sábado, maio 18, 2019

A DESEDUCAÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO

Desinformado (ou mal intencionado) é quem disse que as manifestações de professores e estudantes das redes públicas e privadas só ocorreram para prejudicar Bolsonaro, os que alegam isso, dizem que governos passados inclusive os do PT também cortaram recursos da educação, mas não houveram reações. Inclusive, que não havia necessidade de paralisação, uma vez que o Ministro da Educação alega que se trata apenas de um contingenciamento de 3,5%. 

É preciso então começar com o que há de alguma verdade ai, sim, governos anteriores trataram de impor cortes na educação, e mesmo que os investimentos em educação tenham saído de 3% do PIB ao fim da Ditadura para próximo dos 7% atuais, os cortes seguem assombrando o setor. Mas é preciso dizer também, que os educadores e educandos nunca deixaram de protestar contra eles, para ficar apenas em dois casos que ocorreram no governo do PT, em 2012 professores fizeram vigília na praça dos Três Poderes, em Brasília, em defesa da educação pública do país. Tempos depois a luta era sobre a cota dos 10% do PIB e 50% do pré-sal para a educação e plano de carreira sólido para professores eram a pauta da época. Poderíamos ainda lembrar um muito maior; 2013.  

Mas uma coisa é certa, não me lembro de ter visto nada parecido no Brasil referente a mobilização de professores e estudantes como ocorreu no último dia 15. A ausência de reconhecimento ao protesto legítimo por parte do governo é um indicativo importante aqui. 

A Dimensão do protesto não tem necessariamente relação com o tamanho do corte anunciado (até porque não se sabe até agora ao certo, pois o governo muda a informação a cada hora), mas está relacionada com o desrespeito aos docentes e discentes desse país, com a total falta de consideração com o ensino público superior, com o jogo torpe dos discursos moralista/idealista para atacar a pesquisa acadêmica, com as ofensas a esta categoria que rala de sol a sol em ambiente precarizado. 

É claro que há projetos ruins nas Universidades Públicas, é obvio que há problemas de gestão, de corrupção, de lutas internas, mas esse é o dia a dia da comunidade acadêmica (aqui e no resto do mundo), você que não frequenta uma Universidade Pública, não vai ver na TV ou mesmo nas suas redes sociais, mas alunos e professores lutam constantemente contra todos esses fatores, são centenas de reuniões, assembleias, manifestações no interior da universidade, visando corrigir seus problemas. 

Mas o Brasil só chegou até aqui como potência econômica graças a Universidade Pública, o país tem pesquisa de ponta em várias áreas de conhecimento, astrofísica, biologia molecular, neurociência, virologia, geociências, agronomia, tantos, mas tantos, só o catálogo de laboratórios de pesquisa da UFRJ são de 376 páginas (confira aqui:http://posgraduacao.ufrj.br/public/suporte/pr2/publicacoes/2018/Catalogo04Jan18.pdf?1515091294), para você ter uma ideia, apenas o Instituto de Geociências possui mais de 60 laboratórios de pesquisas, aliás, você conhece os avanços do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) na cura do mal de Alzheimer publicado na revista Journal of Neuroscience? Sabia que apenas esta Universidade oferece 177 cursos e que ela possui quase 70 mil alunos? A UFF possui mais de 50 mil e a UERJ mais de 30 mil. A USP já ultrapassou a casa dos 100 mil. São daí que saem jovens que vão ganhar o mercado nacional nos mais diversos setores da economia. 

Exaltar nossa educação e os avanços científicos promovidos por brasileiros e brasileiras, não implica em não reconhecer seus problemas, sabemos o quanto distantes ainda estamos em muitas áreas, nas dificuldades da educação básica e na formação de professores, por exemplo, mas não é desmoralizando o todo que chegaremos a mudança necessária. Generalizações são equívocos, estratégia perigosa, tratar as universidades públicas com sansões sem os processos administrativos legais é agir por convicção ideológica. A Universidade Pública não é inimiga da educação de qualidade, ao contrário, é sua maior aliada hoje. 

Enquanto eu escrevo isso (tempo que ganhei graças a uma virose maldita), pude ver as declarações do ministro da educação (o segundo ministro em cinco meses) na câmara federal, um homem dotado de uma arrogância rancorosa e de um desprezo enorme pela Universidade Pública. Também vi a terceira nomeação para a presidência do INEP, órgão responsável pelo ENEM, três em cinco meses. 

Jonatas Carvalho





















quarta-feira, janeiro 23, 2019

O USO DOS CORPOS: A VIDA COMO OBRA DE ARTE


Surpreende-me que, em nossa sociedade, a arte tenha se transformado em algo que é relacionado aos objetos, não aos indivíduos e à vida, e igualmente que seja considerada um âmbito especialístico feito de peritos que se chamam artistas. Mas a vida de cada indivíduo. não poderia ser uma obra de arte? Por que uma lâmpada ou uma casa são objetos de arte, e nossa vida não? (Michel Foucault - 1983)



Tenho o hábito de comprar livros e colocar a data da aquisição, dessa forma consigo saber há quantos anos tal livro está comigo e há quanto tempo eu o li. Essa semana fui buscar na estante um livro do Foucault, “A Hermenêutica do Sujeito”, me deparei com a data de agosto de 2008, resolvi olhar outros livros do autor na estante, o mais antigo é de 2005 (Microfísica do Poder), são mais de dez anos lendo Foucault. Eu estava a procura de uma referência que achei em outro filósofo, Giorgio Agamben, na sua obra “O uso dos corpos”, foi nesta obra que me deparei com a ideia de “a vida como obra de arte” e a citação de Foucault que eu coloquei acima. Dez anos lendo Foucault e ainda sei tão pouco, como eu nunca me deparara com tal conceito? Me lembrei de uma aula (que possivelmente também tem mais de dez anos) com a professora e filósofa Vera Portocarreiro (UERJ), autora de uma vasta obra. Eu, que na ocasião já havia lido uns cinco livros de Foucault, fiz-lhe uma pergunta, do tipo pretensiosa, para demonstrar meu conhecimento, no que ela me respondeu:
– sou uma estudiosa de Foucault há vinte anos e hoje posso dizer que sei um pouco, conheço pessoas que o estudam há 30 anos e me dizem que há muito a saber. Minha arrogância pseudointelectual ficou ali no chão daquela sala.

Giorgio Agamben é um desses grandes estudiosos da obra de Foucault, mas é muito mais que isso. Autor de obras que relacionam a filosofia com a literatura e a poesia, mas, sobretudo, com a política, um dos conceitos fundamentais de Agamben é o de homo sacer, isto é, homem sagrado e posteriormente o de “Estado de Exceção”. Foi lendo “Profanações” (obra publicada em 2005, que só tomei conhecimento bem mais tarde), que passei a me interessar mais por Agamben, o modo como ele apresentou o conceito de profanar me capturou, o filósofo retira do direito romano, cuja função seria de oposição a “consagrar” (tornar sagrado), isto é, “saída das coisas do direito humano”, em contrapartida, “profanar” designa “restituir ao uso livre dos homens”. Foi ai que me descobri um profanador.

Em “O uso dos corpos”, Agamben dá continuidade ao conceito de homo sacer, uma grande questão é saber o que é vida? O que é viver? Como tal conceito emergiu na sociedade Ocidental? Como um filólogo, um genealogista, Agamben percebe que em Aristóteles há duas formas distintas de descrever vida: Zoè e Bios. No primeiro caso, vida é sinônimo de seres viventes, o que inclui todos os seres, no segundo caso, trata-se de uma particularidade que nos diferencia enquanto espécies; o animal político.

Agamben procura assim estabelecer uma ética da existência, o que significa dar sentido a vida. Ao ler Foucault, encontra o debate sobre o conceito de “sujeito”, mão não mais aquele sujeito cartesiano do cogito ergo sum, onde o sujeito é dado a priori, o sujeito em Foucault se constitui na relação com si e com o mundo, trata-se de “constituir-a-si”.

Imagine que você é um escultor, que está diante de um bloco enorme de mármore, você não tem muita noção de quanto tempo levará para esculpir, talvez até tenha uma ideia prévia do que vai fazer com seus formões na rocha, mas conforme vai entalhando, vai percebendo nuances, que levarão a outras direções, que modificarão o projeto original. Possivelmente o tempo, as intempéries, os diálogos com terceiros e tantas outras coisas poderão gerar novas percepções sobre sua obra. O ser que iniciou aquele trabalho, que tinha uma noção de como realizá-lo, agora não é mais o mesmo, é outro, talvez tenha sobrado apenas um pequeno fragmento, uma lembrança daquele indivíduo que deu o primeiro entalhe.

Seríamos todos escultores de nossa própria obra? A resposta é, geralmente não. Aqui é importante dizer que há nos grupos sociais uma série de relações de poder (Estado, Igreja, Família, organizações civis….), que funcionam como dispositivos de sujeição, cuja função é nos conduzir em cada entalhe. Esse assujeitamento, retira de nós a liberdade de contituir-a-si, estabelece parâmetros sobre o que é a vida e padrões de como nossos corpos devem ser utilizados. A vida como obra de arte é possível, para tanto, faz-se necessário compreender o funcionamento das coisas, neste caso, os gregos antigos, a filosofia, pode muito contribuir. Não, falo de coisas do tipo “10 hábitos que vão mudar sua vida”, estes tipos de autoajuda são mecanismos de sujeição. Filosofia de verdade não te dá fórmulas prontas, acabadas, porque nenhum ser humano é igual ao outro. O uso dos corpos como obra de arte é, portanto, descobrir-se-a-si, encontrar-se com sua singularidade, tornar-se livre-em-si, sem muletas metafísicas.

A vida como obra de arte é como olhar para uma tela em branco e não ter certeza alguma de como ficará ao final, mas saber que você desfrutará de cada traço, ponto ou borras ali colocados, escolherá livremente sua palheta de cores e variará entre pincéis e espátulas ao seu bel prazer. A vida como obra de arte é aquela onde se tem o máximo de consciência de escolhas e satisfação no viver, sem preocupar-se demasiadamente com o que outros pensarão. Sem se preocupar de atingir a perfeição, pois como disse Salvador Dali: você nunca irá atingi-la.

Jonatas Carvalho 

sexta-feira, janeiro 18, 2019

UM ESTRANHO NO NINHO: DUAS VERSÕES SOBRE A LOUCURA NA LITERATURA E CINEMA

Preferi sempre a loucura das paixões à sabedoria da indiferença.
(Anatole France - 1844 - 1924)

Passei os últimos meses (não sei quantos, quatro, cinco talvez) dedicado a questão da loucura. Após dezenas de leituras, filmes, documentários (e ainda há mais para ler e ver), é possível já vislumbrar alguns frutos, em breve (este mês ainda imagino), um artigo será publicado na Revista Ingesta da USP, escrito com minha querida amiga (e parceira de mais quatro artigos) Beatriz Brandão, além disso, um projeto que está prestes a sair envolvendo Arte e Loucura, voltado para a Educação na área de história da arte e que contará com a parceria do professor de artes e história da arte, Rodrigo Retka. 

Muito já se escreveu sobre esse tema, desde de Erasmo de Roterdã (em O elogio da loucura, de 1511) até Foucault (em História da loucura na Idade Clássica em 1961), mas ainda há tanto que se refletir. Neste texto especificamente, quero tratar sobre uma obra, que embora de ficção, tem fundamento em experiências reais do autor, trata-se de One Flew Over the Cuckoo's Nest, (Voando sobre um Ninho de Cucos), de Ken Kesey, escrito em 1962 e traduzido no Brasil com o título de Um Estranho no ninho. A obra virou um filme vencedor de algumas estatuetas em 1975, dirigido por Milos Forman, cineasta tcheco que quando menino perdeu seus pais em campos de concentração nazistas. Meu objetivo aqui será traduzir resumidamente como a loucura é apresentada na obra de Kesey, mas também a partir da releitura de Forman, uma vez que este último, tenha alterado bastante a versão para o cinema. 

Comecemos pelo livro, por motivos óbvios. Ken Kesey, estudou jornalismo na Universidade de Oregan, em 1957, por meio de uma bolsa de estudos foi para Stanford, onde fez estágio em um hospital para veteranos de guerra em  Menio Park, para ser mais específico, trabalhava a noite na ala de "doentes mentais". E é ai que nasce a história, parte das personagens de Kesey são baseados em pacientes com quem ele se relacionou, exceto McMurphy, protagonista com características irreverentes que ele construiu inspirado em um de seus amigos de seu grupo Merry Pranksters. A obra tornara-se um sucesso por uma série de razões, em primeiro lugar por ter uma narrativa na primeira pessoa, o narrador é um nativo americano, chefe Bromden, que embora integrado na sociedade, viu seu pai ser humilhado pelo governo, o índio recebe um diagnóstico de esquizofrenia. Chefe Bromden narra a chegada de McMurphy ao hospital psiquiátrico, este se passara por louco para evitar a penitenciária, após ter matado um homem numa briga de bar. Mc, muda a rotina do hospital com sua irreverência e coloca em cheque a tirânica enfermeira Ratched. A discussão sobre sanidade e insanidade são tratadas na obra, o que faz dela uma referência do movimento da antipsiquiatria. 

Cartaz da Acid Test em 1966 - Califórnia
No mesmo ano que Kesey lança seu livro, o psiquiatra escocês RD Laing também estava tendo dúvidas sobre as atividades das instituições mentais. A loucura pode realmente ser útil para a sociedade? Pode ser útil para os loucos? Três anos depois, Laing fundou o Kingsley Hall, um centro de experimentos anti-psiquiátricos no leste de Londres, ainda em Londres, Maxwell Jones, psiquiatra sul-africano, consolidava o modelo de Comunidades Terapêuticas, cuja proposta era basicamente substituir os eletrochoques e as lobotomias por terapias de grupo e psicodramas. Alguns anos depois (em 1968), era a vez do italiano Franco Basaglia escrever " A instituição Negada", uma dura crítica ao sistema psiquiátrico, era o tempo da psiquiatria social. A importância da experiência em The Politics of Experience (1967), de Laing, contribuiu na dinamização dos movimentos de contracultura, dos quais, inclusive Kesey fez parte. As experiências de Kesey deram início no próprio hospital, uma vez que ganhava pouco, resolveu se inscrever como voluntário no programa de controle mental da CIA, mais conhecido como Projeto MKUltra. O programa visava desenvolver substâncias capazes de serem aliadas dos interrogadores, uma espécie de soro da verdade, dentre as substâncias utilizadas nos experimentos estavam o LSD, psilocibina, mescalina, cocaína, aMT e DMT. Kesey, pelo que parece, gostou tanto dos experimentos que após formado, passou a dar festas na sua fazenda La Honda, na Califórnia, as festas receberam o título de Acid Test, transformando-se em um verdadeiro point da geração Beat e Hippie. Os Acid Test ficaram tão famosos que fizeram parte de composições musicais como a A Song for All Seasons, de Jefferson Airplane, dos Volunteers (1969).  


Bem, eu ouvi que vai ser recuperado
Bem, eu pensei que você tinha feito isso
Mas você nem sequer é pago
Para as coisas que você comprou
Como o teste ácido
Eu ouvi que seu gerente saiu da cidade com todo o seu salário
E a liderança do seu vocalista transforma os censores em cinza
Parede que é realmente uma vergonha
Mas quem está lá para culpar
E tudo que você queria mesmo era só para jogar
Dizem que seu baterista ele é louco como um mergulhão
Ontem à noite, o acharam latindo para a lua

Um estranho no ninho, ao modo como Kesey concebeu, revela uma América voltada para o consumo e a guerra. Chefe Bromden descreve as contradições de uma sociedade que eliminou seus antepassados, por, dentre outras coisas, considerar seus rituais de alterações de consciência como satânicos, para dar lugar a uma juventude que "viaja" em LSD e outras substâncias. Essa juventude não queria saber de guerras, tão pouco de money, estavam, ao contrário, ávidos pelas liberdades, liam Aldous Huxley (As portas das percepções - 1954) e Carlos Castaneda (A erva do diabo - 1968). As editoras trataram de traduzir e publicar clássicos do século XIX, como Confissões de um comedor de ópio (1822) de Thomas de Quincey e Paraísos Artificiais (1860) de Charles Baudelaire. 


Kirk Douglas e Joan Tetzil em 1963
Como disse em algum parágrafo acima, a obra de kesey, extrapolou a literatura, primeiro foi para o teatro, adquirida por Kirk Douglas que interpretou McMurphy, contracenando com Joan Tetzel de enfermeira Ratched, a peça estreou na Broadway em 1963 e na telona em 1975. Os bastidores da produção do filme renderam muitas capas de revista de fofoca, mas também chegou aos tribunais. Kesey nunca viu o filme, se irritou ao saber do roteiro de Bo Goldman e Lawrence Hauben, não gostou da ideia de seu protagonista ser interpretado por Jack Nicholson, preferia Gene Hackman para o papel. Suas objeções, no entanto, não foram absolutas, afinal, o filme recebeu quatro estatuetas na 48º cerimônia do Oscar, o que demonstra que  não entendia mesmo de cinema, Nicholson levou a de melhor ator, Louise Fletcher (a enfermeira Ratched), de melhor atriz e Forman de melhor diretor, o filme também levou o prêmio de melhor roteiro adaptado, o filme teve um orçamento de 4,5 milhões e rendeu 109 milhões nas bilheterias, um sucesso. O elenco é absolutamente excepcional, além de Nicholson e Fletcher, o time ainda contou com Will Sampson (de Chefe Bromden), Brad Dourif (no papel de Billy Bibbit), Danny DeVito (interpretando Martini), Christopher Loyd (como Max Taber), e muitos outros.

O que deixou Kesey tão desgostoso no filme? É difícil dizer, quem já assistiu filmes produzidos a partir de obras literárias e as leu antes de ver o filme sabe bem o quanto isso pode ser decepcionante. Me lembro bem da minha primeira frustração, eu era um adolescente e tinha lido "Eu, Christiane F, 13 anos, drogada, prostituída..." (1976), não que eu tenha achado ruim o filme (1981), adorei a atuação de Natja Brunckhorst, no papel de Christiane F e claro, a participação de David Bowie, mas ao fim, eu me perguntei o  por quê do diretor ( Ulrich Edel), ter escolhido ocultar certos acontecimentos do livro que pra mim eram essenciais. Foi só mais tarde que me dei conta que cada leitor apreende de uma obra aquilo que é sensível a sua subjetividade, e que um filme é a leitura do seu diretor. Isso fica muito evidente em casos de biografias, se escolhermos qualquer figura histórica e dermos sua biografia para cinco cineastas teremos cinco visões sobre aquela figura. Não foi diferente com  "Um estranho no ninho", Milos Forman, é um leitor que resolveu elucidar aquilo que considerou fundamental a partir de sua leitura da obra. 

Milos Forman, que faleceu em abril de 2018 aos 86 anos, tem uma biografia tão interessante quanto a de Kesey, como já citei acima, o cineasta tcheco perdeu os pais quando tinha entre 11 e 12 anos, o pai, professor foi preso por distribuição de literatura proibida, morreu no campo de concentração de Buchenwald, a mãe, morreu em Auschiwitz, em 1943. Passou parte da vida em um país de regime socialista (a antiga Checoslováquia), só veio para os EUA em 1968. Seu primeiro filme de sucesso foi "Amores de uma Loira (1967), destacando-se internacionalmente ao receber o prêmio do Festival de Veneza e ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Seu primeiro filme produzido nos EUA foi Taking Off (1971 - título no Brasil "Procura Insaciável), ganhador do Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, anos depois consagra-se com  "Um estranho no ninho". Forman ainda dirigiu outras grandes produções, dentre as quais destaco aqui: "Amadeus" (1984), outra adaptação, vencedor de oito estatuetas incluindo de melhor diretor; "O povo contra Larry Flynt" ( 1996), com duas indicações ao Oscar e o prêmio "Urso de Ouro" no Festival de Berlin; "Goya's Ghosts" (2006 - título no Brasil " As sombras de Goya", com Stellan Skarsgård no papel do pintor espanhol Francisco Goya e Javier Bardem de Irmão Lorenzo, um padre membro da inquisição e Natalie Portman, no papel de Inês. 

Jack Nicholson e Louise Fletcher - 1975
O filme pode incomodar aos leitores da obra em alguns aspectos, o principal deles é que o Chefe Bromden não é o narrador, apenas um nativo americano que usa da dissimulação (se passando por surdo e mudo) para não ser incomodado pela equipe médica do hospital psiquiátrico. Já a enfermeira Ratched (a quem no livro Bromden chama de "chefona") não possui o mesmo requinte de crueldade que no livro. Todavia, o filme atinge ao objetivo do livro, tratar da desumanização dos "loucos", a personagem de Nicholson (McMurphy), que de início caçoa dos seus colegas, aos poucos vai desconfiando do que ocorre ali, por fim percebe que havia encontrado amigos sinceros, e sai em defesa de seus companheiros.
  


Jonatas Carvalho.









  

sexta-feira, janeiro 04, 2019

REENCONTRANDO UM MESTRE: EU E LEONARDO BOFF NA PORTA DOS CORREIOS.

O dia de hoje merece um registro, não é todo dia que você reencontra um grande mestre. Foi na pequena agência dos correios em Itaipava que reencontrei Leonardo Boff, há anos não o via. Sua recepção a minha abordagem foi a de um velho monge, humilde e serena. Revelei-lhe que apenas dois escritores brasileiros me acompanharam por quase toda vida, ele e Rubem Alves, por motivações distintas. Disse-lhe o quanto foi fundamental ler "Jesus Cristo Libertador" e "Igreja Carisma e Poder" quando estudava teologia nos anos de 1990. Comentei que recentemente eu havia indicado a alguém a leitura de "Terapeutas do Deserto" que ele publicou com o teólogo e filósofo francês Jean-Yves Leloup. Ele me  ouvia pacientemente e comentava sorridente.

A conversa se encaminhou para os dias atuais, disse-me temer pelo que virá. Falamos sobre educação, e ele me revelou que ainda dava aulas na UERJ quando chegaram lá os primeiros cotistas.
 - Que alunos dedicados! Que privilégio ensiná-los! Exclamou, para depois demonstrar seu temor que essa condição deixe de existir. 

A conversa, rendeu ainda mais alguns poucos minutos, ele me falou de um artigo que publicou ontem, uma releitura de outro que escrevera em 2013, cujo título é "Face ao novo Governo que nos socorra São Jorge", neste texto Boff faz um interpretação psicanalítica a partir de Erik Neumann, discípulo de C. G. Jung, em que o São Jorge e o Dragão são representações da psiquê humana, "O dragão em nós é o nosso inconsciente, a nossa ancestralidade obscura, nossas sombras. nossas raivas e ódios. Deste transfundo irromperam para a luz a consciência, a independência do ego e nossa capacidade de amar e conviver humanamente, representados por São Jorge." Transportando tal concepção para a sociedade brasileira, o dragão social, outrora controlado, agora dispara sua ira às minorias; homoafetivos, indígenas, quilombolas, mulheres independentes. Por fim disse, que precisamos invocar o São Jorge para assumir a história social, mas não com a espada -  e aqui, pareceu-me que ele deu a Jorge, características de Francisco de Assis (sobre o qual ele é um notável conhecedor) - "Devemos usar as armas que eles não dispõem", eu completo aqui retirando de seu artigo: 

"Às discriminações respondemos com a inclusão de todos indistintamente. Ao ódio disseminado contra opositores, responderemos com amorosidade e compaixão. À criação de bodes expiatórios, responderemos com a defesa dos inocentemente marginalizados e injustamente condenados. Às mentiras e às visões fantasiosas que nos querem levar à Idade Média, responderemos com a força dos fatos e fazer valer o sentido da contemporaneidade."

Ao fim de nossa brevíssima, mas intensa conversa, eu o agradeci pela sua atenção em parar com um ex aluno e admirador, e recebi dele um singelo "valeu irmãozinho". 


Link do artigo citado acima: https://leonardoboff.wordpress.com/2019/01/03/face-ao-novo-governo-que-nos-socorra-sao-jorge/

Jonatas Carvalho.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

CONFESSO QUE INVEJO O QUE VIVESTES: SOBRE OS DOIS PABLOS; NERUDA E PICASSO.


E lembra-te sempre que:
A vida não é medida pelo número de vezes que respiraste, mas pelos momentos
Em que perdeste o fôlego:
De tanto rir...
De surpresa...
De êxtase...
De felicidade…
Pablo Picasso - 1949

Quem me conhece sabe que vivi muitas experiências. Sou fruto da contracultura, da geração hippie, das sociedades alternativas. Percorri o país de mochilas nas costas por anos, percursos estes, de muitos perrengues, mas também carregados de momentos únicos que ainda guardo na memória. Mas quando olho de perto, sobretudo, quando olho a história de certos homens, penso no quanto minha vida foi mesquinha quando comparada a deles, penso isso sem qualquer neura, pois vivi muito mais que a maioria dos jovens da minha década (anos de 1980), e o melhor, sobrevivi pra contar. Mas certas biografias nos fazem sentir diminutos, é o caso de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, bem, pelo menos era esse seu nome de batismo, mas ficou mundialmente conhecido como PABLO NERUDA. 

Como não invejar o homem? Como não invejar o poeta? Mesmo que você reprove, por qualquer que seja o motivo, suas escolhas pessoais e políticas, não poderá passar por sua poesia sem ser afetado. Eu, o invejo por inteiro. Sua maior qualidade, a meu ver, porém, não era a poética, mas a simplicidade. O poeta chileno que foi Cônsul na Espanha e México, depois senador (1945), dentre os muito prêmios que recebeu, estão o Prêmio Lênin da Paz (1953), o de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford (1958), e o Nobel de Literatura em 1971. Sua vida, no entanto, não foi apenas poesias e premiações, suas posições políticas o colocou na clandestinidade, e foi no exílio que vivenciou as experiências mais marcantes, tanto as positivas, quanto as negativas. 

Neruda fora fortemente impactado pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939), era cônsul quando o conflito foi deflagrado, e ali, assistindo uma Espanha sendo invadida por nazifascistas, fez uma opção, ingressou no comunismo, embora se simpatizasse mais pelo anarquismo. Ao retornar para o Chile, viu que a miséria continuava a contrastar com os cadillacs, resolveu então disputar uma vaga no senado, denunciou a vida sofrida dos mineradores, dos salitreiros no pampa chileno. Empresas inglesas e alemães dominavam a região e impunham suas próprias regras, inclusive suas próprias moedas, enquanto os trabalhadores viviam em condições análogas a escravidão. Foi a gente sofrida do Chile que o elegeu, mas pouco pode fazer o poeta por seu povo, pois no ano seguinte tornara-se, persona non grata, no governo de Gonzáles Videla (1946-1952), a quem Pablo ajudara e eleger. 

A história de exilado de Neruda é longa e repleta de emoções, escolhi apenas uma; sua passagem por Paris. Quem quiser conhecer as outras leia “Confieso que he vivido” (1974), traduzido aqui pela Bertrand Brasil. Neruda descreve suas memórias de modo gracioso, sua humildade e simplicidade emergem em cada conto, pernoitou tanto em casebres no Chile e Argentina, quanto em hotéis de luxo na Europa, o único título que almejou ter foi o de poeta. 

Ao ser colocado na clandestinidade por Gonzáles Videla, contou com apoio de amigos para sair do Chile em direção a Argentina e depois Montevidéu, de lá, embarcou para a França usando o passaporte do novelista guatemalteco, Miguel Ángel Asturias, a quem, diziam ser semelhante a Pablo. Ambos, dizia Neruda, se pareciam com um chompipe, nome indígena para perus na Guatemala. Asturias, embora fosse um liberal, não exitou em ceder seu passaporte a Pablo, assim o poeta chegou a Paris. Mas Pablo não poderia continuar sendo Asturias em Paris, precisava voltar a ser Neruda, mas como, se Neruda não passou pela alfândega francesa? Alojado no hotel cinco estrelas, George V, construído em 1928, um luxuoso ponto de referência na Champs-Élysees, suas poucas roupas da cordilheira contrastavam com o requinte do ambiente. Ali ficou como Asturias, até que seus amigos pensassem em uma solução. O que Pablo não esperava é que a solução viria por meio da intervenção de outro Pablo; o Picasso. O espanhol-parisiense havia feito seu primeiro e último discurso na vida elogiando a poesia de Neruda, denunciando a perseguição que o governo chileno impusera ao poeta (Já volto ao fim dessa história). 

Paris, 1950, entrega do Prêmio Internacional da Paz, Arquivo da Fundación Pablo Neruda. 

Eis outra biografia que nos faz sentir apequenados, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, mais conhecido como Pablo Picasso, cuja obra dispensa apresentações. O que pouco se fala do pintor nascido em Málaga é sobre sua vida de ativista, Picasso, nunca foi negligente ou indiferente as questões sociais ou políticas. Quando questionado sobre o papel do artista, escreveu,
O que pensa que é um artista? Um idiota, que só tem olhos quando pintor, só ouvidos quando músico, ou apenas uma lira para todos os estados de alma, quando poeta, ou só músculos quando lavrador? Pelo contrário! Ele é simultaneamente um ente político que vive constantemente com a consciência dos acontecimentos mundiais destruidores, ardentes ou alegres e que se forma completamente segundo a imagem destes. Como seria possível não ter interesse pelos outros homens e afastar-se numa indiferença de marfim de uma vida que se nos apresenta tão rica? Não, a pintura não foi inventada para decorar casas. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo.
Massacre na Coreia - 1951. Picasso. 
Ativista da paz, inimigo da guerra, por inúmeras vezes utilizou seu prestígio para denunciar os massacres humanos, começando por “Guernica” (1937), uma crítica a Guerra Civil Espanhola, passando por “O ossuário” (1944/45), em que chama a atenção para a carnificina da Segunda Guerra Mundial, em 1951, inspirado em Goya (na obra 3 de maio de 1808), pinta “Massacre na Coreia”, alertando sobre os fuzilamentos de civis na Guerra da Coreia (1950-53), até “As mulheres de Argel”(1954), tendo Delacroix como referência, expõe ao mundo a morte trágica de milhares de mulheres e crianças na Guerra da Independência da Argélia (1954-1962). Consagra-se ícone da paz, ao produzir a gravura de uma pomba carregando um ramo de oliveira no bico, a pomba de Picasso, transformou-se a “Pomba da Paz” no Congresso da Paz em Paris em 1949, e depois disso um símbolo mundial.

Impossível que duas referências como os dois Pablos, sendo contemporâneos, não se admirassem. A relação de ambos foi mais que admiração mútua entre um poeta e um pintor. Uma sucessão de particularidades e afinidades contribuíram para aproximá-los, mas foi a arte como instrumento político, em um dos momentos mais bélicos da história do Ocidente, que uniu Neruda e Picasso. O poeta do amor e o pintor da paz, deixaram para nós a lição de que não se pode desistir da humanidade. 

Retomando o encontro descrito acima, era o ano de 1949, Neruda, preso dentro de um quarto de hotel em Paris, recebeu algumas visitas, dentre estes a de Picasso, a quem o poeta classificou como gênio da pintura e da bondade, Picasso colocou-se à disposição de Neruda, iniciou um movimento em seu favor, ligou pessoalmente para autoridades de Paris e do mundo, até que Neruda teve a garantia de Berteaux, chefe da polícia, de que era bem vindo na França. Sobre o empenho de Picasso, Neruda escreveu: “Não sei quantos quadros, portentosos deixou de pintar por culpa minha. Eu sentia na alma fazê-lo perder seu tempo sagrado”. 

Pão e 'dish' com frutos à mesa - 1909. Picasso. 
Antes, porém, dos papéis do poeta serem liberados, Neruda fora acolhido na casa da Françoise Giroud, sobre esta, escreveu: “nunca esquecerei esta dama tão original e inteligente”. Giroud, que fora presa em 1943 pela Gestapo, por “atuar como agente da resistência”, tornou-se uma brilhante jornalista, em 1953, fundou a primeira "news magazine", foi ela que cunhou o termo “Nouvelle Vague”, (nova onda), para denotar o cinema de Godard e Truffaut, anos mais tarde foi secretária de Estado (cargo equivalente a ministro) da Condição Feminina (1974-1976) e da Cultura (1976-1977). Na casa de Francoise Giroud, Neruda recebeu outra visita de Picasso, em uma das paredes achava-se uma de suas obras, da qual o pintor sequer lembrava, mas o poeta, todos os dias a contemplava e até lhe deu um título pessoal; A ascensão do Santo Pão. Neruda arrasta Picasso até o quadro, e diz de sua intenção de no futuro pedir o governo do Chile adquirir a obra, a “Madame Giroud” já havia concordado em vender, eis que o pintor examina o quadro em silêncio absoluto por alguns minutos e responde ao poeta: é, não está mal.

Picasso e Neruda morreram no mesmo ano (1973), duas biografias estupendas que se entrecruzaram, se complementaram. O pintor chegou a escrever poemas e pintou obras inspirados no poeta chileno, enquanto o poeta compôs versos sobre o efeito das obras do pintor. Juntos, fizeram do mundo um lugar de paz em tempos de guerra.

Jonatas Carvalho
é historiador e professor de História da Arte.

Referências bibliográficas:

NERUDA, Pablo. Confesso que vivi: memórias. Rio de Janeiro, 33ª ed: Bertrand Brasil, 2010.
ROBERTSON, Enrique, Picasso y Neruda. Hechos y conjeturas en torno a una amistad . Atenea [en linea] 2004, (primer semestre) : [Fecha de consulta: 19 de diciembre de 2018] Disponible en: ISSN 0716-1840.
INGO, F. WALTHER. Pablo Picasso 1881-1973: o gênio do século. Benedikt Taschen - 1990.




















segunda-feira, novembro 26, 2018

O PROJETO ECONÔMICO DE PAULO GUEDES:SALIM MATTAR ENTRE “DOAÇÕES” E PRIVATIZAÇÕES.


Tenho sido paciente com as nomeações ministeriais do novo presidente, apesar de estarrecido com algumas indicações, me mantive calado, primeiro porque não sou de me precipitar, segundo porque não é privilégio do Sr. Jair escolher mal, fui crítico de muitas escolhas em todos os governos anteriores desde FHC. Me silenciei nas escolhas do Itamaraty e do ministro da educação, que considero retrocessos sem precedentes na história da nossa combalida república. Ao ver, porém, o organograma do ministério da economia, a equipe de “vice-ministros” de Paulo Guedes, comecei a notar, ainda que vultuosamente, um certo desenho da estrutura de desmonte do Estado Brasileiro.

Ficarei aqui apenas com o homem que conduzirá a chamada “pasta das privatizações”, a história das privatizações no Brasil é uma das nossas muitas vergonhas, na ERA FHC (1995-2003) as privatizações surgiram como solução para conter a dívida pública, que era de 78 bi em 1996, para isso o governo “vendeu” uma série de empresas públicas e faturou 78,6 bi com as privatizações, mas ao final de 2002, a dívida pública já havia chegado a 245 bi, quase a metade do PIB da época que era de 504 bi, para apresentar aqui apenas o resultado final dessa triste história, pois se mergulharmos encontraremos coisas escabrosas, como empresas públicas vendidas muito abaixo do valor de mercado, desvios de dinheiro, vendas para amigos...

Retornemos ao agora, porque, é preciso reafirmar que a propagação de um projeto de governo que teria por base a honestidade, com um discurso anticorrupção e moralista que foi capaz de ludibriar muitos brasileiros, logo mostrará sua verdadeira face. Eis que tal rosto já começa a se revelar.
Pergunto-me sobre a razão de Salim Mattar, pergunte-se também você. O empresário é dono de um império no ramo de locação de veículos, cujo mito de fundação da empresa diz que esse senhor começou a vida com locação de seis fuscas e hoje tem a maior frota de aluguel da América Latina. Seria sua capacidade de empreendedor que lhe concedeu um lugar na equipe de Paulo Guedes? Salim Mattar é mais que empresário, é político, e está na política há muitos anos. Investiu só nesse ano quase 3 milhões de reais em campanhas para as câmaras legislativas e governos de Estado, só na campanha de Rodrigo Maia foram 200 mil reais, ao governador eleito por Minas Gerais (Romeu Zema) ele doou 700 mil reais (o que representou 44% das doações recebidas por Zema), ao Onyx Lorenzoni, 100 mil, a maioria dos apoiados pelo empresário são do DEM e do NOVO. Porque razão um indivíduo doa do próprio bolso (doação empresarial foi proibida) toda essa fortuna? Seria porque ele teria se cansado da roubalheira? As grandes fortunas nacionais e estrangeiras só injetam dinheiro em campanhas pensando em si mesmos, nunca teve nada com o desenvolvimento do país. Os rios de dinheiro que abasteceram as eleições passadas via empreiteiras, agora emanam por cotas volumosas das contas privadas, apenas 16 empresários destinaram 45 milhões em campanhas pelos Estados brasileiro, Salim é um deles.

Se você entrar no Portal Transparência Brasil e colocar na busca contratos de locação de veículos, descobrirá mais de 19 mil resultados encontrados. O negócio de aluguel de frotas inteiras entre empresas e governos movimentam bilhões, as estruturas dos três poderes possuem centenas de contratos com essa finalidade. Ao fazer uma busca sobre contratos firmados entre a “Localiza Rent a Car SA” com órgãos e empresas públicas chega-se a soma de 906 resultados, uma soma significativa destes com a Petrobras.

Talvez você pense, mas os governos economizam com o aluguel de veículos, é mais barato que adquirir, elimina-se o custo da manutenção, dentre outras. Sim, mas ainda assim, esses contratos saem muito lucrativos para as empresas, há cálculos que o uso do uber e até o táxi em certos casos seriam mais baratos que o valor do aluguel. Há estudos, porém, onde se considera que os custos de locação para substituir uma frota seria, em média, 51% maior que os custos de manutenção e depreciação (Galvão e Melz, 2011).

As locadoras estão em ascensão no país, em plena crise, o ano de 2017 rendeu a Localiza um lucro líquido de 130 milhões, um crescimento de 32% relacionado a 2016, a Locamerica (antiga Unidas), registrou um lucro líquido de 61 milhões em 2017, um aumento de 30% comparado ao ano anterior. Os Estados brasileiros, por sua vez, elevaram drasticamente suas despesas com locações de veículos, estruturas como as forças armadas, as polícias civil e militar, as universidades federais e estaduais, autarquias, hospitais, dentre outras passaram a substituir suas frotas adquiridas por alugadas. Por outro lado, se no modelo anterior os veículos ficavam parados porque os Estados e Municípios não quitavam os pagamentos com as oficinas de manutenção, no modelo atual, frotas inteiras são devolvidas por falta de pagamentos dos contratos de aluguel. Em 2017 o Estado do Amazonas devia mais de 9 milhões em aluguel de viaturas policiais. Em 2016 o Estado do Rio foi obrigado a devolver 376 unidades alugadas.

O setor de terceirização de frotas movimenta em torno de 17 bilhões anuais, o que representa 75% do negócio de aluguel de veículos no país, os setores públicos são vitais nesse negócio, o Estado de Roraima é o maior cliente das locadoras, que somam 37 empresas ativas, no Brasil, segundo dados da receita federal, existem 11 mil locadoras ativas. O governo federal gasta em torno de 54 milhões por ano com frotas (fixas e alugadas), isto é, trata-se de um negócio que certamente deixa as grandes empresas do setor de olhos bem atentos, e agora um empresário do setor estará nas entranhas do Estado brasileiro, suas doações foram investimento certo.


Jonatas Carvalho é professor e historiador.



Referências sobre os dados apresentados:
https://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/localiza-tem-alta-de-32-no-lucro-do-segundo-trimestre.ghtml
https://anaiscbc.emnuvens.com.br/anais/article/viewFile/490/490
http://www.portaltransparencia.gov.br/busca?termo=loca%C3%A7%C3%A3o%20de%20ve%C3%ADculos%20localiza
https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/11/23/indicado-para-comandar-privatizacoes-salim-mattar-foi-o-quarto-maior-doador-nas-eleicoes.ghtml
https://www.valor.com.br/empresas/4495846/locacao-de-veiculos-movimenta-r-163-bi-no-pais-em-2015-afirma-abla
https://www.valor.com.br/empresas/5411299/unidas-tem-lucro-quase-70-superior-no-quarto-trimestre




domingo, outubro 14, 2018

EM ALGUMA ESCOLA DO BRASIL EM 2020

– Bom dia! Sejam bem-vindas!! Está a procura de uma vaga para essa mocinha?
– Bom dia. Sim.
– Ahh que ótimo! Tenho certeza que ela gostará muito do nosso colégio!
– Bem, para ser sincera, eu me mudei aqui para perto a pouco tempo e…
– Ahh, mas veio ao lugar certo! Eu sempre digo que este é o lugar! Aqui as crianças são preparadas desde de cedo para a vida e o mercado.
– Mas minha filha só tem 12 anos. Eu pensei que ela deveria apenas aprender as matérias e se socializar, não é muito cedo para pensar essa questão do mercado?
– Absolutamente! Mãe, vou lhe dizer uma coisa, quanto mais cedo melhor minha querida! Mérito é algo que prezamos demais!
– Mérito?

– Isso mesmo. A capacidade que alguém desenvolve para chegar na frente! É preciso mostrar isso desde cedo, sempre há alguém querendo o seu lugar não é?
– Eu, eu, honestamente vejo o mérito de modo diferente….
– Vamos dar uma olhada no espaço?? Ali a sua frente é o espaço preferido deles durantes os intervalos! Veja como são comportados, disciplina para nós é algo absolutamente irrevogável, somos praticamente uma escola militar. Inclusive temos preparatório viu?
– Obrigada, mas falta muito ainda para ela pensar isso.
– Bobagem querida! Aqui temos um fundamental inteiro militar. Mérito se começa de cedo. E outra coisa, meninas são tratadas como meninas e meninos como meninos!
– Mas você não tem jovens aqui com outras opções sexuais?
– Para ser sincero até temos! Mas duvido que você notaria! Se quiser fazer gaysisse faça lá fora, aqui não! Nada contra entendeu? Mas gente, pera lá né?
– Então sexualidade não é trabalhada nas aulas de ciências? Biologia?
– Apenas o conteúdo técnico, ideologia de gênero aqui não! Sua filha estará segura de ser influenciada.
– Desculpe, mas não creio que sexualidade seja algo que se influencia como, por exemplo, gosto musical. Além do mais, minha filha é criada com amigas e amigos, familiares que....
– Ahhh me deixe eu lhes mostrar nossa biblioteca, não é linda?
– É. Desculpe, mas eu não vi nenhum negro ou negra aqui, com exceção da menina da faxina que passou por nós no corredor.
– Ahhh, sim. Bem eles preferem a escola pública que tem a duas quadras daqui....Voltando a biblioteca, estamos fazendo uma grande modificação, na verdade uma reestruturação da nossa coletânea, retiramos toda literatura considerada de esquerda, aliás, por sinal, esse é outro problema que sua filha não terá aqui. Nossos professores são orientados para não praticarem qualquer tipo de doutrinação. Já temos até o cartaz de orientação do Escola Sem Partido colado na sala dos professores.
– Doutrinação?
– Isso mesmo!
– O Sr. está me dizendo que minha filha não aprenderá Marx, Rousseau, Sartrer?
– Imagina! Pode ficar tranquila, jamais!
– E também não terá conhecimento da literatura de Pablo Neruda, Jorge Amado, Gabriel Garcia, Graciliano Ramos?
– Garantido que não! Mas temos uma coleção fantástica de Nelson Rodrigues! Podemos voltar a secretaria para acertar a matrícula?
– Absolutamente não!
– Mas, mas não entendo….eu achei…
– Achou que eu deixaria minha filha frequentar esse campo de concentração conservador que o Sr. tem a coragem de chamar de escola? Achou errado! Passar Bem!