quinta-feira, julho 06, 2023

SOBRE JANELAS E PORÕES

 “Aprender  uma  língua  é,  então,  inserir-se  em  um  mundo.  Quando  morre  esta  língua, fecha-se uma janela, uma possibilidade de mundo” (Johann & Fensterseifer)¹


Há mais ou menos um mês, acompanhei uma conversa interessante sobre “Parasita” (2019), filme dirigido por Bong Joo-ho. Era uma discussão (online)  de viés psicanalítico de um grupo de estudos que minha companheira Ercília (a quem chamo de marida²) faz parte, e eu usufruí da conversa como um ouvinte oculto. Por se tratar de um grupo de estudantes de psicanálise, a conversa girou em torno dos aspectos mais simbólicos do filme. Eu, que já tinha assistido ao filme em 2019, assisti novamente ao lado da minha marida, que o via pela primeira vez. É interessante quando vemos um filme, direcionados por uma linha de discussão, podemos dizer, quando somos sugestionados. 

Fiz novas reflexões sobre como a obra trata o abismo sócio-cultural que promove a “distinção” (Bourdieu), entre determinados grupos (ou classes) sociais. Um abismo que é construído justamente para este fim: distinguir seres humanos de outros seres humanos. Os bairros de luxo com suas mansões, suas avenidas impecáveis e largas, muito verde, os supersedãs pretos conduzidos por motoristas uniformizados, desfilando pelo asfalto sem buracos, muita iluminação e câmeras. O pouco de transporte público que por ali circula, o faz para trazer e levar os(as) serviçais que irão: limpar, lavar, passar, arrumar, cozinhar e levar os cãezinhos (que valem um ano de seus salários) para passear. 

Esses ambientes fantásticos (de fantasia mesmo), porém concretos, permitem que seus habitantes vivam em uma espécie de paraíso na terra, também os tornam completamente alienados do resto da cidade em que vivem e propiciam uma visão absolutamente deturpada da vida social nos bairros comuns, em especial das áreas mais pobres como as periferias, favelas, vielas, becos e morros. Esse abismo é magnificamente retratado em “Parasita”, os dois mundos são estranhos um ao outro, separados por uma “escadaria” (outro comentário que ouvi no encontro) quase sem fim, em que o pobre para se dirigir ao bairro dos ricos precisa subir, subir, subir… e, para retornar a sua casa necessita descer, descer, descer… a distância entre esses dois mundos, medida pela altura, deixa claro quem está em cima e quem está embaixo na escala social. 

René Magrite - A condição Humana, 1933

Ao longo da discussão, foi a alusão às “janelas de Parasita”, observação de uma colega do grupo de quem eu só ouvi a voz, que mais me chamou a atenção. Fiquei semanas pensando nessa imagem. Quem já assistiu ao filme, não tem como não se lembrar da imensa janela na sala dos Park (família dos ricos), que dava para um gramado impecavelmente verde com dezenas de árvores devidamente podadas ao fundo. Em contraste, a pequena janela do porão dos Kim (família pobre), situada no fim de um beco, só se podia ver os beberrões da rua se aproximarem para ali urinar. Enquanto os Park contemplavam através de sua imensa janela a chuva torrencial que caía sobre seu gramado esplêndido, pela janela dos Kim, a água barrenta da chuva, entrava, inundando toda a casa. 

As janelas já foram objeto de representações simbólicas em romances, filmes ou mesmo como elemento de reflexão filosófica.³ Quando pensamos em janela como metáfora a frase mais popular é: “os olhos são a janela da alma”. Uma busca rápida na internet, esta afirmativa é atribuída a Leonardo da Vinci, mas também a Edgar Allan Poe ou mesmo ao imperador romano Cícero.4 A fonte da frase não importa aqui, o que nos interessa é se a metáfora dos “olhos como janela da alma”, pode ser aplicada em “Parasita”. 

Primeiramente, creio que devemos refletir sobre o significado da expressão, “os olhos como janela da alma”, a meu ver, tal expressão pode ser pensada a partir de dois sentidos:

Primeiro, esses olhos não são olhos que miram o exterior, mas que revelam o interior não expressado pela língua. Assim, os olhos revelam o que está dentro, aquilo que a fala oculta, omite ou mesmo falseia, os olhos seriam uma janela através da qual se pode ver a verdade que procuramos esconder com a boca ou com o silêncio. Essa interpretação, no entanto,  nos leva a outra questão: que a alma que se revela através dos olhos de alguém, só se revela ao ser confrontada com outro olhar. 

Segundo, o modo como direcionamos nosso olhar, aquilo que, com nossos olhos dedicamos tempo e qualidade, é esse olhar dedicado que revelaria nossa alma. Ao escolhermos olhar para um lado em vez de outro, revelamos nossas sensibilidades, nosso interior.

Uma vez esclarecidas as duas possibilidades de pensar esta metáfora (pode haver outras), creio que podemos agora buscar saber qual desses dois sentidos nos é mais apropriado para pensar as janelas de “Parasita”? Acredito que ambos. No primeiro sentido, não são poucos os exemplos, olhares que revelam angústia, nojo, desejos, medo, preconceitos, raiva… não pronunciados(as) pela língua. Não me dedicarei aqui a discutir esse sentido, isto porque é o segundo sentido que mais me interessa pensar. Por qual razão? Porque as janelas de “Parasita”, o modo como elas aparecem nas cenas do filme, são sempre do interior para o exterior, isto é, sempre que olhamos através das janelas de “Parasita”, o fazemos do lado de dentro. 

A partir daqui, nossa metáfora da janela poderá se associar a outras metáforas ou alegorias. Se estamos tratando desse olhar que está dentro, a observar o mundo por uma janela, devemos pensar esta janela como uma possibilidade, mas também como uma perspectiva, ou seja, se por um lado a janela é uma “abertura” (que nos permite ter contato com o mundo exterior), por outro, ela também é “limite” (pois olhamos apenas o que o enquadramento da janela nos permite ver). 

Aqui, talvez, possamos conectar a janela como metáfora com a alegoria da caverna de Platão, a janela assim viraria a parede da caverna, onde se vê aquilo que é projetado pela luz da fogueira que está atrás. As imagens que vislumbramos pelos sentidos, tomadas como realidade, não passam de réplicas imperfeitas do real, como nos alertou Platão. Mas creio que para fazermos essa comparação com um pouco mais de fidelidade a metáfora das “janelas de Parasita”, precisaremos alterar um pouco a alegoria de Platão, uma vez que nesta, as pessoas se amontoam diante de uma mesma parede, de uma única caverna e compartilham as mesmas impressões sobre o real. Não seria o caso de pensarmos em outras cavernas com outras pessoas, com outras paredes e com impressões distintas do real? O que me leva a pensar que, em algumas situações, se pode moldar a paisagem exterior conforme a idealizamos, mas que as idealizações são heterogêneas. 

Se pela janela dos Park se pode ver um gramado absolutamente verde, árvores em harmonia, tudo simetricamente perfeito, é porque havia antes, uma ideia de perfeição paisagística combinada a uma ideia de arquitetura igualmente magnífica, que puderam ser concretizadas. Desta forma pode-se moldar o real ao nosso ideal? Pode-se, desde que haja condições sociais e econômicas para tal. Porque, no caso dos Kim, fica difícil imaginar que alguém idealizou aquela paisagem. Quem idealizaria um real como aquele? Quem, havendo liberdade de escolha, decide morar nos porões de um beco fétido? E se os homens da alegoria de Platão não tivessem alternativas se não, a de tomar como real aquelas imagens projetadas na parede da caverna? Ou, ainda, e se as imagens tomadas como real em nossas janelas não fossem aquelas que nós idealizamos, mas que nos foram impostas?

Se em Platão, as imagens projetadas na parede da caverna são imposições da percepção enganosa e, portanto, a razão é o único caminho para chegarmos a uma verdade última, isto é, deixar a caverna e enxergamos o real como ele é. Em “Parasita”, temos duas janelas que projetam realidades incomensuráveis. Hoje sabemos que não existe uma realidade última e originária, sabemos também que as duas realidades retratadas em “Parasita” são construções sociais. Mas se são construções sociais, as imagens que são projetadas por meio de nossas janelas podem incidir sobre quem nós somos? Reformulando, somos de alguma forma definidos a partir da paisagem que se apresenta a nós pelas aberturas que dispomos?

Sei que estou me estendendo, talvez, um pouco repetitivo, mas antes de responder às questões acima, preciso voltar um pouco, porque há mais uma questão fundamental que devemos refletir antes, refiro-me sobre os olhos serem “as janelas da alma”. Quanto às janelas como metáfora creio que já exploramos essa questão de modo satisfatório, mas o que devemos pensar sobre a “alma”? Creio que devo esclarecer aqui que não sou um essencialista, portanto, interpreto essa categoria “alma”, como nossas subjetividades. Caso contrário, quem vier a ler essas reflexões, um pouco prolixas eu sei, poderá pensar que eu creio em algum tipo de sujeito universal, cuja essência humana perdura continuamente no tempo e espaço. Dito isto, por “alma”, entendo aquilo que nos individualiza, este indivíduo (indivisível, uno), só pode se constituir com tal por meio das interações, isto é, só existe subjetividade pela intersubjetividade. Neste sentido, o conhecimento não é propriedade de uma consciência individual, mas processo intersubjetivo mediado pela linguagem (Johann & Fensterseifer). É por isso que Gianni Vattimo (2003) escreveu que não existe realidade objetiva em parte alguma; “não há ninguém que veja a verdade sem ser com os olhos, e os olhos são sempre de alguém. Se quero arrancar os olhos para ver as coisas como realmente são, não vejo mais nada.” 

Voltando às questões que deixei em suspenso, se somos definidos pela paisagem que se apresenta a nós como realidade? Penso que não. Mas se ela (a paisagem) não nos molda, tem condições de produzir habitus (novamente Bourdieu), isto é, estruturas estruturadas socialmente e por isso, estruturantes. A própria paisagem é parte da estrutura estruturada, ela é elemento intersubjetivo entre a sociedade e o indivíduo, nela, estão fundidas às condições objetivas e subjetivas. 

Se você chegou até aqui, sinto se irá se decepcionar, se Nietzsche não pretendeu erigir novos ídolos, imagine se eu ousaria a tanto, por isso não trago aqui qualquer revelação nova, desde o início destas linhas deixei claro que pretendo apenas refletir sobre essa noção de “janela da alma” a partir de “Parasita”. Nem por isso vou deixar aqui de dar um passo adiante, no sentido de chegar a algum lugar com essa reflexão. Um lugar que enxerguei com “meus olhos”, um lugar que enxerguei hoje, mas que amanhã poderei ver de outra forma. Em “Parasita”, vemos duas janelas que projetam realidades antagônicas, uma mostra uma realidade harmoniosa e ordenada, a outra mostra uma realidade caótica e hostil. Pela janela dos Park, a realidade de pessoas como os Kim é fruto da falta de vontade de mudar a própria realidade, falta-lhes mais esforço, mais mérito, falta propósito. Por isso, ao contemplar seu paraíso particular por meio de sua imensa janela, o Sr. Park, se sente orgulhoso, pois fez por merecer. 

É esta a realidade produzida pelas classes dominantes, a de que as desigualdades brutais são resultados do esforço, do empreendedorismo, isto é, do desempenho individual de alguns, e claro, da ausência destes elementos em outros. Projetam-se imagens por todos os veículos de mídia e comunicação reforçando esta paisagem: do trabalho e do esforço como caminho para uma realidade melhor. Esta, é a janela da “alma do capitalismo”. 

Jônatas Carvalho.

Notas: 

¹ Johann, M. R., & Fensterseifer, P. E. (2020). LINGUAGEM E CONHECIMENTO: “JANELA” COMO METÁFORA DA CONDIÇÃO HUMANA. Revista Ilustração, 1(2), 69–78.  https://doi.org/10.46550/ilustracao.v1i2.19 

² Por que Marido e Mulher? Por que não Marido e Marida? Acompanhem o link e descubram o que o roteirista Yann Rodrigues tem a dizer sobre isso:  https://alemdoroteiro.com/2015/08/30/marido-e-mulher/#:~:text=Para%20come%C3%A7ar%2C%20%E2%80%9Cmarido%E2%80%9D%20vem,%2C%20especificamente%2C%20o%20homem%20casado.  

³ Já que estamos no campo do cinema, vou citar aqui dois filmes em que a janela é tomada como metáfora: Janela Indiscreta (Alfred Hitchcock - 1954) e Janela Secreta (David Koepp - 2004). 

4 De acordo com Marco Azamorra em “Meu olho, minha alma” a frase correta é “os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo” e foi escrita por Leonardo da Vinci. 



sexta-feira, março 10, 2023

A PSICANÁLISE EM ANÁLISE.

— Quer dizer que a senhora nasceu em meio aos círculos vienenses de classes abastadas, circulou pelas camadas sociais elevadas da Europa, na Suíça, por exemplo, e tornou-se queridinha das elites francesas? A senhora já emprestou seus ouvidos a um pobre?

— Para sua informação, eu não nasci em meios abastados como acreditas, meu mentor, era filho de um comerciante modesto na Morávia. O rapaz teve uma vida muito difícil, apenas na maturidade conseguiu algum conforto.

— Mas seus outros dois mentores, eram oriundos de classes elevadas, não?

— Se refere a Jung e Lacan?

— Sim.

— Eram. Mas acho que tal associação não é relevante. Quantos saberes nasceram em meio às classes dominantes? O que dizer da medicina? Da própria filosofia grega, restrita apenas aos cidadãos atenienses, por exemplo.

— Claro, mas a medicina se popularizou, assim como a filosofia. Mas me parece que a senhora ainda se encontra distante das classes menos favorecidas.

— Mas você julga que este é um problema meu? Não seria uma condição imposta por outros discursos? Não esqueçamos que estamos lidando com relações de saber-poder em que eu sou colocada numa condição de inferioridade, de não ciência, por vezes, até de impostora.

— Não seria o caso então de se fazer ser ouvida? Comprovar sua condição científica e seu valor no mundo?

— Caminhei bastante, já dei alguns passos importantes, mas não se alcança tal condição apenas pelo caminho do debate científico-metodológico, outra vez mais repito, estamos diante de relações de saber-poder, logo, trata-se também de política.

— Mas seus acusadores são pontuais quanto às suas desqualificações.

— Ah sim, eu os conheço bem, assim como suas acusações. Alguns da psicologia alegam que estou ultrapassada, não sou apropriada para lidar com o mundo moderno, mundo este em que se exige soluções mais rápidas para tudo. Outros dizem que sou pretensiosa ao estabelecer categorias que seriam universalizantes, que desconsidero as sociabilidades múltiplas e a diversidade cultural.


— Mas não há verdade nessas acusações?

— Evidente que não. Saberes e conhecimentos são vivos, se transformam com a nas sociedades. Afirmar que sou ultrapassada, ou inapta porque o mundo mudou, é ignorar que os psicanalistas de hoje não são os mesmos do passado, eles ou elas são deste tempo. Você vai ao médico achando que vai encontrar um Hipócrates? Vai a um advogado esperando encontrar um código de Hamurabi? Por que achas então que vais deparar com o Freud no consultório de um ou uma psicanalista? Eu tenho um passado, ele me orienta, mas não me determina, estou por décadas em constante relação com todas as mudanças e transformações sociais. Meus diálogos com a antropologia, sociologia, pedagogia, psiquiatria e muitos outros campos de saber são profícuos, quanto a psicologia, há milhares de profissionais da área que me abraçaram.

— O que dizer aos que alegam, como certos setores da neurologia, que a senhora é insuficiente? Em especial em casos de esquizofrenia, comprovadamente uma doença de caráter neurológico.

— Eu gostaria de saber quem é suficiente? Eu nunca me iludi com a suficiência meu filho. Desconheço um saber que se pretende suficiente, se há algum, não é saber. Já se foi o tempo em que as sociedades foram analisadas por meio de métodos retirados das ciências naturais. Sabemos há muito tempo das complexidades humanas e sociais, eu, certamente, não ignoro isso. Tenho um papel na sociedade, um importante, mas nunca absoluto, nunca esgotado em mim, ao contrário.

— Bem, se me permite então voltar à segunda pergunta que fiz no início de nossa conversa, quanto aos pobres, a senhora não está muito restrita às camadas médias e altas? A senhora já se aproximou dos pobres?

— Ora, ora, realmente espero que sua pergunta seja apenas ignorância. Vejo que você nunca ouviu falar do Instituto Psicanalítico de Berlim. Criado em 1920, com alguns objetivos específicos, nossa preocupação primeira foi auxiliar os pobres rapazes que sobreviveram àquela guerra devastadora, mas voltaram com neuroses horríveis. Quando eu digo nós, me refiro, para além do meu primeiro mentor, outros grandes colaboradores, como Max Eitingon, Ernest Jones, Karl Abraham, Sàndor Ferenczi e Ernest Simmel. No relatório elaborado pelo Max, após dez anos de trabalho, Freud, escreveu um prefácio que irá, creio eu, responder sua questão, lerei uma parte:

As páginas que seguem descrevem a organização e as realizações do Instituto Psicanalítico de Berlim, ao qual cabem três funções importantes no interior do movimento psicanalítico: tornar acessível nossa terapia à massa de seres humanos que não sofrem menos de suas neuroses que os ricos, mas que não estão em condições de pagar pelo seu tratamento. (Freud, 1930).

O instituto foi um projeto da Associação Internacional de Psicanálise, no fundo, um grande sonho meu, que, com a solidariedade de meus colaboradores, conseguimos realizar. Se me permite, quero trazer aqui um testemunho do que ocorreu naquele lugar.

— Claro, por favor, a vontade.

— Lerei um depoimento de Simmel:

Era um empreendimento ousado, em tempos de colapso econômico, um instituto que devia tentar tornar o tratamento psicanalítico acessível àqueles mesmos que viam sua neurose ser reforçada por causa da miséria econômica ou que eram ainda mais expostos, suscetíveis ao empobrecimento material por causa de suas inibições neuróticas. Dada a extensão da catástrofe social do período pós-guerra, a capacidade do Instituto Psicanalítico de Berlim só poderia ser insignificante; no entanto, hoje, suas possibilidades de impacto, de incidência social, excedem amplamente o tratamento de um indivíduo. As 117 análises atualmente em curso são o centro, o eixo de uma penetração psicanalítica que se espalha de maneira contínua, precisamente na camada social desfavorecida. De fato, a psicanálise pode liberar o indivíduo de sua atitude irracional em relação à realidade, causada por seus complexos; ela o torna novamente capaz de atividades normais e tem, portanto, efeitos de saúde mental inclusive sobre aqueles que o rodeiam (Simmel, 1930).

— Creio que deixei claro, que as preocupações com os menos favorecidos, sempre estiveram presentes na minha história. Há muitos outros exemplos que eu poderia dar aqui, mas penso que esse é suficiente.

— Mas e hoje? A senhora pode dizer que é acessível aos mais pobres?

— Escute meu filho, Freud dizia que as "neuroses ameaçam a saúde pública não menos que a tuberculose." Imagino que você saiba o que a tuberculose já representou em termos de saúde pública? Pois bem, mas isso foi superado, ela não é mais uma ameaça, porém, as neuroses nunca deram trégua. Acreditas que temos mais ou menos neurose no mundo hoje do que no tempo de Freud?

— Creio que mais.

— Pois é. Hoje, já posso ser considerada uma senhora, mas uma característica que me marcou desde a juventude, é que sempre fui oposição ao discurso dominante da medicina em enxergar o paciente como um sujeito passivo, alienado sem quaisquer condições de referenciar a si mesmo. É contra esse discurso, ainda não totalmente superado, que eu sigo lutando. É provável que por isso sigo barrada na saúde pública por aqui no Brasil, o que não significa que eu esteja totalmente de fora, tenho contribuído por diversos caminhos, mas não há um cargo funcional no SUS para psicanalista, embora haja muitos psicanalistas concursados por outras funções e atuando em equipes multidisciplinares.

— A senhora tem esperança de que isso mude?

— Não sei se esperança é o termo mais adequado, como nos ensinou Spinoza, a esperança é um afeto que está sempre acompanhada do temor. Eu apenas lido com isso, desenvolvo minha própria ataraxia, sem que isso se torne uma acomodação, ao contrário. Procuro ocupar outros espaços que considero muito importantes, mais que isso, fundamentais. Há muito tempo contribuo para o debate sobre forjar subjetividades descolonizadas, seja no campo das questões raciais, das múltiplas orientações sexuais ou de gênero. Dedico-me à construção de um Eu autônomo, desalienado, reflexivo e capaz de deliberar sobre si. Meu objeto, nunca foi o sujeito (cartesiano ou transcendental), mas o indivíduo em seus processos de individuação.

Jonatas Carvalho.




Referências:

NUNES, Macla. A Policlínica de Berlim: utopia freudiana?. Trivium, Rio de Janeiro , v. 12, n. spe, p. 50-56, set. 2020 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912020000200007&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 07 mar. 2023.

FONSECA, Valéria Wanda da Silva. A psicanálise tem os meios paratratar os pobres?. Estud. psicanal., Belo Horizonte , n. 34, p. 133-142, dez. 2010 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372010000200020&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 07 mar. 2023.

Prefácio ao Relatório sobre a Policlínica Psicanalítica de Berlim (março de 1920 a junho de 1922), de Marx Eitingon. In: ______. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Introdução à Psicanálise e as Neuroses de guerra (1919) In: ______. Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Thamy Ayouch. A psicanálise : um projeto de autonomia ?. Cadernos Ser e Fazer, 2005, pp.55-70.

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segunda-feira, janeiro 16, 2023

O ACASO VAI ME SURPREENDER, ENQUANTO EU ESTIVER DISPONÍVEL.



Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Titãs - Epitáfio - 2001.

Epitáfio, composição de Sergio Affonso e Eric Silver, é uma dessas canções que são filosoficamente complexas pela sua simplicidade. O título da música é extraordinário; epitáfio, cuja etimologia significa "sobre o túmulo". Originalmente são dizeres escritos nas placas tumulares que de alguma forma sintetizam a existência de alguém que não está mais entre os vivos. Qual dizer ou frase dignificaria a sua existência nesta terra? Eu sei, é difícil, não sei se conseguirei definir uma para minha, sequer sei se terei uma placa. Seria possível resumir uma existência inteira em uma placa com poucas palavras? Uma ou duas frases são capazes de nos resumir? Ao priorizar algo mais significativo em nós, não estaríamos nos limitando? 

Parece que o sentido real da placa, tem a ver com o como queremos ser lembrados. Tá ai coisa que eu não faço a menor ideia, não penso nisto, não me importo como se lembrarão de mim, ou mesmo se serei lembrado. Me importa viver! Viver de modo que eu tenha menos arrependimentos pelo que deixei de fazer porque tive medo de tentar, do que ter dado com os "burros n'àgua" por me precipitar na vida. Desconheço arrependimento mais cruel do que "eu devia ter..." ou, "eu podia ter...", é sobre isto que se trata "Epitáfio", uma longa lista de como a vida poderia ter sido diferente, mas agora é tarde demais. 

A canção dos Titãs causou muitos incômodos aos que veem a vida como algo organizado transcendentalmente. Para alguns de nós há uma ordem pré-estabelecida, para outros há um ser superior que possui tudo sob seu controle, para esses o acaso não existe, não passa de uma ideia infundada que desconsidera algum tipo de plano cósmico. Outro ponto importante, o acaso não pode ser confundido com causalidade, não se trata de causa e efeito, trata-se  de possibilidades múltiplas e o modo como lidamos com essas multiplicidades ou não.  

Muitas vezes temos a nítida sensação que nossa vida passou por reviravoltas surpreendentes, eventos inesperados se colocam diante de nós. Como explicá-los? Eu já experimentei algumas vezes essas mudanças. A última, bem recentemente, se deu muito rapidamente. No início de setembro de 2022 eu me achei sem emprego e sem lugar pra morar, me propus recomeçar do zero. Aos cinquenta e três anos de idade uma situação assim pode parecer muito arriscada, é muito compreensível temer, a insegurança pode perfeitamente nos fazer recuar. 

No meu caso eu sequer pestanejei, me fui. Saí do Rio e vim pra São Paulo, sem muitos planos, queria passar uns meses, quem sabe até o final do ano relaxando um pouco e me dedicando a minha tese, abandonada, devido às jornadas pesadas de trabalho. Para minha surpresa, em algumas semanas eu já estava trabalhando e agora no início 2023, cá estou com duas escolas aqui em Sampa. Mas não para por aí, porque além da vida profissional, minha vida afetiva também sofreu uma reviravolta. Eu que buscava somente alguém para compartilhar umas bebidas e conversas em um sábado à noite, quem sabe, um sexo sem promessas duradouras. Mas o que ocorreu eu não previ, não estava no script, em pouquíssimo tempo me vi subitamente envolvido. Esse tipo de paixão que nos ocupa sem pedir licença, sem fazer grandes considerações, simplesmente nos invade. E se você, meu caro ou cara leitor(a), pensas que esse cinquentão aqui está tomado por um tipo de idiotice da adolescência tardia, eu respondo com Dostoiévski: "a vida não é para sempre, ela é uma correnteza."  O que não quer dizer que é queda d'água, mas se não desgarrarmos das pedras, não saberemos o que o rio nos revelará depois da curva. 

O acaso, neste sentido, não é aleatoriedade pura, pois dificilmente ele se manifestará se não tivermos criado as mínimas condições. Apenas em movimento podemos nos deparar com  o aleatório, somente quando nos dispomos, quando nos lançamos em direção ao fluxo das águas que saberemos o que a vida poderá nos apresentar. O acaso não apenas vai nos proteger se estivermos distraídos, ele irá nos surpreender. 

Jonatas Carvalho
Epitáfio - Morreu de Amor. 








sexta-feira, dezembro 30, 2022

A "ARTE" DA ESCUTA.

Uma das primeiras e mais primorosas obras sobre a audição foi escrita no início da era cristã, trata-se do Tratado da Escuta (Perì toû akoùein) de Plutarco de Queronéia que viveu entre 50 e 125 d.C. Plutarco é reconhecido como historiador e filósofo, suas obras estão dentre as mais importantes fontes sobre a cultura greco-romana. 

Mas por que haveria alguém a pensar sobre a questão da escuta há dois mil anos? Desde Sócrates o homem se torna de certa forma o ser a ser revelado. Claro, Plutarco escreveu muito sobre outras coisas, matemática, por exemplo. Escreveu também uma obra sobre Alexandre o Grande. Mas interessava a ele, assim como tantos outros discípulos de Platão e Aristóteles, desvendar o ser. 

Então ao tratar sobre os sentidos humanos, olfato, visão, tato, audição, nosso filósofo-historiador se dedica mais a este último. Mas por quê? Não seriam eles igualmente importantes? Haveria algum que se sobressairia sobre os outros? Para Plutarco a questão da escuta merece destaque, ele conclui: "Não se pode não ouvir o que ocorre ao redor de si." Significa dizer que se pode recusar olhar (fechamos os olhos), tocar algo, saborear, mas não se pode recusar ouvir. Por isso, ouvir é pathétikos, isto é, carrega uma passividade em si. Esta passividade, segundo Plutarco, pode ser perfeitamente percebida no corpo, quando este é surpreendido ou abalado pelo que se escuta. Mas o ouvir não é apenas pathétikos, é também  logikós, quer dizer, nenhum outro sentido pode apreender o lógos como o ouvir. Significa que a virtude ou as “sementes da virtude” só podem germinar em nós pela escuta. 

Não é por outra razão que as escolas pitagóricas infligiam o silêncio nos cinco primeiros anos aos iniciados. O silêncio aparece aqui como uma técnica (
tékhne - arte) da escuta, não uma arte no sentido estrito da palavra, pois é mais uma competência, uma habilidade, trata-se tão somente de apreender o lógos, escutar sem intervir, sem objetar, sem opinar, sem acrescentar, sem considerar, apenas escutar. Plutarco, por sinal, chega a conclusão que o tagarela sofre de uma anomalia curiosa: o ouvido do tagarela não se comunica com a alma, mas sim com a língua. 

O silêncio não é suficiente para uma escuta virtuosa, a passividade então dá as mãos a uma atitude, ou seja, uma postura ativa, a saber: a alma deve acolher sem perturbações a palavra (lógos) endereçada. O corpo deve reagir tranquilamente, o mais imóvel possível a fim de ponderar o que se ouviu. Quanto a esta imperturbabilidade da alma, tanto Sêneca como Epicteto deixaram muitos ensinamentos, este último, um escravo-filósofo, dissera: “quando quiseres ouvir um filósofo, não lhe perguntes: O que tens a dizer-me? Contenta-te em mostrar tua própria competência em ouvir.” 

Finalmente, essa “arte da escuta” que requer o silêncio, mas também um acolhimento sem perturbações da alma para apreender o lógos, necessita ainda de um autoexame. Plutarco usa como analogia um salão de cabeleireiro, pois nunca deixamos um salão sem ter lançado um olhar, mesmo que por vezes discreto, ao espelho para ver como ficamos. A escuta agora é também reflexiva, ela implica em verificar se o que ouvimos (aquela verdade), pode ou deve fazer sentido para si, se vai acrescentar a si, se devemos fazê-la nossa verdade. 

A relação palavra-escuta é absoluta, uma não pode ser separada da outra, é possível ouvir sons que não são palavras (a natureza por exemplo), mas esses sons só ganham “sentido” quando convertidos em signos (palavras), segundo alguns, este é nosso diferencial ante as demais espécies; ter constituído sentido para o que fazemos por meio de signos. 

A razão iluminista sequestrou a palavra (razão), transferindo o poder de dizer a verdade apenas ao homem branco ocidental e bem nascido, aos demais humanos, caberia apenas ouvir essa verdade que se pretendia única e universal. Freud surge nessa sociedade, em que por exemplo, o médico era o único detentor da verdade sobre a doença, caberia a ele observar e diagnosticar o paciente, sem sequer ouvi-lo. Ele subverte esta medicina niilista por uma proposta que implica duas ações: escutar as palavras do outro e produzir palavras que iriam ao encontro das demandas do outro. A psicanálise subverte a medicina ao considerar as singularidades humanas, o “paciente” passa a ser “ativo” no que tange a cura. 

Ao introduzir a noção de inconsciente a fala é deslocada para um lugar outro, não mais aquele da razão, mas um lugar em que a fala se expressa para além das palavras, o corpo se comunica, diz ou deixa de dizer, o que também é um dizer. Mas o que nos importa aqui, onde Freud dialoga com o que escrevi até aqui, é como ele propõe uma escuta treinada, ou um “método da escuta''. Segundo ele, o domínio técnico para uma boa escuta só pode ser alcançado com a experiência clínica, o que significa muito mais que clinicar, tem a ver com a “escuta de si”, isto é, uma análise pessoal, um autoanalisar-se. 

Sabemos o quanto os gregos foram importante para Freud, sabemos como os mitos gregos instrumentaram seus escritos. A tragédia grega exprimia as origens dos sentimentos humanos, dos nossos desejos mais sórdidos e de nossa vilania. A moral e a religião são o núcleo de todas as neuroses. Em 1933 ele escreveu: “A teoria dos instintos é, por assim dizer, nossa mitologia. Os instintos são entidades míticas, magníficos em sua imprecisão. Em nosso trabalho, não podemos desprezá-los,nem por um só momento, de vez que nunca estamos seguros de os estarmos vendo claramente”.  

Claramente o ouvir o outro é o princípio fundamental para se estabelecer laços e estreitamentos. Podemos saber de alguém observando suas atitudes, o modo como reagimos a vida revela muito sobre nós, mas só se conhece alguém, só é possível saber as necessidades do outro ouvindo-o. Isto exige de nós pelo menos duas qualidades básicas, a da alteridade, isto é, saber que o outro é diferente de você, logo, ele reage ao mundo de modo igualmente diferente, nem melhor, nem pior, apenas diferente. A outra é a empatia, ou seja, a capacidade de apreender do modo como o outro aprende, isto é mais que compreender, trata-se de se colocar no lugar mesmo do outro, sem senãos, sem pré-juízos, apenas estar lá “junto-com” e “sentir-com”. Em tempos em que somos mediatizados por milhões de imagens e palavras, quando muito se quer falar, mas não escutar, que possamos fazer um movimento de voltar a ouvir com mais qualidade. 


* A história de Plutarco e a sua obra sobre a escuta me apropriei da obra de Foucault " A Hermenêutica do Sujeito" 1981-1982.

 

terça-feira, dezembro 27, 2022

SAUDADE DE TI

Sinto saudade de ti como a lua sente do sol, 

com a cuia sente da bomba, 

como o colibri sente da flor, 

como a terra sente da chuva. 

Tenho saudade de ti, 

como as marés tem da areia da praia, 

como o palhaço tem da criança, 

como o orvalho tem da folha. 

A saudade de ti me consome, 

como o fogo faz com a madeira seca, 

como o mar ressacado faz com a costa, 

como as horas faz com o dia. 

A saudade de ti me dá esperança, 

como a paz nos tempos de guerra, 

como a justiça ao condenado, 

como flor a espera do sol para desabrochar,

como a vida que acabou de ser concebida. 

Sinto saudade do teu sorriro largo e generoso, 

da tua boca insaciável em beijar, 

dos teus olhos atentos, 

das tuas mãos fortes e meigas,

da tua barriga...

ai que saudade de ti. 

Jcarval. 

segunda-feira, dezembro 26, 2022

AS INFÂNCIAS ROUBADAS NO BRASIL: "MENINOS 23"

Hoje se celebra o natal nas sociedades ocidentais, eu poderia escrever muitas coisas sobre essa data, mas não seria nenhuma novidade, muito já se escreveu sobre como essa tradição foi construída, como a igreja romana se apropriou de certas celebrações politeístas e depois como uma empresa de refrigerantes “inventou” um velhinho presenteador, transformando a celebração em um grande festival de consumo.

Mas eu não quero me deter nisto, quero refletir sobre esse tema a partir do documentário “Menino 23: infâncias perdidas no Brasil”, dirigido por Belisário Franca, baseado na investigação histórica de Sidney Aguilar. Não vou evitar o famoso "spoiler", o documentário é de 2016 e de toda forma não dá para descrever com palavras seu conteúdo, quem quiser assistir eis o Link

Não vou fazer grandes elaborações, apesar de desejar, não me sinto preparado para tanto. Imagino que muita gente boa já tenha escrito sobre, sem contar a tese do próprio Sidney: Educação, Autoritarismo e Eugenia: Exploração do Trabalho e violência à infância no Brasil (1930-45) - USP -2011.

Por ter assistido esse documentário só agora, semana passada, tão perto das nossas festividades de final de ano, comecei a pensar no subtítulo do documentário “infâncias perdidas”, devo confessar que mesmo tendo sido profundamente impactado pelo roteiro e imagens, de ter achado perfeito em todos os sentidos, não consigo concordar com esse subtítulo, explicarei.

A história, mais um capítulo absurdo da nossa herança escravagista, revela como uma família poderosa de rica (os Rocha Miranda), “adotaram” junto a uma Santa Casa de Misericórdia, CINQUENTA MENINOS NEGROS para viver em uma fazenda com a promessa de que eles seriam educados, mas foram mesmo é escravizados por anos. A fazenda era um tipo de campo de concentração para negros, o gado nelore era marcado com o símbolo da suástica, os tijolos feitos na fazenda também traziam o mesmo símbolo. Com o Brasil entrando na Guerra (2ª Guerra), ao lado dos Aliados, a situação para os nazistas por aqui começou ficar apertada, os Rocha Miranda fecharam a fazenda e despejaram os meninos (agora adolescentes). Anos em um orfanato (porque ninguém queria adotar crianças negras), depois trabalhando como escravos, agora soltos no mundo sem saber o que fazer, para onde ir... outra abolição.

Mas essas infâncias não foram perdidas, foram roubadas. Roubadas pela elite branca, racista e eugenista, cujos herdeiros ainda gozam das grandes propriedades e patrimônios, enquanto vomitam moralidades meritocráticas.

Gabriel, 12 anos. Foto de João
Paulo Guimarães 
Fiquei pensando em quantos natais esses meninos passaram na condição de escravos, meninos que sequer nome tinham, eram numerados, por isso o 23 (seu nome de batismo era Aloízio Silva). Isso me faz pensar quantas crianças nestes Brasil ainda têm suas infâncias roubadas. Será que as crianças que se acham dormindo sob os viadutos urbanos não se enquadram nesses termos? O que significa ter uma infância perdida? Você nasce pobre e desde cedo tem que trabalhar na pequena porção de terra que sua família tem para subsistência….acho que pode ser uma possibilidade, mas não fecho questão. Você nasce em uma família abastada e esta família resolve fazer de você uma pop star, então você não tem tempo a perder, desde cedo tem dezenas de compromissos… outra possibilidade, mas sigo não fechando questão. Mas quando você vive nas ruas, catando coisas dos lixões, vendendo paçoca nos sinais ou água nas praias… sua infância foi sim roubada.

O modelo de sociedade que vivemos, onde nós somos responsáveis integrais pelos nossos sucessos e fracassos, a criança que vive na rua não é um problema nosso, ela é fruto do fracasso de quem a gerou, pouco importa se quem a gerou também teve sua infância roubada. O capitalismo teve como um de seus grandes tentáculos ideológicos a produção do individualismo. Não sendo responsabilidade nossa, essas crianças vagam pelas ruas das cidades como fantasmas, invisíveis, apenas são notadas quando representam alguma ameaça aos cidadãos e cidadãs de bem. Mas se elas não são nosso problema, são ao mesmo tempo exploradas por nós, porque quando compramos água de uma criança na praia, não estamos ajudando-a, estamos explorando-a. Há milhões de “meninos 23” ainda neste país, crianças invisibilizadas que estão tendo sua infância roubada sim, porque se nós enquanto sociedade seguimos ignorando suas condições, contribuímos para a exploração de suas infâncias quando não as tiramos de lá.




terça-feira, dezembro 13, 2022

A INTENSIDADE DO ENVELHECER.

Há muitas boas análises sobre o envelhecimento, possivelmente nenhuma delas devem ser tomadas como a "mais pura verdade", pois os humanos absorvem a velhice de modo muito diferente. Esses modos diferentes dependem ainda, de como as sociedades em diferentes épocas estabelecem o valor (moral) para a "velhice". Há sociedades em que a velhice é consagrada, os mais velhos (anciãos), são absolutamente respeitados, são ouvidos e considerados, nada é decidido sem que se escute o mais sábio. Por esses motivos, os mais velhos recebem cuidados especiais e são reverenciados. Em outras sociedades a velhice é tomada como algo senil, os mais velhos são excluídos das decisões, são retratos da debilidade e do atraso, não têm o que oferecer de novo. Nessas sociedades cuidar dos mais velhos é algo que se terceiriza, porque é uma fardo, não há tempo para se dedicar a velhice, aquele que cuidou e zelou por nós, é condenado a passar o resto de seus dias em um asilo, uma instituição que é um dos maiores símbolos de uma sociedade narcísica. Esse é o nosso caso, Gustav Klimt já denunciava como nossa sociedade tem vergonha da velhice, em sua obra "As três idades da mulher" (1905), quando a mulher velha tem seu rosto encoberto pelos cabelos. 

Por que escrevo sobre a velhice? Porque hoje estou mais perto dela do que já estive antes. Ao concluir 53 anos, sabemos que uma vez tendo ultrapassado o meio século, não há mais retorno, o caminho em direção a morte é cada vez mais certo. Mas isso há razão para se angustiar, carrego comigo a máxima epicurista sobre morrer, "se a morte é o fim das sensações, ela não pode ser fisicamente dolorosa, e, se é o fim da consciência, não pode causar dor emocional. Ou seja, não há nada a temer."

Quanto à velhice, me pego sempre pensando nela, em como desfrutar desse tempus fugit. Passei minha vida inteira sendo um profanador, dessacralizando tudo que se considera sagrado, desnaturalizando tudo que foi naturalizado, sempre resistindo aos dogmatismos, nunca me rendendo às imposições sociais. Portanto, não serei um velhinho adaptado aos padrões da velhice, farei com a minha velhice o que minha mente mandar e se meu coração não aguentar então paciência... não vejo sentido nesse culto a uma longevidade, quero intensidade, quero amor fati.

Quero viver plenamente a metanóia junguiana, um diálogo aberto entre todas minhas personas e minhas sombras. Como Rubem Alves, não penso na velhice como processo biológico, penso como acontecimento estético, que diferente da beleza das manhãs, envelhecer é crepúsculo. Cito um trecho:

No crepúsculo tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como um mar azul, imóvel. No crepúsculo as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, o amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente. Ao sentir a passagem do tempo nos apercebemos que é preciso viver o momento intensamente.

Intensidade não significa viver aloprando, trata-se da crítica de lobão sobre a Decadence avec elegance, mas não é sobre viver "10 anos a mil do que mil anos a dez". A intensidade não é oposição a extensão ou a duração, ela é vibração do ser no presente, é a potência própria de toda sensibilidade. É sobre se permitir encantar com o vento no rosto, com o efeito da luz sobre um tronco de árvore, com a melodia da chuva ou o ritmo dos sabiás. A intensidade pode ser experimentada nos detalhes da existência, desde o sorriso de uma criança, até no abanar de rabo de um cão ou no ronronar de um gato. Há intensidade no ato de compartilhar, ao dividir o almoço ou um lençol, ao trocar com outro poemas e músicas. E como escreveu Drummond "Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata."

Carpe Diem,
Jonatas Carvalho.