Entre trancos e barrancos procuro seguir o ethos moderno de conservar o corpo, embora eu critique a “ditadura da saúde” que busca fabricar indivíduos com padrões exatos, que nos impõe uma intensa rotina de exercícios físicos e nos ilude com uma ideologia de cultuar o corpo. Na prática, não resisto muito, assim, alterno entre caminhadas e cervejadas, entre uma “nadada na praia” e uma feijoada no bar da esquina as sextas.
Hoje ao fazer minha caminhada na areia da praia do forte, percebi que o mar estava singularmente belo, suas águas estavam límpidas e calmas, não havia vento e eu fiquei paralisado diante de tanta beleza. O som do mar certamente é terapêutico, sempre que me encontro em conflito com algum problema é dele que vem o som capaz de trazer-me a paz de volta. Tenho alguns amigos, muitos certamente se colocariam a disposição para ouvir minhas neuras, poucos talvez fossem capazes de me ajudar a resolvê-las, não porque lhes falte capacidade, mas algumas questões dependem exclusivamente de mim para serem alteradas ou resolvidas.
As águas límpidas do mar fazem com que eu perceba os benefícios da transparência, com tal limpidez é possível ver o fundo do mar, saber onde estamos pisando e contemplar a beleza que há em baixo d’água. Quando a água está turva, não é possível obter os mesmos benefícios, o tom escuro das águas nos deixa inseguros, não saber onde pisamos é uma sensação desagradável.
Dificilmente é possível ser cem por cento transparente, as vezes somos conduzidos ou preferimos a obscuridade, o que não significa um levianismo deliberado, ao contrário, trata-se antes de auto-preservação. Esta talvez seja uma das características humanas mais primitivas ao mesmo tempo mais interessante, o modo como se age instintivamente para se auto preservar é sem dúvida herança dos nossos ancestrais.
Mas do que nos protegemos? Ou o que protegemos? Se levarmos em conta a noção de “homem do desejo” de Freud, podemos dizer que protegemos nossos desejos e pensamentos que são condenados em nossa sociedade. Todo e qualquer ato que é considerado infame, toda e qualquer vontade que fora considerada abominável, degradante, imoral, etc.
A mesma sociedade que condena, explora na obscuridade a ação condenada. Citemos um exemplo contemporâneo, o mesmo congresso nacional que mantém cafetinas circulando por seus corredores com seus “books” de notável exuberância e variedade, não aprova a existência de uma lei que reconheça a profissão de prostituta como legítima, garantindo a estas mulheres (tão fundamentais para a economia libidinal masculina), direitos básicos como uma aposentadoria legítima.
A transparência é fruto da sobriedade, o que me lembra Antonin Artaud, quando este dizia: “quero estar acordado nos meus sonhos e sonhar como um homem desperto”.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Ambigüidades.
Somos dentre todas as espécies vivas da biosfera àquela com características mais estranhas. Essa história de que somos uma “espécie superior” precisa ser revisada. Antes se dizia que nossa diferença para as outras espécies era o fato de possuirmos inteligência, hoje sabemos que muitos seres são dotados de inteligência. Em seguida o argumento passou para uma concepção cartesiana – somos os únicos dotados de razão! – Talvez, embora sempre me parecesse que somos mais guiados por instinto “animal” que por alguma razão (basta sentar com algum psiquiatra e este lhe fará uma lista completa de nossa semelhança comportamental).
Há, porém, outra grande diferença, a ambição, somos seres ambiciosos isto eu não consegui perceber em qualquer espécie. A ambição é traduzida por alguns dicionários como desejo de poder, riquezas ou honras. A ambição nos torna mesquinhos, individualistas, egoístas.
Esta semana passei por uma experiência que deixou claro o quanto somos mesquinhos, aliás, a palavra mesquinho contém um significado dúbio, pois ela tanto pode significar escassez de recursos, pobreza, como também pode significar avareza. Voltando a experiência, eu estava feliz, orgulhoso por estar conduzindo meu filho até sua escolinha de futebol, para vê-lo estreando numa categoria acima da que jogou no ano anterior. Quando entrava no estacionamento do clube, uma moto em alta velocidade colidiu na parte traseira do carro. Eu saí, verifiquei se o motoqueiro estava bem, percebi que havia se ralado, nada mais. Enquanto ele levantava sua moto se desculpava dizendo que pagaria todo o prejuízo, quando eu fui olhar o que havia ocorrido com o carro ele pulou na moto e fugiu. Eu não resisti e fui atrás, tentei alcançá-lo, mas não havia como. O episódio ficou me atormentando até que decidi naquela tarde fazer um orçamento do prejuízo: Mil reais. Agora eu estava mais atormentado do que antes, imaginei que sonharia com aquele motoqueiro e no sonho eu o jogaria para o alto.
No dia seguinte menos atormentado, caminhei com minha esposa, li meu jornal e assisti o futebol. À noite recebi a notícia que a esposa de um amigo havia falecido em um acidente de carro, ele estava ao volante e voltavam de férias de Campinas para o Rio, quando o pneu dianteiro estourou.
Eventos como estes demonstram que nossa capacidade de apego as coisas materiais chegam a ser ridículas, ouvi de um amigo que o erro do socialismo foi desconsiderar o individualismo dos sujeitos, mas creio que o individualismo tal qual nos é representado não é uma característica a priori, mas uma fabricação social, uma construção histórica. Não somos nem individualistas nem comunitários, aprendemos e desenvolvemos tais aptidões histórica e socialmente. Assim aprendemos a ser generosos, solidários e gentis, mas também somos egoístas, individualistas e mesquinhos. Em muitos casos tais características tão antagônicas estão presentes em um mesmo sujeito, isso é, podemos ser especialmente generosos quanto a uma determinada situação e completamente mesquinhos no que diz respeito à outra situação.
A ambigüidade nos torna este ser terrivelmente complexo e estranho, como eu já citei nas primeiras linhas deste texto, mas não somos seres ambíguos por natureza genética, a ambigüidade também é uma construção social, o homem torna-se ambíguo, por diversas razões que não me compete dizer aqui.
Penso que o que realmente nos difere enquanto espécie, é um pouco o que Marx sugeriu com sua metáfora sobre as abelhas, diferimos das outras espécies pela nossa capacidade de refletir nossa própria ambigüidade, quando no momento em que detectamos o quanto fomos mesquinhos em relação a alguma coisa, podemos imediatamente fazer algo generoso, ou sermos totalmente solidários, é provavelmente aí que somos fundamentalmente singulares como espécie.
Há, porém, outra grande diferença, a ambição, somos seres ambiciosos isto eu não consegui perceber em qualquer espécie. A ambição é traduzida por alguns dicionários como desejo de poder, riquezas ou honras. A ambição nos torna mesquinhos, individualistas, egoístas.
Esta semana passei por uma experiência que deixou claro o quanto somos mesquinhos, aliás, a palavra mesquinho contém um significado dúbio, pois ela tanto pode significar escassez de recursos, pobreza, como também pode significar avareza. Voltando a experiência, eu estava feliz, orgulhoso por estar conduzindo meu filho até sua escolinha de futebol, para vê-lo estreando numa categoria acima da que jogou no ano anterior. Quando entrava no estacionamento do clube, uma moto em alta velocidade colidiu na parte traseira do carro. Eu saí, verifiquei se o motoqueiro estava bem, percebi que havia se ralado, nada mais. Enquanto ele levantava sua moto se desculpava dizendo que pagaria todo o prejuízo, quando eu fui olhar o que havia ocorrido com o carro ele pulou na moto e fugiu. Eu não resisti e fui atrás, tentei alcançá-lo, mas não havia como. O episódio ficou me atormentando até que decidi naquela tarde fazer um orçamento do prejuízo: Mil reais. Agora eu estava mais atormentado do que antes, imaginei que sonharia com aquele motoqueiro e no sonho eu o jogaria para o alto.
No dia seguinte menos atormentado, caminhei com minha esposa, li meu jornal e assisti o futebol. À noite recebi a notícia que a esposa de um amigo havia falecido em um acidente de carro, ele estava ao volante e voltavam de férias de Campinas para o Rio, quando o pneu dianteiro estourou.
Eventos como estes demonstram que nossa capacidade de apego as coisas materiais chegam a ser ridículas, ouvi de um amigo que o erro do socialismo foi desconsiderar o individualismo dos sujeitos, mas creio que o individualismo tal qual nos é representado não é uma característica a priori, mas uma fabricação social, uma construção histórica. Não somos nem individualistas nem comunitários, aprendemos e desenvolvemos tais aptidões histórica e socialmente. Assim aprendemos a ser generosos, solidários e gentis, mas também somos egoístas, individualistas e mesquinhos. Em muitos casos tais características tão antagônicas estão presentes em um mesmo sujeito, isso é, podemos ser especialmente generosos quanto a uma determinada situação e completamente mesquinhos no que diz respeito à outra situação.
A ambigüidade nos torna este ser terrivelmente complexo e estranho, como eu já citei nas primeiras linhas deste texto, mas não somos seres ambíguos por natureza genética, a ambigüidade também é uma construção social, o homem torna-se ambíguo, por diversas razões que não me compete dizer aqui.
Penso que o que realmente nos difere enquanto espécie, é um pouco o que Marx sugeriu com sua metáfora sobre as abelhas, diferimos das outras espécies pela nossa capacidade de refletir nossa própria ambigüidade, quando no momento em que detectamos o quanto fomos mesquinhos em relação a alguma coisa, podemos imediatamente fazer algo generoso, ou sermos totalmente solidários, é provavelmente aí que somos fundamentalmente singulares como espécie.
domingo, novembro 16, 2008
LONGO NOVEMBRO.
Depois de desfrutar dos feriados (neste novembro foram quatro, três nacionais e um local), resolvi aproveitar os raros momentos de tranqüilidade para refletir um pouco sobre este longo novembro e suas datas interessantíssimas.
Ao olhar para cada feriado comecei a notar que na maioria dos casos, não damos a devida atenção ao sentido das datas. Temos de inicio o dia de finados, todo mundo tem direito a morrer, e conseqüentemente é justo que haja um dia específico para lembrarmos dos nossos mortos. O que me encabula é o fato de sempre chover muito nesta data, por mais cético que eu seja não consigo deixar de pensar numa conspiração dos céus. De toda forma, finados com sol, não seria justo com os mortos. Todos certamente iriam preferir aproveitar o feriado para ir a praia e não ao cemitério, o sol inibiria o clima fúnebre que o dia pede. Imagina você lá mortinho da silva, e a galera no maior sol, curtindo samba, cerveja e futebol, isso é sacanagem!
Sol, praia, samba e cerveja, já combina com o dia da proclamação da república, ai sim, podemos fazer festa. Viajar, fazer piquenique vale qualquer coisa. Afinal o que há para comemorar? Temos uma republiqueta, disfarçada por componentes democráticos, que na verdade remonta o império. Caciques, coronéis, votos de cabrestos, oligarquias, corporativismo e falsa representatividade são o que compõe de fato nosso sistema de governo. Se não temos coragem de fazer revolução e se nossa burguesia está satisfeita com os conchavos, não temos outra opção senão de fingir que nada está acontecendo. Fingir que estamos felizes com nossos salários, com a forma que a distribuição de renda é feita neste país, com a bolsa família... Logo, só nos resta aproveitar dia, esquecer ao que se refere esta data, se alguém perguntar – feriado de que hoje? – diga – sabe que não me lembro! Um dia assim não precisa ser fúnebre, precisa de sol, pão e vinho. Além do mais, dois dias fúnebres no mesmo mês é sacanagem!
Não vou mencionar o feriado local, mas antes de passar para o dia vinte, quero só fazer um parêntese sobre o filme que passou no dia quinze no canal nacional de manipulação das massas. Cazuza. Este filme devia vir com aquelas recomendações que alguns programas de circo ou acrobacias fazem. – Senhoras e senhores, o que vocês vão assistir é extremamente perigoso, portanto não tente fazer isto em casa! – Cazuza é um filme que conta a história de um burguesinho, mimado, viado e viciado que se tornou um poeta de talento. Seria melhor que não conhecêssemos sua biografia, apenas suas letras. Este filme é só sacanagem!
O dia vinte, dia da consciência negra devia se chamar dia da consciência branca, não que os negros não devam se tocar e ir à busca de seus direitos, mas os brancos necessitam se conscientizar da importância desse povo em nosso país. É impressionante que todos os grupos minoritários que foram vitimas de massacres históricos, sejam recompensados de alguma forma; os judeus (que são especialistas em conseguir indenizações) vítimas do holocausto, as famílias de vítimas dos regimes ditatoriais e os índios que estão tendo suas reservas reconhecidas. Só o negro que não leva nada. Quando se fala em “políticas afirmativas”, todo mundo vira o “bicho”. Desde a abolição, nunca se fez uma política voltada para compensar o negro por seu sofrimento, aliás, nem a abolição foi uma política neste sentido. Sabemos que o que ocorreu foi uma pressão dos ingleses para o fim do escravismo. No final, tudo foi uma grande sacanagem!
Bem, só pra constar, este texto é sobre novembro do ano passado, mas achei legal colocá-lo neste também!!
histosofia@gmail.com
Ao olhar para cada feriado comecei a notar que na maioria dos casos, não damos a devida atenção ao sentido das datas. Temos de inicio o dia de finados, todo mundo tem direito a morrer, e conseqüentemente é justo que haja um dia específico para lembrarmos dos nossos mortos. O que me encabula é o fato de sempre chover muito nesta data, por mais cético que eu seja não consigo deixar de pensar numa conspiração dos céus. De toda forma, finados com sol, não seria justo com os mortos. Todos certamente iriam preferir aproveitar o feriado para ir a praia e não ao cemitério, o sol inibiria o clima fúnebre que o dia pede. Imagina você lá mortinho da silva, e a galera no maior sol, curtindo samba, cerveja e futebol, isso é sacanagem!
Sol, praia, samba e cerveja, já combina com o dia da proclamação da república, ai sim, podemos fazer festa. Viajar, fazer piquenique vale qualquer coisa. Afinal o que há para comemorar? Temos uma republiqueta, disfarçada por componentes democráticos, que na verdade remonta o império. Caciques, coronéis, votos de cabrestos, oligarquias, corporativismo e falsa representatividade são o que compõe de fato nosso sistema de governo. Se não temos coragem de fazer revolução e se nossa burguesia está satisfeita com os conchavos, não temos outra opção senão de fingir que nada está acontecendo. Fingir que estamos felizes com nossos salários, com a forma que a distribuição de renda é feita neste país, com a bolsa família... Logo, só nos resta aproveitar dia, esquecer ao que se refere esta data, se alguém perguntar – feriado de que hoje? – diga – sabe que não me lembro! Um dia assim não precisa ser fúnebre, precisa de sol, pão e vinho. Além do mais, dois dias fúnebres no mesmo mês é sacanagem!
Não vou mencionar o feriado local, mas antes de passar para o dia vinte, quero só fazer um parêntese sobre o filme que passou no dia quinze no canal nacional de manipulação das massas. Cazuza. Este filme devia vir com aquelas recomendações que alguns programas de circo ou acrobacias fazem. – Senhoras e senhores, o que vocês vão assistir é extremamente perigoso, portanto não tente fazer isto em casa! – Cazuza é um filme que conta a história de um burguesinho, mimado, viado e viciado que se tornou um poeta de talento. Seria melhor que não conhecêssemos sua biografia, apenas suas letras. Este filme é só sacanagem!
O dia vinte, dia da consciência negra devia se chamar dia da consciência branca, não que os negros não devam se tocar e ir à busca de seus direitos, mas os brancos necessitam se conscientizar da importância desse povo em nosso país. É impressionante que todos os grupos minoritários que foram vitimas de massacres históricos, sejam recompensados de alguma forma; os judeus (que são especialistas em conseguir indenizações) vítimas do holocausto, as famílias de vítimas dos regimes ditatoriais e os índios que estão tendo suas reservas reconhecidas. Só o negro que não leva nada. Quando se fala em “políticas afirmativas”, todo mundo vira o “bicho”. Desde a abolição, nunca se fez uma política voltada para compensar o negro por seu sofrimento, aliás, nem a abolição foi uma política neste sentido. Sabemos que o que ocorreu foi uma pressão dos ingleses para o fim do escravismo. No final, tudo foi uma grande sacanagem!
Bem, só pra constar, este texto é sobre novembro do ano passado, mas achei legal colocá-lo neste também!!
histosofia@gmail.com
quarta-feira, outubro 15, 2008
Conjecturas
Bem como todos podem verificar não tenho escrito ultimamente, a última postagem foi feita no final de agosto. Não porque me faltaram as idéias ou as palavras, mas porque há momento em que prefiro apenas refletir, sem que minha reflexão resulte em texto. O texto é a constituição do autor com tal, já a reflexão é livre, não se restringe ao documento, a autoria. Tenho pensado sobre muitas coisas, projetos pessoais, política, economia, história, educação e filosofia. Parece muito técnico? Eu sei, mas também gosto de me alienar pensando "bobagens", coisas do tipo como meu time sairá da zona de rebaixamento, a seleção do Dunga, o sacador de rolhas "super maneiro" que olhei numa vitrine, estas coisas...
Estou muito concentrado em projetos, mas as vezes acho isto um saco, as pessoas que conheço me dizem que preciso relaxar, e falar sobre "coisas banais", novelas, televisão, revistas de fofocas, etc. Eu não tenho a menor possibilidade de conversar sobre isto, sempre sou surpreendido com as frases de televisão que viram moda. Ou eu sou um ser insuportavelmente de outra "esfera pública" ou um iludido.
Para dizer a verdade as vezes gostaria de me sentir assim, um sujeito alienado, que não se dá conta das questões globais, dos mecanismos de poder, das instituições de controle, da política demagógica, das estruturas sociais que o capital nos impõe e das distorções ideológicas que entorpecem os sujeitos sem que estes se dêem conta de suas atribuições.
Em fim,ser ou não ser um alienado, os alienados são mais felizes? Freud dizia que não, mas será que os alienados são os outros, ou nós que nos dedicamos a árdua e sofrida tarefa de reflexão e análise da vida?
Estou muito concentrado em projetos, mas as vezes acho isto um saco, as pessoas que conheço me dizem que preciso relaxar, e falar sobre "coisas banais", novelas, televisão, revistas de fofocas, etc. Eu não tenho a menor possibilidade de conversar sobre isto, sempre sou surpreendido com as frases de televisão que viram moda. Ou eu sou um ser insuportavelmente de outra "esfera pública" ou um iludido.
Para dizer a verdade as vezes gostaria de me sentir assim, um sujeito alienado, que não se dá conta das questões globais, dos mecanismos de poder, das instituições de controle, da política demagógica, das estruturas sociais que o capital nos impõe e das distorções ideológicas que entorpecem os sujeitos sem que estes se dêem conta de suas atribuições.
Em fim,ser ou não ser um alienado, os alienados são mais felizes? Freud dizia que não, mas será que os alienados são os outros, ou nós que nos dedicamos a árdua e sofrida tarefa de reflexão e análise da vida?
segunda-feira, agosto 25, 2008
Kabuki Máscaras.
Vivo toda semana o dilema da estar dividido, uma divisão geográfica (viver numa cidade e trabalhar em outra) que me remete a viver uma vida dupla. Sou um ser ambíguo, mas minha dualidade não me desconforta, ao contrário ela me alivia. Isto porque nunca fui apenas eu mesmo, sou mais, sou muitos. Não! Não estou possuído por entidades ou coisa parecida, trata-se apenas de alguém que nunca se conformou em viver simplesmente a vida como disseram que ela teria de ser. Este comportamento me trouxe alguns problemas, pois necessito ocultar alguns dos meus “eu” dos outros.
Não é difícil ser autêntico neste planeta, difícil é ser tudo o que somos, não sou hipócrita (talvez um pouco!), mas quem pode ser totalmente honesto diante de todos, quem pode ser irremediavelmente verdadeiro em tudo? É possível que possamos e, muitos assim o fazem, seguir a vida com alguma transparência, mas todos nós ocultamos dos outros o que realmente somos. Freud nos deixou uma herança que provocou um cisma na filosofia iluminista, esta, nos seduziu com um sujeito auto-suficiente que pela via da razão iria redimir o mundo da era das trevas, até Freud nos mostrar que o homem não está no controle de si mesmo. As pulsões e as formas de subjetivação do sujeito transformaram o homem em um ser duvidoso.
O homem tornara-se problemático como sugerira o filósofo alemão Max Scheler, ou aprendeu a se compreender melhor ao explorar suas contradições como escreveu o romancista inglês E. M. Foster? O fato é que com o advento da psicanálise o homem, por um lado, deixou de ser senhor de si mesmo, por outro arranjou alguém para culpar por seus erros no lugar do diabo; o inconsciente. Os velhos confessionários, espaço para o homem metafísico falar de suas concupiscências, deram lugar a atual indústria de confissão que são os milhares de consultórios psicológicos e psicanalíticos espalhados por todo o mundo moderno.
O princípio délfico (gnóthi seautón) conhece-te a ti mesmo, postulado por Sócrates como conselho a Alcebíades, sofreu diversas modificações ao longo da história até ser esquecido por completo na sociedade moderna ocidental (Foucault). A mediação tornou-se necessária, afinal como posso conhecer a mim mesmo sem a referência do outro? As relações entre os indivíduos nas sociedades modernas tornaram-se mediadas por um especialista da psykhé humana, o psicoterapeuta.
O kabuki, palavra oriunda da cultura artística japonesa que representa a arte de: “kA – cantar” “Bu – dançar” e “ki – representar”. A arte em forma de teatro foi irreverente e por vezes coibida pela tradição japonesa, por tratar de desmascarar o cotidiano social de uma sociedade que sempre procurou ocultar seus dramas com máscaras felizes e histórias de valentes guerreiros samurais.
Somos seres complexos, ainda inacabados, nos revestimos por uma sucessão de “máscaras”, ou, se alguém ficar ofendido com o termo podemos encontrar um mais sofisticado; “papéis sociais distintos”, isto é, o indivíduo que meus companheiros de trabalho conhecem, não é o mesmo com quem meus filhos convivem, muito menos se trata da mesma pessoa que meus pais viram crescer, no entanto, nenhum destes sou eu, ao mesmo tempo sou todos. Neste sentido, os diários de prostitutas são verdadeiros compêndios de psicologia, neles podemos encontrar revelações que os sujeitos jamais fariam em outro ambiente social, tais revelações certamente seriam levadas para o túmulo sem que a pessoa mais íntima pudesse conhecer as obscuridades do outro.
Por que ocultamos nossos pensamentos mais infames? Porque a sociedade criou um modelo de moral, normatizou os comportamentos socialmente aceitáveis e inaceitáveis, marginalizando todos aqueles que por alguma razão não quiserem viver segundo as normas. Assim os homossexuais, os hermafroditas, os sodomitas, as prostitutas, os loucos, os ignorantes e outros excluídos desta sociedade “perfeita” vivem a espreita, a deriva. Os “normais”, quando acometidos por um pensamento que represente algum comportamento atribuído a um destes excluídos, rapidamente tratam de se auto-repreender, como se o que sentissem fosse repugnante e inaceitável. Depois ao perceber que este pensamento ou prática não os abandonou, procuram ao menos escondê-lo dos outros, afinal nossas fontes de prazer precisam ser preservadas!
domingo, agosto 10, 2008
Segredos
Acredito não ser segredo para ninguém que todos temos os nossos segredinhos. Alguns os chamam de “sótão” (fica acima; deve ser bons segredos!). Outros os chamam de “porão” (fica no subsolo; deve ser segredos cavernosos!). Há ainda quem os chamem de “caixa preta”, “caixa de pandora”, de qualquer forma, todas essas definições indicam a obscuridade ou a singularidade de um segredo.
No feriado de sete de setembro, participei de um congresso internacional sobre álcool e drogas no Hotel Glória, este hotel é espetacular, mas não tenho muito que dizer aqui sobre o congresso. Sobre minha estadia na casa de minha irmã e cunhado, Janete e Josué, aí sim há o que revelar.
Para início de conversa descobri que todos nós temos nossos transtornos psíquicos. Meu cunhado, por exemplo, sofre de transtorno assimétrico-obsessivo + síndrome de ansiedade-depressiva-bipolar: CID. 10 FS.41,45,46. Já a “Batatinha” (apelido de muito tempo da minha irmã, mas é segredo!), sofre de transtorno de esquecimento-generalizado, seguido de síndrome da ambição-capitalista/social; CID.12. F$ 20,30,40. Eu, bem, sofro de transtorno assimétrico-moderado e de esquecimento-detalhado, além da bibliofilia (parece grave?); CID.22 F13,15,20.
Após este relatório biopsicosocial, voltemos ao segredo. Devemos pensar que é durante o desenvolvimento da criança que essa história dos segredos começam e tudo indica que os grandes culpados são os adultos. Porque as crianças escondem seus segredinhos? Se uma criança mete o dedinho no nariz e leva um tapa na mão e uma bronca sempre que faz tal gesto, com o passar do tempo ela deixa de fazer. Que pedagogia podemos supor que foi apreendida? Ela certamente agora mete o dedo no nariz longe da presença dos adultos. É assim que aprendemos a guardar nossos segredos, eu mesmo já levei alguns tapinhas na mão, mas vamos mudar de assunto!
Existem pessoas que afirmam ser um “livro aberto”, os políticos gostam de se apropriar desse discurso, até que tomamos conhecimento de contas em paraísos fiscais, empresas fantasmas, amantes cujas despesas são pagas por terceiros, etc. O fato é que não existem pessoas do tipo “livro aberto”, por mais espontânea que alguém possa ser, todos guardam seus segredos.
A prática da “confissão” instituída pela Igreja na Idade Média teve por objetivo saber como as pessoas eram de fato, isto é, o que as pessoas escondiam do Santo Padre. A confissão estabeleceu um poder da Igreja sobre seus fiéis, ela poderia em nome de Deus, saber de tudo (ou quase tudo) que se passava. A Igreja, esta sim têm muitos segredos que ainda estão por ser revelados, embora fiquemos bestificados com uma pequena parcela daquilo que já foi “desenterrado” pela história.
Voltemos à política, alguém poderia revelar o segredo dos políticos. Creio que é a única classe social onde 90% dos que a pertencem, ficam ricos! Qual será o segredo deles? Político pobre ou é burro ou honesto!
histosofia@gmail.com
No feriado de sete de setembro, participei de um congresso internacional sobre álcool e drogas no Hotel Glória, este hotel é espetacular, mas não tenho muito que dizer aqui sobre o congresso. Sobre minha estadia na casa de minha irmã e cunhado, Janete e Josué, aí sim há o que revelar.
Para início de conversa descobri que todos nós temos nossos transtornos psíquicos. Meu cunhado, por exemplo, sofre de transtorno assimétrico-obsessivo + síndrome de ansiedade-depressiva-bipolar: CID. 10 FS.41,45,46. Já a “Batatinha” (apelido de muito tempo da minha irmã, mas é segredo!), sofre de transtorno de esquecimento-generalizado, seguido de síndrome da ambição-capitalista/social; CID.12. F$ 20,30,40. Eu, bem, sofro de transtorno assimétrico-moderado e de esquecimento-detalhado, além da bibliofilia (parece grave?); CID.22 F13,15,20.
Após este relatório biopsicosocial, voltemos ao segredo. Devemos pensar que é durante o desenvolvimento da criança que essa história dos segredos começam e tudo indica que os grandes culpados são os adultos. Porque as crianças escondem seus segredinhos? Se uma criança mete o dedinho no nariz e leva um tapa na mão e uma bronca sempre que faz tal gesto, com o passar do tempo ela deixa de fazer. Que pedagogia podemos supor que foi apreendida? Ela certamente agora mete o dedo no nariz longe da presença dos adultos. É assim que aprendemos a guardar nossos segredos, eu mesmo já levei alguns tapinhas na mão, mas vamos mudar de assunto!
Existem pessoas que afirmam ser um “livro aberto”, os políticos gostam de se apropriar desse discurso, até que tomamos conhecimento de contas em paraísos fiscais, empresas fantasmas, amantes cujas despesas são pagas por terceiros, etc. O fato é que não existem pessoas do tipo “livro aberto”, por mais espontânea que alguém possa ser, todos guardam seus segredos.
A prática da “confissão” instituída pela Igreja na Idade Média teve por objetivo saber como as pessoas eram de fato, isto é, o que as pessoas escondiam do Santo Padre. A confissão estabeleceu um poder da Igreja sobre seus fiéis, ela poderia em nome de Deus, saber de tudo (ou quase tudo) que se passava. A Igreja, esta sim têm muitos segredos que ainda estão por ser revelados, embora fiquemos bestificados com uma pequena parcela daquilo que já foi “desenterrado” pela história.
Voltemos à política, alguém poderia revelar o segredo dos políticos. Creio que é a única classe social onde 90% dos que a pertencem, ficam ricos! Qual será o segredo deles? Político pobre ou é burro ou honesto!
histosofia@gmail.com
quinta-feira, julho 24, 2008
Tempo de Recomeçar
Tempo de Recomeçar
As nossas vidas são marcadas de começos e recomeços. Como escreveu certo filósofo francês, ela (a vida) é uma sucessão de continuidades, descontinuidades e rupturas.
O recomeço, no entanto não é tarefa fácil, pois no primeiro momento implica em admitir começar do zero novamente, ou seja, reconhecer que a caminhada trilhada até o momento presente deverá ser interrompida. Este ‘admitir’ não é simples como pronunciar simplesmente uma palavra. É uma cisão, um novo começo.
Em alguns casos a decisão mais acertada a fazer é exatamente recomeçar, embora alguns caminhos não são possíveis percorrer duas vezes. Isto, se considerarmos a tese de Talles de Mileto, que diz não ser possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. O mais provável é que ao recomeçar algo, estaremos iniciando uma nova ação, não a mesma ação do passado, mas outra ação.
O passado por sua vez tem o hábito de nos empurrar a repetir os erros, a isto, chamamos princípio da insanidade, ou seja, repetir o mesmo comportamento, esperando resultados diferentes. Por isso mudar é tão difícil, daí o fato de muitas pessoas desistirem de seus objetivos, pois, alcançar certos alvos, implica mudar comportamentos, mas quem tem disciplina suficiente para efetuar uma mudança?
A mudança, porém, é um processo, significa dizer que não é um movimento repentino, brutal ou automático. Toda mudança implica uma conscientização, um ponderamento, toda mudança implica em transformar a própria realidade.
Como escreveu Rubem Alves, mudar é reformar a casa com agente dentro dela, tudo fica fora do lugar, o transtorno gerado com a poeira, o cheiro de tinta, as batidas de martelo, nos conduzem a recuar e permanecer com a comodidade do óbvio. Alves nos adverte com um porém àquele que ousar mudar; “aos poucos o que era transtorno vai ganhando contorno de lar, e o que se vê causa alívio e admiração”.
As nossas vidas são marcadas de começos e recomeços. Como escreveu certo filósofo francês, ela (a vida) é uma sucessão de continuidades, descontinuidades e rupturas.
O recomeço, no entanto não é tarefa fácil, pois no primeiro momento implica em admitir começar do zero novamente, ou seja, reconhecer que a caminhada trilhada até o momento presente deverá ser interrompida. Este ‘admitir’ não é simples como pronunciar simplesmente uma palavra. É uma cisão, um novo começo.
Em alguns casos a decisão mais acertada a fazer é exatamente recomeçar, embora alguns caminhos não são possíveis percorrer duas vezes. Isto, se considerarmos a tese de Talles de Mileto, que diz não ser possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. O mais provável é que ao recomeçar algo, estaremos iniciando uma nova ação, não a mesma ação do passado, mas outra ação.
O passado por sua vez tem o hábito de nos empurrar a repetir os erros, a isto, chamamos princípio da insanidade, ou seja, repetir o mesmo comportamento, esperando resultados diferentes. Por isso mudar é tão difícil, daí o fato de muitas pessoas desistirem de seus objetivos, pois, alcançar certos alvos, implica mudar comportamentos, mas quem tem disciplina suficiente para efetuar uma mudança?
A mudança, porém, é um processo, significa dizer que não é um movimento repentino, brutal ou automático. Toda mudança implica uma conscientização, um ponderamento, toda mudança implica em transformar a própria realidade.
Como escreveu Rubem Alves, mudar é reformar a casa com agente dentro dela, tudo fica fora do lugar, o transtorno gerado com a poeira, o cheiro de tinta, as batidas de martelo, nos conduzem a recuar e permanecer com a comodidade do óbvio. Alves nos adverte com um porém àquele que ousar mudar; “aos poucos o que era transtorno vai ganhando contorno de lar, e o que se vê causa alívio e admiração”.
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