
Essa convivência pacífica histórica ajuda a compreender que o problema do Irã não é contra os judeus, mas com o projeto sionista. Ao olharmos os arranjos fronteiriços, pode-se verificar que os Estados-nação no entorno de Israel foram severamente enfraquecidos ao longo das últimas décadas: Líbano, Síria e Iraque. A Jordânia, passiva e silenciada desde que perdeu a Cisjordânia para Israel em 1967, possui uma monarquia constitucional de fachada, pois seu rei, Abdullah II, nomeia e troca o primeiro-ministro quando acha necessário.
Se esta conflagração iniciada pelos sionistas (com aval do império) fará do Irã a bola da vez, ou, se a reação iraniana configurará no Irã da vez, ainda não sabemos. O que sabemos e podemos afirmar com certeza é que não há projeto mais imoral no mundo atual que o projeto sionista.
sexta-feira, maio 02, 2025
MUITO MAIS QUE UMA GUERRA TARIFÁRIA OU UMA NOVA PAZ ARMADA.
Jonatas Carvalho
Historiador e Doutor em Sociologia e Direito
domingo, abril 20, 2025
A PESTE DE FREUD NA ERA DE OURO DE TRUMP
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| Fonte: The New York Times. |
domingo, abril 06, 2025
A DIREITA ECONÔMICA BRASILEIRA E O FIM DE BOLSONARO.
Neste domingo de frio em São Paulo, o DataFolha publica uma pesquisa que esfria ainda mais a vida política de Bolsonaro. A matéria que chama a atenção para a pesquisa tem o seguinte título: "67% afirmam que Bolsonaro deveria abrir mão da candidatura." No subtítulo, o instituto revela que "Michelle e Tarcísio são os nomes mais citados" entre os possíveis candidatos que o ex-presidente deveria apoiar.
Uma manchete aparentemente informativa é, na verdade, parte da máquina de propaganda que a direita econômica (por direita econômica, refiro-me aos conglomerados de mídia, agroexportação e especulação financeira) vem produzindo já faz algum tempo. Quando, em fevereiro deste ano, o Fantástico dedicou uma longa matéria expondo "áudios inéditos" sobre a trama do golpe para matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, eu não tinha mais dúvidas de que Bolsonaro havia sido abandonado.
Ao longo dos dois últimos anos, a direita econômica esteve lado a lado com Tarcísio de Freitas, com um apoio poucas vezes visto. O governador de São Paulo recebe as benesses d**'O** Folha e d**'O** Estadão diariamente. O PIG (Partido da Imprensa Golpista), para relembrar um velho jornalista, não permite que qualquer mancha de sangue (da corrupção e associações criminosas do governador) chegue aos seus leitores.
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| Fonte: ICL - (Foto: EVARISTO SA / AFP) |
Mas, para Tarcísio ascender, é preciso lançar Bolsonaro ao precipício. Na minha avaliação, este é o grande jogo, com muitas peças e movimentações. Enumerarei aqui algumas: um movimento eu já destaquei acima, isto é, trata-se de elevar a imagem de Tarcísio como um político moderado e competente; seus "sucessos" como governador do Estado mais poderoso do Brasil o colocariam como o mais preparado para a presidência. Por outro lado, é necessário abrir candidaturas à direita em outros Estados. O discurso de Caiado, Ratinho Júnior ou mesmo Zema contra Lula e o PT será fundamental para não permitir uma recuperação da aprovação do governo petista. No tempo certo, esses pré-candidatos da direita se uniriam numa aliança pró-Tarcísio.
Finalmente, um movimento absolutamente fundamental: a aceitação da Primeira Turma do STF em tornar Bolsonaro (e seu staff) réus. Ao longo de 2025, o ex-presidente irá sofrer enormes perdas de popularidade; o PIG trará inúmeras reportagens especiais revelando as imundícies da família do ex-presidente e o pressionará a se render a Tarcísio. Para não haver dúvidas, não estou sugerindo que o STF será usado como uma peça que a Direita Econômica utilizará – ao contrário, estou sugerindo que o Supremo é parte integral do jogo. Não creio que eu precise lembrá-los de que este é o mesmo Supremo que manteve Lula preso e o impediu de disputar uma eleição em que ele liderava nas pesquisas, só porque, na ocasião, esta mesma Direita Econômica havia optado por Bolsonaro e Paulo Guedes.
quinta-feira, janeiro 16, 2025
DITADURAS E RESISTÊNCIAS LATINOAMERICANAS: MEMÓRIA, HISTÓRIA E ARTE.
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Painel: Memorial da Resistência |
terça-feira, janeiro 07, 2025
ENTRE O 6 E O 8 DE JANEIRO: AINDA ESTAMOS AQUI.
Acordei às 6h novamente. Um professor em recesso escolar, cujo relógio biológico não entra em recesso (ou é só a velhice chegando mesmo), acaba se dedicando a leituras diversas. Li algumas notícias, mas optei por compartilhar minha percepção sobre duas matérias.
A primeira é um texto do Xico Sá para o Diário do Nordeste, em que o jornalista e escritor coloca lado a lado a história de duas mulheres brilhantes: Eunice Paiva e Elisabeth Teixeira. A primeira passou a ser conhecida especialmente após o prêmio a Fernanda Torres pela brilhante atuação no papel da esposa de Rubens Paiva, ex-deputado paulista, capturado, torturado e assassinado em 1971 dentro de um quartel militar. A segunda, creio eu, é absolutamente desconhecida ainda entre nós, mesmo após o sucesso do documentário produzido por Eduardo Coutinho, "Cabra Marcado para Morrer", lançado em 1984. Xico nos lembra a história de Elisabeth, trabalhadora rural da Paraíba, casada com João Pedro Teixeira, mãe de onze filhos, perseguida pela ditadura militar. Ela precisou espalhar seus filhos e desaparecer por um bom tempo, mas Elisabeth está viva, ainda está aqui.
A segunda matéria foi escrita por Joel Pinheiro Fonseca, filho do economista Eduardo Giannetti, para a Folha de São Paulo. O título me chamou a atenção: "Neste oito de janeiro, lembre-se: o PT não é a democracia". O economista liberal argumenta que a direita não pode deixar a esquerda sequestrar a pauta da democracia, como teria feito com outros temas. Para tanto, caberia à direita combater veementemente a crítica à fraude eleitoral das urnas eletrônicas. A base de seu argumento é que, dois anos após os atos de 8 de janeiro de 2023, 86% dos brasileiros desaprovam as invasões nos prédios públicos de Brasília. O que significa, segundo o economista e filósofo, que, embora a direita tenha votado em Bolsonaro, apenas um bando de radicais se aventurou na loucura da invasão, no delírio de uma intervenção militar, enquanto a maior parte é moderada.
O jornalista liberal pode até ter razão ao afirmar que o PT não é a democracia, isto é, a democracia não é produto de um só partido. Mas, por outro lado, não lhe ocorre que a direita historicamente se alinhou com os fascismos quando lhes convinha deter os avanços das classes trabalhadoras. Os liberais de Washington (democratas e republicanos), com seus poderosos conglomerados, desde a Doutrina Monroe, patrocinam e sustentam golpes de estado no mundo todo. A direita brasileira apoiou a ditadura militar, que perseguiu, sequestrou e torturou mulheres como Eunice Paiva e Elisabeth Teixeira. Quanto ao PT, o caro colunista da Folha ignora a participação fundamental do partido contra a ditadura, assim como seu papel nos avanços da classe trabalhadora deste país. Avanços estes que a direita e a extrema direita vêm destruindo desde a reforma trabalhista em 2017.
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| Eunice e Elisabeth |
Joel Pinheiro é um liberal que defende uma sociedade "baseada em regras", desde que estas sejam as regras liberais, podendo ser até um "bolsonarismo moderado", que verdadeiramente jogue nas "quatro linhas" do livre-mercado (as aspas são minhas). A democracia é um valor máximo, mesmo com seus defeitos, afirma Joel, não existe alternativa melhor. Fico na dúvida se o filho do grande economista liberal realmente acredita no mundo encantado das liberdades individuais e da livre iniciativa, ou se ele apenas se vende para divulgar tais propagandas. É de bom tom deixar claro que a nossa "redemocratização", tão aclamada pelos liberais, só chegou para as classes privilegiadas. As classes desfavorecidas (pobres, pretas e periféricas) continuam lidando com um Estado de Exceção. A classe trabalhadora, como a categoria "professor(a)", segue sofrendo ataques ininterruptos (com direito a violência policial) pelos "liberais moderados" como os governadores Tarcísio de Freitas (SP) e Cláudio Castro (RJ). Os mesmos liberais moderados que se recusam a taxar os bilionários, mas não hesitam em manter uma taxa de juros abusiva, pois entre deter a inflação e aumentar o desemprego, escolhem o último.
Entre o 6 e o 8 de janeiro, nós que lutamos por justiça social, por reparação histórica e não por uma democracia liberal, ainda estamos aqui.

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