quarta-feira, novembro 30, 2022

FLOR DO SUL

 

FLOR DO SUL


Brinco-de-princesa. 
Como o brinco-de-princesa,

viestes das terras geladas,

mas tens um sorriso de verão,

tua voz é jazz,

teus olhos espelham vida.


Flor do Sul,

de aroma denso,

tens a intensidade das marés,

a alegria dos colibris,

a beleza da primavera.


Flor do Sul 

fosse eu um quero-quero,

nos campos dos Pampas, 

buscaria morada em ti. 

segunda-feira, novembro 28, 2022

AS INSTITUIÇÕES ESTÃO FUNCIONANDO, SEMPRE FUNCIONARAM: MAS NÃO PARA O POVO.


O pós-eleições tem demostrado como boa parte da esquerda brasileira é simplória no que tange às análises sobre as relações de poder entre o Estado-Nação e o Grande Capital. Se não é deficiência de análise então é puro marketing, o que torna a coisa ainda pior. Para começar, o endosso às instituições “garantidoras da democracia”, tal como o STF é um absurdo. O louvor ao "Xandão" é fruto da nossa necessidade de heroísmo, nós já vimos o que acontece quando elegemos heróis de toga (ou de farda), um ex juiz e ex ministro da justiça vinculado à ultradireita agora será senador da república. Não consigo conceber como se cai fácil nesse jogo da extrema direita, quer dizer então que se eles batem no STF, nós temos que passar a defender a instituição? Não, não devemos. As instituições do Estado-Nação só tem uma finalidade: defender os interesses do Grande Capital. O Xandão segue sendo o mesmo Xandão que foi secretário de segurança pública de São Paulo sob a tutela de Geraldo Alckmin e posteriormente Ministro da Justiça de Michel Temer, isto é, envolvido até o talo com esse Estado repressor das minorias, profundamente beneficiado com o impedimento de Dilma Roussef. A esquerda esqueceu da sabatina do Xandão no Senado? Esqueceram o plágio?

Onde estavam as instituições nos últimos quatro anos? Pior, onde estavam quando ao longo do processo de cassação da presidenta Dilma? Eu digo, estavam lado a lado com os golpistas. Não esquecerei a cara do Lewandowski ao conduzir o processo final da cassação de Dilma no senado, era o semblante de quem sabia que estava conduzindo um rito mergulhado em farsa, mas era necessário dar a aparência de legalidade, era importante fazer parecer que estávamos dentro do jogo democrático. O que fez o STF no caso mais bizarro de “lawfare” da história desse país contra Lula? A história do STF é a história da aparência da legalidade. As omissões diante do Grande Capital são inumeráveis, as concessões as oligarquias nacionais são intermináveis. O que faziam os ministros do Supremo em Nova Iorque há algumas semanas em evento financiado pelo pessoal da Faria Lima? Por que os ministros do maior tribunal de justiça desse país participam de um evento assim? Algumas empresas presentes no evento possuem processos na justiça, como é o caso do Banco Master que teria pago as passagens, segundo algumas apurações jornalísticas.

Outro dia eu conversava com um jovem que se diz “anarcocapitalista”, na impetuosidade jovial ele dizia que o Estado tem que acabar de vez. Eu tentei explicar a ele, tentei, mas me parece que não deu certo, pelo menos a curto prazo. Disse-lhe que o Estado não vai acabar porque ele é fruto próprio do Capital. O capitalismo se expandiu utilizando o Estado como escudo e arma. Não é preciso muito para entender isso, basta ver como se deram as invasões ocidentais pelo Atlântico e Pacífico ao longo dos séculos XVI ao XIX. A história da “expansão europeia”, é a história de como as corporações privadas se valeram do Estado-Nação para expropriar as riquezas dos povos americanos, asiáticos e africanos, os reis são um detalhe nisso tudo. Não demorou para que as monarquias desmoronassem uma a uma e os Estados europeus passassem a ser conduzidos por parlamentos dominados pelas grandes corporações. Quando o Estado cria uma legislação protecionista, devemos ler o seguinte: o capital se vale do Estado para se proteger da concorrência. Quando o Estado monopoliza um determinado serviço, devemos ler: o capital privado se vale do Estado para garantir exclusividade de seu negócio.

O Estado e suas instituições são instrumentos do Grande Capital. Trata-se de uma fórmula brilhante, as corporações estabelecem por meio do direito, como o Estado irá garantir seu sucesso. Basta olhar a produção de leis e normas de um Estado para percebermos como a propriedade privada é salvaguardada. Porque o Estado tem o monopólio da força? Para proteger a propriedade privada. Não há relação com o chamado "Estado Democrático de Direito", isso é ideologia. E quando eu falo de propriedade privada não me refiro ao seu carro popular zero, ou o seu apê pago com financiamento da Caixa. Me refiro as grandes propriedades. Quando digo grande é grande mesmo, por exemplo, todos os Estados do mundo possuem dívida externa, para pegar apenas alguns Estados com forte economia, os EUA deve 22 tri, o Reino Unido 9 tri, a Alemanha 6 tri, o Brasil 5 tri. Eu te pergunto, para quem vai essa grana toda? Ou melhor, quem recebe todo esse juros? Sim, são os banqueiros que ficam com essa grana, um pouco mais de dez bancos no mundo recebem todo o juros de mais de uma centena de países. É o Estado literalmente na mão do Grande Capital.

Não é por outra razão que vemos a predominância mundial de modelos republicanos de economia neoliberal. Se o Estado-Nação é sequestrado pelo Grande Capital, logo, este deve jogar conforme as regras do sequestrador. A ideia de um Estado Mínimo = Eficiência, tão precariamente pregada pelo último candidato do Partido Novo à presidência da república, é uma “tistreza.” Nunca se tratou de ineficiência, se trata de projeto. Já observou como as áreas de arrecadação do Estado são primorosas? Já percebeu como nossa Receita Federal é de ponta? Então a “Máquina” funciona maravilhosamente bem quando se trata de entradas, mas é absurdamente burocrática quando se trata de saídas. Isto é proposital, não uma anomalia.

Não é por outra razão que casos como Brumadinho (2019), se arrastam na justiça, por falar nisso, observe como o caso é descrito no Wikipédia, “foi o maior acidente de trabalho no Brasil em perda de vidas humanas”, não se trata de acidente de trabalho, se trata de negligência para dizer o mínimo. A Vale do Rio Doce, vem praticando crimes ambientais há décadas. O documentário “Na Fronteira do Fim do Mundo” (2021), de Ismael Machado, mostra como a mineradora que teve o maior lucro da história no Brasil (121 Bi), comete atrocidades no Pará, uma estrada de ferro que segue atravessando a cidade de Canaã dos Carajás, expulsando moradores, destruindo fazendas e transformando a cidade em uma zona de mineração. É uma espécie de reedição do que a Brazil Railway, de Percival Farqhuar realizou com Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e no Contestado.

Pergunto, as instituições estão funcionando para nossos povos originários? Enquanto o STF empurra com a barriga a decisão sobre o Marco Temporal (aliás o último pedido de “vistas”, que suspendeu o julgamento fora feito pelo Xandão), ao longo dos anos do governo das atrocidades do Messias, as nações indígenas estão sendo dizimadas e suas terras invadidas. Estão funcionando para os 40% de presos provisórios deste país, cuja população carcerária é a terceira maior do mundo? Elas funcionam para os moradores das comunidades do Rio de Janeiro que receberam nos últimos dois anos mais de 1.300 “operações policiais”? Só na “gestão” de Cláudio Castro a polícia já executou 330 pessoas em 74 “operações policiais”, são chacinas cotidianas de corpos negros.

Então, não, eu não me inclinarei às instituições. Tomando aqui Bourdieu de modo rasteiro como referência, elas funcionam como garantidoras das desigualdades sociais, são mantenedoras de um sistema de distribuição desigual de capital simbólico, cujo acesso é restrito àqueles que possuem tais capitais (político, econômico, social) e mantém os destituídos de capital sem acesso ao campo social (instituições). Sim as instituições estão funcionando, nunca pararam de funcionar, mas o jogo que elas jogam, apenas poucos podem jogar.

Jonatas Carvalho


quinta-feira, novembro 24, 2022

FELIPE:O UBER ANTIFA

São Paulo, 11/11/22. 

Entro no Uber em direção Barra Funda, passaria o final de semana/feriadão no RJ. Ao volante um homem negro, magro, educado, com sotaque do Sul. Perguntei de onde era:

─ De Capão da Canoa.

─ Um pouquinho acima de Tramandaí né? Respondi. Ele se animou.

─ Tu conheces??

─ Morei no Sul, mas já faz um longo tempo.


O papo seguiu à gauchês, falei sobre minhas passagens por Cidreira, Osório, Cruz Alta, Panambi, Palmeiras das Missões, Novo Hamburgo, Torres…

Perguntei-lhe sobre as razões de ter vindo para Sampa, no primeiro momento falou em oportunidade de emprego, <era mecânico de aeronaves>, mencionou seus desejos e objetivos, mas, por fim, citou o racismo no Sul.



─ Ohh povo racista viu tio! Lá em Capão eu estudava numa escola de Alemão, eu era o único negão...hahaha.

─ Te zoavam muito?

─ Sim, mas eu zoava mais…hahaha. Chamava os muleque de broto de capim limão, tá ligado?

Mudei de assunto, perguntei-lhe se em Sampa se sentia melhor. Ele disse que sim.

─ Só que ai veio esses fascistas né tio? Ai ficou foda viu?

─ Você transporta muitos deles por ai?

─ Tem muito tchê! Vou te falar, meu, dá pra passar raiva, mas já ri muito também. Outro dia peguei um aqui, advinha o destino?? Aeroporto de Guarulhos! Rodovias bloqueadas pelos patriotas, falei pra ele que ia perder o voo. Ele xingou. Ai mandei logo um “patriotismo tem seu preço né?” Hahahaha.

─ O que você fez? Perguntei.

─ Ai eu deitei e rolei né tio. O cara tava nitidamente dividido com a situação, não queria condenar os bloqueios, mas sabia que ia se fudê, passagem de avião tá uma grana da porra! Hahahaha. Eu conheço muito aquela região ali, trabalhei no aeroporto. Falei pra ele que sabia um jeito de nós chegar, mas ia custar 100 mangos por fora.

─ Ele topou?

─ Lógico! Ainda parei uns dois quarteirões antes, pra fazer o cidadão de bem andar um pouquinho né?

Muitas risadas. Cheguei ao meu destino.

─ Obrigado Felipe, foi muito bom nosso papo.

─ Dá hora tio! Já te falaram que tu é a cara do Marx?

─ Rsrsrs…..Já.

─ Tem Insta?

─ Tenho. Anota ai.

Eu e Felipe agora somos amigos de rede social.


Jonatas Carvalho

sexta-feira, outubro 28, 2022

FAKE NEWS E A PRODUÇÃO DO MEDO: UM CASO REAL.

Após uma pequena temporada em São Paulo, ontem estive em Niterói para almoçar com uma velha amiga. Ao chegar, fiquei feliz em reencontrar G......., diarista que conheço há muitos anos. G...... é uma criatura doce e meiga, uma dessas mulheres guerreiras que lutam diariamente pela manutenção da família. Discreta e de uma simplicidade singular, G....... é negra, evangélica e vive na periferia da cidade. Ela puxou papo comigo sobre as eleições no próximo domingo. Eu entrei no papo e brinquei se ela estava pronta para vota no 13, seu semblante imediatamente transpareceu um receio, então ela confirmou:

— Estou na dúvida. Perguntei o que lhe incomodava, ela não quis dizer, ficou inibida. Disse-lhe que podia falar sem medo, mas ela insistiu em não dizer, apenas dizia que estava muito indecisa. Como nos conhecemos há anos, tomei a liberdade de seguir com o questionamento:

— Fale comigo meu bem, do que tens medo? Ela riu sem graça. Então eu disse:

— G......., você tem medo que o Lula feche as igrejas, é isso? Ela respondeu:

— É isso. A gente escuta muita coisa e não sabe em quem confiar.

Eu lhe disse que essa história de fechar igrejas era uma grande mentira. Contei-lhe que Lula foi presidente por oito anos nesse país e as igrejas evangélicas se multiplicaram nesse período, disse-lhe que foi Lula que sancionou a Lei de Liberdade Religiosa em 2003. Ela, demonstrando mais tranquilidade rebateu:

— Eu ouço por ai que naquela época a gente tinha mais condições né? Não era essa dificuldade que é hoje. G........ tem mais de 50 anos, então eu indaguei:

— Minha querida, você se lembra dessa época. Não lembra? Então ela concordou.

— Lembro, a gente recebia o salário, dava pra ir no mercado e comprar o que precisava, hoje não dá mais, tá muito difícil.


Fiquei pensando nesse meu diálogo com a G.........., sobre a velha tática fascista da produção do medo. A extrema direita, com sua avassaladora máquina de propagação de mentira, sabe exatamente como e onde atingir as massas, eles estudam suas fragilidades e carências atacando fortemente essas vulnerabilidades.

No caso da G........., vejam, seu impasse se tratava de escolher entre voltar a comer melhor ou ver sua igreja ser fechada. Era isso que passava na cabeça dela. Ela tem consciência de que seu poder de compra era muito melhor na era Lula, isso está na sua memória afetiva, mas encheram sua cabeça de dúvida, culpa e medo. Votar no Lula poderia comprometer algo que lhe é tão sagrado quanto se alimentar com dignidade: sua fé. O direito de congregar com seus irmãos de fé lhe é tão vital quanto partilhar o pão em casa. G.......estava sofrendo, não sabia que lado seu “trairia”. Eu lhe disse que se esse era seu problema, que ela podia votar 13 de consciência tranquila, porque ninguém lhe tiraria seu direito de exercer sua fé e que sua igreja seguiria aberta para que ela e todos os outros membros tenham a liberdade de culto garantidas. Por fim, disse-lhe que se ela escolher o 13 estará escolhendo um governo onde ela poderá ter as duas coisas, a igreja aberta e a comida no prato.

Obs. Fiz alterações sobre os lugares e as poessoas para preservar a identidade de G....., mas os diálogos são reais. 

Jonatas Carvalho. 

   

domingo, outubro 23, 2022

A estátua da liberdade e o papagaio de pirata.

Esta reflexão é dedicada aos que justificam seu voto no candidato à reeleição pela extrema direita, sob alegação de princípios como: "liberdades econômicas", "moral e bons costumes" ou "valores cristãos". Já escrevi aqui recentemente sobre o problema das convicções,em que tratei da dificuldade do convicto, mesmo diante de tantas evidências, recusar a ver o erro de sua escolha. Já dizia um velho adágio, quando estamos tomados por uma convicção não conseguimos enxergar um não, mesmo que este seja do tamanho de um elefante, mas vemos com empolgação um sim no tamanho de uma borboleta. 

Vou por partes na tentativa de elucidar o quanto de engano há nas alegações acima. Liberdades Econômicas: 

A tese da liberdade econômica é muito bem construída no marketing, mas ela foi produzida pelas grandes elites econômicas, cujos interesses são absolutamente distintos de nós, seres humanos normais que lutam com dificuldades para pagar as contas ao final do mês. O que querem os defensores das liberdades econômicas? Que o Estado para de se meter nos seus negócios? Promover a livre iniciativa? Gerar uma sociedade mais competitiva? Nenhuma das opções. Isso é o que está no panfleto. Na prática, trata-se sempre de uma única coisa: ampliar o lucro. Para isso, esses grandes senhores de bem, defensores das liberdades econômicas, fazem fortunas a custa do Estado e da exploração da classe trabalhadora. 

Vejamos o caso do Sr. Luciano Hang, um cidadão que fez 57 operações de empréstimos no BNDES entre os anos de 1993 e 2014, logo boa parte do dinheiro que ele pegou para ampliar seus negócios foram ao longo do governo do PT (2003-2016). Ainda assim, esse senhor que se veste como uma maritaca, mas é um típico papagaio de pirata, é capaz de pedir ao secretário de Fazenda do Estado de Santa Catarina que "atrase os salários dos professores,"que "demita a metade dos diabos dos professores!" Para que possam lucrar vale tudo, sonegar milhões em impostos, atacar a classe trabalhadora e os servidores públicos, como é o caso dos professores. 

É assim que pensam essas "elites", ou aqueles que estão a seu serviço, como é o caso de Paulos Guedes que na fatídica reunião ministerial de 2020 disse: "nós já botamos a granada no bolso do inimigo, dois anos sem aumento de salário." Nesta semana, o ministro da economia assinalou sobre sua intenção de desindexar o salário mínimo, o que impactaria fortemente os aposentados e pensionistas. Há projetos do reduzir o valor do FGTS e de "flexibilizar" as horas extras de quem trabalha nos domingos e feriados, este último barrado no senado em 2019, mas nada impede de se buscar novamente em um próximo mandato. 

O governo defensor das liberdades econômicas, é o governo que busca destruir as garantias trabalhistas, alegam que tais ações estimularia mais empregos, mas em que condições? O trabalho que cresce vertiginosamente no Brasil desde 2017 é o informal, milhões de brasileiros literalmente sozinhos, absolutamente abandonados a própria sorte em um mundo desigual. Enquanto isso, nunca se viu aumentar tanto o número dos super-ricos ou milionários por aqui. Quando vemos "patrões" pressionando ou mesmo ameaçando seus funcionários a votar a favor de seu candidato, eles estão defendendo a si próprios, e saibam, isso não significa defender seus empregados, ao contrário, significa que esses patrões sabem que, continuando o projeto que ai está, a possibilidade em reduzir ainda mais o "gasto" com o empregado é maior. Reduzir o "gasto" com o empregado é, na prática, retirar ainda mais direitos dessa classe.

Luciano Hang, não é a elite, ele é um serviçal da verdaddeira elite, mas segue suas práticas, fazendo sua fortuna por meio de financiamento público que vira calote público, portanto, onera as classes populares duas vezes, quando não paga o dinheiro que é fruto de impostos pagos por brasileiros/brasileiras e quando trabalha para retirar direitos trabalhistas de seus empregados. Mas e as outras pautas, as de moral e bons costumes, as dos valores cristãos? Bem, quem age assim, não se pauta nem em moral nem em qualquer valor, estamos falando dos verdadeiros parasitas de nossa sociedade.

quinta-feira, outubro 13, 2022

DISSONÂNCIAS COGNITIVAS E A PRODUÇÃO DA (PÓS)VERDADE.

 

É quase óbvio supor que as pessoas constroem suas bases ideológicas lingado-as a um determinado conjunto de racionalidades que lhes dão sentido existencial. Escrevo “quase óbvio”, porque realmente isso nos parece evidente, mas não é tão simples assim. Nós humanos, justamente porque necessitamos dar sentidos e significados ao que fazemos, uma diferença que, ao que parece, nos singulariza ante as outras espécies vivas, acabamos por nos envolver em toda sorte de explicação existencial/espiritual. A coerência, elemento da racionalidade, não é exatamente nossa grande característica, somos muito mais que elaborações racionais. Não é por outra razão que estranhamos quando o outro se sente absolutamente confortável diante de ideais que para nós não fazem sentido.

João Cezar de Castro Rocha, professor de literatura comparada (UERJ), autor de “Guerra Cultural e Retórica do ódio: Crônicas de um Brasil Pós-político” (2021), recentemente escreveu um artigo em que trabalha com duas categorias conceituais na intenção de explicar o que se convencionou chamar de “bolsonarismo”. As categorias são: Dissonância Cognitiva Coletiva e Midioesfera Extremista. Castro Rocha retirou a noção de Dissonância Cognitiva do psicólogo social Leon Festinger, autor de “A theory of cognitive dissonance”(1957). Para resumir, em 1954, Leon infiltrou-se em uma seita estadunidense denominada The Brotherhood of the Seven Rays (A irmandade dos sete raios), sua líder, Dorothy Martin, profetizara que no dia 21 de dezembro daquele ano, um dilúvio destruiria o mundo, mas seus membros seriam salvos por um disco voador que viria de um planeta chamado Clarion.

Quando o dia chegou e o mundo não inundou, muito menos surgiu um disco voador para o resgate, o que você imagina que aqueles fiéis fizeram? Se você pensou em algo como dar uma surra na Dorothy ou abandoná-la por lá sozinha, você se enganou. Festinger detalhou essa experiência em "When Propechy Fails" (Quando falha a profecia - 1956). Os fiéis encontraram uma alternativa para lidar com a dupla frustração, cuja conclusão foi: o dilúvio não ocorrera, justamente porque, a força da fé de seus membros conseguiu evitar o que o pior acontecesse. A paz voltou a reinar na Irmandade dos sete raios. Se você achou essa solução sem pé nem cabeça, coisa de maluco, eu vos digo, isso é mais comum que imaginamos. Tal reação não é privilégio de seitas religiosas/espiritualistas, estamos no campo das convicções humanas. Nietzsche, lá no século XIX, já nos alertara sobre esse tema ao dizer que as convicções são mais perigosas para a humanidade que a mentira, porque o mentiroso sabe que está mentindo, mas o convicto tem a certeza de que detém a verdade. Creio que não necessito listar aqui toda a violência produzida ao longo da história humana, em defesa de certas verdades.


Francisco Goya - El Aquelarre (1798)
A dissonância cognitiva é entendida como um desconforto psicológico, de acordo com Festinger, esse desconforto se torna o elemento motivador que faz com que o indivíduo busque meios para reduzi-lo, de modo que consiga restituir a harmonia cognitiva. Para reduzir a dissonância, o sujeito evitará a todo custo informações que poderiam potencializá-la, desta forma, procurará informações confluentes com seu conjunto de crenças.

Todos somos em alguma medida afetados por dissonâncias cognitivas, há um jeito moderado de lidar com isso, basta você não ser alguém com fortes convicções. Pessoas abertas a conhecer novas interpretações da vida, outros sentidos e significados para suas questões, no geral, ajustam sua cognição. O convicto, porém, é um apaixonado. Para o grande educador e psicanalista, Rubem Alves, o convicto, apesar de ter dois ouvidos e uma única boca, ele é incapaz de ouvir, só quer falar, apenas a sua verdade interessa. A questão que se levanta é: onde e como tal verdade é produzida? Ela estaria em algum lugar reservado e somente uns poucos iluminados seriam capazes de alcançá-la? Ela, a verdade, possui característica sagrada, reveladora, única e imutável? Foucault nos lembra em “A verdade e as formas jurídicas”(1973), que a verdade é desse mundo.

Voltando ao artigo de João Cezar de Castro Rocha, a noção de dissonância cognitiva de Festinger, é associada ao conceito de “coletivo”. O objetivo é produzir uma ferramenta analítica que possa abarcar um grupo maior; estamos falando de milhões de brasileiros. O outro conceito, “Midioesfera extremista”, é introduzido para complementar a análise. Se o sujeito procura reduzir o desconforto da dissonância cognitiva evitando informações que confrontam suas crenças e valores, portanto, intensificam o desconforto, logo deduz-se que ele buscará informações que lhe traga conforto. O “bolsonarismo”, de acordo com Castro Rocha, é alimentado cotidianamente por uma “Midioesfera” própria, capaz de aplacar a dissonância cognitiva que resulta da exposição das contradições (falha da profecia), que circulam em outras esferas midiáticas. Não é por outro motivo que a grande mídia passou a ser demonizada, acusada de estar associado as ideologias “comunistas” ou “globalistas”. Os dois principais veículos da “Midioesfera extremista” seriam o whatsapp e o telegram.

Apesar de me parecer uma análise altamente perspicaz, ela não aprofunda uma questão essencial, que é a da identificação desses indivíduos com tais ideais. Isto é, o que faz alguém definir quais ideias fazem mais ou menos sentido? Quais elementos internos estão por trás da escolha por um ideal? O que motiva alguém abraçar uma causa? Eu iniciei esse texto desfazendo a crença na racionalidade, porque se fosse algo puramente racional, possivelmente teríamos mais homogeneidade no pensar. Aqui eu entro com outra importante contribuição, a de Mauro Lasi, doutor em Serviço Social (UFRJ). Menciono aqui um ensaio escrito por Lasi em 2018, intitulado “A psicologia de massas do fascismo ontem e hoje: por que as massas caminham sob a direção de seus algozes?” Lasi percorre as teses sobre a origem do fascismo, escritas por Wilhelm Reich (1897-1957), psicólogo e psicanalista, que quando jovem fora assistente de Freud. Reich estudou o fascismo, mas não somente isso, ele foi perseguido por sua ascendência judaica. Em 1933 publicou “A psicologia das massas do fascismo”, obra em que procurou justamente tentar explicar como a classe trabalhadora, oprimida e explorada, aderiu o nacionalismo fascista em vez de promover a revolução. Os marxistas de então imaginavam que a crise que se instalara na Europa entre 1923 e 1933, inevitavelmente conduziria as classes trabalhadores aos ideais de esquerda, mas Reich defendia que não existe necessariamente uma relação entre crise econômica e ideologia. Segundo ele, o próprio Marx não compreendia que as condições materiais determinassem a consciência de classe.

O fascismo, segundo Reich, no caso da sociedade alemã, teria se beneficiado da formação educacional burguesa calcada em dois pilares: um arranjo familiar baseado na repressão aos impulsos sexuais; e o caráter da “classe média baixa”. O resultado dessa combinação é “o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacionária”. Para não me estender muito por aqui, para Reich “o fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório de todas as reações irracionais do caráter do homem médio”. Ou seja, estamos falando de uma sociedade que recorre ao chamamento da ordem, porque no processo de interiorização das relações sociais fomos marcados por uma moral castradora (Nietzsche).

O fascismo dialoga como esse apelo a ordem moral, os milhões de eleitores de Bolsonaro, não são “bolsonaristas”, mas se identificam com o slogan “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, porque esses temas estão intimamente ligados ao recalque das pulsões humanas. Não é por outra razão, que os “escândalos” de origem sexual, ao lado da corrupção, são os que mais derrubam a popularidade politica.

Há um último ponto que quero trazer, porque a noção de Dissonância Cognitiva Coletiva, desenvolvida para ser aplicada a um grupo considerado extremista, pode fazer com que achemos que, se não nos encaixamos em polos extremos estamos livres de sofrermos o mal-estar da dissonância cognitiva. Minha questão é a seguinte: Se você é um cidadão ou cidadã, que vive no Brasil, EUA, ou qualquer país da Europa, você consome um conjunto de informações que eu chamarei aqui de “Midioesfera Ocidental”, me apropriando aqui de um dos conceitos de Castro Rocha. Isso significa que se você é alguém que acorda com o telejornal, assina os formatos online de sites de notícias, daquilo que chamamos de grande impressa, você é alimentado cotidianamente com “informações jornalísticas” que expressam o mundo do ponto de vista ocidental. Essa imprensa oficial ocidental massifica ideias e noções em nossas mentes até que estas sejam naturalizadas. Para ficar em um exemplo, quando se trata de conflitos internacionais, envolvendo ocidente e oriente, tudo que nos chega aqui é pensado a partir de Bruxelas, o que podemos chamar de modo OTAN de comunicar, essa comunicação é replicada por todos os veículos e mídias ocidentais.

Essa “imprensa internacional”, são condutoras das verdades geopolíticas como quer o Ocidente, assim indivíduos como Osama Bin Laden e Saddan Hussein nos parecem sujeitos altamente perigosos e países como Irã, Coreia do Norte e China representam risco ao “mundo democrático”. Temos como exemplo atual a Rússia. As sanções aplicadas ao país recebe notícias favoráveis na “imprensa internacional”, não foi diferente com àquelas impostas a Cuba, Venezuela e Nicarágua. Sempre que nos deparamos com visões opostas a “Midioesfera Ocidental”, nossa dissonância cognitiva se manifesta, o que fazemos para resgatar a harmonia? O que, em geral, fazemos quando a “profecia falha.” Como quando se descobriu que o relatório de armas químicas que justificou a invasão ao Iraque em 2003 era falso? Fazemos o que fizeram os membros da “Irmandade dos Sete Raios”, encontramos novas formas de justificar nossas crenças. Mas o fazemos buscando nas informações de a “imprensa internacional” nos fornece, a “Midioesfera Ocidental” está ai para isso, harmonizar nossa consciência, garantindo que estamos do lado certo da história.

Jonatas Carvalho

sexta-feira, outubro 07, 2022

A MINHA BANDEIRA JAMAIS...TEREI UMA.

Sempre me senti insuficientemente anarquista para não votar e anarquista demais para defender a bandeira de um partido ou um certo conjunto de normas e ideias. Por anos trabalhei com políticas públicas, não faltaram convites para me filiar a certos partidos, é tentador, por vezes eu considerei, mas acabei recusando todas. 

A vida toda eu me sensibilizei com questões relacionadas ao lado mais oprimido da história humana. Ainda garoto, a história da escravidão me comovia, para mim aquilo era mais que um passado dos homens narrado em umas páginas do livro didático. Não conseguia acreditar que homens, mulheres e crianças foram convertidos em mercadoria, que lhes tiraram a própria humanidade. 

Embora eu nunca tenha sido muito corajoso, sempre evitava os valentões e os populares, vez ou outra eu me enfiava numa confusão onde eu julgava ter rolado uma injustiça. A maldade humana me afetava. É possível que tenha sido por isso que eu larguei tudo aos 15 anos e meti o pé da estrada, eram meados dos anos de 1980, eu me tornei um hippie fora de época, mas um hippie. Foi então que me dei conta que a liberdade se tornou algo que eu nunca abriria mão. Nunca admiti ter uma vida dirigida por quem quer que fosse. Mas a liberdade total tem um preço alto. 

A dicotomia liberdade/igualdade, ou pelo menos o modo como a questão fora colocada por certos pensamentos ditos de direita e de esquerda, me causou muito mal-estar por anos. Foi preciso muita leitura e maturidade para compreender que esse conceitos são históricos e não necessariamente precisam estar em oposição. É possível conceber uma sociedade mais igualitária sem sacrificar a liberdade. Se conseguirmos construir individualidades valorizadoras do comum, que concebam que quando há injustiça social e oportunização desigual o seu "eu" estará comprometido apenas consigo, um "eu" pobre e egoísta. O "eu" só faz sentido quando existe um nós, o outro não está no mundo para ser subjugado, mas para cooperar e construir junto consigo um mundo bom para todos. Qualquer liberdade que desconsidere isso, não é liberdade, é egocentrismo. 

Toda minha vida foi um desencaixe, os ideais mais a direita e mais a esquerda nunca me capturaram. Antes que você pense que eu seria um tipo de "isentão" ou de "centrão", vou lhe antecipar, não sou. Essas categorias esquerda, direita, centro-esquerda, extrema isso ou aquilo, são voláteis, já tiveram significados muito distintos historicamente. O que não significa que não podem ou devem ser usadas, a questão é que são usadas sem qualquer critério, em especial nas redes sociais. 

Então vejamos, sou um defensor da liberdade e da igualdade de condições. Sou antiproibicionista e abolicionista. Tenho muito de anarquista em mim, como já citei acima, mas diante da conjuntura socioeconômica (sistema capitalista neoliberal), defendo um Estado plurinacional, multiétnico e multigênero. Sou favorável a uma sociedade de soberania popular não hierarquizada, sem tronos, oligarquias, monopólios ou oligopólios. Uma sociedade cooperativista e associativista, detentora e administradora de seus recursos naturais e zeladora de sua biodiversidade. Que seus mais importantes valores sejam o respeito absoluto à dignidade humana e à diversidade.

Para aqueles que julgarão minha forma de ver a vida utópica demais, eu lhes pergunto: e nosso atual modo de viver em sociedade não é demasiadamente distópica? Consideras normal um mundo com tamanha concentração de riqueza e terras? Achas que a fome e a miséria são inevitáveis? Acreditas que as guerras por petróleo e outros recursos naturais fazem parte do jogo geopolítico? A naturalização de todas essas aberrações sociais é o grande mérito das elites mundiais. A produção de subjetividades individualizantes, "cada um por si", nos compele, como sugeriu Georg Simmel (1858-1918), a tomar uma "atitude de reserva" (ou blasé), diante dos eventos que se enfileiram no dia a dia.

Por todas essas questões sou incapaz de hastear qualquer bandeira, pelo menos não encontrei até aqui uma que eu realmente queira. Se minha bandeira não é vermelha, muito menos é verde-amarela, quem sabe, uma multicor me cairia bem. Mas como eu escrevo esse texto em plena disputa eleitoral, em que dois projetos políticos amplamente antagônicos se enfrentam e polarizam o debate, não posso me omitir, sempre estarei ao lado daquele projeto mais próximo aos meus ideais e o atual governo é a contradição total de tudo que escrevi acima.

  Jonatas Carvalho.