sexta-feira, janeiro 13, 2017

A HISTÓRIA DOCUMENTADA E O GOLPE DE 1964

Em tempos que por meio das redes sociais a circulação de "verdades históricas" circulam tão mais rápido, fazendo com que a velha máxima de que uma mentira contada mil vezes se torna verdade, faz-se necessário apelar para a tradição histórica. O velho e bom rigor acadêmico que procura preservar acima de tudo a fonte histórica. Sim claro, em nome desse rigor muitos exageros ocorreram, tentativas de transformar a história numa disciplina serial matemática, positivista, totalizante, mãe das ciências sociais e humanas.
Hoje sabemos que esse rigor acadêmico ganhou outros sentidos, vimos a história se fragmentar em inúmeras possibilidades, dialogando com uma grande diversidade de disciplinas e abandonando definitivamente a inexorabilidade, mas a história ainda é a história. Ainda que a busca pela verdade pura tenha deixado de ser o precioso objetivo a alcançar, as fontes documentais ainda são as bases que sustentam a história. É claro que a própria noção de documento já não é mais aquela do historicismo, assim como, a própria noção de fonte.
A história não é, e nunca será uma ciência exata, sua riqueza reside justamente nas possibilidades de se interpretar fatos históricos. Há uma beleza singular na subjetividade do olhar do historiador, na luta incessante pela representação do passado, na análise minuciosa de cada fonte.
Como exemplo concreto trago aqui a recente história de interrupção de nossa democracia, mais conhecido como regime militar (ou Estado de Exceção), período esse que perdurou longos 21 anos (1964-1985). Apesar de se tratar de uma época recente na perspectiva de tempo histórico, ainda que muitas fontes tenham sido destruídas, outras perdidas e várias impedidas de serem acessadas por força da lei, podemos dizer que sem dúvida há uma significativa historiografia sobre esse período.
Na última década pode-se verificar uma profusão de publicações sobre esses 21 anos e inúmeras revisões na historiografia. Isso tudo foi possível principalmente pela luta por acesso aos arquivos até então proibidos.  Há atualmente arquivos públicos espalhados pelo Brasil com milhares de documentação sobre o período, há também uma expressiva quantidade de material digitalizado disponível pra pesquisa como, por exemplo, “Arquivos da Ditadura” documentação reunida por Élio Gaspari (http://arquivosdaditadura.com.br), ou os “Acervos sobre a Ditadura Militar” do Arquivo Nacional (http://www.arquivonacional.gov.br/acervos-mais-consultados-titulo/acervos-da-ditadura-militar.html), finalmente diversos acervos online sobre a memória desse período (disponibilizarei no final do texto), alguns públicos e outros de entidades sociais.
Se por um lado podemos verificar o crescimento das pesquisas no Brasil e na América Latina sobre os Estados de Exceção implantados no bojo do mundo bipolar, por outro, percebemos também um substancial volume de sites e páginas nas redes sociais evocando uma outra história, boa parte destes, baseiam-se em poucas publicações de uma direita ultraortodoxa que ainda rezam a cartilha da Doutrina de Segurança Nacional.
Enquanto movimentos como o Escola Sem Partido tentam ganhar espaço midiático acusando professores de “doutrinadores”, esses mesmos defensores alimentam sites e blogs com informações infundadas, sem materialidade.  Um grande ícone dessa geração de jovens cooptados pelo ideal liberal conservador, Olavo de Carvalho, o “Filósofo” e guru dessa gente que ainda vive o medo da ameaça comunista, chegou a caçoar da prova documental, uma gravação entre o embaixador dos EUA Lincoln Gordon e o Presidente John F. Kennedy em 7 de outubro de 1963, onde ambos discutem as possíveis estratégias sobre o que fazer com o Brasil, até que Kennedy questiona Gordon: “Você vê a situação indo para onde deveria, acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?”. Em outro momento, o nobre guru afirma que os jornalistas brasileiros, uma boa parte da imprensa foi associada a KGB, sem mostrar qualquer prova, apenas citou um texto do Noblat que ironicamente escreveu ter trabalhado para a agência de inteligência da Rússia.
Em tempos como esse, cabe a nós, professores e pesquisadores, usar o máximo desses canais para desconstruir esse jogo midiático que busca desqualificar a história e a historiografia sem qualquer fonte documental.  Os slogans vão ganhando espaços por serem fáceis de se assimilar, tais como:  - “Mas só perseguiram quem era bandido.”  -  “A intervenção militar nos livrou de uma dominação comunista”  - “Os governos militares desse período foram moderados”. Tais slogans ganharam ainda mais espaço no período que antecedeu o impeachment da Presidenta Dilma, os adeptos da chamada “intervenção constitucional” foram úteis aos maquinadores do golpe que colocou o PMDB na presidência.


Alguns acervos digitais de História de Memória:
Acervo sobre o Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP) comporta a documentação produzida entre 1924, ano de sua criação, e 1983, ano de extinção, pelo principal órgão articulador da polícia política paulista.
Arquivos da ditadura: Acervo pessoal de Elio Gaspari. Entre bilhetes, despachos, discursos, manuscritos, diários de conversas travadas pela cúpula e telegramas do governo americano, seu arquivo pessoal reúne mais de 15 mil itens sobre a ditadura. São registros que se iniciam nos anos anteriores ao golpe de 1964 e seguem até os estertores do regime. Entre eles, há 10 mil provenientes do arquivo do general Golbery do Couto e Silva, como suas apreciações e análises conjunturais redigidas em três momentos distintos, de 1960 a 1968.
Memórias reveladas: O Centro tem por objetivo geral tornar-se um pólo difusor de informações contidas nos registros documentais sobre as lutas políticas no Brasil nas décadas de 1960 a 1980. Nele, fontes primárias e secundárias são gerenciadas e colocadas à disposição do público, incentivando a realização de estudos, pesquisas e reflexões sobre o período.
Documentos Revelados é resultado de anos de garimpagem nos arquivos estaduais e arquivo da Delegacia da Polícia Frderal de Foz do Iguaçu, de vasculhar  caixas e pastas AZ, repletas de mandados de prisão, informes,radiogramas, ofícios recebidos e expedidos, dossiês,relatórios e outros tipos de documentos produzidos pela burocracia policial. Reconheço que esta busca é tardia, pois no Brasil,ao contrário do Chile, Argentina e Paraguai, os arquivos da repressão estão sendo abertos fora dotempo apropriado.

A UERJ e o sonho da Universidade Pública em cheque.


Como muitos brasileiros, eu precisei pagar pela minha faculdade, trabalhar de dia e estudar no turno da noite em uma instituição privada. Nascido na pobreza e simplicidade, fazer uma faculdade nunca foi uma meta, não era uma condição natural como ocorre na vida de jovens de famílias privilegiadas (como é para meus filhos hoje). Só pude me formar já homem feito, com família constituída e filhos. Arotina de trabalhar e estudar nessas condições implica em sacrifícios para família. Uma vez formado me vi em outra situação, de que vale um diploma de graduação, uma licenciatura em uma sociedade e um Estado que não valoriza a figura do professor? Achei que não deveria parar na graduação e me preparei por mais alguns anos para entrar em um mestrado.
Foi na UERJ que esse sonho se realizou, a primeira vez que pisei naquele lugar como um aluno de pró-graduação senti que adentrava em um espaço sagrado, demorei acreditar que eu estava dentro da universidade pública. Com o passar do tempo me dei conta que eu estava em um centro de excelência, serei eternamente grato aos professores com quem convivi ali, com quem aprendi. Não posso deixar de mencionar aqui, minha querida e amada orientadoraMarilene Rosa, que na ocasião já estava com seus 25 anos de profissão, mas cheia de vida, saber e prazer em ensinar.
Mas havia mais um problema, como é que morando em outra cidade, ganhando salário de trabalhador comum eu desceria três vezes por semana para o Rio de Janeiro para estudar? Passagem. alimentação, livros e outros materiais eram imprescindíveis. Eu recebi uma bolsa de estudos que viabilizou tudo isso. Claro que a UERJ tinha seus problemas, nossas universidades mesmo nos seus melhores tempos sempre tiveram, mas ali estavam mais de 25 mil estudantes se formando em alguma profissão, se aperfeiçoando com dinheiro publico e eu fui um deles.
Ao ver o jogo perverso que hoje o Governo do Estado tenta fazer com esta instituição só posso sentir desprezo por esses representantes do Estado. Mas não apenas isto, pois me dói saber que neste ano que se inicia, milhares de pessoas que como eu que lutaram para chegar a universidade pública, hoje vivem a certeza de que sua luta por passar em uma prova de acesso será talvez e menor das batalhas que ainda irão travar.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

“Quando todos mandam quem obedece?”: drogas, crime e fé na análise de um centro de recuperação.

O texto abaixo é parte de um artigo que escrevi com minha colega da PUC-RJ Beatriz Brandão para o 40º Encontro da ANPOCS em outubro de 2016. O recorte aqui postado é uma discussão de cunho mais teórico que fizemos no artigo, na verdade um pequeno ensaio entre a ideia de obediência a partir da noção de "governo das almas" em Foucault e a de "vocação" em Weber. 

“Aqui a casa não cobra nada para ficar, cobra só a obediência”[1]

O jovem fica ali parado diante do portão do cenóbio, por dez dias ele precisa resistir, dez dias ele provará que não quer ser um monge por um motivo qualquer. Nos primeiros dias ele será ignorado, depois desprezado e finalmente injuriado, ele sentirá o desprezo dos outros monges, que lhe lembrarão sistematicamente o quanto ele é desnecessário. Após dez dias, aquele que ali permanecer, aquele que suportou a humilhação, a repulsa, a abjeção, será aceito como postulante, então será ali mesmo desapossado de suas vestimentas, renunciará à riqueza e vestirá a roupa do convento, deixando para trás o velho homem juntamente com todos os velhos hábitos. A próxima fase de sua preparação, o jovem ficará por um ano na entrada da propriedade, em cômodos reservados para acolhimento de estrangeiros, ele ainda não pode entrar no monastério, estará sendo preparado por alguém que será nomeado para dirigi-lo. Ao final de um ano então, caso ele consiga se adequar as regras, ele finalmente será admitido no monastério, outra vez um monge mais velho se encarregará de guia-lo juntamente com mais nove jovens, dez almas que serão governadas.[2]
A história acima foi contada por Foucault em uma aula no Collège de France em 19 de março de 1980. O curso ministrado pelo filósofo naquele ano recebeu o título de “Do governo dos vivos”.  Ao longo dos anos anteriores Foucault vinha numa trajetória de tentar entender a noção de governo, nos anos de 1977 e 1978 ele se debruçou sobre a ideia de governo entre os gregos e procurou demonstrar como que com o cristianismo essa ideia passará por um deslocamento, se entre os gregos e romanos governar significava muito mais conduzir a polis, governar a cidade, com o advento do cristianismo essa noção pôde se aplicar na condução dos homens. Ele verifica um tipo de poder pastoral, que tinha por objetivo dirigir a consciência, de dirigir a alma. Esse tipo de poder pastoral teria sua origem no Oriente não cristão, como no caso do Faraó egípcio que era visto como um grande pastor, “o Rá, que velas quando todos os homens dormem, que procuras o que é benefício para teu rebanho”. Em todo caso, será com o advento do cristianismo que o governo se ocupará mais da multiplicidade do que do território. É neste sentido, que a figura do pastor é aqui emblemática, uma vez que ele se preocupa com o rebanho ao mesmo tempo que a vida de cada ovelha lhe é imprescindível, (FOUCAULT, 1978).     
            Enquanto o homem grego era conduzido ao pressuposto socrático do “conhece-te a ti mesmo (gnōthi seauton)”, no cristianismo o homem é conduzido a negar a si próprio. O ascetismo cristão tem por princípio fundamental que a renúncia de si constitui o momento essencial para acender à outra vida e alcançar a salvação. (FOUCAULT, 1982, p.304).  A renúncia de si para os monges cenobitas, significava negar todas as vontades do corpo, todos os desejos da alma, mas, ia além de somente abdicar de si mesmo, pois tratava-se de abrir mão de seu próprio arbítrio para se submeter ao arbítrio do outro sem questionar, simplesmente obedecer. O caminho da verdade é um caminho de submissão e obediência. A obediência no sentido que Cassiano descreveu deveria ser passiva, uma ordem dada não deve ser questionada, sequer deve-se pensar sua inutilidade, apenas cumprida. Para que isso ficasse claro aos novatos, era comum que seus superiores ordenassem a fazer coisas sem qualquer sentido, como foi o caso do abade Jean que por um ano irrigou um bastão enterrado e ouviu do seu superior que ele não regara direito. A obediência requer assim que se queira acima de tudo, fazer a vontade do outro, viver debaixo da permissão do outro. Cassiano lembra que os “jovens não devem deixar a célula sem que o preposto permita; mas, ele não deve nem mesmo presumir a autorização”.  (FOUCAULT, 1980, p. 110).
O poder pastoral suscitou uma série de disputas ao longo da história, tais disputas, escreveu Foucault, de Wyclif a Wesley, tinham por objetivo saber quem teria o direito efetivo de governar os homens. Nas reformas religiosas na Europa do século XVI o que se vê é uma batalha pelo pastorado, não uma batalha doutrinal, que resultou no fortalecimento do poder pastoral, dividido em dois mundos, o protestante, cujo pastorado se exerceu de modo mais meticuloso ao mesmo tempo flexível hierarquicamente e o mundo da contrarreforma, cujo o pastorado permanecera altamente controlado e hierarquizado. (FOUCAULT, 1978, p. 198). 
Quanto a análise de Foucault sobre o pastorado protestante, pode-se dizer que esta é conciliatória com aquela feita por Max Weber anteriormente, para quem a Reforma Protestante não implicou na eliminação do controle da Igreja sobre a vida quotidiana, mas na emergência de uma nova forma de controle. A Reforma significou o repúdio a um controle frouxo, quase imperceptível, em favor de uma regulamentação da conduta dos homens. (WEBER, 1905, p.12). Hennis, ao estudar Weber, diz Colin Gordon (1987), afirmou que a ética protestante associada ao “espírito do capitalismo” resultou numa condução metódica da vida, sobretudo, aquela implementada pelo calvinismo. Todavia, não é somente no calvinismo que o espírito capitalista encontrará um lugar ao sol, Weber dedica o capítulo três de “A ética protestante e o espírito capitalista” a discutir a concepção de vocação em Lutero, afirmando que tal concepção encontra-se centralizada no dogma das religiões protestantes, preceitos éticos estes rejeitados pelo catolicismo que convivia ao modo praecepta et concilia (regra dos planos). A concepção de vocação em Lutero, segundo Weber, apresentou como única forma de vida aceitável por Deus, aquela do cumprimento das obrigações impostas aos indivíduos pela sua posição no mundo, condenando o monasticismo a uma vida ditada pelo demônio. (WEBER, 1905. p. 34;35).
O pastorado pós a reforma não se ocupou mais de dirigir os homens a uma vida asceta, mas direcioná-los para uma vida produtiva. Weber vai retomar o apóstolo Paulo para demonstrar que a comunidade cristã do Novo Testamento via as atividades mundanas com indiferença devido suas esperanças escatológicas. No calvinismo, porém, tais esperanças são mantidas, mas ao invés de manifestarem no ascetismo, o eleito está no mundo para refletir a glória de Deus, o mundo existe para a glorificação de Deus, assim a obediência consiste, não na reclusão ao mundo e sim na melhoria deste. (WEBER, 1905. p. 47). A parábola do servo fiel (ou prudente em algumas traduções bíblicas) é resgatada pelos reformadores, este é o servo a quem o Senhor confiará todos os seus bens e zelará por eles e os multiplicará, já o servo infiel é aquele que na ausência de seu Senhor espancará seus companheiros e se prestará a comer e embriagar-se. (Mateus 24:45-51/Lucas 12:41-46). A vida precisa ser santificada, o que significa ocupar-se apenas com aquelas coisas que são da vontade de Deus, a vida do santo deve ser direcionada para o fim transcendental, isto é, a salvação. Justamente por isso ela será racionalizada nesse mundo e totalmente dominada pelo objetivo de aumentar a glória de Deus sobre a terra. (WEBER, 1905. p.52).
As descontinuidades históricas ocasionadas pela reforma no modo de como se deve governar, no modo como os homens devem ser conduzidos, não significam ao final uma ruptura com o ascetismo, mas sim um deslocamento para a vida asceta. Se em Cassiano o ascetismo é a renúncia do mundo em prol de uma vida de disciplina, obediência e oração, no protestantismo o que se renuncia é o isolamento do mundo. A riqueza e o lucro são condenáveis somente quando adquiridos para o proveito próprio, para o gozo e o descanso, uma vez que “o repouso dos santos se encontra em outro mundo”.  Atitudes como diversão ou até mesmo dormir mais do que oito horas por dia são condenáveis moralmente, porque o tempo é precioso para Deus. O poder pastoral no pietismo, no puritanismo, dirige o homem a ser zeloso, um zelo que implicava em seguir mortificando os desejos vis da carne, em nome da honra de servir em Deus no mundo refletindo sua grandeza. Isso só seria possível por meio de uma vida próspera, querer ser pobre, seria o mesmo que querer ser doente, trabalhar e prosperar é demonstrar a manifestação de Deus. (WEBER, 1905. p. 75-77).
Tudo que pode desviar o homem desse caminho, tudo que pode fazer dele um servo infiel, e aqui vemos incluído o vício, deve ser contido. Não é por outra razão que se verifica no advento do proibicionismo no século XIX nos EUA, dentre outros fatores, o recrudescimento dos ideais puritanos, isto é, o reavivamento do fundamentalismo religioso, que denunciava a degradação moral e a desordem promovidas pelos saloons. Recebendo apoio de vários setores da indústria e de empresários, do movimento proibicionista viu-se surgir o partido proibicionista. Assim a proibição do álcool nos EUA em 1920, teve como base a ideia de degradação somada a da improdutividade, ou seja, a junção da ética protestante e o espírito capitalista. (CARVALHO, 2013, p.26). 
 Ao voltar ao objeto desse artigo podemos aqui entender os centros de recuperação (CRs) como espaços cuja ética protestante e o espírito capitalista de Weber se fez presente uma vez que tal espaço se apresenta como solução para recolocar o indivíduo de volta ao mundo como sujeito produtivo. Na lógica protestante o “drogado” seria percebido como um asceta que renunciou ao mundo abstendo-se de suas obrigações para com este. A recuperação implica em retomar sua vocação na terra como a mais absoluta vontade de Deus, a ética protestante coloca assim o ócio, a preguiça e tudo o mais que provoque a improdutividade como antinatural quando não, de ordem demoníaca. O princípio da vocação colocada na reforma protestante insere o homem na produtividade, na prosperidade e no labor.
Mas pelo menos uma coisa é indiscutivelmente nova: a valorização do cumprimento do dever nos afazeres seculares como a mais alta forma que a atividade ética do indivíduo pudesse assumir. E foi o que trouxe inevitavelmente um significado religioso às atividades seculares do dia a dia e fixou de início o significado de vocação como tal. O conceito de vocação foi, pois, introduzido no dogma central de todas as denominações protestantes e descartado pela divisão católica de preceitos éticos em praecepta et consilia. O único modo de vida aceitável por Deus não era o superar a moralidade mundana pelo ascetismo monástico, mas unicamente o cumprimento das obrigações impostas ao indivíduo pela sua posição no mundo. Esta era sua vocação. (WEBER, 1905. p. 34)

Ao retornar as narrativas deixadas por Cassiano que foram retomadas por Foucault no curso “do governo dos vivos” em 1980, encontramos mais uma ilustração interessante, sobre um monge que por cinquenta anos absteve-se radicalmente da vida mundana. Em certa fase de sua santidade ele acreditou que poderia se jogar num poço e que os anjos do Senhor o salvaria antes mesmo que chegasse ao fim do poço. O monge não morreu mas sofreu lesões e fraturas graves. Cassiano utiliza-se do exemplo apenas com um objetivo, para dizer que o sacrifício não é bom quando não está submetido a uma situação de obediência.
É aqui que possivelmente encontramos as continuidades históricas entre o ascetismo cristão monástico e o ascetismo pós reforma. Se pudemos verificar o deslocamento do modo de conduzir os homens, da direção em que serão governados. Se pudemos até aqui ver que o ascetismo protestante visa a renúncia dos desejos e aos prazeres da carne, sem negar ao mundo. O que resta de comum nestes dois modelos de pastorado? A obediência. O interno em um CR de disciplina pentecostal é conduzido a uma vida de obediência, não há caminhos alternativos para mudança de vida, só existe um caminho possível. Se na história de Cassiano a crença de que Deus enviaria seus anjos para evitar que o monge se chocasse com o fundo do poço, o governado em recuperação em um CR é levado a crer que chegou ao fundo do poço devido a seus pecados, por “dar ouvidos” ao diabo, por se entregar aos prazeres do mundo e só Deus pode lhe retirar do fundo do poço. Para isso, é necessária uma vida de total abdicação do mundo, uma mudança radical do comportamento e uma submissão ao seu pastor que o guiará ao caminho da cura e da recuperação.   


[1] Fala de um dos hóspedes no culto de comemoração do aniversário da igreja.
[2]  Aula de 19/03/1980. Foucault inicia a aula relatando as narrativas de João Cassiano sobre as instituições cenobitas.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Feliz 2017?

Eu adoraria desejar um feliz 2017 para todos amigos aqui no Brasil e fora dele. Eu almejaria todo sucesso, toda felicidade e paz, muita paz nos corações, mas temo não poder. Não por falta de vontade de minha parte, como escrevi acima eu adoraria poder dizer que em 2017 tudo de bom ocorra conosco, no entanto, só vou mesmo desejar que sejamos fortes.

O cenário nacional e internacional é um dos piores possíveis, crises que se instalaram e estão longe de se dissipar, infelizmente há poucas esperanças de paz. Na América do Norte, Donald Trump acena para Israel continuar a massacrar o povo palestino, aumentar os muros com o México e deportar imigrantes latinos. No Oriente Médio a Síria vive um drama entre os imperialismos e a islamização radical, tensões de uma segunda Guerra Fria, envolvendo Irã e Turquia. O projeto da União Europeia desmancha-se com o Brexit, a Itália caminha para o poço fundo que a Grécia entrou, a dívida pública da União Europeia é de 86% do PIB (mais alta que o Brasil que está na casa do 70-74%). A China sofre sua mais forte desaceleração e o Japão prevê uma nova crise a caminho nos moldes do que foi em 2008 com a Lehman Brothers.

Por aqui, este ano especificamente, não poderia ser pior (ou poderia?), um ano que incluirá mais um triste capítulo na nossa história. Diante da recessão mundial, articulou-se a tomada do   governo eleito para a implementação de uma política de redução do Estado Brasileiro. Redução, diga-se bem, apenas para as parcelas trabalhadoras, o Estado continuará a ser grande para as corporações. O sistema privado de saúde e educação agradecerão a PEC 55, os bancos não apenas terão garantidos os pagamentos de juros do governo, mas elevarão seus lucros com previdência privada, planos de saúde e outros. As “flexibilizações” das relações de trabalho colocarão uma massa de trabalhadores em condições de subsistência, possibilitando assim, o aumento da lucratividade das grandes empresas. Nossas reservas de petróleo são vendidas a preço de água para os oligopólios internacionais. Enquanto isso, os três poderes e os militares (nãos as PMs), seguirão com seus orçamentos estáveis nos próximos vinte anos. 

O ano de 2017 exigirá de nós a capacidade de resistir e lutar, as articulações sociais precisam ultrapassar "panelaços" e os desfiles de verde e amarelo, liderados por organizações liberais "apartidárias", com cobertura da grande imprensa, reprise no Fantástico. Em 2017 serão necessárias manifestações de todas as ordens, mas mais que isso, será fundamental uma grande campanha de conscientização para que em 2018 possamos fazer uma substituição maciça dos nossos parlamentares, tanto na âmbito federal, como no estadual e municipal.    

#resistirelutarem2017

Jonatas Carvalho 

segunda-feira, dezembro 26, 2016

A NOIVA É BELA, MAS É CASADA COM OUTRO HOMEM.

Foi no ano de 1897 na Basileia que o movimento sionista emerge como um movimento político que reivindicava a criação do Estado Judeu, com base nos escritos de Theodor Herzl, jornalista e escritor judeu austro-húngaro. Herzl dizia que o povo judeu precisava de um lar e criou o slogan “uma terra sem povo, para um povo sem terra”. Mas foi só após a Segunda Guerra que o movimento ganhou força, o holocausto, que sensibilizou o mundo, não sem razão, foi politicamente usado para pressionar as grandes potências na criação do Estado Judeu em 1948.

Muito antes da criação do Estado de Israel, no entanto, muitos judeus incentivados pelo movimento sionista já haviam migrado para a palestina. No congresso que ocorreu na Basileia ficou decidido que uma comissão viajaria para a Palestina e faria uma avaliação sobre as condições da terra. No relatório uma frase chama muito a atenção: “a noiva é bela, mas é casada com outro homem.” A anunciada “terra sem povo” de Herzl, na verdade era ocupada por árabes há dezenas de séculos. 

O movimento sionista criou um fundo internacional, além de contar com o apoio da Inglaterra que controlava a região, para organizarem grupos paramilitares com o objetivo de expulsar os palestinos das suas terras. Um desses grupos, o Haganah, que teve dentre seus líderes, figuras como Ariel Sharon, Yitzhak Rabin e Shimon Peres. O grupo  sionista deu origem ao exército de Israel e ao Likud, partido ultranacionalista no poder e atualmente comandado por Benjamin Netanyahu, atual primeiro ministro. O movimento sionista, liderado por Bem-Gurion, um dos fundadores do Haganah e defensor da “transferência compulsória” de palestinos, foi responsável por diversos massacres, como o liderado por Sharon na aldeia de Kibyia na Cisjordânia em 1936. O Haganah desenvolveu uma série de estratégias e técnicas para fomentar a expulsão de palestinos, o Plano Dalet, por exemplo, implicou em diversos ataques militares aos povos árabes que viviam na Palestina. Os grupos sionistas percorriam por vilarejos com jipes e transmitiam via alto-falantes sons de gritos e lamentos de mulheres árabes seguida da mensagem, “fujam para salvar suas vidas!”. 

Em tempos de comemorações do calendário cristão, importa chamar atenção, uma vez que após 68 anos da criação do Estado de Israel, por mais de seis décadas o povo palestino continua sendo eliminado. Só no período entre 1933 e 1948 estima-se que 53 mil palestinos foram expulsos de suas terras. Entre 1967 e 2009 mais de 68 mil casas de palestinos haviam sido demolidas e 4000 assentamentos judaicos foram construídos. Somente em 2014, mais de mil e quinhentos palestinos foram expulsos de seus lares e 2,2 mil morreram devidas as ações do Estado de Israel, dos quais 550 eram crianças. A construção do Estado Judeu implica na eliminação total do povo palestino. Enquanto o mundo cristão comemora mais um natal, Sião segue firme seu plano de extermínio étnico com o consentimento dos EUA e a conivência da ONU. 

A recente abstenção dos EUA e a aprovação de uma resolução da ONU contrária ao prosseguimento dos assentamentos judaicos em áreas palestinas não interferirá no projeto do Estado de Israel. Donald Trump que condenou a abstenção dos EUA, retomará relações com Netanyahu, os anos que se seguirão serão ainda mais terríveis para os palestinos. 

Fontes: 

PALUMBO, Michael. The Palestinian Catastrophe: the 1948 expulsion of a people of their homeland. Londres, 1998.

SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

HOUAT, Stephan Fernandes. A criação do Estado de Israel e um Estado único como solução dos conflitos. Belém Centro Universitário do Pará. Belém/PA:

FINKELSTEIN, Norma G. Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina. Trad. De Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005.

quarta-feira, novembro 30, 2016

O trágico e a humanidade.

Tragédias são difíceis de assimilar, aceitar, compreender.Para quem é diretamente atingindo por uma, chega ser insuportável. Mas as tragédias, pode não parecer, são contornadas por aspectos positivos; elas conseguem produzir em muitos de nós o que há de melhor em termos de humanidade. Os "efeitos" que a tragédia de Chapecó produziu no mundo afora é de sensibilizar o mais racionalista dos homens, o silêncio da torcida do Liverpool e tantas outras ações precipitadas mundo afora são demonstrações de que o ser humano não é de todo um caso perdido, ao contrário. Mas creio que se deve destacar a solidariedade do povo colombiano, povo este tratado por alguns "brasileiros" como um povo menor, por outros, como (se soubessem o significado da palavra), bolivarianos. 
Hoje passei o dia filtrando as "notícias boas" da tragédia, não tem como não se emocionar com as ações desse povo, a comoção na Colômbia é enorme e a predisposição em amenizar a dor é latente. A ação espontânea da torcida do Nacional de Medellín, saindo às ruas entonado o canto "que se escute em todo continente, sempre recordaremos a campeã Chapecoense", não cabe dar significado, por risco de não se encontrar palavras que a represente. 
Um nome merece ser aqui citado, o de Juan Carlos de la Cuesta, presidente do Atlético Nacional de Medellín, que no primeiro momento oficializou um pedido a Conmebol para declarar o Chapecoense campeão, abrindo mão de um torneio continental. Hoje no horário que se realizaria o jogo, o Nacional de Medellín fará uma homenagem às vitimas e ao Chapecoense. Ele, porém, foi muito além, Juan Carlos esteve no hospital visitando os poucos sobreviventes, disponibilizou translado dos familiares que chegavam do Brasil em Bogotá para Medellín, demonstrou ser mais que um grande presidente de um clube, demonstrou ser um grande ser humano. 
Obs.: Infelizmente, nem todos os homens são atingidos pelo luto, nosso congresso (câmara e senado), enquanto a nação se comovia com a dor de seus semelhantes, trágicos projetos foram aprovados sem o menor peso de consciência.

sábado, outubro 15, 2016

EDUCAÇÃO PARA A VIDA

Não pretendo fazer desse texto uma homenagem ao dia do professor. Isto porque penso que temos muito o que lamentar, as incertezas da profissão cada vez são mais certas, as esperanças de uma mudança a médio prazo, duvidosas. Tão pouco vejo sentido na ideia de vocação, em nome da vocação devemos tudo suportar, até a total desvalorização da categoria como uma classe trabalhadora? Temos que admitir ser chamados de vagabundos por políticos corruptos? Precisamos conviver com o descaso do Estado e a invisibilidade por parte da sociedade? E ainda ter de lidar com as ameças de corte das "aposentadorias especiais", do Escola Sem "Partido", da violência na escola por parte de alunos, da violência nas ruas, em manifestações por dignidade, por parte da polícia (que ali é a representação do Estado). A ideologia da vocação, essa sim deve ser combatida, permite que as pessoas afirmem que se escolhemos essa profissão o fizemos consciente, ou seja, sabendo das dificuldades e da baixa remuneração. Esta ideologia que faz com que Geraldo Alckminn faça pronunciamentos dizendo que professor deve trabalhar por amor e não por dinheiro. Há muitas razões pelas quais as pessoas escolhem esta profissão, e claro, amar o que faz deve ser prerrogativa em qualquer profissão, nem por isso devemos nos acomodar com as injustiças que imperam na nossa categoria. A ideologia da vocação, foi utilizada para associar o magistério a uma vida de sacrifícios, um sacerdócio, hoje com tantos sacerdotes vivendo no luxo, a vocação faz cada vez menos sentido. 

Então por que continuar? Por que se submeter a ganhar R$ 15, 20, ou 30 por horas/aulas? As possibilidade de respostas a essas e outras questões são vastas também. Eu diria que uma delas, aquela que me comove, que me faz esquecer por um momento todas as agruras da profissão, está na ralação com os alunos, claro isso é subjetivo, há colegas meus que hoje entram de costas na sala de aula e eu os entendo. Mas sou um admirador da espécie humana e não conheço nada mais fantástico do que olhar para nossa espécie no período em que ainda não estamos prontos, estamos nos descobrindo, procurando uma identidade.  Me sinto privilegiado de poder contemplar as mudanças e transformações que ocorrem nas interações humanas. Não acredito que temos o poder de mudar as pessoas, por isso me vejo como um expectador, o que não significa que não podemos orientar tais processos de mudança, mas muda aquele que se permite mudar. 

Na última sexta-feira sai feliz da escola que leciono, Dinâmico Centro de Ensino. Minha última aula para a turma do 3º ano, não foi sobre o Enem, dediquei algum tempo para falar sobre a vida. Sobre os desafios de viver bem, de viver em paz consigo, de ir em busca da felicidade. Falei-lhes das armadilhas psíquicas que criamos para não seguir em frente, que geralmente somos impedidos não por algo concreto, mas emocional. O que nos impede de ser feliz concretamente? Os grilhões, os muros que nos detém, não são reais, são construídos dentro de nós. viver bem é a arte de saber que não podemos ser contidos por essas barreiras, é não se permitir deixar de caminhar por achar que não vamos chegar. O olhar atento e o silêncio, me fez crer que aquele conteúdo era mais importante do que saber o método cartesiano ou as cinco vias de Aquino.
Defendo e defenderei minha categoria e muitas outras que por ai encontram-se marginalizadas no nosso modelo capitalista, me recuso a ser um professor que prepara mão de obra para o mercado de trabalho, quero compartilhar uma educação para vida.